domingo, 29 de junho de 2014

O Quinto Poder




O australiano Julian Assange foi uma das figuras mais controversas da última década. Fundador do WikiLeaks, organização que publica em um endereço da Internet informações sigilosas de governos e empresas fornecidas por fontes anônimas, Assange deu início a discussões sobre a confidencialidade e a vigilância em tempos nos quais os jornais não têm a primazia da informação e esta pode ser fornecida não apenas por aqueles que detém o controle de grandes grupos de comunicação, mas por qualquer cidadão. O que permanece é um corolário, informação é poder. E com isso em mente e sua página do WikiLeaks a todo vapor, Julian Assange cravou o seu nome no debate internacional ao tornar públicos, por exemplo, uma série de relatórios norta-americanos que revelavam a morte indiscriminada de civis durante as ações dos EUA no Afeganistão e no Iraque.

Não demoraria muito para que produtores de cinema se interessassem pela história de Assange e da origem do WikiLeaks, sobretudo depois dele tornar-se um dos homens procurados pela Interpol com duas acusações de estupro nas costas e de correr o risco de ser extraditado para os EUA e acusado de espionagem, fraude e abuso de computadores pela Justiça norte-americana após perder a cidadania sueca. O porta-voz do WikiLeaks mobilizou defensores da liberdade ao acesso de informações  oficiais, que levantam a bandeira de que o site contribuiu para desmascarar determinadas ações escusas dos governos de diversos países, mas também inspira seus “inimigos” a contestarem seu discurso de messias do século XXI e os reais benefícios desse escancaramento de informações. O responsável por cuidar desse “pepino” é o diretor Bill Condon, que popularizou-se com os três últimos filmes de Crepúsculo, mas que antes disso fez  Deuses e Monstros, Kinsey, o  musical Dreamgirls e cuidou do roteiro do vencedor do Oscar Chicago.

Podemos dizer que Condon ficou completamente perdido diante de tamanho “abacaxi”. A condução de O Quinto Poder, nome do filme em questão e que chega no Brasil diretamente para o mercado doméstico, tendo uma recepção decepcionante nos cinemas dos EUA, é complexa e espinhosa. Existem diversas demandas que os seus envolvidos devem administrar: a própria narrativa, desembaraçando um gigante novelo que se forma em torno da sua trama de espionagem global; a construção do seu personagem central em toda a sua natureza controversa, o que o diretor e o roteirista parecem deixar completamente nas mãos do incrível Benedict Cumberbatch; e, por fim, a relação da obra com o espectador, apresentando uma história complicada como essa de maneira didática, mas sem subestimar o seu público.  Assistindo o resultado final de O Quinto Poder, a impressão que temos é que Bill Condon e seu roteirista Josh Singer  ficaram completamente desnorteados com tantas exigências naturais ao projeto e trazem para a audiência um filme confuso, sem personalidade definida e com personagens trabalhados nas suas superfícies ou estereótipos.

O projeto adota como fonte de inspiração o livro de Daniel Berg, um dos colaboradores de Assange no WikiLeaks e que desvinculou-se do site por divergências com a forma como o australiano conduzia a organização. Berg é interpretado aqui pelo competente Daniel Brühl, que faz um trabalho digno e coerente como contraponto a Assange, ele mostra-se como um homem fascinado pelo poder da informação, mas temeroso pelas ambições do seu parceiro de trabalho. No entanto, é claro que as atenções recaem para o Julian Assange de Benedict Cumberbatch que está muito interessante ao retratar o fundador do WikiLeaks como uma figura antisocial, de ética questionável, mas de passado doloroso. Cumberbatch trabalha muito bem os elementos externos do personagem, como voz e expressão corporal, mas principalmente os recursos internos dele, sobretudo os seus sentimentos conflituosos, sua difícil relação com o “outro” e seu temperamento imprevisível. É uma pena que o roteiro de Singer não ofereça a esse ator que em poucos anos fez trabalhos tão interessantes um tratamento mais refinado para a personalidade de Assange. A impressão que temos é que Cumberbatch fez o possível com o material que tinha em mãos e só não avançou mais em função dessas limitações do filme. Há ainda participações pontuais de atores como Laura Linney (ótima), Stanley Tucci, Peter Capaldi e David Thewlis como personagens que transitam na órbita de Assange para caçá-lo pelo temor do seu poder ou tê-lo ao seu lado pelo fascínio que ele exerce.

No fim das contas, a impressão que temos é que O Quinto Poder é o filme de um homem só, Benedict Cumberbatch, que só não decolou ainda mais com sua composição nesse projeto pelos freios e pela maneira desnorteada como a trama é conduzida pelo seu diretor e por seu roteirista. Determinadas reflexões que poderiam ser discutidas e que foram suscitadas ao longo da década passada e do início da atual sobre o WikiLeaks foram sufocadas pela inabilidade dos responsáveis pelo filme, que preferiram dar espaço a tradicional narrativa cronológica dos fatos e tiveram medo de adentrar com mais profundidade na personalidade de Assange, a grande chave das indagações sobre a ética do veículo. No final, Condon e Singer tentam se justificar intercalando uma reprodução de uma entrevista de Assange, interpretada por Cumberbatch, com a narração da atual situação dos personagens. Nela, o Assange de Cumberbatch diz que essa história não é sobre ele, mas sobre nós, ou seja, sobre a forma como somos manipulados e vendados por governos. É uma fagulha, um lampejo para o que Bill Condon poderia ter feito – e sabemos que ele tem capacidade pela sua filmografia – e não fez em O Quinto Poder.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O Homem Duplicado


 
O Homem Duplicado se junta a Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum e Sob a Pele como uma das obras cinematográficas mais instigantes do ano. Com sua já atestada preferência por tramas que investigam um lado não tão agradável da natureza humana, o cineasta canadense Dennis Villeneuve radicaliza  de vez em sua abordagem nesse suspense que flerta com o cinema onírico, introspectivo, lisérgico e sombrio de David Lynch (Cidade dos Sonhos), mas também com a maneira como Darren Aronofsky (Cisne Negro) realiza a simbiose entre a psicologia do seu protagonista e a forma do filme. Baseado no romance de José Saramago, O Homem Duplicado não só explora a profunda e conturbada psicologia do seu personagem central como a transforma em espaço e engrenagem da própria narrativa. Não seria o tipo de narrativa que recomendaríamos a todos porque é difícil mesmo para o público se acostumar e entender que abordagens radicalmente opostas aos padrões de narração cinematográfica e que exigem uma constante decifração, já que tudo que está na tela não pode ser interpretado em seu sentido literal, são positivas e trazem um aperfeiçoamento da própria gramática cinematográfica. É um estranhamento comum, do qual outras obras foram "vítimas". Não à toa, lá fora, O Homem Duplicado teve uma recepção tão amarga.

O filme tem como ponto de partida a vida do professor universitário Adam Bell (os nomes foram adaptados para o filme e apesar da alcunha Tertuliano Máximo Afonso ser funcional no livro, aqui não faz tanta falta assim) que descobre em um filme um ator idêntico a ele. Bell, entediado com sua própria vida, começa a procurar esse homem para tentar saber a razão de tamanha semelhança. Logo, as vidas dos dois personagens passam a se entrelaçar e suas decisões começam a interferir nas suas rotinas e afetar os relacionamentos amorosos de ambos. No mais, desculpem amigos, mas fazer uma sinopse mais esmiuçada do que isso seria sacrificar a experiência de todos de desvendar o que existe por trás desses personagens pouco a pouco, tal qual deseja Denis Villeneuve.

Já que tocamos no nome do diretor de O Homem Duplicado é preciso enaltecer a sua coragem e o seu esforço de apropriar-se sem violentar a ideia central da obra de José Saramago. Como poucos cineastas na sua mesma posição, Villeneuve não se intimidou com a carga  de cobrança externa e interna por estar adaptando o livro de um autor cultuado como Saramago e imprimiu vida própria ao seu filme, mantendo os propósitos da obra original, mas fazendo os cortes e as adaptações necessárias, claro que com a ajuda do roteirista Javier Gullón. O Homem Duplicado de Villeneuve tem muita personalidade enquanto obra audiovisual, tendo como ponto de sustentação recursos como a fotografia que abusa do tom sépia, os ambientes impessoais, uma montagem que obedece aos comandos do diretor e acompanha o desenvolvimento dos seus personagens, todos em perfeita comunhão para criar uma atmosfera que intriga o espectador do início ao fim. O elenco é outra peça fundamental na engrenagem da obra. E se alguém não tinha firmeza em Jake Gylenhaal como ator, é melhor rever os conceitos. Interpretando duas personalidades completamente opostas que  colidem no terceiro ato do filme, Gylenhaal dá conta do recado de maneira  muito eficiente. O ator também está cercado por ótimas companhias, já que Mélanie Laurent (a namorada de Adam) e, principalmente, Sarah Gadon (a esposa do ator) dão conta do recado e funcionam como peças fundamentais para o desfecho do mistério em torno dos sósias.

Preferia não adentrar nas interpretações da obra pois, como já disse, estragaria a experiência do leitor/espectador. Como esse exercício de falar sobre um filme sem revelá-lo é extremamente complicado e posso acabar soltando algo, peço (e espero que seja ouvido) que pare de ler esse texto a partir de agora, caso não tenham visto o filme. O que pode ser dito é que Villeneuve esmiúça o elo entre Adam e seu sósia de maneira brilhante para chegarmos a uma conclusão satisfatória que nos obriga a fazer um retrospecto das pistas deixadas pelo filme desde o início. Com o claro intuito de falar sobre esse compreensível e arriscado desejo que temos de estar na pele de outra pessoa e de dar vazão a nossas mais recônditas fantasias abafadas por nossa vida corrente, o realizador traz um exercício de reflexão louvável se voltarmos e pararmos para pensar um pouco mais em toda a "engenharia" que ele construiu até chegar ao seu desfecho. Esse exercício de assimilar a obra com o devido tempo, sem a necessidade de conclusões imediatas que são tão correntes nesse consumo instantâneo que é feito com cada vez mais frequência no que concerne ao audiovisual, é  o que torna O Homem Duplicado uma preciosidade no meio de tantos trabalhos "mastigados" e com conclusões e interpretações prontas. Aqui, o público é parte da própria obra e isso é fascinante.

O Homem Duplicado é daqueles tipos de filme que chega a ser arriscado traçar um "diagnóstico" sobre ele no seu lançamento pois corre o risco de cometermos uma leviandade. É o tipo de obra que merece ser vista, revista, dissecada e estudada em suas camadas. Não querendo ser definitivo nessas últimas linhas sobre o filme, recomendo apenas que se deem a oportunidade de conferir esse filme desafiador e por vezes desconfortante em sua linguagem. É incomum - não digo original porque Denis Villeneuve tem suas fontes -, mas é com esse tipo de empreitada que o cinema avança e que a gente aprende a refinar e ser mais exigente como espectador, dialogar com a obra e não encerrar abruptamente nossa relação com ela com o subir dos créditos. Afinal, como sugere a própria epígrafe do longa, "Caos é a ordem ainda indecifrada". Portanto, tentemos decifrar O Homem Duplicado. É recompensador.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Drops: Vizinhos


Vizinhos até ensaia ser uma comédia diferenciada da média que anda sendo feita nos EUA. Aqui e ali existem insights interessantes sobre a vida de jovens casais que vivem o dilema de administrar as responsabilidades da vida adulta a partir do nascimento de um filho com os desejos da própria juventude, o que acaba rendendo uma parceria espetacular entre Seth Rogen e a australiana Rose Byrne. No entanto, o filme derrapa com a entrada do personagem de Zac Efron e todo o grupo da república que acaba se tornando vizinho dos personagens de Rogen e Byrne. Os realizadores do projeto preferem dar enfoque a piadas que acreditam que para tirar gargalhadas da plateia precisam apelar para o mau gosto e para a escatologia. Além disso, como se não bastasse a interpretação canastrona de Efron, que vinha evoluindo em seus últimos trabalhos, o filme usa e abusa desnecessariamente da estampa do ator para atrair as adolescentes, trazendo-o desnecessariamente descamisado em cena, um recurso que já vimos em outros filmes com ele, como Obsessão, mas que justificavam a sua existência na fita pelo próprio desenrolar da história e pela proposta dos longas. Aqui, é tudo muito gratuito. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Transcendence - A Revolução



Sobre Transcendence – A Revolução as recentes manchetes dos jornais falam do mais novo fiasco da filmografia de Johnny Depp, buscando explicações para o declínio de um ator versátil como ele, sempre tão exitoso em suas empreitadas. Evidente que não se pode atribuir a Depp o fracasso dos seus últimos filmes, talvez a sua entrada nesses projetos, mas sabe-se lá Deus sob que circunstâncias ocorreramO fato é que o ator é protagonista da emperrada engrenagem do Star System que já não serve Hollywood com tanta eficiência e vai, gradativamente, entrando para o limbo dos atores impiedosamente “descartados” em prol da hiper-valorização dos mais novos como Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Ryan Gosling, Emma Stone ou Shailene Woodley. Julia Roberts, Tom Cruise, Nicole Kidman, Renée Zellweger, Jim Carrey, todos já passaram por isso. Alguns conseguiram se reinventar, outros ainda estão tentando encontrar o seu caminho. O fato é que Transcendence – A Revolução não é um filme de resultados pífios por Johnny Depp estar nele, mas o fato de um ator do seu calibre se expor repetidamente a projetos inabilidosamente conduzidos como esse longa é preocupante.

Transcendence – A Revolução traz a história de um pesquisador sobre inteligência artificial que começa a desenvolver secretamente um projeto que visa utilizar a tecnologia para preservar o planeta do desgaste e da depredação. Além disso, Will Caster, o sujeito em questão, deseja superar a própria limitação da vida humana, preservando as funções do seu cérebro em um sistema avançado de inteligência artificial. Tudo o que Caster faz é pensando na iminência da sua morte já que tem sua vida ameaçada por um grupo de extremistas que são contra determinadas interferências da tecnologia no dia-a-dia humano. O pesquisador também faz tudo isso pensando na sua esposa Evelyn, com quem tem uma relação cercada por muito afeto, admiração e parceria.

Conduzido por Wally Pfister, diretor de fotografia dos últimos filmes de Christopher Nolan, a trama de Transcendence – A Revolução segue caminhos bem parecidos com os longas do diretor da trilogia O Cavaleiro das Trevas, a influência é clara. A história inspira a habitual engenhosidade dos roteiros de Nolan, tem um “pézinho” no suspense e em abordagens mais cerebrais e traz no seu cartaz um elenco muito interessante, alguns deles, inclusive, já trabalharam com Nolan, como é o caso de Rebecca Hall (O Grande Truque), Morgan Freeman (a trilogia O Cavaleiro das Trevas) e Cillian Murphy (Batman Begins e A Origem). O filme de Pfister se diferencia apenas por sugerir abraçar com mais força a subjetividade dos seus personagens, o que Nolan propositadamente, em diversos projetos, trafega com timidez. O roteiro do estreante em longas Jack Paglen tem como condutor dos seus atos o relacionamento do protagonista com a esposa Evelyn, sobretudo os efeitos das ações dele na personagem de Rebecca Hall.

Já que falamos de Rebecca Hall é preciso dizer que a atriz mantém a qualidade do seu trabalho aqui. Como Depp ausenta-se em diversos momentos, o centro da narrativa acaba voltando-se para ela e poucas atrizes conseguem lidar com uma personagem tão conturbada internamente de maneira tão cuidadosa e nada excessiva quanto Hall, de longe, a que sai ilesa das decisões questionáveis do projeto. Depp está bem quando surge em cena (e, nesse quesito, levanto as mãos para os céus por esse não ser um daqueles personagens excêntricos no qual o ator costuma carregar nas tintas em sua composição), mas o centro da trama acaba sendo Hall, que domina cada quadro desse filme com sua habitual competência. No mais, apesar de contar com um elenco que traz Paul Bettany, Morgan Freeman, Cillian Murphy, Kate Mara e Clifton Collins Jr., Transcendence- A Revolução não faz nada por nenhum deles. Diferente do casal principal, seus personagens são rasos e surgem na tela como um capricho da ficha técnica do filme.

O que destrói Transcendence – A Revolução é a própria ambição da sua história. Chega um determinado ponto da fita que nem Wally Pfister, nem o roteirista Jack Paglen, conseguem sustentar as demandas que chamam para si ao longo da narrativa, culminando em um terceiro ato que é corrosivo para o filme e acaba transformando-o em uma história de pouca credibilidade. Paglen não consegue dar um desfecho satisfatório ao projeto e não mantém uma linha ascendente no desenvolvimento de sua trama e dos seus personagens. Quando chega no clímax da história interrompe todos os eventos com frases de efeito e decisões amadoras que saltam a tela.

E, nesse quesito, quem pode culpar Johnny Depp por se envolver na primeira empreitada como realizador do diretor de fotografia de Christopher Nolan? Por querer trabalhar com Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Cillian Murphy? Talvez possamos culpá-lo por ter aceitado um roteiro que não dá conta do próprio peso e dramaticidade da história e da complexidade de temas que convoca, mas dai também não sabemos o que aconteceu entre o processo de sua finalização e início de suas filmagens (é muito comum que em projetos desse porte o roteiro seja reescrito por exigência do estúdio). Especulações… O fato é que não há como culpar Depp por atender a um chamado desses em um projeto que de fato parecia promissor com todos esses indícios positivos. O cinema, como toda forma de expressão, é uma caixinha de surpresas e não dá para prever os caminhos que uma obra irá percorrer, ter garantia do seu sucesso ou ter controle sobre o que acontece durante o processo criativo. O que dá para dizer é que Depp está longe de ser o culpado pelo fiasco de Transcendence. No entanto, infelizmente, a indústria costuma ser implacável nesse tipo de escorregada, antecedida por tantas outras como Alice no País das Maravilhas, Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, O Diário de um Jornalista Bêbado, O Turista, Sombras da Noite e O Cavaleiro Solitário. É assim que funciona, amigos.

sábado, 21 de junho de 2014

Como treinar o seu dragão 2



Alguém tem alguma dúvida que Como treinar o seu dragão é um dos produtos mais interessantes que a DreamWorks já ofereceu? De Madagascar, passando por Sem-Florestas e Kung Fu Panda, até chegarmos a Shrek, que depois do seu segundo longa mostrou toda a fragilidade dos responsáveis pela franquia, nenhum outro filme de animação do estúdio tem tanta consistência na equação entre propósitos e execução quanto os filmes baseados na série de livros de Cressida Cowell. E se Como treinar o seu dragão 2 não traz um resultado tão satisfatório ao longo de toda a fita como o primeiro filme, ao menos mantém as rédeas da condução de sua trama durante boa parte da projeção, que cresce em ritmo e relevância no seu terceiro e derradeiro ato com decisões que justificam a existência da própria continuação da história de Soluço e do seu dragão Banguela.

O filme se passa cinco anos após os eventos do primeiro longa e mantém o foco em Soluço e sua busca por uma identidade. O garoto continua arredio a certas ideias do seu pai e prefere realizar expedições com Banguela do que se envolver nos torneios esportivos dos demais Vikings. Em uma de suas empreitadas, Soluço e Banguela descobrem um grupo de homens que sequestram dragões para formar um exército com propósitos desconhecidos pela dupla. Nesse meio-tempo os dois ainda encontram uma caverna cheia de espécies desconhecidas de dragões cuidadas por Valka, mãe de Soluço que há anos estava desaparecida.

A trama de Como treinar o seu dragão 2 tem, visivelmente, menos fôlego que a do primeiro filme. Dá para perceber como os realizadores têm dificuldade em ir a fundo nos diversos conflitos que o filme sugere, o principal deles é aquele que envolve o reencontro de Soluço com mãe, preferindo, inúmeras vezes, manter-se na superficialidade para não afugentar uma plateia (a infantil) que supostamente se entediaria fácil com a história caso ela desse vazão a esse aspecto na narrativa. No entanto, a filmografia recente da animação tem mostrado o contrário, o público, sobretudo o infantil, é maduro o suficiente para absorver personagens e tramas com múltiplas camadas. Não precisa ser complicado ou inacessível para criar tramas e personagens ricos e complexos e a Pixar está ai para provar isso.  Mas enfim, é uma decisão que a DreamWorks reforça em Como treinar o seu dragão 2, apesar de ter em mãos um material que poderia ambicionar voos mais altos.

A continuação prefere explorar mais as sequências e tramas de ação, o que impõe obstáculos para a trama sair do mesmo lugar durante mais de uma hora de projeção. Na passagem do segundo para o terceiro ato é que Dean DeBlois e sua equipe dão gás a sua história e tomam decisões interessantes que dão ao público novas perspectivas e desdobramentos para os rumos do seu protagonista, Soluço, e dão ainda mais liga na sua relação com o dragão Banguela, o que por sinal é o ponto alto da fita.

Como treinar o seu dragão 2 pode até ser inferior a seu antecessor por um receio visível da DreamWorks de tornar suas animações obras que vão além do produto destinado a um público específico. Diferente de outros estúdios de animação, eles parecem evitar o risco mesmo quando a sua trama inspire uma história tão pulsante e sensível quanto a de Como treinar o seu dragão. Com o segundo filme, a franquia continua sendo o melhor produto da casa, mas algumas promessas de amadurecimento na própria condução da história que foram sugeridas no longa anterior foram timidamente cumpridas aqui.  De qualquer forma, quem sabe não seja uma transformação a passos lentos e cautelosos mesmo?

Versos de um Crime



A geração beat foi um movimento literário que tomou impulso no final da década de 1950 e início dos anos de 1960. Cansados do excesso de veneração a canônes e valores conservadores da cultura norte-americana, um grupo de jovens rompeu com os padrões vigentes através de uma produção intelectual inspirada. Movidos a jazz, drogas e sexo livre esses escritores produziam compulsivamente e apresentavam uma narrativa intensa, com fluxo de pensamento desalinhado, abusando do emprego de gírias e palavrões. Participaram desse movimento o poeta Allen Ginsberg (de Howl), o escritor William Burroughs (Naked Lunch) e, claro, Jack Kerouac (que imortalizou Neal Cassady como um herói para a geração da segunda metade do século passado em On The Road). Mais tarde, esse grupo se revelaria como a inspiração para a geração de ouro de cineastas norte-americanos da década de 1970 e bandas como os Beattles e o The Doors, por exemplo.

Versos de um Crime mostra a gênese do movimento personificada na figura de Lucien Carr, um jovem com pouco talento mas muita rebeldia que acaba inspirando essas três figuras da geração beat, Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac, em especial Ginsberg, com quem Carr teve um breve mas intenso romance. Carr foi o responsável por inspirar os três escritores a se tornarem quem são hoje, utilizando as potencialidades dos três para materializar em verso e prosa o espírito beat. No entanto, Carr se envolveria em uma trama de assassinato que acabou fragilizando a perpetuação das relações do grupo e cada um seguiu o seu próprio caminho.

O filme de John Krokidas é bastante linear e pouco inventivo como narrativa audiovisual. O realizador se apoia no interesse natural do espectador pela história, que é mantido graças aos nomes envolvidos na sua trama (Ginsberg, Kerouac e Burroughs) e não aos esforços dele como cineasta. Versos de um Crime mantém a preocupação com a gênese do fenômeno cultural beat e não consegue passar em imagens o espírito do grupo. Fazendo uma inevitável comparação, Walter Salles conseguiu, com toda a simplicidade que lhe é inerente, trazer para o seu Na Estrada a falta de linearidade, o pensamento pulsante e a atmosfera libertária da produção beat. Versos de um Crime não consegue dar conta de demandas que deveriam ser atendidas para além da simples execução de um roteiro. Krokidas não chega a comprometer o longa com essa decisão, apenas o torna menos interessante do que poderia ser.

Daniel Radcliffe até que se esforça como Ginsberg (sim, esforço é a palavra certa para esse caso), mas Dane DeHaan (atenção para esse rapaz pois em breve ele viverá James Dean) chama o filme para si como o instável Lucien Carr. Ben Foster também está ótimo como William Burroughs, assim como Jack Huston na pele de Kerouac. Há participações pontuais de veteranos como Jennifer Jason Leigh (interessante como a mãe de Ginsberg), Kyra Sedgwick e Michael C. Hall, como David Krammerer, a vítima de Carr. Elizabeth Olsen, por sua vez, é subaproveitada como a esposa de Kerouac, o que é uma pena.

Versos de um Crime é um filme “quadradinho” e linear demais para retratar (ou introduzir) para a audiência do cinema (sempre muito diversificada) o que representou a geração beat. Apesar de trazer o embrião do movimento, John Krokidas não se preocupou em traduzir em imagens as características da escrita do grupo, o que seria essencial para torná-lo uma obra viva e menos banal do que ela acaba sendo. No final, Versos de um Crime se torna apenas um capítulo burocrático e didático, como essas páginas de armazenamento de curiosidades sobre um determinado fenômeno, personalidade ou obra que a gente encontra na Internet. Como obra cinematográfica poderia se inspirar pelo menos um pouco na subversão dos seus protagonistas.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Drops: Walt nos bastidores de Mary Poppins


Walt nos bastidores de Mary Poppins é o tipo de filme com personagens e eventos reais que nos faz questionar se as coisas aconteceram realmente da forma como são mostradas na tela. Algumas situações de fato aconteceram, como as gravações das reuniões de Travers com a equipe de Mary Poppins nos estúdios Disney, mas outras passagens são muito romantizadas. De qualquer sorte, ainda que o filme apele aqui e ali para o melodrama, não há dúvidas de que é um projeto extremamente sedutor, sobretudo para quem é apaixonado por Mary Poppins, pelo cinema e pela ficção como forma de lidar com a realidade. Emma Thompson nos oferece um desempenho delicioso como P.L. Travers, autora de Mary Poppins que relutou durante anos em entregar a Walt Disney os direitos de adaptação para o cinema do seu romance. Só aceitou sob suas condições: participar do processo de criação do filme junto com os seus roteiristas e compositores, dando palpites em cada um dos detalhes da trama, desde as cores usadas no cenário até a escalação dos atores. O filme aborda as tensões da criação em processos de convergências de linguagens, mas o centro da narrativa torna-se essa mulher de sobrenome Travers, uma incógnita que nem mesmo esse longa de John Lee Hancock consegue ser suficiente para decifrar. Thompson, por sua vez, faz a sua parte ao dar substância e camadas a essa personagem sem transformá-la em uma megera disposta a aniquilar os sonhos de Disney, um trabalho primoroso da atriz que faz o satisfatório desempenho de Tom Hanks como o criador do Mickey Mouse ficar menor na tela.

Drops: Refém da Paixão


Refém da Paixão seria uma grande obra de Jason Reitman, talvez um de seus melhores filmes, não fossem as incoerências do roteiro na construção dos relacionamentos dos personagens. Baseado no romance de Joyce Maynard, o filme conta a história de Henry, um garoto que vive sozinho com sua mãe desde que seu pai foi viver com uma namorada e constituiu uma nova família. A mãe de Henry, Adele, desenvolveu uma séria síndrome do pânico depois de ter sofrido sucessivos abortos durante o casamento. Toda essa carga dramática densa da personagem é administrada magistralmente por Kate Winslet, que, como sempre, dá a sua habitual aula de interpretação. Ao lado dela, está o garoto Gattlin Griffith, um prodígio ao lado de Kate, conseguindo compreender toda a diversidade de sentimentos que tomam conta de Henry ao longo da fita.  No filme, Henry e Adele são surpreendidos por Frank, um fugitivo da polícia que os aborda em um supermercado e procura abrigo na casa dos dois enquanto espera o momento propício para fugir da cidade. Nesse departamento específico, Refém da Paixão derrapa feio. Não que a interpretação de Josh Brolin não nos convença. O ator está impecável na pele de um homem rude e sensível, mas o público não fica convencido pela rapidez e intensidade que ele se envolve com a Adele de Winslet. Além disso, existem alguns problemas de ritmo no "miolo" da trama que nos faz ter a sensação de que a história está se arrastando. Ainda assim, é um trabalho muito elegante e bem apurado de Jason Reitman e do seu elenco.

sábado, 7 de junho de 2014

O Lobo atrás da Porta



Durante uma entrevista na recente edição do Festival de Cannes, o cineasta iraniano Abbas Kiarostami afirmou que, no cinema, a inovação ou o brilho da carreira de um realizador devem ser procuradas nos seus primeiros filmes. A declaração do diretor tem coerência se pararmos para pensar nos inúmeros casos de cineastas que não conseguem superar suas primeiras obras e se, ao visitarmos a filmografia completa de certos diretores, repararmos como seus primeiros projetos apresentam marcas muito particulares que se repetirão ao longo das suas respectivas carreiras. Sendo O Lobo atrás da Porta o primeiro longa de Fernando Coimbra, podemos supor (e aqui ficamos no terreno da suposição mesmo) que sua assinatura como realizador, e que o diferencia da produção comercial brasileira corrente, traz consigo tramas de suspense ambientadas no subúrbio carioca e articuladas com muita precisão através de um excelente roteiro e do trabalho entrosado do seu elenco.

O Lobo atrás da Porta tem início quando Sylvia (Fabiula Nascimento) vai buscar sua filha Clara na escola e descobre que uma moça simpática de cabelo curto levou a garota. Sylvia vai a polícia e presta depoimento sobre o sequestro junto com seu marido Bernardo (Milhem Cortaz). Na delegacia, o caso acaba sendo vinculado a Rosa (Leandra Leal), amante de Bernardo que há um tempo rondava a casa da família buscando uma estranha aproximação com Sylvia. Mais que isso não vale a pena contar já que O Lobo atrás da Porta é o tipo de experiência cinematográfica cujos meandros da história devem ser descobertos pelo espectador no mesmo ritmo e instante que eles vão sendo revelados na tela.

Coimbra constrói uma trama relativamente simples, sem grandes afetações, mas muito bem costurada, com uma ascendente tensão que  proporciona o interesse do espectador no desenrolar da história e na descoberta da natureza de cada uma das peças dessa trama, ou seja, os seus personagens. Ao mesmo tempo que demonstra uma habilidade de artesão com muita precisão nos objetivos e nos caminhos que traça, Fernando Coimbra mostra-se um diretor muito eficiente ao conseguir equilibrar o seu próprio ego não colocando suas pretensões acima da própria obra, oferecendo soluções técnicas elegantes para a narrativa e extraindo o melhor de todo o seu elenco, qualidade cada vez mais rara em diretores.

Já que tocamos no trabalho do elenco, esse aspecto da produção merece um parágrafo especial. Não há um desempenho sequer de O Lobo atrás da Porta que destoe da condução do seu realizador e que não se revele como uma interessante composição psicológica para o espectador. Até mesmo a desbocada suburbana interpretada por Thalita Carauta se justifica em seus excessos, jamais soando como um ponto dissonante e incomodo na história. Como o de Carauta há outros desempenhos soberbos e certeiros na produção como os de Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré e, claro, sua protagonista, Leandra Leal. A jovem atriz que acompanhamos no cinema desde A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., e que sempre foi um destaque nas telenovelas da Rede Globo, está afiada naquele que provavelmente é um dos seus melhores trabalhos. Rosa é uma personagem cheia de camadas, de intenções mascaradas e turvas, e a atriz conduz toda essa combustão emocional da protagonista do longa com muita segurança e equilíbrio.

O Lobo atrás da Porta é um daqueles filmes que conseguem lidar com demandas tratadas como excludente por alguns daqueles que pensam  o nosso cinema. É um filme muito bem executado, atendendo a todos os requisitos de uma obra tecnicamente e artisticamente empenhada, mas que apresenta na condução de sua narrativa, simples e engenhosa, seu meio de conquistar o grande público (e assim esperamos). Quanto ao diretor Fernando Coimbra, agora que foi responsável por um filme tão intenso e vibrante na sua estreia em longas, terá nas mãos o “abacaxi” que a primeira obra sempre representa na carreira de um cineasta, a superação de um grande trabalho anterior.

Drops: A Culpa é das Estrelas


Sabe aqueles filmes que suplicam por uma lágrima do espectador a cada 10 minutos? A Culpa é das Estrelas é assim. E, se por um lado, essa característica da obra é extremamente sedutora e, de fato, se não tivermos cuidado nos convence da naturalidade das emoções que ela provoca, por outro, pode soar irritante quando o espectador cai em si e percebe que está sendo manipulado.  Existem cenas, diálogos e recursos (ah, as cartas...) que visam explicitamente provocar esse tipo de comoção sem muita naturalidade, quase que camuflado por trás de propósitos bem intencionados. O que não dá para negar é que é um filme com interpretações muito bem conduzidas pelo elenco, sobretudo pela dupla central Shailene Woodley e Ansel Elgort, fora veteranos como Laura Dern e Willem Dafoe em participações muito interessantes. O carregado teor melodramático da trama não chega a ser um componente que destrua os méritos do filme, um fenômeno popular muito mais positivo para a atual geração do que a saga Crepúsculo, por exemplo, mas incomoda, mostra que os responsáveis pesaram a mão demais, não confiaram o bastante na sensibilidade da sua plateia.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

The Normal Heart



A década de 1980 não foi um período muito fácil para a “comunidade” gay norte-americana – e coloco esse comunidade entre aspas pois não gosto muito da definição, restringe um grupo a um gueto ao invés de incluí-lo na sociedade. Era o auge da epidemia da Aids e os primeiros casos noticiados envolviam homossexuais do sexo masculino. Somando o estigma de “grupo de risco” ao preconceito que os gays já sofriam – se hoje é perceptível, imagina na época -, o governo não teve intenção alguma de conter o avanço do contágio. Nesse cenário, os primeiros grupos politizados de homossexuais começaram a se organizar criando organizações de amparo às vítimas da Aids e buscando uma cura para o  que foi taxado de “câncer gay”.

The Normal Heart, produção original da HBO, faz um panorama dessa época com ecos ainda sentidos no presente através da homofobia e da penumbra que insiste em rondar a Aids. O homem por trás desse telefilme é Ryan Murphy, realizador de Comer Rezar Amar, mas que marcou seu nome mesmo ao conceber as séries Nip/Tuck e Glee. Mas aqui o tema não é tão suave, Murphy tem em mãos um material extremamente delicado. O roteiro de Larry Kramer aborda o envolvimento de Ned Weeks na luta pela tolerância gay em função das sucessivas perdas em sua vida. Muitos amigos de Ned morrem vítimas da Aids e ele e outros companheiros fundam uma organização de amparo às vítimas. No entanto, Ned quer mais do que ser um porto seguro para doentes terminais, quer que a cura da epidemia seja objeto de pesquisas para que ele e seus amigos possam relacionar-se sem o receio de contrair o vírus.

Ryan Murphy conseguiu abordar com muita sensibilidade os relacionamentos que preenchem esse filme, seja a relação de Ned com seu namorado, o jornalista do New York Times Felix Turner (Matt Bomer), seja sua afetuosa relação com o irmão mais velho, um amparo familiar que lhe trouxe bastante segurança e conforto para lidar com a sua sexualidade. Há muita sinceridade em torno dessas relações e por isso Murphy consegue trazer para seu filme um cenário em que o espectador se importa com o destino dos seus personagens, se envolva com suas histórias e desperte a consciência para a dimensão da sua causa. O tom panfletário do longa é notório e inevitável ao projeto, mas está longe de ser impertinente e forçado como algumas outras obras de cunho político ou social já foram. Por se apoiar no aspecto humano da causa, o tom de discurso em praça pública de The Normal Heart se justifica e se impõe ao espectador.

Como o protagonista do longa, Mark Ruffalo poderia ser uma das principais “vítimas” desse tom panfletário. Eventualmente, seu personagem surge em cena aos berros com outros personagens, causando uma certa irritação pelo tom constante de confronto, como já dito um traço do projeto que o diretor consegue controlar através das relações humanas que estabelece ao longo da fita. Por estar na linha de frente, Ruffalo acaba sendo prejudicado por esse aspecto inerente ao projeto, mas nada que prejudique a obra e o trabalho do ator. Sempre respeitoso com o personagem e com o contexto que o cerca, Ruffalo evita transformar Ned em uma alegoria histérica, evitando qualquer tipo de estereotipação ou afetação em sua composição.  No entanto, apesar de ser protagonista, Ruffalo acaba sendo ofuscado por seus colegas que oferecem ao público performances irretocáveis, entre eles Matt Bomer (uma grata revelação), intérprete do parceiro de Ned, que se transforma física e psicologicamente ao longo da narrativa; Julia Roberts, interessante como a pragmática porém humana Dra. Emma Brookner; Alfred Molina, comovente como o irmão do protagonista em uma cena definitiva para a obra; e Jim Parsons (de Big Bang Theory), com um pequeno personagem muito bem defendido pelo ator.

Se The Normal Heart é uma obra panfletária e mergulha fundo no seu próprio tristeza é porque não havia outro meio para contar essa narrativa. Não há um momento particular de alegria nesse capítulo dos anos de 1980. Ryan Murphy justifica todo esse tom orgânico da sua obra através de personagens humanos com relacionamentos concretos, reais, de carne e osso. Por contar com atores que souberam sustentar esse aspecto da obra e por conduzí-los a nuances tão interessantes essa nova produção da HBO está entre uns dos seus melhores trabalhos nesse primeiro semestre, tão forte quanto Behind the Candelabra Temple Grandin em anos passados . É um dos raros casos em que a emoção transcende qualquer esquema objetivo de avaliação crítica.

domingo, 1 de junho de 2014

No Limite do Amanhã


 
Ao ter seu sangue contaminado por um alienígena em campo de batalha, Bill Cage (Tom Cruise) desenvolve a estranha habilidade de reiniciar o seu dia a cada momento em que morre. Aos poucos, Cage, com a ajuda da habilidosa oficial Rita Vrataski (Emily Blunt), conecta o evento a uma possível solução para a interminável batalha entre humanos e alienígenas desde que essas criaturas passaram a dominar a Terra. Sim, esta é mais uma ficção-científica com Tom Cruise, e por mais que tenhamos um diretor relativamente interessante no comando, sabemos que existe o dedo do ator em cada decisão tomada no projeto. E não, não esperem por nada extraordinário que fuja da banalidade em No Limite do Amanhã. É uma fita escapista relativamente divertida no esquema que o ator costuma estabelecer em suas recentes produções.

O diretor por trás de No Limite do Amanhã é Doug Liman, realizador irregular que tem no seu currículo produções competentes como A Identidade Bourne, o primeiro da série, e o drama político, pouco conhecido, infelizmente, Jogo de Poder, com Naomi Watts e Sean Penn. Por outro lado, Liman foi responsável por Sr. e Sra. Smith, filme que só ficou para a história por unir Brad Pitt e Angelina Jolie na profissão e no matrimônio, e por Jumper, aquele filme sobre jovens super-dotados que se teletransportam protagonizado por Hayden Christensen, enfim, o tipo de projeto que todo diretor que ter seu nome desvinculado para todo o sempre. Portanto, Liman é muito mais um executor tomando decisões lineares e previsíveis que algumas vezes salvam o projeto, mas por outras vezes o detona, já que não consegue neutralizar falhas visíveis de roteiro, por exemplo.

Dito isso, No Limite do Amanhã está mais para o primeiro grupo de filmes de Doug Liman, ainda que seja bem inferior aos outros dois títulos mencionados. O filme revela-se como uma ficção-científica pouco pretensiosa que entretém na medida certa e sabe até onde deve ir, evitando criar uma trama complexa demais que não será capaz de sustentar mais adiante. Como nos demais exemplares da carreira de Liman, o filme não é nenhum espetáculo técnico ou artístico (a exceção da ótima sequência na qual Cruise e alguns soldados descem de um helicóptero e caem em uma praia para uma batalha, semelhante a cena de abertura de O Resgate do Soldado Ryan), e era isso mesmo que os seus envolvidos pretendiam, evitar os riscos. Cruise, Liman e a Warner queriam fazer uma fita quadradinha e correta em seus propósitos e conseguiram.

É interessante notar que, pela primeira vez em anos, vemos Tom Cruise interpretar um sujeito deslocado em um ambiente que exige dele uma grande habilidade física. Aqui, o ator vive um assessor de imprensa das Forças Armadas obrigado a se juntar ao grupo de militares. E ainda que um ator mais jovem e que inspirasse o mínimo de credibilidade em seu amadorismo e insegurança naquela situação fosse o ideal, Cruise dá conta do recado, afinal, esse tipo de produção é sua zona de conforto. Quem surpreende a plateia mesmo é Emily Blunt, muito interessante em um papel que não costuma ser ofertado a ela. Blunt vive com muita naturalidade essa heroína de ação sem perder a feminilidade e o lado humano da personagem. Uma escolha inusitada, mas assumida com muita confiança e talento pela atriz.

No Limite do Amanhã é exatamente aquilo que se esperava dele. Um filme de ficção-científica e de ação protagonizado por Tom Cruise que mostra-se como um exemplar correto do gênero nas mãos de um dos últimos atores de Hollywood que conseguem se sustentar nos moldes antigos de produção (aquele que tem o ator no centro do seu processo criativo e empresarial). Particularmente, preferia ver Cruise se arriscar mais, sair dessa zona de conforto representada por filmes como Oblivion e No Limite do Amanhã, que são bons, mas nada mais que isso. Quem sabe um dia o ator de Nascido em 4 de Julho, Magnólia e Jerry Maguire desperte desse estado de calmaria longo e profundo em que se encontra há bastante tempo e nos surpreenda? A gente torce para isso.

Drops: Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum


Eis que chegamos ao primeiro exemplar do ano pelo qual tenho sentimentos dúbios, Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum. E como não poderia deixar de ser, vem pelas mãos de Joel e Ethan Coen. Quando me refiro a sentimentos dúbios, deixo claro que entrego ao leitor um dos aspectos positivos de uma obra que de alguma forma mexeu comigo, porém ainda sinto necessidade de retornar a ela para fortalecer as minhas impressões. (Alerta! Alguns grandes filmes nascem quando essa necessidade é sentida por outros tantos espectadores). Em Inside Llewyn Davis, os Coen trazem a história de um músico folk que, exaustivamente, tenta preservar sua dita integridade artística em meio aos imperativos da indústria da música e da impiedosa e pragmática vida cotidiana. Os realizadores alternam o clima do projeto entre a melancólica passividade e integridade do seu protagonista e uma certa dose de humor negro e ironia que as situações pelas quais Llewyn Davis passa evocam. O impecável Oscar Isaac guia o tom da narrativa através dos olhos gradativamente rendidos de Llewyn, mas conta com o apoio das excelentes performances de atores como John Goodman e a cada vez mais afiada Carey Mulligan, um contraponto interessante para o protagonista, como a verborrágica e objetiva Jane, uma personagem composta por camadas interessantes inseridas pela atriz. O filme pode encontrar dificuldade para cativar a plateia por conta do próprio estilo de Joel e Ethan, sempre distantes (o que aqui cabe como uma luva), mas certamente é uma das obras mais  equilibradas das suas carreiras. Se possível, merece uma revisitada que, da minha parte , acontecerá em breve.