sábado, 31 de maio de 2014

Drops: Malévola


Nos contos de fadas, vilões são interessantes, sim. E normalmente conseguem chamar mais atenção do que as bondosas e puras princesas. O mal exerce um estranho fascínio em nós. Mas vilões são personagens que correm pelas beiradas da história, eles conduzem a ação e os conflitos, mas por mais que sejam interessantes, não são os protagonistas, se fossem, seriam chatos. Dito isso, a decisão de transformar Malévola na grande protagonista do conto A Bela Adormecida em Malévola era uma tragédia anunciada. A trama do filme gira em torno da personagem que, como sabemos pela própria animação da Disney, não é tão profunda assim em suas motivações e propósitos. Recontar essa história, atenuando os traços de vilania de Malévola foi um grande tropeço dos estúdios Disney que parece ter se rendido aos encantos de ter Angelina Jolie como carro-chefe de uma de suas produções, dai o motivo do filme ser centrado na figura de Malévola, e esquecer do seu próprio legado. Do início ao fim, a narrativa, a interpretação dos seus atores e o visual de Malévola evidenciam o grande equívoco que foi essa produção que só tem a pretensão de ser profunda em sua "investigação" da natureza do mal da boca para fora. Na verdade é uma grande e ruidosa banalidade movida pelo fascínio que o público tem pelo que representa Angelina Jolie fora das telas. Sim, porque nas telas, a Sra. Jolie já perdeu o interesse e o vigor faz tempo, aparecendo com cada vez menos frequência em projetos, o que só reforça a ideia de que muito em breve não mais a veremos a frente das câmeras. A esperança que fica é de que seus derradeiros filmes sejam melhores que essa fantasia capenga da Disney.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Drops: Philomena


O roteiro de Philomena tem uma certa inclinação para o melodrama forçado e Stephen Frears (Ligações Perigosas e A Rainha), um diretor sempre interessante no comando de qualquer projeto, não faz nada para contornar a ingenuidade de certos diálogos. No entanto, o longa tem o seu grande achado na interpretação estupenda de Judi Dench. A veterana interpreta uma irlandesa em busca do filho que lhe foi tirado quando ainda era garota e morava em um convento inglês em condições incomuns. Ela tinha sido enviada para o local por seu pai como forma de castigo por ter perdido a virgindade com um namorado. Assim como ela, outras meninas foram enviadas para o local e tiveram seus filhos lá. Acontece que o convento pegava os filhos dessas jovens e os vendiam para famílias abastadas. Após mais de 50 anos, Philomena tem a oportunidade de descobrir o paradeiro do seu menino através de um ex-jornalista da BBC. 

Não é exagero dizer que todos os pontos positivos de Philomena levam ao trabalho de Judi Dench. O filme tem sua força na empatia imediata do espectador com as motivações da personagem principal (uma mãe a procura de um filho que lhe foi tirado dos braços da maneira mais sórdida possível). Através de Philomena, Dench constrói com muita elegância e sensibilidade o retrato de uma mulher simples norteada por uma fé praticamente inabalável. Se sua relação com a religião leva Philomena a nutrir o remorso e não ter o menor ressentimento pelas freiras, por exemplo, por outro, a tornam uma mulher admirável pela maneira como conduz os reflexos das suas tragédias passadas. É nessa "corda bamba" e contraditória (e, por isso mesmo, muito interessante em termos de construção de personagem) que Judi Dench caminha com muita desenvoltura e cuidado, salvando Philomena da indiferença do espectador.

Drops: Clube de Compras Dallas


Clube de Compras Dallas é um filme para seus atores. No longa, há muito pouco que o diretor Jean-Marc Vallée se proponha fazer a não ser depositar toda a credibilidade e êxito da empreitada nas mãos de Matthew McConaughey e Jared Leto, ambos em atuações poderosas. O filme traz a história de um homofóbico eletricista do Texas que se descobre soropositivo em pleno auge da epidemia da Aids no início dos anos 80. Os medicamentos testados estavam sob o monopólio de empresas e instituições da indústria farmacêutica que passaram a lucrar com o vírus e dificultar o acesso dos pacientes aos remédios. O protagonista então vê nesse cenário um espaço propício para começar um negócio, fundando um clube de compras de medicamentos, todos conseguidos "por debaixo dos panos". Como mencionei, o longa não é nenhum achado cinematográfico, não há maiores preocupações de Vallée com a linguagem do cinema , com formalismos, apenas com seu elenco, em especial McConaughey e Leto que conseguem passar credibilidade até mesmo para aquele espectador mais descrente em suas respectivas carreiras alguns anos atrás.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Drops: Ela


Com tantas tarefas diárias, realizar-se amorosamente tornou-se uma tarefa hercúlea. Adicionando esse componente relativamente novo à constatação de que o ser humano sempre reage mal às frustrações amorosas, o resultado não pode ser nada bom. No lugar de seguir em frente, o indivíduo remói durante um bom tempo desilusões amorosas, se isola com medo da rejeição, das brigas, da incompatibilidade de gênios, da decepção... E o que seria dos relacionamentos humanos sem esses riscos? Não seriam relacionamentos. Em Ela, Spike Jonze traz um cenário em que Theodore, personagem vivido brilhantemente por um adorável Joaquin Phoenix (sim, ao nome do ator foi adicionado o adjetivo "adorável" sem a menor ironia), deposita todas as suas emoções em um Sistema Operacional chamado Samantha, por "quem" acaba se apaixonando. Theodore prefere relacionar-se com ela do que com qualquer outra mulher de carne e osso. Sente-se seguro em sua companhia e ela corresponde a todas as suas expectativas em um relacionamento: é inteligente, agradável, sexy e por ai vai. A virada na trama ocorre quando Theodore passa a questionar a natureza dessa relação e sua própria postura diante da vida. Doce, delicado e muito perspicaz e comovente em seus caminhos, esse novo longa de Spike Jonze comprova que existe sim um cinema com brilho e  sensibilidade no cenário industrial do cinema norte americano. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido



Ainda me lembro da minha primeira sessão de X-Men pelos idos de 2000, mais precisamente, dia 18 de agosto de 2000, sexta-feira, logo depois da aula. Éramos todos adolescentes, alguns fãs dos mutantes desde as HQs da Marvel, outros telespectadores assíduos da série animada lançada pela Fox e transmitida pela Globo desde 1994, mas todos de alguma forma familiarizados com aqueles personagens. Na época não existia Homem de Ferro, Os Vingadores, o Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan e nem mesmo o Homem-Aranha de Sam Raimi e Tobey Maguire. Os super-heróis não eram vendidos como água nos Multiplex e acompanhávamos com muita expectativa o lançamento de qualquer filme através das páginas da revista Set (sim, naquela época colecionávamos revistas sobre cinema, uma época em que revistas sobre cinema ainda existiam). Era o início de uma nova era nos blockbusters, mas nós espectadores não nos dávamos conta. Uma época cuja referência mais próxima de super-heróis no cinema era o vergonhoso Batman & Robin , dirigido por Joel Schumacher em 1998, filme que enterrou o Morcegão da DC Comics nas telonas por um bom tempo. Estava para ser lançado um filme baseado em uma das histórias mais adoradas, mas também complexas, dos quadrinhos pelas mãos de um jovem diretor que tinha ótimos filmes no currículo (Os Suspeitos e O Aprendiz), mas não o suficiente para nos manter seguros diante de tamanha responsabilidade. Insegurança, ansiedade, excitação… Era esse o cenário em 2000 para o lançamento de X-Men.

No final das contas, o que testemunhamos foi um diretor que nasceu para orquestrar como ninguém uma dúzia de personagens multifacetados e temas delicados; a primeira aparição de Hugh Jackman, que tornou Wolverine ainda mais icônico do que a Marvel jamais poderia pensar; Patrick Stewart e Ian McKellen rivalizando com muita classe e maturidade em lados opostos na causa mutante; a bela Rebecca Romijn monopolizando as atenções com sua sinuosa Mística em poucas, mas marcantes, sequências de ação… Claro que tivemos percalços como uma Anna Paquin que não engolimos na época, mas o conjunto da obra foi tão arrebatador e definitivo para uma geração que qualquer defeito apontado é pura implicância. Mas não quero ficar preso ao passado, estamos aqui para falar do presente e do futuro de uma franquia que acaba de nos entregar um exemplar que comprova em definitivo a atemporalidade e o espírito de renovação dos X-Men e das próprias HQs que não cansam de reescrever suas origens e oferecer vários destinos para uma mesma história. Estou falando de  X-Men – Dias de um Futuro Esquecido e aviso, lerão uma crítica que pode soar um pouco pessoal, mas que merece esse “desvio”. Não dá para falar de um material tão próximo e querido assim sem quebrar os protocolos da minha própria redação.

X-Men – Dias de um Futuro Esquecido começa com uma Nova York completamente destruída pelas batalhas travadas entre parte da humanidade e os mutantes. Os indivíduos dotados de super-poderes pela genética são caçados por robôs chamados Sentinelas que têm a capacidade de se adaptar a cada um dos poderes mutantes. Charles Xavier, Magneto, Wolverine e alguns outros foram poucos de sua espécie a sobreviver e encontram na possibilidade de voltar ao passado uma oportunidade para impedir o desenvolvimento do projeto Sentinelas e reverter a situação. Para tanto, enviam a 1973 o único do grupo capaz de fazer essa viagem no tempo sem sofrer nenhum dano, Wolverine. No entanto, Wolverine tem a difícil missão de ser o conciliador dos relacionamentos fraturados entre Xavier, Magneto e Mística após os acontecimentos na Baía dos Porcos que deixou o Professor X com uma grave lesão na coluna ao final de X-Men – Primeira Classe.

Para retornar ao universo dos X-Men, que abandonou erroneamente para dirigir projetos duvidosos como Superman – O Retorno, Operação Valquíria e Jack – O Caçador de Gigantes, Bryan Singer se lançou em uma empreitada corajosa em X-Men – Dias de um Futuro Esquecido. Lidar com essas transições entre tempos diferentes e “paralelos” não é tarefa fácil para qualquer realizador. Articular passado e futuro sem parecer que as ações e consequências geradas nesses dois espaços temporais soem como artifícios trapaceiros para o público relevar soluções ocasionalmente indesejadas tomadas em filmes anteriores é um desafio. Bryan Singer e seu roteirista Simon Kinberg utilizam o recurso e de fato reescrevem a trajetória de seus personagens, mas não como uma forma de trapaça, truque barato. Os realizadores se permitem oferecer novos caminhos para os seus personagens, oferecer outras versões de suas origens e desfechos e isso é muito interessante. Não invalida o que já foi feito (não é um ato de embaraço diante dos demais filmes, sobretudo X-Men – O Confronto Final, longa mais criticado da franquia) e dialoga com a multiplicidade de perspectivas para uma mesma história que as HQs costumam ter.

Conduzindo seu filme como um verdadeiro maestro, Bryan Singer conhece esse material como ninguém. O diretor sabe construir com destreza a geografia das suas cenas de ação (conseguimos entender como cada um dos personagens agem nessas sequências, entendemos o que acontecem nelas) e compreende a verdadeira natureza e propósito dos X-Men nas diversas leituras que esse universo propõe. Não há vilões ou mocinhos, Xavier, Magneto e seus pupilos representam diferentes perspectivas para uma mesma causa e eles, assim como todos os outros, têm suas angústias, dúvidas, medos, falhas, vitórias, tropeços, quedas. É o caso da Mística vivida por Jennifer Lawrence nessa versão, uma personagem que oscila entre o ódio por ser tratada com ojeriza pela humanidade e uma fagulha de compaixão que tem pela mesma, ou então a imprevisibilidade de Magneto que o tornam um constante perigo. Assim, ao mesmo passo que consegue sustentar a carga de complexidade desses personagens e a urgência necessária aos acontecimentos do filme, Singer confere leveza ao projeto utilizando um humor fluido e nada forçado. Os mutantes não apenas sofrem por sua condição e pelas reações que ela causa na sociedade, mas também conseguem se divertir com suas habilidades, sobretudo os mais jovens, como o rápido Mercúrio. Essa característica reforça o diálogo do filme com as HQs e convoca o que de melhor X-Men – Primeira Classe tinha. Do filme de 2011, X-Men – Dias de um Futuro Esquecido também se apropria com destreza de um interessante diálogo entre a ficção e a História, transformando alguns dos seus fatos a favor do próprio andamento da trama.

Ao conseguir dimensionar todos esses inúmeros e aparentemente destoantes elementos sem torná-los superficiais, equivocados e deslocados, Bryan Singer preserva o que existe de mais perene na trajetória dos X-Men desde a primeira edição da HQ e que ele fez questão de ser fiel desde 2000, essa combinação simples (e não simplista) de ficção-científica e drama político sobre a tolerância que rende leituras universais, sem deixar de dialogar com sua própria natureza como história de super-heróis, oscilando entre momentos de reflexão e sensibilidade com outros tantos de pleno entretenimento. X-Men – Dias de um Futuro Esquecido segue esse legado proporcionando sequências tão marcantes quanto as de X-Men 2, por exemplo, disparado o melhor longa da série, junto com esse. Como não colocar em pé de igualdade o momento em que Noturno invade a Casa Branco com a sequência da tentativa de assassinato do Dr. Bolivar Trask pelas mãos de Mística? Ambas impecáveis.

Cada ação é justificada em detalhes, não há personagem descartável, suas habilidades estão a serviço do desenrolar da trama e tudo funciona como uma complexa, eficiente e interessante engrenagem. Mas tudo não funciona por obra somente dos esforços do realizador, do roteirista e da sua equipe técnica, o elenco que a franquia acumulou ao longo dos anos e que foi aproveitado ao extremo em todos os filmes é um dos grandes triunfos de X-Men. Rever Hugh Jackman cada vez mais familiarizado com o seu Wolverine ao lado dos veteranos Patrick Stewart, Ian McKellen, Halle Berry, Ellen Page e Shawn Ashmore, mas também interagindo organicamente com os talentosos novatos James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e Nicholas Hoult, é uma oportunidade que torna a experiência de assistir X-Men – Dias de um Futuro Esquecido, sem querer parecer infame,inesquecível. E no fim, ainda… Bom deixa para vocês sentirem a mesma emoção que tive com o desfecho dessa história no próprio cinema.

Assim como a situação vivida por Wolverine na trama do longa, assistir X-Men – Dias de um Futuro Esquecido foi como voltar no tempo, rever personagens queridos e conhecidos de uma época que não volta. Talvez tenha sido essa a mesma sensação de Bryan Singer ao retornar para a franquia, apesar de nunca ter se afastado dela, já que foi produtor de X-Men – Primeira Classe e deu consultas a Brett Ratner em X-Men – O Confronto Final. Contudo, não foi uma experiência melancólica e saudosista, não quero que seja essa a impressão.  X-Men – Dias de um Futuro Esquecido e esse relato sobre a experiência de assistí-lo tem muito mais a ver com um realizador, um filme e uma franquia que sabiamente relativiza o tempo vislumbrando as inúmeras possibilidades que esse rico universo pode proporcionar. Presente, passado e futuro desafiando qualquer pré-definição ao estarem juntos e materializados na mesma obra e na experiência do próprio espectador.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Drops: Godzilla



O diretor Gareth Edwards e seus colaboradores consertam a má impressão deixada por diversos equívocos da versão norte-americana de 1998, o principal deles, ter transformado o Godzilla em um "vilão" com sede de destruição por Nova York. O Godzilla de Edwards traz o gigante como uma força da natureza fruto do descaso humano e disposta a trazer um equilíbrio. Assim, não é um arqui-inimigo, mas também não é um defensor dos humanos. O tropeço desse longa está na superficialidade dos dramas construídos e que deveriam sustentar o interesse e o vínculo do espectador com a fita. Para variar, temos o passado mal resolvido entre pai e filho, um marido tentando voltar para esposa e filho em meio ao caos deixado pelo ataque dos monstros e por ai vai. Tramas superficiais que poderiam ser sustentadas caso os melhores atores do elenco (Juliette Binoche, Bryan Cranston, Ken Watanabe, Sally Hawkins e Elizabeth Olsen) tivessem mais tempo em cena. No lugar disso, Edwards concentra sua atenção em um inexpressivo Aaron Taylor-Johnson que nunca consegue se encaixar em seu personagem, nem transmitir a menor credibilidade através das suas reações diante dos acontecimentos no longa.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Sob a Pele



As estranhas razões que levam a imprensa a martelar as nossas cabeças com as imagens da Scarlett Johansson nua em Sob a Pele sempre serão difíceis de identificar, sobretudo diante de uma obra tão  esquisita (no bom sentido) quanto esse novo filme de Jonathan Glazer. Por tolice, por preferir deixar tudo na superficialidade, a nudez da atriz, tão comum quanto a de qualquer outra, reduz, publicamente, o filme a um mero fetiche, o que ele não é. Realizador de outros dois longas igualmente instigantes em sua abordagem, Sexy Beast e Reencarnação - este último injustamente mal falado na ocasião do seu lançamento, mas que vem sendo redescoberto aos poucos pelo público e pela crítica -, Jonathan Glazer é um diretor provocador e instigante na aplicação da gramática cinematográfica. O cineasta adora longas sequências sem corte, a câmera parada, o silêncio, a imagem e as sutilezas na interpretação de seus atores, ou seja, tudo o que o cinema, habitualmente, menos tem oferecido.

Sob a Pele narra a história de um alienígena que vem para a Terra e assume a aparência de uma atraente jovem. Na Escócia, ela passa a seduzir alguns homens a fim de conhecer a natureza humana e eliminar algumas espécies que considera repulsivas moralmente. O contato com esses indivíduos a faz conhecer homens vaidosos, fascinados pela beleza e moralmente perversos, mas também outras criaturas solidárias, carentes e afáveis.  Aos poucos, a protagonista vai baixando a guarda e percebe que nem todos os humanos merecem ser consumidos por suas próprias falhas de caráter e que existe um lado positivo na forma de vida dominadora na Terra, mas até que ponto vale a pena confiar tanto assim no ser humano? É este ponto de interrogação que o filme deixa propositalmente na cabeça do espectador.

Sob a Pele é bem mais experimental e estilizado que os dois longas anteriores de Glazer, Sexy Beast e Reencarnação. O realizador mistura imagens de refino estético apurado com outras mais relaxadas e improvisadas, proporcionando aos olhos do público momentos de inusitada beleza, mas também de bastante tensão e calafrios. Caçando e analisando as espécies humanas observadas pela personagem de Scarlett Johansson junto com a alienígena, o diretor utiliza toda sorte de recursos visuais e evita diálogos expositivos o máximo que pode, muito pouco é explicado pela fala dos personagens, tudo é narrado pelas composições dos seus quadros. Decisão sábia já que deixa o filme ainda mais soturno, instigante e carregado por uma atmosfera de constante imprecisão não só para as vítimas de Johansson, mas também para a sua própria protagonista, que em dado instante do longa assume a posição de presa. A escolha de Johansson, por sinal, foi muito interessante para o filme já que a atriz “utiliza” as suas características físicas, mas também as suas limitações dramáticas (desculpem os fãs da moça, mas elas existem) a seu favor.

Sob a Pele é um estranho conto sobre a fé no ser humano apresentando argumentos pró e contra o seu objeto de estudo. Em seu terceiro ato, Jonathan Glazer tira o chão que sustentava as nossas certezas e as da personagem central, não dando respostas cerradas ao espectador, mas reflexões abertas, o que é muito bom. O longa causa desconforto por ser obscuro e flertar com o grotesco, além de não redimir nenhum dos seus personagens, adotando uma perspectiva essencialmente pessimista que nos faz lembrar um autêntico exemplar da filmografia de Lars Von Trier, por exemplo. Tudo isso, claro, é justificado pelos propósitos de um cineasta que merece um pouco mais de atenção por ousar tanto na narrativa audiovisual.

Por mergulhar de cabeça na sua própria história e no seu estilo peculiar sem revelar-se como produto de um exibicionismo estético vazio, mas sim uma obra de um realizador interessado em testar sua linguagem, Sob a Pele é um dos longas mais intrigantes da nova safra. O filme pode encontrar uma certa resistência das plateias e até mesmo da crítica especializada, mas, neste caso, todo esse barulho e estranhamento é sinal de que Jonathan Glazer conseguiu inquietar olhos e mentes que já estavam no automático em matéria de cinema. Sempre que um cineasta consegue tamanho feito merece reverência e nossa atenção.

Assista ao trailer:

Praia do Futuro



De Madame Satã a O Abismo Prateado conseguimos perceber o lugar central que o cineasta Karim Aïnouz confere aos seus personagens em suas produções. Aïnouz parece entrar em um processo de imersão profunda em seus protagonistas, conhecendo-os intimamente e perseguindo cada um dos seus mais particulares sentimentos e conflitos. Assim, não deixa de ser estranho que, ainda que cultive esse como um dos traços mais fortes de seu cinema, o realizador não tenha conseguido dar liga o suficiente à relação principal do seu mais novo longa, Praia do Futuro.
 
O filme é dividido em três atos que acompanham o desenrolar do relacionamento entre Donato (Wagner Moura), um salva-vidas do Ceará, e Konrad (Clemens Schick), um turista alemão no Brasil. Quando Praia do Futuro começa, Konrad acaba de perder o seu amigo, que desapareceu nas águas da famosa Praia do Futuro de Fortaleza. O alemão se aproxima de Donato, um salva-vidas da região que lhe dá a trágica notícia. Logo Donato e Konrad se apaixonam e entre o encontro no Brasil e um período de férias na Alemanha, Donato passa a confrontar inseguranças na maneira que lida com a sua sexualidade.
 
Aïnouz sempre foi um cineasta mais de imagens que diálogos – um rigor que carrega com o apreço que tem pela direção de fotografia dos seus filmes, aqui, mais uma vez, impecável – , seu território é o mais subjetivo recanto da alma humana. No entanto, os conflitos dos seus personagens sempre tiveram liga. Em Praia do Futuro por mais que as angústias sejam legítimas, sobretudo as de Donato que são vinculadas ao medo de assumir a homossexualidade em sua terra natal, falta um nó mais firme nas relações principais do filme que deveriam ser a força motriz da narrativa. Os dois primeiros atos são muito distantes do espectador e o filme só ganha uma certa simpatia do público quando entra em cena o formidável Jesuíta Barbosa que agarra como ninguém um personagem  cheio de ressentimento e revolta, mas também bastante afetuoso e honesto em seus sentimentos, o irmão do Donato. Wagner Moura tem seus momentos interessantes, o que não seria nenhuma novidade tamanha a dedicação e a riqueza de detalhes que as composições do ator costumam ter, assim como o alemão Clemens Sick. No entanto, na queda de braço e por falta de um maior apuro no tratamento da dupla central, Jesuíta Barbosa vence com larga vantagem.
 
Influenciado por “Heroes” de David Bowie – algo semelhante ao que fez com “Olhos nos Olhos” de Chico Buarque em O Abismo PrateadoPraia do Futuro poderia ser uma belíssima história sobre referenciais familiares a partir da tensa e afável relação entre Donato (Moura) e seu irmão mais novo Ayrton (Barbosa), mas preferiu dedicar tempo demais ao romance entre o primeiro e o alemão Konrad (Schick). Não querendo dar uma de palpiteiro em uma situação que só cabe ao realizador Karim Aïnouz decidir, mas sensação que fica é que a verdadeira e mais intensa trama de Praia do Futuro só ganhou espaço no seu derradeiro ato ficando à deriva em um filme que poderia ser bem  mais à flor da pele do que sugere ser.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Drops


Mulheres ao Ataque

Mulheres ao Ataque é uma comédia protagonizada por mulheres, aparentemente dirigida para elas também, mas transpira machismo por todos os poros reproduzindo estereótipos femininos que poderiam ser esquecidos como a amante peituda, a solitária profissional bem-sucedida e avoada dona de casa. Leslie Mann, exímia comediante, consegue sobressair no trio, mas a quantidade de bobagens e soluções mal amarradas ou superficialmente amarradas são tantas que não tem para onde correr, é um dos piores títulos do ano.


Amante a Domicílio

Essa comédia linear sobre um cinquentão que passa a trabalhar como gigolô por sugestão (e agenciado) por um amigo conseguiu atrair a atenção do público, sobretudo o brasileiro, por trazer Woody Allen em seu elenco. A direção é de John Turturro, que não consegue explorar o talento de um elenco afiado para a comédia - só para terem uma ideia Sofia Vergara, que jamais consegue passar batido, está hiper contida na produção. O filme até consegue arrancar algum interesse quando coloca Turturro para duelar com Allen, mas logo cai na banalidade quando coloca a personagem judia de Vanessa Paradis como o seu grande propósito de existir.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Blackfish - Fúria Animal



O SeaWorld certamente é um dos destinos preferidos das famílias que procuram os parques da Flórida como alternativa de entretenimento. O principal atrativo? As peripécias das Orcas, que, orientadas por seus treinadores, fazem de um tudo no aquário central da atração: acrobacias, mandam beijos e saudam a plateia com suas nadadeiras ou com os seus famosos e relativamente desejados jatos d’água. Por mais de uma década, não só a SeaWorld como toda uma cadeia de parques aquáticos têm como pincipal atração esses animais extremamente inteligentes e simpáticos. Expostas aos caprichos humanos como se fossem cúmplices de toda essa engrenagem e reagissem bem à operacionalidade da vida em cativeiro, as Orcas acabaram sendo protagonistas de tragédias paralelas que estereotiparam um outro lado da natureza desse animal. Há inúmeros relatos registrados por departamentos de investigação dos EUA envolvendo ataques inesperados desses animais aos seus próprios treinadores, muitos deles durante as próprias apresentações. O que leva esses dóceis e amorosos mamíferos a agirem de maneira surpreendentemente violenta  é o que o documentário Blackfish – Fúria Animal , que chega diretamente em DVD pela Universal no Brasil, pretende desvendar. Uma causa que mobiliza defensores dos animais, as cortes de justiça norte-americanas e pesquisadores de todo o mundo.

O ponto de partida de Blackfish é a morte da treinadora norte-americana Dawn Brancheau durante a apresentação de uma das principais atrações do SeaWorld, a Orca macho Tilikum. No auge do show, Tilikum, que já apresentava sinais de irritação e desobediência com a treinadora, arrasta Dawn para o fundo do aquário e chacoalha a treinadora com muita força pela boca. Tudo isso na frente da habitual plateia lotada do parquet temático. A partir desse caso, televisionado mundialmente, o documentário traça a trajetória de Tilikum até o incidente e descobre que Dawn não foi a primeira “vítima” da Orca. Antes dela, outras duas pessoas foram a óbito pela “fúria” de Tilikum. Além desse caso outros relatos semelhantes, envolvendo Orcas em condições de vida similares são contados. Um deles, o da Orca Kasatka que em 2006 teve a mesma reação de Tilikum com Dawn durante a apresentação do treinador Ken Peters. Diferente de Brancheau, Peters conseguiu contornar a situação com muita habilidade (veja o video abaixo), o que não pode ser levantado como indício de que a culpa de ocorridos como os de Tilikum é exclusiva dos treinadores.

A origem dos problemas é descoberta pelo público através do percurso de Tilikum até o SeaWorld. Como boa parte dos animais que se tornam atrações desses parques temáticos, Tilikum foi capturado ainda filhote sendo abruptamente afastado do convívio de sua mãe, algo marcante para animais de intenso convívio comunitário com suas famílias como as Orcas. Tilikum é um macho dócil e mantido com grande interesse pelo parque pois além da facilidade com que é treinado é um grande reprodutor. Quando adulto, a Orca ganha proporções inimagináveis, tornando-se um gigante “bobalhão” em meio às demais fêmeas que convivem com ele em seu aquário. As relações entre os treinadores e Tilikum começam a despertar  reações nas Orcas fêmeas que, ocasionalmente, são punidas com a falta de “agrados” (petiscos, peixes) por mostrarem-se indóceis aos treinamentos. As companheiras de aquário passam a descontar toda a sua raiva em Tilikum e a noite agridem o companheiro com mordidas e pancadas. Todo esse convívio complicado com animais de origens diferentes (é o mesmo que colocar indivíduos de nacionalidades diferentes para conviverem enclausurados) e o isolamento que não permite extravasar a ira de uma espécie bastante emotive faz com que Orcas como Tilikum passem a atacar subitamente seres humanos com quem tinham um convívio afetuoso.

Na verdade, Tilikum é só a ponta de um imenso Iceberg. Através de depoimentos de ex-treinadores do SeaWorld e de outros parques aquáticos, neurocientistas, promotores de justiça, o publico começa a traçar toda a cadeia complexa de fatos que tornam Tilikum e todas as Orcas protagonistas de tragédias como as de Dawn Brancheau mais vítimas do que assassinas ensandecidas tomadas pela fúria incontrolável. Encontramos na complexidade do sistema afetivo do animal um ponto fundamental para compreender as reverberações que a vida fora do seu habitat e limitada em possibilidades de dar vazão a agressividade e ao estresse. Na verdade, Blackfish, que dá grande destaque a voz dos defensores de uma causa, é uma crítica aberta ao que existe por trás da perpetuação da prática da criação de Orcas e adestramento em cativeiro, trazendo, além da radiografia da situação desses animais, uma investigação bem articulada a respeito das ações dos conglomerados de entretenimento que abafam as dezenas de casos de morte de treinadores, colocados pela fita como indivíduos engolidos pelo próprio sistema e pelo amor que sentem àqueles animais e a sua profissão. Entre os mitos despejados  por essas instituições estão o da barbatana curva (indício evidente do abatimento do animal pela vida em cativeiro), da imprudência de treinadores (uma alegação da qual Brancheau foi vítima) e da baixa expectativa de vida das Orcas. Tudo para camuflar o entorno opressor e perigoso que envolve a criação e o treinamento desses animais.

Guardadas as proporções que toma em função da sua necessária parcialidade, Blackfish presta um serviço fundamental para mostrar como o homem subalterna e ignora toda forma de vida, coisificando-a para atender a anseios mercantis. A resposta, como acontece com todo dano causado a natureza, vem sempre da pior forma, evidenciando os caminhos tortos da nossa relação com as outras formas de vida. Não aprendemos com a amabilidade e doçura de espécies como as Orcas. O profundo respeito que a documentarista Gabriela Cowperthwaite mostra pelas Orcas é o guia de todo esse relato parcial sim, mas contundente e relevante, um ponto de vista que tem a urgência de ser ouvido e visto, retirando a ingrate alcunha de “baleia assassina” e desmascarando os verdadeiros criminosos de toda essa rede de acontecimentos lamentáveis, nós que endossamos práticas bárbaras contra animais por gerações e gerações.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Passado



Durante uma discussão, Marie (Bérénice Bejo) e Samir (Tahar Rahim) acabam confessando um ao outro a verdadeira natureza do relacionamento que estabeleceram ao longo de oito meses. Ambos são parceiros substitutos, escolhidos para suprir amores mal resolvidos no passado. No entanto, por mais que se esforcem para refazer as suas próprias trajetórias, acabam não percebendo que sustentam no presente seus respectivos passados na esperança de que um dia as coisas retornem a ser como antes. Ilusão… O Passado, novo filme do iraniano Asghar Farhadi, que em 2012 venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro por A Separação, traz temas recorrentes na carreira do diretor: famílias disfuncionais tragadas por situações que escapam às suas próprias vontades, desgastando e dissolvendo todos pólos desse núcleo familiar. Em todos eles, o amor não é o suficiente para manter uma família unida, pelo contrário, torna as tentativas de resolução dos conflitos ainda mais dolorosas e traumáticas.

O Passado começa com o retorno do iraniano Ahmad (Ali Mosaffa) a Paris para assinar os papéis do divórcio com Marie (Bérénice Bejo). No momento, Marie planeja se casar com Samir (Tahar Rahim), com quem vive desde que sua esposa entrou em coma após atentar contra a própria vida. O casal recebe Ahmad na sua casa, onde vivem também as filhas dela e o único filho de Samir, Fouad (Elyes Aguis). Quando era casado com Marie, Ahmad estabeleceu um elo de amizade muito forte com a filha mais velha dela, Lucie (Pauline Burlet), que, por sua vez, guarda uma raiva profunda da mãe pela instabilidade de sua vida amorosa e pelas idas e vindas do seu padrasto mais amado a Paris.

Essa teia de relacionamentos truncados faz toda a engrenagem de O Passado funcionar com muita fluidez e humanidade. Todos os dramas e perspectivas apresentadas são próximos da realidade de qualquer espectador. Com essa mesma destreza, Asghar Farhadi conduziu A Separação e À Procura de Elly, demonstrando firmeza na condução dos seus personagens e na compreensão de suas motivações a cada novo desdobramento da trama. Evitando sobrepor-se a sua própria história com qualquer subterfúgio visual, Farhadi concentra seus esforços no elemento humano, o seu forte e o enfoque da sua narrativa.

O diretor ainda encontra apoio no seu afiado elenco. Bérénice Bejo mostra-se uma atriz interessante ao compor uma personagem tensa que parece ter perdido todo o viço tamanho o cansaço com a inconstância de sua vida afetiva. O desempenho de Tahar Rahim vai por um caminho bem parecido, mantendo discretamente a expectativa, ainda que remota, de uma reviravolta na sua história. Contudo, o personagem mais interessante do triângulo pertence a Ali Mosaffa, Ahmed parece não querer cortar o elo que o ligou a Marie por tantos anos. Mosaffa preenche o seu personagem com uma dignidade que transborda cada cena e torna crível a razão pela qual Marie não conseguiu superar os entraves do casamento dos dois. Para completar, ainda somos agraciados com o desempenho surpreendentemente maduro do garoto Elyes Aguis que reage com rebeldia e incompreensão a tamanha confusão amorosa que se estabelece entre os adultos que fazem parte da sua vida.

Conferindo dinamicidade e vivacidade a esses personagens tão vulneráveis e falhos, o elenco dá vida e transforma o roteiro muito bem desenhado pelo próprio realizador em um filme sensível e próximo das platéias. O Passado não cria empatia com o espectador através de artifícios visuais, o que não seria condenável caso fosse essa a sua proposta, mas por intermédio de histórias à flor da pele sobre indivíduos que sofrem de um mal comum que assola a contemporaneidade, a dificuldade de amar ou de fazer um sentimento nobre sobreviver em meio a tantos estímulos negativos e empecilhos do mundo material, físico. Se Asghar Farhadi continuar fazendo histórias como essa, com esse elevado fator humano e que tanto fazem falta no cinema contemporâneo, onde quer que venha filmar, já terá seus seguidores e admiradores fiéis.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A razão da minha ausência

Então, o que tenho a dizer para vocês...

Não abandonarei esse espaço, mas o sistema de postagens será bem diferente até porque também assumi a editoria do site Coisa de Cinema, um projeto em fase de experimentação em parceria com a colega Marcela Gelinski. Lá, desenvolvo textos semelhantes aos que escrevo por aqui sobre alguns títulos em cartaz, além de outras seções particulares do site. Espero contar com a visita de todos vocês!

No mais, postarei parte dos textos desenvolvidos lá por aqui. Além, é claro, de alguns inéditos para o Chovendo Sapos mesmo. Portanto, não abandonarei esse espaço. As coisas só mudarão um pouco!

W.T.

Drops

Divergente

Divergente poderia até ser uma fita juvenil bacaninha não fosse sua correspondência gritante com Jogos Vorazes. Ajustando um elemento ou outro, a história da jovem que não se enquadra em nenhum tipo de rótulo e começa a liderar um movimento de rebelião contra um governo ditatorial é a mesma daquela apresentada na franquia liderada por Jennifer Lawrence. Há uma excelente Shailene Woodley, mostrando que tem força para trilhar um caminho próprio e não ser somente a revelação de Os Descendentes, e Kate Winslet, burocrática sim, mas habitualmente bem como a grande vilã do filme. A vergonha entre os atores fica por conta de Theo James, transmitindo canastrice em todas as suas cenas que mais parecem extraídas de um clipe de moda, já que o ator exagera em olhares e expressões que parecem estrategicamente contruídas para mexerem com os hormônios das adolescentes.

 300 - A Ascensão do Império

300 - A Ascensão do Império não chegou a ser uma continuação ruim já que o novo diretor, Noam Murro, mostra-se ciente do escopo do seu trabalho perto da dimensão do primeiro filme, lançado em 2007, sob a direção de Zack Snyder. O grande atrativo dessa nova perspectiva sobre os eventos de 300 é a presença de Eva Green conduzindo muito bem uma personagem forte e e tão intrigante que praticamente torna a trama tolinha do filme descartável diante do desejo do público de desvendar sua personalidade. 

 Uma Aventura Lego

Talvez o grande problema de Uma Aventura Lego seja encontrar um público para dialogar. O filme fica sempre nas intenções intermediárias: quer agradar os pequenos, mas não deixa de despejar referências e piadas que só adultos entenderão. No final, acaba não agradando completamente nenhum desses públicos. A história não cativa tanto as crianças e os adultos sentem-se entediados por uma solução ou outra que soa simplista ou frustrante demais perto do potencial que a fita apresentava.

 O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro

Essa nova fase do Homem-Aranha com tão pouco tempo do término da trilogia anterior comandada por Sam Raimi e protagonizada por Tobey Maguire continua completamente supérflua, descartável. No entanto, O Espetacular Homem-Aranha 2 parece muito mais seguro narrativamente que seu filme anterior. Tanto o diretor Marc Webb, quanto o seu ator principal Andrew Garfield parecem mais seguros na definição de uma personalidade para Peter Parker, antes praticamente inexistente. Ajustes no romance central são feitos e um futuro promissor para a nova franquia é vislumbrado. Mas tudo ainda está no terreno da promessa, já que muitos pontos negativos continuam presentes no balanço geral.

Capitão América 2: O Soldado Ivernal


Apesar do inquestionável êxito financeiro da Marvel Studios na indústria cinematográfica com a construção filme após filme do projeto Os Vingadores, “subfranquias” como Homem de Ferro e Thor nunca conseguiram se firmar com universos próprios ou mesmo trazer algo de relevante que justificasse a reunião dos seus principais personagens em um único longa . De todos, Capitão América – O Primeiro Vingador era o filme mais consistente, tanto na composição de um universo próprio para seu protagonista quanto na existência de pistas plausíveis e coerentes com o grande evento que a Marvel pretendia fazer ao reunir Capitão América, Homem de Ferro, Hulk, Viúva Negra e Thor. Eis que Capitão América 2 – O Soldado Invernal é tão consistente na execução desses propósitos quanto a aventura solo anterior do seu protagonista.

Diretor do primeiro filme e cria de Steven Spielberg, Joe Johnston cede a cadeira para os irmãos Anthony e Joe Russo, que tinham no currículo a direção da comédia Dois é Bom, Três é Demais, com Kate Hudson, enfim, nada que enchesse os olhos. Para completar, com os eventos ocorridos no primeiro filme e em Os Vingadores, o Capitão América seria transportado, em seu segundo longa, para o tempo presente, perdendo o charme e o diferencial do personagem, o primeiro e único a protagonizar um filme de época no estúdio. Dessa forma, tudo indicava que Capitão América 2 – O Soldado Invernal seguiria a mesma trajetória monocórdica de Homem de Ferro e Thor. O que, ainda bem, não aconteceu.

O longa se passa logo após os eventos de Os Vingadores e mostra Steve Rogers, o Capitão América, tentando se adaptar ao novo século e exercendo uma função chave na S.H.I.E.L.D ao lado de Nick Fury e da Viúva Negra. Rogers então é surpreendido pela ameaça de um novo e misterioso agente e por conspirações nos mais altos cargos investigativos do governo norte-americano.

Capitão América 2 – O Soldado Invernal segue o esquema “quadradinho” da Marvel. O filme não surpreende esteticamente o espectador, nem subverte qualquer esquema narrativo conferido a histórias similares. No entanto, o longa é muito bem amarrado e consegue prender sequência a sequência o público com eventos que de fato conferem o grau de urgência e perigo necessário a qualquer história de super-heróis e que infelizmente foi esquecido gradualmente pelo estúdio. Em Capitão América 2 – O Soldado Invernal acontecem situações que deixam o espectador temeroso pelo destino dos personagens e faz, finalmente, surgir a necessidade de uma reunião de forças em Os Vingadores 2.

Os irmãos Russo conferiram uma atmosfera que, ainda que muito clean, passam para o espectador a precisa sensação de um thriller de conspirações políticas de mexer com os nervos de qualquer um. Chris Evans está mais uma vez excelente como Steve Rogers, incorporando com naturalidade os já conhecidos valores tradicionais do personagem que se contrapõem ao cinismo rotineiro dos seus companheiros de gênero. Scarlett Johansson, por sua vez, dá um grande salto na construção de sua Viúva Negra, que de fetiche em Homem de Ferro 2 conseguiu ganhar consistência e humanidade nesse longa. Já Samuel L. Jackson está habitualmente confortável na pele de Nick Fury, dessa vez ao lado de Robert Redford, que faz um personagem incomum em sua carreira, mas de maneira bem interessante.

Projetos ambiciosos como o projeto Os Vingadores merecem justificativas consistentes para sua existência. E se, até então, elas faltavam nos longas que a Marvel vinha apresentando ano após ano, fiquemos sossegados porque Capitão América 2 – O Soldado Invernal finalmente prepara o terreno para algo grande e realmente entusiasmador nesse universo tão peculiar de Stan Lee.




Getúlio


Getúlio opta por um caminho consciente e coerente para conseguir dimensionar uma figura pública com a complexidade do ex-presidente do Brasil Getúlio Vargas: narra um período específico da sua vida e não toda a sua trajetória. Específico o suficiente para dar conta de um momento determinante da sua caminhada política bem como da sua personalidade e das suas relações de afeto. Por essa perspectiva, o longa de João Jardim, que tem nos créditos a co-direção do documentário Lixo Extraordinário e a ficção Amor?, merece o reconhecimento, afinal teve a percepção adequada de que é muito mais eficiente ser profundo na especificidade do que no todo. No entanto, a produção assume para si a irreversível polêmica que o tom de uma narrativa sobre um personagem, sobretudo uma figura controversa como Getúlio, que carrega legiões de defensores e opositores, pode carregar: toma ou não toma partido? Quanto a isso, Jardim o fez atabalhoadamente, ainda que não comprometesse por completo o seu resultado.

Getúlio narra os últimos dias da vida de Getúlio Vargas a partir da crise instaurada em seu governo após as acusações de que o presidente estaria envolvido na tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda que acabou levando a falecimento o major Rubens Vaz com um tiro na Rua Toneleiro, no Rio de Janeiro de 1954. O filme de João Jardim acompanha o período que compreende 05 e 24 de agosto daquele ano, sendo que o ultimo dia foi marcado pelo suicídio do presidente Vargas, um ato que, ao mesmo tempo, representou a resistência em abandonar o cargo que estava ocupando há anos e uma manobra política que surpreendeu seus “conspiradores”.

Por mais que Getúlio traga toda a atmosfera dúbia que pairava sobre o político e que o tornava um homem psicologicamente atormentado – sua tomada de poder que fazia jus a alcunha de ditador que recebera vivia lado a lado com sua popularidade com a classe trabalhadora em função de conquistas trabalhistas como o salário mínimo, a Justiça do Trabalho e a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) -, o longa peca por induzir emoções e não por deixá-las a cargo do próprio público, tornando evidente uma posição do cineasta sobre o seu “biografado”, através, por exemplo, de uma trilha sonora invasiva que se antecipa aos acontecimentos.

No geral, o resultado é um filme tecnicamente competente, mas que tem seu sustento no elo que estabelece entre o público e seus personagens. Tony Ramos consegue transformar Getúlio em um homem abatido e tenso cuja única ligação afetiva que ainda lhe resta, após tantos anos se dedicando exclusivamente ao Palácio do Catete, é com a filha Alzira, uma interpretação minunciosa e delicada de Drica Moraes. Por sinal, a dinâmica entre Ramos e Moraes é o ponto alto do longa, que ainda traz Alexandre Borges relativamente interessante como Carlos Lacerda.

Apesar de ser um filme de “gabinetes” relativamente frio, Getúlio mostra-se como uma obra bem mais envolvente que outros exemplares recentes do gênero, como Lincoln, de Steven Spielberg. O que sobra em meio a tantos fatos politicamente questionáveis são indivíduos com motivações reais e relações afetivas sólidas ou não. Esses compontentes trazem relevância a esse filme de João Jardim. Ver atores como Tony Ramos e Drica Moraes em cumplicidade transbordante na tela é recompensador de qualquer forma. Vale o registro.


Noé


Administrar as demandas naturais impostas a um projeto financiado por um estúdio sempre será um desafio a qualquer realizador que pretenda manter-se fiel a sua linha autoral de produção. No entanto, determinadas concessões acabam sendo necessárias no intuito de levar para as telas tramas que inevitavelmente requererão maior injeção financeira. Após trabalhos cultuados por seu vigor e frescor autoral como Requiem para um Sonho, O Lutador e Cisne Negro, o cineasta Darren Aronofsky levou para as telas a sua adaptação da passagem bíblica da Arca de Noé, batizada apenas com o nome do seu protagonista, Noé. Lógico, o diretor passou por turbulências internas na Paramount, que levou o orçamento da produção a estimados US$ 125 milhões, e entre cortes e adiamentos da estreia, conseguiu levar seu ambicioso projeto para as telas em 2014.
 
Visualmente, Noé não é o desbunde que poderia ser. Aliás, esse nem é o ponto nevrálgico da obra, os elementos cênicos e visuais estão ali apenas para localizar o espectador e ilustrar determinadas intenções. O que interessa a Aronofsky é, mais uma vez, testar a própria consciência do espectador, um exercício que já mostrou-se eficiente ao extremo em seus filmes anteriores. No caso de Noé, ele utiliza uma passagem bíblica, sem com isso realizar um filme com inclinações religiosas ou contestações dogmáticas diretas, para criar uma trama amarrada, que explora e testa ao máximo os elementos psicológicos de seus personagens e oferece muito mais questionamentos que respostas sobre suas principais questões: entre elas, os limites das crenças e a fé na humanidade (o homem é essencialmente bom ou ruim?).

A trama é a conhecida de todos. Noé recebe sinais do Criador de que o mundo está para ser destruído por um dilúvio como uma forma de castigo para o mal que o homem causou na Terra desde que Adão e Eva sucumbiram à tentação. Com a consciência do fim da humanidade, Noé tem a missão de reunir as formas de vida não humanas em uma arca para perpetuarem suas espécies nesse novo Paraíso que será formado após o dilúvio. A iniciativa de Noé começa a despertar a ira de alguns homens que arquitetam um plano para sabotar a arca. Além dessa ameaça, o personagem tem que lidar com conflitos familiares que surgem em decorrência de sua devoção irrestrita a essa missão.

Convertido fora dos Estados Unidos em um 3D que sinceramente não faz a menor diferença em termos narrativos, Noé é mais um trabalho exemplar de Aronofsky que demonstra toda sua personalidade criativa, fazendo prevalecer sua assinatura em meio a tantas forças que poderiam enfraquecer sua visão sobre essa história. O que se vê na tela é mais um filme da excelente filmografia de um diretor sempre preocupado com as construções psicológicas de seus protagonistas, proporcionando estudos de personagem desafiadores. No caso em questão, acompanhamos Noé, interpretado com a usual intensidade de um Russell Crowe em plena forma dramática, tensionando suas convicções (a fé no Criador e na missão que lhe foi dada) e seus sentimentos (o amor pela sua esposa e por seus filhos), levando a um estágio de loucura gradativo. Assim como fez com Sara, Marion e Harry em Requiem para um Sonho ou Nina Sayers em Cisne Negro, em Noé, o diretor investe no terceiro ato do longa, conferindo como poucos uma tensão que beira o lisérgico, desafiando não só o seu protagonista, mas os nervos da plateia ao extremo. Aronofsky retorna ainda a trabalhar com Jennifer Connelly, excelente como a esposa de Noé, um contraponto em sensatez ao marido, e extrai ótimas performances de Anthony Hopkins como Matusalém e Ray Winstone como Tubal-cain, vilão do longa.

Como todo exemplar da filmografia do realizador, Noé não é um filme de fácil digestão e gerará incômodos por sua estrutura e abordagem narrativa ocasionalmente dispersa e constantemente incisiva. O que é bom sinal, mostra que mesmo inserindo-se na dinâmica produtiva de um estúdio, Darren Aronofsky abriu poucas concessões criativas em seu filme para as orientações de produtores. Provocador e questionador, como sempre, o diretor realizou com Noé um longa que não está nos cinemas ao acaso para oferecer perspectivas contemplativas ou consoladoras sobre a vida ou sobre seus personagens. Não há um retrato sobre um herói bíblico convicto e inspirador em seus valores, mas um homem falho e levado ao extremo por suas convicções. Não poderíamos esperar outra coisa de um diretor tão enérgico quanto Darren Aronofsky.






12 Anos de Escravidão


Existem certos filmes que vão além da sua própria existência enquanto obras de um determinado gênero e mostram a sua importância e relevância como tratado para a humanidade. Ainda é cedo para fazer qualquer afirmação sobre o lugar que 12 Anos de Escravidão ocupará para as próximas gerações, mas podemos arriscar o palpite de que o drama do inglês Steve McQueen é um doloroso e dilacerante testemunho para o espectador. Assim, o longa não é somente uma grande obra cinematográfica, mas um relato que cobra das plateias a tolerância a partir do relato em carne viva, ainda não cicatrizada, de um sobrevivente daquela que foi uma das maiores máculas da humanidade, a escravidão.

Dirigido com preciosismo por um Steve McQueen cada vez mais aguçado em sua sensibilidade, 12 Anos de Escravidão conta parte da vida de Solomon Northup, um escravo alforriado que retorna à sua antiga condição após ser sequestrado e enviado ao sul dos Estados Unidos. Northup tem sua identidade usurpada e passa 12 anos de sua vida servindo a senhores de fazenda e testemunhando os abusos destes com seus escravos. A oportunidade de libertação surge quando Northup conhece um abolicionista canadense que lhe permite fugir do seu “senhor” e denunciar os abusos cometidos contra seus companheiros.

Assim como fez em Shame, mas adaptando seu estilo à proposta desse novo projeto, Steve McQueen confere perspectivas inteligentes e originais em sua condução, sabendo dosar cenas que exigem cortes precisos com outras que priorizam longas sequências estáticas, todas condizentes com as situações envolvidas e com a ideia que pretende transmitir ao público. Como narrativa, McQueen faz de 12 Anos de Escravidão um filme duro e cru, sem apelar para a violência explícita (uma cena ou outra que é mais difícil de se assistir) e sem perder o elo emotivo com seu espectador. O roteiro da produção também merece o devido reconhecimento por saber quando é pertinente a existência de diálogos e quando o filme deve ser sustentado por sua linguagem visual, trazendo para o projeto uma consciência cinematográfica que poucos trabalhos dessa temporada possuem.

12 Anos de Escravidão também tem como um dos principais recursos para o seu êxito o intenso e dedicado trabalho do seu elenco. Chiwetel Ejiofor traz para o protagonista uma composição primorosa que mescla momentos de austeridade e contenção com reações de profunda dor e ressentimento. Através dos olhos do ator, as emoções de Solomon Northup são evidentes, ainda que suas ações sugiram uma postura conformista ou passiva demais. Outro desempenho brilhante na fita é o da novata Lupita Nyong’o, intérprete de Patsey, escrava que é forçada a ter relações sexuais com o seu senhor, vivido por Michael Fassbender. Nyong’o é tão delicada e sensível em sua participação no longa que as poucas cenas que tem destaque a transformam em um dos maiores elos emotivos entre espectador e obra. Há ainda ótimos desempenhos do próprio Fassbender, Sarah Paulson – excepcional como sua esposa rancorosa – , Paul Giamatti, Paul Dano e Benedict Cumberbatch. Enfim, um melhor que o outro.

A coragem de 12 Anos de Escravidão não está somente na forma com que toca em uma das feridas abertas da sociedade norte-americana, poucas vezes explorada em sua filmografia (até mesmo o Holocausto é mais frequente), mas na veemência com que aborda a temática. Uma veemência que não precisa ser sensacionalista ou panfletária para se mostrar efetiva e atingir em cheio a consciência da sua própria plateia, mas uma veemência sustentada na sensibilidade de um cineasta atento à sua própria linguagem e que não mede esforços para transformar seu filme em um relato humano e não apenas em mais um capítulo da sua ascendente carreira.

 



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Mudanças


Então, já devem ter percebido que ando meio sumido por aqui (quando vejo que meu último post foi em janeiro, caio para trás!). Assumi algumas novas responsabilidades e novos projetos relacionados às atividades nesse espaço que estão me mantendo fora de circulação no Chovendo Sapos.

Em breve anunciarei essas novidades e atualizarei o blog! Aguardem... e não me abandonem! rsrsrs

W.T.