terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sin City 2 - A Dama Fatal



Para apreciar cada fibra pulsante de Sin City é preciso reforçar duas referências essenciais do projeto: a) trata-se de uma franquia que incorpora literalmente a linguagem das HQs para o cinema; b) HQs que, por sua vez, se categorizam como neo-noir, revitalizando um dos gêneros mais interessantes de Hollywood que traz em sua composição histórias narradas em off  por detetives durões e mulheres sensuais de caráter ambíguo ou extremamente frágeis, tendo como cenário os becos sujos de uma grande cidade dominada por chefes do crime.

Robert Rodriguez e Frank Miller retornam a cidade do pecado em Sin City 2 – A Dama Fatal. Como no primeiro filme, a tramaé dividida em três segmentos, porém, diferente do longa anterior, as tramas se encontram de alguma maneira. Dwight (Clive Owen foi substituído por Josh Brolin) está às voltas com os problemas de Ava (Eva Green), um antigo amor que confidencia ser agredida pelo marido milionário. A segunda trama é protagonizada por Johnny (Joseph Gordon-Levitt) um jovem impetuoso que acaba de chegar a Sin City e desafia o Senador Roark (Powers Boothe) em um jogo de sorte. A terceira história acompanha a perda da inocência da stripper Nancy (Jessica Alba) após a morte do seu protetor Hartigan (Bruce Willis). Todas esses segmentos são “flanados” por Marv (Mickey Rourke), cujo papel na trama é discreto, mas determinante em todas elas.

De Sin City – A Cidade do Pecado Sin City 2 - A Dama Fatal pouquíssimo foi alterado. Rodriguez e Miller permaneceram fiéis a sua proposta inicial. Contudo, esse segundo capítulo (e provavelmente o último, dado o seu fracasso retumbante nas bilheterias americanas, o que é uma pena) tem seus méritos próprios. Sin City – A Cidade do Pecado praticamente inaugurou uma linguagem emulada dos quadrinhos, sem a qual não teríamos Zack Snyder, cria imediata dessa “escola” com 300 e Watchmen. O êxito de Rodriguez e Miller em Sin City 2 advém da manutenção das suas bases, dentro de um cenário no qual sua proposta já foi repetida à exaustão. Eles acertam em cheio porque esse “quadrinho em movimento” talvez só funcione mesmo no universo de Sin City.

Em A Dama Fatal, figuras como Mickey Rourke, Powers Boothe e Rosario Dawson se sentem à vontade ao retornar com seus respectivos personagens. E se perdemos figuras como Clive Owen, Benicio del Toro e Bruce Willis (sim, porque aqui ele só surge como um fantasma), por outro lado ganhamos Joseph Gordon-Levitt e, claro, a talentosíssima e linda Eva Green. Por sinal, mais do que acertada a escolha de Rodriguez e Miller pela atriz para viver a personagem título da continuação. Os realizadores batalharam durante anos para ter Angelina Jolie na pele de Ava mas, os fãs da Sra. Pitt que me desculpem, não existe atriz no cinema atual que convença mais o público do seu sex appeal ao segurar uma arma de fogo e trajar apenas um hobby transparente do que Eva Green.

Divertido e coerente, Sin City 2 – A Dama Fatal confirma que a franquia é uma das maiores realizações de Robert Rodriguez no cinema. Com um elenco e dois diretores que aproveitam cada “brinquedo” desse parque de diversões e nos oferecem a experiência do espírito do cinema noir com altas doses de “hqísmos”, o longa compensa o espectador a cada segundo da sua projeção.

Será que?



Usar clichês não é ruim. Infelizmente o clichê acabou tornando-se um argumento frequente no senso comum quando se quer justificar a não apreciação de alguma obras, sobretudo comédias românticas. Repito, o clichê não é ruim, o que é ruim é usar mal um clichê. A comédia romântica indie Será que? é uma coleção de clichês do gênero. Trilha sonora cool; um protagonista masculino desajustado, curtindo uma fossa após o rompimento de um relacionamento traumático; uma protagonista feminina absolutamente adorável, mas confusa sobre os seus sentimentos; os amigos “loucos”  e confidentes dos dois; os desencontros amorosos; o antagonista indesejável… Apesar de ser tudo muito igual ao que já foi visto por ai, tudo em Será que? é muito diferente também.

No filme, Daniel Radcliffe vive Wallace, um estudante de medicina que abandona a carreira após descobrir que sua namorada o traiu com um médico mais velho. Tentando se recuperar do baque ele vai a uma festa e conhece Chantry, personagem de Zoe Kazan. Os dois descobrem que têm muitas coisas em comum, porém tudo promete ficar só na amizade já que ela tem um namorado. Wallace e Chantry passam algum tempo podando suas intenções amorosas até que o namorado dela sai do Canadá a trabalho e essa distância a aproxima ainda mais do amigo.

Como já sinalizado, Será que? não apresenta grandes saltos para a história do cinema, nem é isso que ele pretende fazer. O filme de Michael Dowse gira em torno de temas corriqueiros como as tolices dos casais em suas relações amorosas e no tempo que perdem entre discussões e negações de sentimentos, a magia do encontro, a dor da traição e a dificuldade que é se recuperar de um grande “chute no traseiro”.

O que diferencia Será que? de qualquer outro filme do gênero é que ele não artificializa as suas situações em torno de uma estética e de uma narrativa pasteurizante, clean. Há personagens e preocupações que de fato são reais e não forjadas, os personagens se questionam sobre suas próprias constâncias e erros no universo dos encontros e desencontros amorosos. Daniel Radcliffe e Zoe Kazan  – como são adoráveis, dá vontade de ser amigo dos dois! – são jovens reais, não Ashton Kutcher, Cameron Diaz ou Kate Hudson em busca de um pé de meia a qualquer custo. Suas imperfeições físicas e comportamentais os tornam atraentes e é por esse caminho que o filme consegue criar empatia no espectador.

Se tratando de um longa protagonizado por Daniel Radcliffe é preciso fazer um adendo. Será que? representa mais uma decisão madura e consciente do ator nessa fase pós-Harry Potter. Ciente de que é difícil superar e desgarrar-se do estigma de ter vivido um dos principais ícones do cinema contemporâneo, Radcliffe parece não criar muitas expectativas e nem ambiciona transições radicais. Assim como sua colega de elenco, Emma Watson, o ator tem “comido pelas beiradas”, encaixando-se em produções como essa, a série Diário de um jovem médico, o drama Versos de um Crime…

Voltando a Será que?, o filme não é revolucionário. Ele apenas mostra como o caminho do clichê pode ser uma ótima alternativa desde que muito bem manipulado. Nesse caso, o olhar de um diretor inteligente, que soube dosar suas pretensões e possibilidades, trouxe para o público um filme sincero, crível, humano, sem deixar de mexer com nosso ideário romântico, nossas fantasias e expectativas amorosas. Ou seja, o melhor de dois mundos, e ainda tem a Zoe Kazan!


domingo, 21 de setembro de 2014

Mesmo se nada der certo



John Carney está se tornando uma espécie de Cameron Crowe indie. Popularizado com o drama Apenas uma Vez, vencedor do Oscar de melhor canção em 2009 com “Falling Slowly”, o realizador não esconde sua paixão pela música e entende que essa forma de expressão é a que melhor define e retira da banalidade seus personagens comumente desajustados com o seu tempo e com os imperativos do mercado fonográfico. E se em Apenas uma Vez tínhamos o casal de desconhecidos Glen Hansard e Markéta Irglová, em Mesmo se nada der certo a dupla central é representada por Keira Knightley e Mark Ruffalo, que, de uma certa forma, apresentam preocupações semelhantes àquelas vivenciadas pelos personagens de Hansard e Irglová.

Mesmo se nada der certo tem início quando um produtor musical chamado Dan (Ruffalo) vive uma de suas maiores crises pessoais e profissionais. A vida do sujeito está virada do avesso, separou-se da mulher, tem uma relação distante e complicada com a filha adolescente e está cansado dos ditames da indústria da música que lhe empurram “goela abaixo” jovens artistas sem o menor talento para a coisa. No outro polo do filme encontramos Gretta (Knightley), uma jovem inglesa que é uma brilhante compositora e cantora, mas que é avessa ao estrelato. Gretta está em Nova York acompanhada do namorado, cuja carreira musical é catapultada graças ao sucesso de uma de suas canções na trilha sonora de um filme. Contudo, Gretta descobre que o rapaz lhe traiu e decide abandoná-lo. Dan e Gretta se encontram e, diante das portas fechadas das gravadoras, ele propõe a ela gravar um álbum pelas ruas da cidade, a céu aberto. A experiência será transformadora para os dois personagens na medida em que descobrem suas afinidades musicais.

Estética e narrativamente, Mesmo se nada der certo não traz grandes saltos, até porque não é essa a ambição do seu realizador. John Carney investe na combinação entre o visual atraente dos arranha-céus de Nova York, o charme e a competência de Keira Knightley e Mark Ruffalo e uma trilha sonora certeira. O filme pode não priorizar uma profundidade maior dos seus temas ou mesmo tratar seus personagens com uma leve superficialidade, mas não resta dúvida de que, em diversos momentos, a simplicidade do realizador e de sua história tocam fundo o espectador.

Dan e Gretta parecem uma versão suave do Llewyn Davis do mais recente filme dos irmãos Coen. Dois sujeitos desajustados com a ordem de prioridades daqueles que estão ao seu redor. O encontro entre esses dois personagens selam a consciência de que não estão sós, de que não entrar em conformidade com a maioria não é estranho, traz uma calma para ambos, uma perspectiva até mais tolerante para com aqueles que entram na lógica industrial de produção musical. E se por um lado temos Mark Ruffalo em sua natural boemia, do outro temos uma Keira Knightley à flor da pele, uma espécie de boneca delicada, sensível, graciosa. Em torno dessas duas figuras, temos James Corden, Catherine Keener, Hailee Steinfeld e Adam Levine, todos dando conta do recado.

Em todo o filme, há um sentido de urgência pelo compartilhamento. Os personagens ouvem suas canções em iPods com entradas duplas para fones. A gravação da banda é feita ao ar livre em meio a correria rotineira de uma grande cidade. John Carney parece querer dizer que a vida e a experiência artística torna-se mais rica quando compartilhada, ela adquire sentido em contato direto com a energia pulsante da vida, das pessoas. É nesse encontro que cenas banais como as que são apontadas pelo personagem do Mark Ruffalo, em determinado momento do filme, ganham vida. Agradecemos a John Carney por compartilhar essa experiência conosco.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Era uma vez em Nova York



Era uma vez em Nova York é o tipo de projeto que já nasce com grandes chances de dar certo. O filme tem um excelente diretor, o pouco reconhecido James Gray, mas que dirigiu filmes cultuados por instâncias da crítica como Amantes e Os Donos da Noite e aqui, assim como fez no primeiro longa citado, assina o roteiro com Ric Menello. Além disso, o longa conta com o elenco dosado pela sensibilidade de Marion Cotillard e pela entrega de Joaquin Phoenix. Para completar, uma equipe competente formada, entre outros, pelo diretor de fotografia Darius Khondji (Seven) e pela figurinista Patricia Norris (12 Anos de Escravidão), que fazem uma reconstituição de época apurada, com escolhas que não só nos leva a uma viagem no tempo, mas também dialogam com as emoções dos personagens e com os caminhos que o realizador pretende percorrer na história. No entanto, ao contrário do que vinha acontecendo na carreira de Gray até então - como já sinalizado, apesar do aval da crítica, a carreira do diretor parecia permanecer em alguma zona desconhecida do grande público -, a morna recepção a Era uma vez em Nova York parece ser justa. Não se trata do melhor exemplar da carreira do seu realizador.

Nova York, 1921. Ewa (Cotillard) é uma polonesa recém chegada que é afastada da irmã pois esta contraiu uma doença pulmonar durante a viagem e, por motivos de segurança, teve que ser isolada em quarentena. A vinda de Ewa para os EUA é obstacularizada ainda por suspeitas de que ela seja uma mulher de "vida fácil". A polonesa é salva por Bruno Weiss (Phoenix) que consegue a liberação dela no país. Contudo, para permanecer em Nova York e vislumbrar a possibilidade de se reencontrar com sua irmã, Ewa terá que trabalhar para Bruno como cortesã junto ao grupo que ele agencia nos becos da cidade. O destino de Ewa se transforma quando ela conhece Orlando (Jeremy Renner), um jovem mágico que se apresenta na casa de shows onde Bruno leva suas garotas. Logo, Bruno e Orlando disputam Ewa, que fica dividida entre a possibilidade de libertar-se daquela vida e a oportunidade de ver novamente Magda, sua irmã doente.

O que mais impressiona em Era uma vez em Nova York é como James Gray se perde nas armadilhas do melodrama de tal maneira que chega um momento do filme em que ele passa a sensação para o espectador de que não sabe resolver sua trama e de que não tem segurança sobre a natureza ou sobre as transformações dos seus personagens. Na dúvida, o cineasta recorre ao clichê da "moça sofrida" e joga toda a responsabilidade do filme nos colos de Marion Cotillard, que a despeito da tentativa de construir um personagem minimamente multidimensional (e ela tenta ao retratar Ewa como uma mulher simples e, por vezes, submissa), acaba "caindo" em armadilhas que a tornam aborrecida.

Gray até que se redime na sua cena final e consegue, com um duelo entre Joaquin Phoenix e a própria Cotillard, conferir uma certa substância a sua história, mas até chegar a esse momento, o realizador se perde tanto e arrasta tanto a sua trama que o desfecho acaba se tornando um insight tardio. Entre os esforços de Marion Cotillard e Joaquin Phoenix (louváveis), está um Jeremy Renner completamente dispensável, cujo personagem não diz a que veio. Como já mencionado no parágrafo de abertura, o longa vence pelo seu rigor estético, técnico, mas carece de um rumo mais consistente.

Curioso notar que um diretor que fez um dos filmes mais maduros e realistas sobre os relacionamentos amorosos do cinema contemporâneo, Amantes, evitando por completo o sentimentalismo, mas não abandonando a sensibilidade, tenha sido seduzido pelas teias de um melodrama mal feito em Era uma vez em Nova York. Talvez não seja um terreno para James Gray, talvez ele tenha que retornar a seus dramas policiais familiares ou a simplicidade dos relacionamentos humanos... Com esse filme, a sensação que fica é de que a responsabilidade de atender a tantas demandas - demandas essas que talvez nem ele mesmo esperava - o levou a um labirinto sem saída.

Drops: O Doador de Memórias


Chegamos ao momento em que Hollywood redescobre as distopias e a ressonância dela nas plateias mais jovens. Depois de Jogos Vorazes e Divergente, O Doador de Memórias, não tão bem sucedido nas bilheterias quanto os anteriores, mas bem melhor que o segundo, que de bom mesmo só o desempenho da sua protagonista Shailene Woodley. O "porém" de O Doador de Memórias é que ele é um filme irregular. O longa do veterano Philip Noyce tem ótimos insights, como a discussão que abre sobre o conhecimento ou sobre como, mesmo diante do sofrimento e de toda sorte de situações negativas, a vida é bem melhor com suas imperfeições. No entanto, o filme derruba todas as suas propostas com decisões que o tornam arrastado em seu terceiro ato e com um discurso sobre o "lugar" dos mais velhos na sociedade que, intencionalmente ou não, torna-se uma grande gafe (pensem no que as figuras dos anciões representam no filme e a posição dele sobre a forma como os jovens devem se portar diante desse grupo). Do elenco, o grande destaque é Jeff Bridges e o jovem Brenton Twaites, apenas correto na pele do protagonista. Sobre Meryl Streep (sim, eu sei que vocês esperavam por esse momento),a personagem só fica na superfície e nem mesmo uma atriz como ela é capaz de dar profundidade a uma mulher com propósitos e ideais tão simples, mecânicos. Meryl é uma grande atriz, mas nem ela tira leite de pedra.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Drops: Hércules


Alguém se lembra de Troia? Aquele filme com Brad Pitt que fez o favor de estragar uma das melhores histórias sobre mitos gregos ao simplesmente "desmistificá-los". Pois é, na leva de filmes que tentam transformar mitos em personagens reais (a trilogia O Cavaleiro das Trevas fazendo escola fora dos domínios do universo dos super-heróis - bom, nem tão fora assim), chegamos ao Hércules, com Dwayne Johnson. O longa poderia ser um entretenimento saudável não fosse essa necessidade incoerente de ancorar a fantasia na realidade, algo que torna-se cada vez mais incompreensível e desnecessário em Hollywood. Não tem por que ter vergonha do seu pezinho na fantasia e embarcar em um universo totalmente descolado do nosso. Johnson convence no papel, Brett Ratner tem uma direção eficiente (nada brilhante, mas digna), mas esse "calcanhar de Aquiles" mata qualquer prazer em assistir mais essa leitura do mito do semideus filho de Zeus e odiado por Hera.

Magia ao Luar



Virou recorrente, mas é necessário dizer: um filme razoável do Woody Allen é melhor do que boa parte dos melhores filmes de muitos realizadores. E não deixa de ser verdade. Dirigindo um filme por ano desde os anos de 1970, o cineasta norte-americano possui uma vitalidade que, a despeito de seus detratores, se mantém acesa. Ainda que, em sua atual, a qualidade das produções formem um ciclo com ótimos filmes, como Blue Jasmine (2013) e Meia Noite em Paris (2011), seguidos de outros não tão bons, como Para Roma com Amor (2012) e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010), Woody Allen tem sempre alguma coisa a dizer, não se esgota intelectualmente. E considerando a escassez de ideias da cinematografia  contemporânea que tem aberto espaço cada vez mais para propostas de gosto duvidoso, sobretudo direcionada para públicos mais jovens com a pretensão de ser mais do que realmente é, isso é um grande conforto.

Dita essa rotineira introdução para todo filme do Allen avaliado como mediano, vamos a Magia ao Luar, mais recente trabalho do cineasta, que se enquadra nesse grupo, o que, óbvio, não o desmerece de forma alguma. O longa acompanha um aristocrata inglês que se apresenta como oriental em um show de mágica e é convidado por um colega para conhecer uma garota que tem exercido um grande fascínio em uma família muito rica. A jovem afirma ter visões do futuro e do passado e acaba, junto com sua mãe, arrancando a confiança de uma crédula viúva e do seu filho, um rapaz que acaba pedindo sua mão em casamento. Cético, o protagonista passa a se afeiçoar pela garota e, pouco a pouco, começa a desconfiar de que suas próprias convicções estão equivocadas.

Como segue a tradição na filmografia de Woody Allen, o protagonista vivido por Colin Firth é uma representação do próprio cineasta e das suas angústias. O personagem não acredita em qualquer questão que não possa ser explicada pela ciência, pela lógica, enfim, por qualquer ferramenta tradicionalmente associada a razão. O contato com a jovem que alega possuir dons telepáticos, vivida por Emma Stone, faz com que esse personagem duvide, por um instante, das suas próprias convicções. É a velha e frágil oposição entre a razão e a emoção, a ciência e a religião, a cognição e o afeto, a matéria e a espiritualidade. Dois lados de uma disputa postos em confronto para confirmarmos que não, um não pode viver sem o outro. Allen não abandona suas convicções, muito mais próximas das convicções do personagem interpretado por Firth, nem deixa de apresentar alguns traços recorrentes de suas representações (as classes mais baixas como ignorantes, enquanto as classes mais altas ou são retratadas como indivíduos sofisticados e intelectualmente superiores ou são apresentadas como alienadas e presas fáceis de golpistas), mas suas provocações direcionadas ao espectador continuam pertinentes, sobretudo em tempos nos quais tudo é entregue de maneira tão mastigada ao espectador.

O filme se excede no seu tempo de projeção e é muito mais linear do que o usual, sem grandes picos dramáticos. Talvez a química entre o diretor e Colin Firth (representação dele) não seja tão intensa do que a que existe entre o cineasta e Emma Stone, que parece ter nascido para trabalhar com Allen, já que apresenta todas as características inerentes de algumas de suas musas mais icônicas, sobretudo aquelas dos primeiros anos do realizador (Diane Keaton e Mia Farrow). O restante do elenco tem bons momentos, como é o caso de Jacki Weaver (a viúva), Marcia Gay Harden (a mãe de Stone) e Simon McBurney (o amigo de Firth). Além dos ótimos insights do roteiro, outra qualidade de Magia ao Luar é sua reconstituição de época promovida pelo trabalho em conjunto de figurinistas, diretores de arte e pela fotografia, fazendo o espectador ser inserido na década de 1920 sem artificialismos ou exibicionismos estéticos.

Assim, mais para o bem do que para o mal, Magia ao Luar apresenta temáticas rotineiras na carreira do diretor, personificadas pelo romance entre um homem mais velho (Firth) e uma mulher bem mais nova (Stone), outra recorrência, se prolonga um pouco mais do que deveria na projeção, é verdade, mas que não deixa de mostrar a força da assinatura de Woody Allen e sua lucidez e propriedade intelectual. Não querendo apelar para trocadilhos baratos, mas já apelando, é a magia, o toque do diretor, sua assinatura, que sempre funciona e torna, independente das comparações que façamos dentro da sua própria filmografia (o que, por si só, já é um sinal positivo), um filme de Woody Allen uma experiência agradável e acima da média sempre.