quinta-feira, 15 de maio de 2014

Blackfish - Fúria Animal



O SeaWorld certamente é um dos destinos preferidos das famílias que procuram os parques da Flórida como alternativa de entretenimento. O principal atrativo? As peripécias das Orcas, que, orientadas por seus treinadores, fazem de um tudo no aquário central da atração: acrobacias, mandam beijos e saudam a plateia com suas nadadeiras ou com os seus famosos e relativamente desejados jatos d’água. Por mais de uma década, não só a SeaWorld como toda uma cadeia de parques aquáticos têm como pincipal atração esses animais extremamente inteligentes e simpáticos. Expostas aos caprichos humanos como se fossem cúmplices de toda essa engrenagem e reagissem bem à operacionalidade da vida em cativeiro, as Orcas acabaram sendo protagonistas de tragédias paralelas que estereotiparam um outro lado da natureza desse animal. Há inúmeros relatos registrados por departamentos de investigação dos EUA envolvendo ataques inesperados desses animais aos seus próprios treinadores, muitos deles durante as próprias apresentações. O que leva esses dóceis e amorosos mamíferos a agirem de maneira surpreendentemente violenta  é o que o documentário Blackfish – Fúria Animal , que chega diretamente em DVD pela Universal no Brasil, pretende desvendar. Uma causa que mobiliza defensores dos animais, as cortes de justiça norte-americanas e pesquisadores de todo o mundo.

O ponto de partida de Blackfish é a morte da treinadora norte-americana Dawn Brancheau durante a apresentação de uma das principais atrações do SeaWorld, a Orca macho Tilikum. No auge do show, Tilikum, que já apresentava sinais de irritação e desobediência com a treinadora, arrasta Dawn para o fundo do aquário e chacoalha a treinadora com muita força pela boca. Tudo isso na frente da habitual plateia lotada do parquet temático. A partir desse caso, televisionado mundialmente, o documentário traça a trajetória de Tilikum até o incidente e descobre que Dawn não foi a primeira “vítima” da Orca. Antes dela, outras duas pessoas foram a óbito pela “fúria” de Tilikum. Além desse caso outros relatos semelhantes, envolvendo Orcas em condições de vida similares são contados. Um deles, o da Orca Kasatka que em 2006 teve a mesma reação de Tilikum com Dawn durante a apresentação do treinador Ken Peters. Diferente de Brancheau, Peters conseguiu contornar a situação com muita habilidade (veja o video abaixo), o que não pode ser levantado como indício de que a culpa de ocorridos como os de Tilikum é exclusiva dos treinadores.

A origem dos problemas é descoberta pelo público através do percurso de Tilikum até o SeaWorld. Como boa parte dos animais que se tornam atrações desses parques temáticos, Tilikum foi capturado ainda filhote sendo abruptamente afastado do convívio de sua mãe, algo marcante para animais de intenso convívio comunitário com suas famílias como as Orcas. Tilikum é um macho dócil e mantido com grande interesse pelo parque pois além da facilidade com que é treinado é um grande reprodutor. Quando adulto, a Orca ganha proporções inimagináveis, tornando-se um gigante “bobalhão” em meio às demais fêmeas que convivem com ele em seu aquário. As relações entre os treinadores e Tilikum começam a despertar  reações nas Orcas fêmeas que, ocasionalmente, são punidas com a falta de “agrados” (petiscos, peixes) por mostrarem-se indóceis aos treinamentos. As companheiras de aquário passam a descontar toda a sua raiva em Tilikum e a noite agridem o companheiro com mordidas e pancadas. Todo esse convívio complicado com animais de origens diferentes (é o mesmo que colocar indivíduos de nacionalidades diferentes para conviverem enclausurados) e o isolamento que não permite extravasar a ira de uma espécie bastante emotive faz com que Orcas como Tilikum passem a atacar subitamente seres humanos com quem tinham um convívio afetuoso.

Na verdade, Tilikum é só a ponta de um imenso Iceberg. Através de depoimentos de ex-treinadores do SeaWorld e de outros parques aquáticos, neurocientistas, promotores de justiça, o publico começa a traçar toda a cadeia complexa de fatos que tornam Tilikum e todas as Orcas protagonistas de tragédias como as de Dawn Brancheau mais vítimas do que assassinas ensandecidas tomadas pela fúria incontrolável. Encontramos na complexidade do sistema afetivo do animal um ponto fundamental para compreender as reverberações que a vida fora do seu habitat e limitada em possibilidades de dar vazão a agressividade e ao estresse. Na verdade, Blackfish, que dá grande destaque a voz dos defensores de uma causa, é uma crítica aberta ao que existe por trás da perpetuação da prática da criação de Orcas e adestramento em cativeiro, trazendo, além da radiografia da situação desses animais, uma investigação bem articulada a respeito das ações dos conglomerados de entretenimento que abafam as dezenas de casos de morte de treinadores, colocados pela fita como indivíduos engolidos pelo próprio sistema e pelo amor que sentem àqueles animais e a sua profissão. Entre os mitos despejados  por essas instituições estão o da barbatana curva (indício evidente do abatimento do animal pela vida em cativeiro), da imprudência de treinadores (uma alegação da qual Brancheau foi vítima) e da baixa expectativa de vida das Orcas. Tudo para camuflar o entorno opressor e perigoso que envolve a criação e o treinamento desses animais.

Guardadas as proporções que toma em função da sua necessária parcialidade, Blackfish presta um serviço fundamental para mostrar como o homem subalterna e ignora toda forma de vida, coisificando-a para atender a anseios mercantis. A resposta, como acontece com todo dano causado a natureza, vem sempre da pior forma, evidenciando os caminhos tortos da nossa relação com as outras formas de vida. Não aprendemos com a amabilidade e doçura de espécies como as Orcas. O profundo respeito que a documentarista Gabriela Cowperthwaite mostra pelas Orcas é o guia de todo esse relato parcial sim, mas contundente e relevante, um ponto de vista que tem a urgência de ser ouvido e visto, retirando a ingrate alcunha de “baleia assassina” e desmascarando os verdadeiros criminosos de toda essa rede de acontecimentos lamentáveis, nós que endossamos práticas bárbaras contra animais por gerações e gerações.

Um comentário:

Stella Daudt disse...

Wanderley, fiquei muito impressionada com "Blackfish", acho que os parques aquáticos deviam ser proibidos de manter orcas em confinamento. Depois de assistir o documentário, e conhecer um pouco mais sobre as características desses animais, torna-se impensável comprar entrada para um desses shows.