terça-feira, 15 de julho de 2014

Amor Fora da Lei



Uma das principais sensações dos festivais de Sundance e Cannes no ano passado (ambos ocorrem no primeiro semestre de cada ano), Amor Fora da Lei só chega aos cinemas brasileiros agora – e ainda teve sorte de chegar nos cinemas, já que a maioria desses títulos sempre correm o risco de irem direto para DVD ou Blu-Ray. No fundo, como narrativa, o longa de David Lowery é uma cria de Sundance mesmo, apresentando todos os tiques que ficaram notórios no cinema “independente” norte-americano: a montagem e os diálogos entrecortados, os finais abruptos e inconclusivos e por ai vai. Junto a esses fatores, Amor Fora da Lei acaba sendo um western com alusões ao cinema de Terrence Malick, sobretudo em sua fotografia. A soma desses elementos traz ao filme alguns acertos, mas também erros que o transformam em uma obra amarrada e artificial em sua abordagem.

Com o título original Ain’t them bodies saints (e mais uma vez as distribuidoras nos fazem o favor de dar títulos nacionais vergonhosos e que nada condizem com a proposta do filme), Amor Fora da Lei traz a história do jovem casal Bob e Ruth. Eles se envolvem em uma ação criminosa e Ruth acaba atirando em um policial. Bob assume a culpa por Ruth e fica preso por um bom tempo, tempo o suficiente para não conhecer a sua filha Sylvia. Após 5 anos, Bob foge da prisão e parte em uma jornada para reencontrar sua família.

Lowery faz de Amor Fora da Lei um western contemporâneo, toda a atmosfera do longa denuncia isso. A trilha sonora, as caracterizações dos personagens e suas dinâmicas nos dão pistas desse flerte aberto do diretor com o gênero. Contudo, um dos elementos principais do western faltam a Amor Fora da Lei, ritmo, e não é por não seguir essa norma do gênero que o filme derrapa, mas simplesmente porque sua abordagem contemplativa, com diálogos entrecortados e apreço a uma fotografia “natural” faz do longa uma história que se arrasta no seu tempo de projeção, cansando o seu espectador em seus silêncios e nas suas conclusões subentendidas. A sensação que fica é de que o realizador quer conferir valor a sua obra através de um gramática pretensiosa, “superior” a capacidade cognitiva do espectador, mas que no fundo revela-se pouco profunda. E, como sabem, o tropeço não está nessa pouca profundidade da história, mas por ela se apresentar como complexa e metafórica quando, nas suas entranhas, oferece muito pouco nesse sentido.

O trio de atores do longa, por sua vez, compensam esses equívocos, apesar de terem um material questionável em sua densidade nas mãos para trabalhar. A dupla central Rooney Mara e Casey Affleck conferem credibilidade a seus personagens e Ben Foster, na pele de um policial que se aproxima de Ruth, está soberbo como sempre. No mais, como já dito, Amor Fora da Lei sofre com suas repetições, pretensões e seu ritmo “devagar quase parando”, o que, no seu caso, é fatal para a experiência cinematográfica em si.

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