domingo, 31 de agosto de 2014

Drops: Lucy


Lucy surge da mente de Luc Besson a partir de uma ideia estapafúrdia. O filme tem uma premissa questionável pela própria ciência (a de que usamos apenas 10% da capacidade de nosso cérebro) e o realizador mergulha fundo nessa ideia. Assim, o projeto tem um início promissor que começa a desandar quando sua protagonista acaba absorvendo em seu corpo uma dose altíssima de uma droga que potencializa as habilidades humanas. Scarlett Johansson, uma "super-mulher", mostra-se cada vez mais eficiente como heroína de ação - a atriz parece ter enfim encontrado seu lugar no cinema. No entanto, as ideias de Besson e a forma com que ele compra sua própria "viagem" acaba prejudicando Lucy e qualquer sensação agradável de entretenimento que possa causar na plateia é atropelada pelo irrefreável diretor.

Drops: Sex Tape - Perdido na Nuvem


Segunda bomba lançada com a Cameron Diaz no mesmo ano. No entanto, a diferença é que Mulheres ao Ataque gerava constrangimento pela sua condução e pelo seu discurso. Em Sex Tape - Perdido na Nuvem o embaraço vem pela forma e pelo conteúdo. A comédia sequer deveria ser enquadrada no gênero pois não provoca uma situação engraçada sequer, apenas cria uma dinâmica que tenta inutilmente gerar um riso no espectador através de recursos esperados pela temática. Como qualquer outro filme que se categorize como comédia nos últimos anos, Sex Tape adota a estrutura e a estética televisiva sem o menor apuro. O pior é ter a percepção aqui que qualquer derrapada foi provocada com a sensação de estar fazendo a coisa certa. Não estavam.

Drops: Os Mercenários 3


Como ficou tão sério? Os Mercenários sempre foi uma franquia que desde o início teve como proposta colocar o universo dos filmes de ação oitentista do avesso. Auto-referencial, o filme reuniu algumas das figuras mais icônicas da época liderada por um de seus principais representantes, Sylvester Stallone. Os Mercenários 3 é um filme sombrio e que faz da repetição um cenário ausente de qualquer dose de humor, ou seja, uma abordagem totalmente contrária ao que vinha sendo desenhado desde então e que fazia do projeto um espetáculo de entretenimento com plena consciência de suas limitações e propósitos. Esse terceiro filme converteu todo o legado da série em um filme de ação qualquer, imerso na banalidade e indiferença do público. Pena.

domingo, 17 de agosto de 2014

As Tartarugas Ninja



Costuma-se dizer que o universo sombrio e realista da trilogia O Cavaleiro das Trevas e dos X-Men, de Christopher Nolan e Bryan Singer, respectivamente, influenciou todos os filmes de super-heróis que os sucederam. De repente, todo longa protagonizado por indivíduos com super-poderes precisam justificar sua urgência colocando seus personagens em dramas existenciais e associações com problemas políticos e sociais como o terrorismo, o preconceito etc. Muitas vezes isso não é necessário, já que Batman e o grupo do Professor Xavier se apresentam assim porque seus contextos exigem isso deles. Em muitos casos, a única coisa que se exige desses longas é que eles entretenham e embarquem no teor fantástico de suas respectivas premissas, claro que tudo isso obedecendo às “regras” básicas de qualquer filme : desenvolvimento de personagens, dinamicidade do roteiro e apuro técnico. Afinal, entretenimento não significa burrice ou desleixo. Dito isso, vamos a As Tartarugas Ninja, um filme que preferiu buscar a inspiração em toda sorte de histórias de super-heróis, menos na sua própria origem.

O novo longa baseado nos icônicos personagens de Peter Laird e Kevin Eastman retoma a gênese dos heróis, tartarugas mutantes com incríveis habilidades para técnicas de luta oriental que vivem no esgoto e atuam clandestinamente como vigilantes em Nova York. Eles são descobertos pela repórter de TV April O’Neil, que enxerga neles a sua chance de ser levada a sério no trabalho, deixando de cobrir pautas frívolas de entretenimento. No entanto, April descobre que Michelangelo, Raphael, Leonardo e Donatello têm uma conexão com o seu passado e com o trabalho do seu falecido pai.

Produzido por Michael Bay, diretor responsável pela franquia Transformers, entre outras bombas cinematográficas, As Tartarugas Ninja foi dirigido por Jonathan Liebesman, de Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles e Fúria de Titãs 2, mas isso é um mero detalhe. Do início ao fim, As Tartarugas Ninja se apresenta como um autêntico produto “Michael Bay”, exibindo as marcas questionáveis da filmografia do diretor, desde a inserção nada discreta da publicidade, como no momento em que o mestre Splinter oferece aos tartarugas uma pizza de uma cadeia de restaurantes famosa em todo o mundo, até o machismo que costuma pontuar a passagem de suas personagens femininas na história, em dado momento de extremo perigo, por exemplo, eles têm tempo de fazer uma “brincadeira” com o traseiro de April O’Neil, uma Megan Fox que, por sinal, surge visualmente impecável nos momentos menos propícios como se estivesse participando de uma propaganda de cosméticos. Somam-se a isto as corriqueiras extensas e hiperbólicas sequências de ação típicas dos filmes de Bay e os movimentos de câmera aleatórios do realizador, como a insistência da câmera filmar os seus personagens de cima para baixo sem a menor justificativa.

Contudo, o que mais incomoda em As Tartarugas Ninja é o fato do filme se levar a sério demais. Tendo como protagonistas tartarugas (!), ninjas (!!), mutantes (!!!), adolescentes (!!!!) apaixonadas por pizza (!!!!!) e treinadas por um rato que as adota como pai (!!!!!!!!!) era de se esperar que o longa utilizasse isso a seu favor e “brincasse” mais com o espectador e com o próprio universo, como a série animada e os filmes anteriores faziam. No entanto, Bay e Liebesman preferem transformar As Tartarugas Ninja em um filme sombrio com um leve teor trágico, ou seja, erraram por completo no tom da história. Pegaram pesado demais.

As Tartarugas Ninja , no final das contas, acaba sendo um projeto sintomático de uma prática recorrente entre realizadores cinematográficos e estúdios. Os envolvidos na adaptação de um clássico da nossa infância preferiram olhar para o que já deu certo em outros contextos, sem levar em consideração que esses filmes que se tornaram referência no universo dos super-heróis tiveram êxito porque atenderam a demandas do próprio material que tinham em mãos. Se Michael Bay e Jonathan Liebesman voltassem seus olhos para As Tartarugas Ninja em primeiro lugar e não para o que está fora do projeto, talvez concebessem um filme que, no mínimo, nos fizesse lembrar da essência da história original. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Drops: Nebraska


Nebraska é uma história sobre gerações. Trata da velhice, do estágio final de uma vida, e de como nós, jovens, lidamos com essa fase de nossos pais, como enxergamos ela. No entanto, diferente da melancolia de Amor, por exemplo, primoroso trabalho de Michael Haneke, Alexander Payne opta por abordar a temática com o seu costumeiro e discreto humor. No filme, um homem decide realizar uma viagem até o Nebraska após receber uma publicidade que o faz entender que ele ganhou uma bolada em dinheiro. Todos na sua família percebem que tudo não passa de uma fantasia construída pela cabeça enferma do patriarca, mas o filho mais novo dele, David, decide embarcar na jornada junto com o pai já que não encontra uma forma de remover a viagem dos planos dele. Fotografado em um preto e branco que na mais imediata interpretação está vinculada ao verdadeiro protagonista dessa história, o passado personificado pelo seu protagonista, Nebraska é um Alexander Payne bem mais interessante que aquele que vimos em Os Descendentes e bem mais próximo daquele que concebeu As Confissões de Schimidt ou Sideways. O elenco principal é a alma do projeto, principalmente Bruce Dern, que interpreta o personagem principal, e a maravilhosa June Squibb, impagável como sua esposa Kate (a atriz tem os melhores momentos e as melhores linhas do roteiro do filme, não há dúvidas).

Drops: Gloria


Glória é mais um longa a ser louvado por ter como protagonista uma mulher que já não está mais na faixa dos 30 anos e não apresenta super-poderes, mas que não é menos interessante por isso, pelo contrário. O chileno Sebastián Lelio conta a história de uma mulher com mais de 50 anos que se liberta na noite ao frequentar clubes de dança. Em uma dessas saídas noturnas, a protagonista conhece um homem e eles passam a ter uma relação muito intensa. No entanto, diferente dela, ele não consegue assumir o compromisso de um relacionamento na idade deles, o que acaba trazendo problemas para ambos. Lelio está preocupado com o interior dos seus personagens e utiliza pouquíssimos artifícios visuais para contar sua história, sua atenção é toda voltada para o cotidiano e para a estupenda interpretação de Paulina Garcia, que despe-se (literalmente) de qualquer pudor para viver essa personagem à flor da pele em suas paixões. Toda a razão de ser desse projeto está nas mãos, nos gestos, nos olhares e na respiração de Garcia que faz a plateia compreender os complexos dilemas de sua Gloria e criar uma cumplicidade com ela.

Drops: Guardiões da Galáxia


Que grande fase da Marvel Studios! Após o eletrizante Capitão América 2 - O Soldado Invernal, a potência mais nova da indústria do cinema nos entrega um dos filmes mais divertidos do ano. Guardiões da Galáxia é cinemão pipoca sem a menor vergonha de se assumir como tal. Irreverente, pop e levemente anárquico, o grupo liderado pelo caçador de recompensas Star Lord é um irresistível coletivo de desajustados inseridos em um universo desconhecido do grande público, o que facilita por completo nossa imersão nele. O diretor James Gunn concebeu em cores, texturas e vida uma nova dimensão narrativa para o estúdio que se iguala às melhores matinês da década de 1980, não por acaso, período reiteradamente evocado no longa através da compilação de canções que seu protagonista tem como uma relíquia das mais preciosas. Não dá para encaixar Guardiões da Galáxia em qualquer uma das empreitadas anteriores da Marvel, aliás, para o bem ou para o mal, nem parece um filme da Marvel, é outra coisa, algo completamente novo, o que revigora nossas esperanças para o futuro do estúdio. Ainda bem, porque mais filmes como Homem de Ferro 3 e Thor: O Mundo Sombrio não dá.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Só Deus Perdoa


 
Ambientado em um universo diferente, Só Deus Perdoa mantém alguns traços do último trabalho do diretor Nicolas Winding Refn, Drive, que o consagrou com o prêmio de melhor diretor em Cannes no ano de 2011. Refn parece interessado em fazer experiência com gêneros cinematográficos e toda a sua trama é calcada na sede de vingança dos seus personagens. É o “olho por olho, dente por dente”, todos eles têm contas a acertar e parece não sobrar pedra sobre pedra no final da história. No entanto, as semelhanças param por aqui. Só Deus Perdoa, que por enquanto só teve os seus direitos de exibição adquiridos para a TV a cabo no Brasil (nada de distribuidora no cinema ou no mercado doméstico), tem muito menos viço do que a empreitada anterior do realizador.

Toda a narrativa de Só Deus Perdoa se passa em Bangkok e acompanha a jornada de Julian, papel de Ryan Gosling, na tentativa de honrar o nome da sua família. O irmão mais velho de Julian foi assassinado após estuprar e matar uma jovem prostituta. A mãe do rapaz e chefe de uma organização criminosa articulada em Bangkok dá ordens expressas ao seu grupo e a Julian: eles devem procurar o assassino do seu primogênito e o matar com requintes de crueldade. A partir dai a rivalidade interna e externa do grupo começa a desencadear um rastro de sangue que parece não ter fim. Ao mesmo tempo, Julian tem que lidar com um conflito interno antigo, a mágoa e o sentimento de rejeição que tem do relacionamento com sua mãe.

Se Drive flertava com o western e buscava referências oitentistas, Só Deus Perdoa dialoga com o cinema oriental e com os filmes de gângsters. Refn apresenta algumas abordagens interessantes, como acontecia em Drive, na tentativa de fazer algumas leituras pessoais sobre os gêneros, mas cai em uma excessiva e escancarada auto-apreciação. Durante todo o longa a sensação que se tem sobre Refn é que ele está contemplando a si próprio e suas habilidades e inventividades cinematográficas, fazendo reverência a cada segundo por um “insight” qualquer que tenha ao longo de Só Deus Perdoa, o que torna o filme emperrado. Esteticamente, Só Deus Perdoa é impecável. Desde a direção de arte que valorizou as referências orientais, passando pela fotografia que prioriza o lugar das cores e da luz, não há o que se questionar sobre o longa nesses departamentos. O empenho de Refn e sua equipe é louvável nesse sentido, mas o êxito localizado não ameniza um dos maiores defeitos da obra que é o de olhar para o próprio umbigo. A todo momento temos a impressão de que Refn está gritando pela atenção e reconhecimento a qualquer feito técnico, o mínimo que seja. Tudo isso torna a “viagem” em Só Deus Perdoa enfadonha e ausente de propósito.

Ryan Gosling faz um tipo muito parecido com o que interpretou em Drive. Julian surge em cena cansado (parece levar o peso de uma vida), entediado, calado e, ao mesmo tempo, capaz de cometer atrocidades. No entanto, Refn prefere manter o personagem no subtexto e a interpretação de Ryan Gosling, como aconteceu em outros momentos com essa mesma orientação porém com resultados melhores (Tudo pelo Poder e o próprio Drive), não funciona, parece faltar alguma peça na engrenagem e Julian tem menos camadas do que sugere o filme. Kristin Scott Thomas, por sua vez, é a força motriz desse longa, a sua melhor “peça”. Como uma grande chefe do tráfico, a personagem é interpretada por Thomas como uma daquelas mulheres dominadoras, implacável com sua cria e fria com o sentimento alheio. A atriz está soberba no papel e é sempre motivo para manter o espectador fiel ao longa, aguardando os seus próximos passos, sempre imprevisíveis.

Só Deus Perdoa acaba sendo uma jornada auto-centrada de Nicolas Winding Refn após o interessante Drive. O novo longa do diretor é uma embalagem ornada de belíssimos atrativos, mas ausente de um conteúdo que dê sentido a sua própria existência. Talvez da próxima vez, Refn se redima de um trabalho como esse e volte a nos surpreender. Com Só Deus Perdoa ele só conseguiu a indiferença.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Drops: Transformers - A Era da Extinção


Transformers- A Era da Extinção é o tipo de filme no qual muita coisa acontece, mas ao mesmo tempo nada acontece. Entenderam? Vou explicar... Aqui, como em qualquer filme dirigido por Michael Bay, especialmente os longas dessa franquia de ação, são gastos dólares e mais dólares em efeitos especiais e em quase três horas de projeção (exageradamente desnecessárias) só existem cenas de ação e mais nada. E já estou ouvindo, ou lendo, algumas defesas: "Ah! Mas é só diversão, não precisa de 'história'". Não sei vocês, mas um blockbuster torna-se ainda mais especial quando se valoriza como narrativa e aguentar três horas de diálogos estúpidos entre robôs e ausência completa de personagens humanizados (não necessariamente humanos) é um suplício. Maior contraponto possível a esse longa na temporada são os bem-sucedidos X-Men - Dias de um Futuro Esquecido e Planeta dos Macacos - O Confronto que não esqueceram sua condição de "cinema" e ainda proporcionaram o mais elevado nível de diversão que um blockbuster pode gerar. Aprende, Michael Bay, porque com o dinheiro que você gasta nessa franquia e um "tiquinnho", mas um "tiquinho" de esforço mesmo, você poderia fazer algo que não fosse tão entediante quanto isso aqui.