quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Boyhood - Da Infância à Juventude



De 2001 a 2011, o público acompanhou o crescimento dos atores da saga Harry Potter testemunhando a cada filme o amadurecimento dos ingleses Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint. No entanto, ainda que tenha sido uma experiência gratificante e única, muitos elementos da trama disputavam a atenção do público e competiam com as reflexões que a franquia trouxe sobre o amadurecimento de um jovem. Natural, querendo ou não, Harry Potter é um blockbuster e ele foi coerente por atender às suas demandas. A experiência de Richard Linklater em Boyhood – Da Infância à Juventude é completamente diferente, mas “bebe” de uma fonte parecida, talvez algo mais próximo do que o próprio diretor fez na trilogia iniciada por Antes do Amanhecer. Aqui, diferente do que acontecia em Harry Potter,  o propósito final é justamente esse, voltar seus olhos para o amadurecimento de um garoto comum e as reflexões que os diversos ritos de passagem impõem sobre o futuro, a trajetória dos nossos pais e sobre a forma como conduzimos a nossa vida até então. Nada de universo fantástico, grandes poderes ou grandes feitos. Nada de grandes metáforas ou elucubrações visuais. Como costuma fazer com uma certa frequência em sua filmografia, Linklater lida com o cotidiano e através disso pretende estabelecer pontes que ligam o espectador com as vidas de cada um dos personagens que habitam a tela.

Em Boyhood – Da Infância à Juventude o diretor e roteirista acompanha o crescimento de Mason, o filho mais novo de pais separados. Entre a inconstância de sua mãe, que muda de cidade, emprego e marido com uma certa frequência no intuito de buscar uma vida melhor e referências familiares sólidas para Mason e sua irmã, e os finais de semana com o seu esforçado, divertido e sonhador pai, o garoto molda o seu caráter, a sua ordem de preocupações com o futuro e as suas relações afetivas. Através do crescimento desse menino, que é vivido em “tempo real” pelo mesmo ator, Ellar Coltrane (os outros personagens também são interpretados pelos mesmos atores ao longo de doze anos), Linklater constrói um simples porém profundo olhar sobre a própria vida indagando-se: Como crescemos? O que é determinante para a nossa formação? Como nossos pais acompanham esse processo e o que eles se tornam ao final disso?

Richard Linklater trabalha com a banalidade em Boyhood – Da Infância à Juventude. Não existe nada de extraordinário na vida daquela família, tampouco na trajetória e nos dilemas do seu protagonista Mason (Ellar Coltrane). É nessa familiaridade, nessa falta de singularidade, que reside o interesse no longa. De uma forma ou de outra, o filme é o relato de vida de cada um de nós, da forma como lidamos com as expectativas em torno das nossas vidas. O que fazemos com as nossas frustrações? Cedemos às imposições do cotidiano ou encaramos nossos desejos? E nossos pais? Não passam de extensões de nós mesmos, para Linklater, tentam fazer o melhor que podem mas são tão inseguros quanto a gente e, por vezes, estão mais aprisionados do que nós, afinal têm filhos e assumem uma carga de responsabilidade completa e indelegável sobre as suas formações, principalmente as mães, que, na falta de uma figura masculina presente no dia-a-dia, acabam “trabalhando por dois”. No fim das contas, ainda que atabalhoadamente (porque são tão humanas quanto nós), fazem o seu melhor.

Não existe nenhum arrojo técnico em Boyhood, Linklater confia seu filme completamente aos seus atores. Acompanhar os doze anos de Ellar Coltrane, que de certa maneira se funde com o amadurecimento do seu personagem Mason, é uma experiência interessante. Da mesma forma que vemos crescer Lorelei Linklater, filha do diretor e intérprete da irmã do protagonista. Acompanhamos os dois desde os seus espontâneos desempenhos quando mais novos, até se firmarem como atores de fato, lidando com dilemas ainda mais complexos na juventude de Mason e sua irmã. O mesmo pode ser aplicado aos atores que vivem os pais, Ethan Hawke, constante parceiro do realizador, e Patricia Arquette, uma das performances mais emocionantes do filme e que tem tudo para lhe render uma indicação ao Oscar (aliás, esse filme é sério candidato em diversas categorias). Hawke personifica a figura do pai que tenta suprir a ausência cotidiana mantendo uma relação franca e despojada com seus filhos. No outro lado temos a mãe vivida por uma Patricia Arquette, que simplesmente brilha durante toda a projeção ao apresentar-se como uma presença feminina forte e empenhada em funções sobre humanas. Arquette protagoniza uma das cenas mais memoráveis do longa na qual sua personagem sintetiza a sina da maternidade,  esquecer de si mesma ao dedicar uma vida inteira a terceiros (os filhos). Não existe nada mais empático do que isso.

As pessoas costumam nos dizer para aproveitarmos os momentos, não deixarmos passar as oportunidades diante dos nossos olhos, não perdermos tempo com coisas que talvez não nos trouxesse a segurança que a idade adulta requer. Ao final de Boyhood uma das personagens do filme diz a Mason que as coisas não deveriam ser dessa forma, enfim, está tudo de cabeça para baixo e é essa a sensação que surge latente na adolescência e aparece como um fantasma na maturidade. Diz essa personagem que ao invés de termos que aproveitar o momento é o momento que deveria nos aproveitar, aproveitar nossas potencialidades, nossas singularidades. Boyhood pode até ser uma das realizações mais intensas do cinema norte-americano atual, é prematuro afirmar isso cabalmente. O filme é realçado por notícias sobre o seu processo de produção que é indubitavelmente fascinante e traz um efeito interessante para o espectador. No entanto, o fato de ter sido filmado em doze anos acaba colocando-se a frente da própria obra, como um selo que por si só garante a sua qualidade. No fundo, esse longa de Richard Linklater não é especial por essa razão – ou melhor, também -, mas por falar de maneira tão simples e sensível sobre questões que nos tocam e nos acompanham por toda uma vida, isso sim é uma virtude de Boyhood.

sábado, 25 de outubro de 2014

Relatos Selvagens



Talvez um dos aspectos que devemos mais ter inveja dos argentinos é a capacidade que a sua indústria cinematográfica tem de fazer filmes populares que não soem pobres ou rasos. Relatos Selvagens é uma grande prova desse mérito. O longa de Damián Szifrón é uma comédia de humor negro, pertinente e coerente do início ao fim, cinematograficamente interessante e acessível a todo tipo de público.

Dividido em alguns segmentos, Szifrón oferece ao espectador algumas histórias curtas protagonizadas por sujeitos que estão às voltas com a vingança. É a garçonete de um restaurante de beira de estrada que encontra o algoz do seu pai, o cidadão comum revoltado com a exploração das instituições públicas, a sociedade clamando a justiça para o desfecho de um assassinato brutal e uma mulher que descobre uma traição do noivo no dia do casamento.

Szifrón, que também escreve o excelente roteiro, faz questão de deixar todas as suas tramas entre a familiaridade e o completo absurdo, uma espécie de catarse que, de uma certa forma, encontra eco nos nossos mais profundos e instintivos desejos de justiça. A ideia, como o próprio realizador sugere nos seus créditos de abertura com imagens de animais, é nos aproximar dos nossos instintos mais primitivos. O grande achado do trabalho do realizador argentino é explorar um humor, que não é sofisticado, tampouco escrachado ou óbvio, mas reconhecível, irônico e até patético. Por situar-se nesse limite, Relatos Selvagens consegue ser universal e apurado no seu tratamento narrativo, sempre surpreendendo a plateia pelos ganchos e reviravoltas das suas tramas.

Além disso, o filme beneficia-se pelo fato de que, sendo um filme de segmentos que não apresentam uma conexão, a não ser a sua temática, não há uma história que seja melhor que a outra, todas são igualmente conduzidas com muita perspicácia por Szifrón, o que é raro nesse formato. Não há também um desempenho singular que se destaque, todos os atores estão muito bem. Tem a noiva em estado de nervos vivida por Erica Rivas, o cidadão de bem azarado do sempre competente Ricardo Darín e a deliciosa e assustadoramente fria cozinheira interpretada por Rita Cortese, só para citar alguns.

Sem pretensão alguma de fazer um filme “cabeça” e deixando claro que quer fazer uma obra reconhecível e passível de ser consumida por todos os tipos de público, Damián Szifrón realiza um filme ácido, consciente da linguagem cinematográfica e inteligente, repleto de personagens e histórias interessantes. Relatos Selvagens está na temperatura perfeita do cinema contemporâneo, um cinema que se propõe fugir das tentativas de enquadramento como entretenimento ou arte que são impostas de maneira cafona pela indústria e pela elite intelectual.

Drops: O Juiz


O Juiz não é aquilo que muitos pensavam. Não será o filme que trará Robert Downey Jr. ou Robert Duvall de volta ao Oscar, ainda que o segundo tenha lá suas chances. Não é um filme que te pega de surpresa por dar um novo polimento a dramas protagonizados por famílias disfuncionais. No entanto, o longa de David Dobkin não perde a sua simpatia por não fazer tudo isso. O Juiz é um filme correto, cumpre o que propõe e traz uma dobradinha entre grandes atores sempre boa de ser vista no cinema. Dobkin não surpreende em sua direção e deixa todo o show ser protagonizado pela sua dupla de atores. E ainda que Robert Downey Jr. esteja se tornando um ator de maneirismos sem maiores variações, ele consegue encontrar o prumo e dar um "punch" com esse personagem no terceiro ato do filme. Sobre Robert Duvall, basta dizer que ele entrega uma performance certeira do alto dos seus 83 anos.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Drácula - A História nunca Contada

 

Os vampiros não têm mais "moral" que tinham antes, nem mesmo no cinema que tanto celebrou sua mitologia. Não pela banalidade da violência urbana, o verdadeiro terror da vida real, que nos impõe cenários e personagens muito mais assustadores do que Drácula e cia., mas por tendências e modismos da própria indústria do cinema que converte qualquer material clássico aos formatos e maneirismos do momento. E se Crepúsculo traduziu a mitologia vampírica para a comunidade emo e suas variações, Drácula - A História nunca Contada parece adaptar o personagem clássico  de Bram Stoker, o "pai" de todos os "chupa-sangue", para a geração Marvel. Explico mais adiante...

Drácula - A História nunca Contada conta o passado de Vlad Tepes (Luke Evans), o temido Conde Drácula. Tepes morava na Transilvânia e, como centenas de crianças daquela terra, foi entregue aos turcos pelo rei para pôr fim a uma briga entre os povos que perdurava por gerações e mais gerações. Com os turcos, Vlad torna-se um grande guerreiro e fica conhecido por empalar os seus inimigos. O jovem retorna ao seu antigo reino e torna-se príncipe, governando-o ao lado de sua amada Mirena (Sarah Gadon) com quem tem um filho. A paz de Tepes é interrompida quando os turcos retornam às suas terras e mais uma vez exigem que seu povo entregue cem crianças, caso contrário, enfrentarão uma violenta guerra. Tepes então cede aos seus impulsos e sela um pacto com as trevas em troca da prosperidade da sua gente e da sua família.

O filme de Gary Shore até que segue, em suas primeiras horas, um caminho interessante, não sendo audacioso em sua estética ou narrativa, mas mantendo o ritmo da trama e sendo honesto a sua premissa de contar a vida do personagem antes de se tornar o Drácula, retratando-o crível e humano. No entanto, esta nova versão do clássico personagem de Bram Stoker ultrapassa o limite do risível ao torná-lo uma espécie de super-herói com uma força descomunal e uma capacidade de se transformar em uma revoada de morcegos ou de controlar a mesma. Shore ainda investe em sequências nas quais as câmeras passam a ser um instrumento para experimentarmos o olhar de Drácula sobre a descoberta dos seus poderes e sua utilização. Enfim, um emaranhado de escolhas fora de contexto que mais se adequariam a um novo super-herói qualquer do que ao denso personagem de Bram Stoker.

O elenco não chega a comprometer. Luke Evans faz o que pode com o Drácula que lhe é dado. Sarah Gadon, a musa de David Cronenberg que aqui vive a amada de Vlad Tepes, só está no filme para ilustrá-lo com seus belíssimos traços. Não é um filme de performances, que exige uma grande dramaticidade. Em Drácula - A História nunca Contada, seguindo a tradição dos blockbusters medianos, privilegia-se sua pirotecnia. Mais um sinal de que o "espírito" do personagem foi descartado. Bem diferente do Drácula de Francis Ford Coppola, de 1992, que firmava o seu protagonista como uma figura trágica, complexa e fascinante pelo horror e pela paixão, aqui, a trajetória do Drácula sugere a tragédia, mas essa promessa nunca é cumprida ou levada a sério como deveria pelo longa, que prefere impressionar - algo que nunca consegue - o público com muitos efeitos visuais e sequências barulhentas.

Um dos personagens do filme , em dois momentos da trama, e que propositalmente ou não nos remete a série Jogos Mortais (prefiro acreditar que não foi proposital porque ai o filme cairia na zona do risível mesmo), sugere "Que o jogo comece!". Parece um claro intento dos realizadores em iniciar uma franquia a partir desse longa. Uma pena que, assim como acontece com tanto material bom que cai nas mãos dos estúdios e poderiam ser levados para as telas com "culhões", afinal, dinheiro não falta, Drácula - A História nunca Contada é mais um blockbuster entre tantos que existem por ai na praça. Não fosse o título, nem daríamos conta que se trata de uma versão do lendário personagem de Bram Stoker. Parece mais uma fotocópia do Batman.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Trash - A Esperança vem do Lixo

 

Baseado no romance homônimo de Andy Mulligan, Trash – A Esperança vem do Lixo expõe uma visão ingênua da sociedade brasileira. O maniqueísmo permeia a disputa entre as classes, os bons são excessivamente honestos e moralmente inquestionáveis, os maus, a “banda podre” representada pela elite de nossa sociedade. A visão do inglês Stephen Daldry não deixa de ter verdades, mas é simplista, ingênua, rasa e sua execução é ainda mais óbvia do que o teor da sua mensagem ao emular o favela movie em seus tiques mais que esperados. No fim, o filme é uma espécie de arremedo mal feito e colorido de Cidade de Deus.

Em Trash – A Esperança vem do Lixo três garotos do lixão encontram uma carteira com algumas notas de dinheiro, uma identificação e algumas fotos do seu suposto proprietário com uma menina contendo no seu verso uma sequência de números. Logo aparecem na região alguns policiais procurando o objeto e os meninos passam a desconfiar que existe algo por trás da busca por aquela carteira. Ajudados por dois americanos, os garotos seguem as pistas deixadas pelo dono do objeto e são levados a um perigoso esquema que envolve um candidato a prefeito do Rio de Janeiro e a polícia local.

Desde Billy Elliot, Stephen Daldry mostrou-se um exímio diretor de atores, especialmente crianças ou adolescentes. Em materiais como As Horas e O Leitor, por exemplo, o inglês, que vem do teatro, sempre soube conduzir com muita delicadeza a construção dos personagens dos seus filmes junto com o elenco. Não que em Trash – A Esperança vem do Lixo isso não ocorra, mas pelo longa manter esse discurso que evita colocar um dedo mais profundo na ferida o diretor não consegue ir adiante na história dos indivíduos que habitam aquela trama. Mesmo o trio central formado pelos garotos Rickson Tevez, Gabriel Weinstein e Eduardo Luís, que se esforçam e conseguem com muita naturalidade provocar empatia na plateia, sofre com a superficialidade do roteiro de Richard Curtis.

Não há em Trash um único vestígio que nos remeta ao realizador que Daldry foi em seus projetos anteriores. Até ai, nada demais, afinal a necessidade da presença do diretor na obra é questionável. No entanto, sai o diretor pulsante e cheio de sensibilidade de As Horas e O Leitor para entrar em cena um realizador pasteurizado, capaz de ceder, sem o menor embaraço, ao impulso de incluir cenas e planos desnecessários que só estão no filme para fazer a propaganda de conhecidas redes de lojas de roupas e de hotéis. Sem alma, Trash parece um subproduto de Cidade de Deus cujo propósito de realização autônoma foi dissolvido em prol do desenvolvimento de um produto para exportação com a embalagem frágil do filme política e emocionalmente engajado.

De engajado Trash não tem nada. O filme de Stephen Daldry oferece uma solução pouco elaborada para a problemática social que sugere ao seu espectador, desperdiça uma dúzia de atores talentosos cujos personagens não possuem personalidades e propósitos bem definidos. Se muitos achavam que Tão Forte e Tão Perto foi a grande derrapada da carreira de Daldry, certamente farão uma revisão de suas conclusões ao assistirem Trash, um filme que segue a monotonia e a obviedade discursiva até o último segundo de sua projeção.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Garota Exemplar


 
Quando Garota Exenplar tem início a primeira imagem que surge é a de Amy Dunne (Rosamund Pike) deitada no peito de Nick (Ben Affleck), seu marido. Ele acaricia seu cabelo e, através de uma narração, confessa ao espectador desejar entrar na cabeça da esposa, desvendar a sua natureza, os seus mistérios. Ao encerrar o seu mais novo filme, David Fincher retorna ao mesmo ritual do casal. Nick acaricia Amy, mas o olhar dela definitivamente não é o mesmo do começo do filme. A doce, frágil e carente Amy cede seu lugar para uma outra mulher. Como isso acontece, ou melhor, qual a razão de acontecer é o que persegue o espectador durante toda a projeção de Garota Exemplar, que conduz o cineasta David Fincher ao seu habitat cinematográfico, o suspense.

Baseado no best-seller homônimo de Gillian Flynn, Garota Exemplar tem como fio condutor da sua trama o desaparecimento de Amy Dunne. A jovem escritora some de sua casa, onde vive com o marido Nick no Missouri, sem deixar vestígios. Logo a polícia local começa a encontrar evidências de que o casamento da moça não era tão perfeito quanto se pensava e que o responsável pelo sumiço de Dunne pode ser o seu marido.

Revelar mais do que isso sobre Garota Exemplar seria comprometer a experiência do leitor. Seguindo a tradição do gênero, o longa de David Fincher é o tipo de filme cujos segredos devem ser desvendados pelo público no mesmo momento em que seus personagens conhecem a verdade dos fatos. Durante toda a projeção, Fincher conduz o espectador a uma série de pistas falsas e desconstrói pré-concepções que venhamos ter sobre Amy ou Nick, quebrando a expectativa de todos repetidamente. O êxito dessa condução não é nada que já não tenhamos visto o diretor fazer em suspenses como Seven ou Os Homens que não Amavam as Mulheres. No entanto, vinculações do filme a um gênero à parte, com regras e “jogos” bem definidos e executados, Fincher usa a trama para abordar um “lado B” das relações amorosas, àquele ocultado por Hollywood, quando o happy end vira um ciclo vicioso de dissimulações e aparências, quando você já não conhece mais quem dorme ao seu lado. Quando o realizador, com o suporte espetacular do roteiro da própria Gillian Flynn, vai além da sua vocação – a de realizador de thrillers, suspenses -, o filme ganha contornos e leituras ainda mais interessantes e se destaca na sua filmografia.

Para cumprir sua meta, Garota Exemplar conta com Ben Affleck como Nick e, mais uma vez, o ator comprova que apostar em papéis que exigem dele apenas o que está ao alcance das suas habilidades dramáticas parece ser um melhor caminho do que se arriscar demais. Affleck se dá bem com homens passivos ou que vivem momentos de apatia, como foi o caso dos seus personagens em Argo ou Atração Perigosa. O Nick de Garota Exemplar segue a mesma linha e o ator não compromete o longa com esforços vãos, como os que já fez em alguns filmes no passado. Contudo, não há como negar que o projeto tem dona: Rosamund Pike. Repito, para não estragar a experiência do leitor, pouco da personagem será revelado por esse texto. O que pode ser adiantado é que Amy é cheia de camadas e exige da atriz uma versatilidade que talvez ainda não tinha sido colocada a prova no cinema, ainda que suas participações em filmes como A Minha Versão do Amor e Revolução em Dagenham tenham o seu valor e sejam prova do talento da inglesa.  Pike surge em Garota Exemplar como uma daquelas loiras frias e distantes dos filmes de Hitchcock, porém com altas doses de… Bom, é melhor parar por aqui.

David Fincher é um realizador vibrante inclinado a filmes sombrios, protagonizados por sujeitos pragmáticos ou doentios. Além disso, toda a sua filmografia é formada por obras aplicadas tecnicamente. É o caso de Seven, Clube da Luta, Os Homens que não Amavam as Mulheres, A Rede Social e Zodíaco . Garota Exemplar não nega a sua filiação, localiza-se nesse grupo de filmes típicos do diretor cujas marcas são reconhecíveis desde os primeiros segundos. A essa fórmula, que não cansamos de apreciar, é adicionada ainda a “revelação” de uma atriz no melhor momento da sua carreira. No final das contas, temos um filme que, ainda que dure cerca de duas horas e meia, compensa o espectador a cada reviravolta, a cada lance de olhar, nosso, dos personagens e do diretor.