domingo, 27 de julho de 2014

Planeta dos Macacos - O Confronto



É admirável a forma como esse prequel da franquia Planeta dos Macacos vem sendo conduzido. Em seu segundo capítulo, a série cinematográfica reúne elementos , além dos efeitos especiais de última linha, que deveriam ser essenciais aos blockbusters e que os transformam em verdadeiro entretenimento (sim, porque entretenimento, na raiz de sua definição, não deveria ser equivalente a um produto desleixado em seu tratamento como narrativa, como fazem uns e outros diretores por ai): ritmo, um roteiro inteligente e bem costurado e personagens defendidos com segurança e sensibilidade pelo seu elenco. Planeta dos Macacos – O Confronto, como o seu capítulo anterior Planeta dos Macacos – A Origem, preenche todos esses requisitos com larga folga.

O Confronto se passa quinze anos após os eventos do último longa e traz César e os outros símios bem longe dos humanos, vivendo em harmonia e comunidade no meio da floresta de São Francisco. Estranhando a ausência de contato com humanos durante anos, César e seu grupo nem suspeitam que parte da raça foi dizimada pela “gripe símia”, fruto dos experimentos realizados pelos cientistas com os macacos no filme anterior. No entanto, um grupo de sobreviventes da região tenta entrar em contato com outros humanos mas não consegue pois não tem energia elétrica que faça funcionar os aparelhos de comunicação. A única forma de saírem do isolamento é reativarem uma antiga usina localizada na proximidade da aldeia que César e seus companheiros construíram. Novamente, macacos e homens se reencontram e as divergências e proximidades entre as espécies surgem para moderar uma potencial guerra entre os dois grupos.

O diretor Rupert Wyatt, que comandou Planeta dos Macacos – A Origem, cede espaço para Matt Reeves (de Cloverfield – Monstro e do remake Deixe-me Entrar). Em termos de identidade, a franquia não perde absolutamente nada. As características centrais da trama são mantidas. A atmosfera, no entanto, é completamente diferente, o que é bem coerente com o estágio da história. Em Planeta dos Macacos – O Confronto há um tom de realismo na forma como os personagens encaram uns aos outros e um ligeiro pessimismo no futuro das relações entre seres de espécies diferentes e até mesmo entre seres da mesma espécie, o que faz o filme dialogar com muita veemência com o quadro geopolítico atual.

Novamente, Planeta dos Macacos é exemplar para os filmes da temporada pela forma como maneja tecnologia de última ponta e domínio narrativo. O desenvolvimento dos macacos pela equipe de efeitos visuais, aliado a captura de performances in loco valoriza o trabalho não só da equipe técnica mas também de atores como Andy Serkis (o César, que após anos sendo reconhecido por isso finalmente consegue ser o primeiro nome na lista do elenco nos créditos do filme), Judy Greer (Cornélia), Toby Kebbell (Koba) e Nick Thurtson (Olhos Azuis), todos, inclusive, têm mais destaque que o elenco humano formado por ótimos atores como Jason Clarke, Keri Russell, Gary Oldman e Kodi Smit-McPhee. Além disso, Matt Reeves mantém a trama em ascendência e instiga o interesse do espectador pelos personagens e por seus destinos do início ao fim, dando conta de sequências muito bem executadas (a cena da caçada dos símios na abertura é exemplar). Tudo isso sem querer parecer “intelectualoide” com reflexões impertinentes e extensas demais ou oco ao se tornar refém das suas cenas de ação, como muitos de seus colegas que se aventuram nessa temporada de férias do cinema norte-americano fazem. Pelo contrário, tudo é muito bem dosado, equilibrado em Planeta dos Macacos – O Confronto.

Ao ter completo domínio e timing do quanto deve fornecer de espetáculo visual e do quanto deve fazer o espectador refletir sobre a sua própria condição enquanto ser social e espécie humana – sim, porque, em sua essência Planeta dos Macacos é uma alegoria disso – , Planeta dos Macacos – O Confronto é mais uma contribuição referencial para a indústria do entretenimento cinematográfico dos EUA atual, que em alguns momentos é tão carente de lampejos como esse. O filme nos lembra que, para divertir, uma obra não precisa ser vazia de histórias, sentimentos e discussões e de que para ser “arte” não precisa ser excessivamente técnico ou se despir de qualquer simplicidade. Basta encontrar a dose certa para cada elemento.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Amor Fora da Lei



Uma das principais sensações dos festivais de Sundance e Cannes no ano passado (ambos ocorrem no primeiro semestre de cada ano), Amor Fora da Lei só chega aos cinemas brasileiros agora – e ainda teve sorte de chegar nos cinemas, já que a maioria desses títulos sempre correm o risco de irem direto para DVD ou Blu-Ray. No fundo, como narrativa, o longa de David Lowery é uma cria de Sundance mesmo, apresentando todos os tiques que ficaram notórios no cinema “independente” norte-americano: a montagem e os diálogos entrecortados, os finais abruptos e inconclusivos e por ai vai. Junto a esses fatores, Amor Fora da Lei acaba sendo um western com alusões ao cinema de Terrence Malick, sobretudo em sua fotografia. A soma desses elementos traz ao filme alguns acertos, mas também erros que o transformam em uma obra amarrada e artificial em sua abordagem.

Com o título original Ain’t them bodies saints (e mais uma vez as distribuidoras nos fazem o favor de dar títulos nacionais vergonhosos e que nada condizem com a proposta do filme), Amor Fora da Lei traz a história do jovem casal Bob e Ruth. Eles se envolvem em uma ação criminosa e Ruth acaba atirando em um policial. Bob assume a culpa por Ruth e fica preso por um bom tempo, tempo o suficiente para não conhecer a sua filha Sylvia. Após 5 anos, Bob foge da prisão e parte em uma jornada para reencontrar sua família.

Lowery faz de Amor Fora da Lei um western contemporâneo, toda a atmosfera do longa denuncia isso. A trilha sonora, as caracterizações dos personagens e suas dinâmicas nos dão pistas desse flerte aberto do diretor com o gênero. Contudo, um dos elementos principais do western faltam a Amor Fora da Lei, ritmo, e não é por não seguir essa norma do gênero que o filme derrapa, mas simplesmente porque sua abordagem contemplativa, com diálogos entrecortados e apreço a uma fotografia “natural” faz do longa uma história que se arrasta no seu tempo de projeção, cansando o seu espectador em seus silêncios e nas suas conclusões subentendidas. A sensação que fica é de que o realizador quer conferir valor a sua obra através de um gramática pretensiosa, “superior” a capacidade cognitiva do espectador, mas que no fundo revela-se pouco profunda. E, como sabem, o tropeço não está nessa pouca profundidade da história, mas por ela se apresentar como complexa e metafórica quando, nas suas entranhas, oferece muito pouco nesse sentido.

O trio de atores do longa, por sua vez, compensam esses equívocos, apesar de terem um material questionável em sua densidade nas mãos para trabalhar. A dupla central Rooney Mara e Casey Affleck conferem credibilidade a seus personagens e Ben Foster, na pele de um policial que se aproxima de Ruth, está soberbo como sempre. No mais, como já dito, Amor Fora da Lei sofre com suas repetições, pretensões e seu ritmo “devagar quase parando”, o que, no seu caso, é fatal para a experiência cinematográfica em si.

domingo, 6 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste



Wes Anderson é um perfeccionista. Cuida milimetricamente de cada detalhe do seu filme como um artesão, com o esmero de um pintor diante da sua tela. Esse rigor estético do cineasta proporciona aos seus trabalhos reações  e impressões conflitantes. Por um lado é um diretor com obras cujas marcas são instantaneamente identificáveis, um dos poucos realizadores autorais contemporâneos nos EUA, com universos e narrativas próprias. Contudo, esse esmero acaba proporcionando, ocasionalmente, experiências frias que colocam aspectos técnicos acima da sua própria história. Talvez o diretor tenha encontrado a harmonia entre assinatura e trama em Moonrise Kingdom, filme no qual o rigor e as opções estéticas do diretor se justificaram pela história do primeiro amor e pela perspectiva infantil sobre o mundo dos adultos. Seu novo filme, O Grande Hotel Budapeste segue a trilha dos seus filmes anteriores. Não é certeiro como Moonrise Kingdom, mas é um trabalho executado no mais elevado nível pelo realizador.

No período entre-guerras, o gerente de um grande hotel na Europa, o Grande Hotel Budapeste, acaba criando um vínculo com seu novo empregado, um jovem que fica no lobby para ajudar os hóspedes. Os dois tornam-se grandes amigos e envolvem-se em uma trama misteriosa sobre o assassinato de uma milionária que se hospedou no hotel e mantinha um relacionamento amoroso com o gerente. A situação se complica quando o testamento da falecida é aberto  e sua família descobre que ela deixou um dos quadros da sua coleção para o seu amante, o gerente do hotel. Logo, ele se torna o alvo principal da família gananciosa da mulher e de um assassino profissional.

Como de praxe, todas as características dos filmes de Wes Anderson estão presentes em O Grande Hotel Budapeste (e se você ainda não assistiu filmes como Os Excêntricos Tennenbaums, A Vida Marinha com Steve Zissou, Viagem a Darjeeling e Moonrise Kingdom, só para citar os mais recentes, corra para ver um deles e se familiarizar com o universo e com a proposta do diretor): toda a trama segue em tom cartunesco, diálogos e personagens estranhos, as cores são vibrantes, a narrativa flerta com a perspectiva infantil e com a linguagem teatral… Enfim, tudo que conhecemos e que ele não abre mão (certo está ele) está lá com os mesmos prós e contras que são usuais em sua filmografia, a exceção de Moonrise Kingdom, que, como já dito, é a união perfeita entre o estilo do diretor e sua trama já que é uma história contada do ponto de vista infantil sobre o primeiro amor, como já mencionamos. Aqui, Anderson conta uma trama de suspense envolvendo assassinatos e roubos de obra de arte do jeito que sabemos, o que, se por um lado é fascinante pela sua engenhosidade e detalhismo, por outro pode cansar e distanciar aqueles que não são muito afeitos ao estilo do realizador, que, como já dito, tem marcas muito particulares, ou simplesmente não gostam dele.

No elenco do longa, atores como Jude Law, F. Murray Abraham, Tom Wilkinson, Mathieu Amalric, Lea Seydoux, Adrien Brody, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Edward Norton e participações pontuais de Jason Schwartzman, Owen Wilson, Bill Murray e Tilda Swinton (irreconhecível por trás de uma maquiagem que a envelheceu uns bons anos para viver a milionária amante do gerente do hotel). No entanto, o centro da narrativa está mesmo nos personagens de Ralph Fiennes e o jovem Tony Revolori, o garoto do lobby. Revolori cai como uma luva no papel manifestando em cada quadro o usual frescor de atores em início de carreira. Já Fiennes é um show a parte como o Monsieur Gustave, o gerente do hotel que mesmo envolvido em uma trama complicada de assassinato tenta manter a tradição e o respeito a divisão de classes do período pré-guerra. Gustave é daqueles homens que são tão imersos e apaixonados pelo seu trabalho que mesmo fora do ambiente de laboro age, fala e pensa como se estivesse exercendo a sua função profissional. E Fiennes, como reza a tradição inglesa, lida muito bem com esses elementos, evitando cair na armadilha fácil de transformar o seu personagem em uma figura fria em cena.

Dando continuidade a uma tradição e uma gramática própria, O Grande Hotel Budapeste é um filme de Wes Anderson e isso já diz muito sobre ele. O filme não é o ponto alto da carreira do realizador, nem o seu ponto baixo, é mais um exemplar com a sua peculiar assinatura que mantém a média dos seus trabalhos anteriores. E se o diretor acaba inclinando-se mais para certos aspectos da sua obra em detrimento de outros e apreciá-los é mais uma questão de gosto que uma avaliação objetiva, O Grande Hotel Budapeste tem seus méritosManter-se ativo por anos a fio sem flexibilizar sua assinatura por ditames da indústria sem deixar de ser peça fundamental nela já é, por si só, uma razão para elogiar qualquer exemplar da filmografia de Anderson.