quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Listão 2014: Filmes



# 01. Sob a Pele
Dir.: Jonathan Glazer

Jonathan Glazer é um diretor de carreira relativamente recente mas que traz em seus trabalhos aquela vontade de explorar ao máximo as possibilidades da linguagem cinematográfica/audiovisual. Em Sexy Beast foi assim, Reencarnação não fugiu à regra, ainda que algumas pessoas tenham torcido o nariz para o filme na ocasião do seu lançamento... Contudo, Sob a Pele é um capítulo bem mais audacioso da sua trajetória. Através da história de uma alienígena que toma a forma humana e sai à caça de homens mesquinhos, o filme tem como norte uma protagonista que tem como objetivo aniquilar esse projeto que "não deu certo", o homem. O tema que salta aos olhos em Sob a Pele é a confiança e sua elasticidade quando ela é depositada na raça humana. Trata-se de uma visão pessimista sim, mas que tem consciência do suporte que está usando para transmitir essa mensagem, o cinema, e faz isso de uma maneira exemplar, singular. 




# 02. Guardiões da Galáxia
Dir.: James Gunn

Já perdi as contas de quantas vezes utilizei o adjetivo "divertido" para descrever Guardiões da Galáxia, porém não há outra palavra que melhor se encaixe para argumentar a presença desse sucesso comercial e de crítica dos estúdios Marvel na segunda posição. Fora as franquias que foram concedidas para outros estúdios de Hollywood (X-Men, Homem - Aranha, Quarteto Fantástico e Demolidor), os filmes da fase independente da Marvel (agora associada a Disney) são um pouco problemáticos. Guiados pelo projeto Os Vingadores, quase não há distinção entre Homem de Ferro e Thor, e Capitão América, por mais que tenha rendido ótimas adaptações, torna-se frágil por ser uma espécie de capítulo de transição de Avengers. Guardiões da Galáxia quebra com a rotina e oferece um autêntico "filme-pipoca", sem pretensões de parecer existencialista, com personagens bem desenvolvidos, muito humor (a comédia é orgânica), enfim, elementos que fizeram toda a diferença na temporada de férias. Esperamos por mais, James Gunn!




# 03. Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum
Dir.: Joel e Ethan Coen

Inside Llewyn Davis não foi um filme fácil de "se vender" para o Oscar. Trata-se da história de um músico folk fracassado. O mito americano do "faça você mesmo" foi um obstáculo para esse filme nos EUA, um longa cujo discurso vai na contramão dessa máxima dizendo: "às vezes você pode se esforçar e não conseguir o que tanto quer". A estrutura social é invasiva e opressora diante da pequenez do homem comum. Isso é Inside Llewyn Davis, um salto imperceptível e discreto na filmografia dos Coen no presente. Os diretores de Fargo e Onde os fracos não têm vez continuam ali com seu humor inconfundível, mas um desdobramento, uma variação, dessa marca foi revelada nessa melancólica e irônica crônica sobre o "fracassado" americano.




# 04. O Lobo atrás da Porta
Dir.: Fernando Coimbra

O filme nacional mais interessante do ano foi visto por poucas pessoas, uma lástima, melhor, um retrocesso para a nossa filmografia. Explico, O Lobo atrás da Porta é um daqueles casos nos quais um filme consegue equilibrar os anseios do seu realizador com a criação de uma história que não afasta as plateias com os mais diversos repertórios cinematográficos possíveis, ou seja, um longa com um potencial gigantesco para ser popular. No entanto, por força de monopólios e políticas predatórias de distribuição e exibição, é um trabalho pouco conhecido, ficou restrito às salas de arte. Uma pena. Esperamos que o tempo faça justiça a essa estreia de Fernando Coimbra na direção de um longa conduzindo  por um elenco que entrega um trabalho coletivo harmônico raro de se ver encabeçado pela arrebatadora Leandra Leal. 




# 05. Ela
Dir.: Spike Jonze

Apesar de não ser um dos grandes entusiastas das novas tecnologias, levanto as mãos para os céus por Spike Jonze não ter feito um filme calcado no discurso "as tecnologias estão nos tornando mais distantes uns dos outros". Jonze fez com Ela um filme contextualizado na nova era, mas o seu longa é sobre o amor e a dificuldade de lidar com o ônus das relações amorosas: as brigas, as diferenças do outro etc. Theodore, um Joaquin Phoenix soberbo, não quer nada disso e encontra em Samantha, a voz de Scarlett Johansson, um Sistema Operacional, a companhia ideal. Ela é um longa que tenta entender por quais vias nos esquivamos do amor e do contato físico quando sofremos uma desilusão amorosa. Spike Jonze, em seu terceiro e mais consistente voo solo após o rompimento da parceria com Charlie Kaufman, faz isso da maneira mais sensível e brilhante que se possa imaginar.




# 06. 12 Anos de Escravidão
Dir.: Steve McQueen

Existe uma espécie de "tradição" na qual vencedores do Oscar acabam sendo injustamente avaliados por terem simplesmente ganhado uma competição. Em termos comparativos, a vitória de um filme correto pode parecer injusta diante de um concorrente "superior", também na disputa. Daí o longa fica marcado para sempre com o selo de "filme ruim" ou "não tão bom quanto dizem". Irei citar nas duas próximas posições um longa que venceu o Oscar de 2014 e outro que promete "fazer a festa" em 2015, e os dois merecem sim toda a atenção que tiveram. Sou partidário da ideia de que, antes de ser uma obra atemporal e objeto de apreciação de um grupo seleto, o cinema está na sociedade e, por vezes, a força de sua mensagem se sobrepõe a qualquer virtuosismo técnico. Esse é o caso de 12 Anos de Escravidão, longa dirigido com uma vitalidade  que salta aos olhos por Steve McQueen e que consegue narrar com propriedade pulsante uma ferida de difícil cicatrizar na nossa sociedade, a escravidão.




# 07. Boyhood - Da Infância à Juventude
Dir.: Richard Linklater

Outro filme que pode se enquadrar na mesma categoria é Boyhood - Da Infância à Juventude, forte candidato a melhor filme na premiação da Academia de Holywood em 2015. Com sua história sobre o amadurecimento de Mason, Richard Linklater não quer fazer um filme cheio de arroubos estéticos, não é isso que se deve procurar aqui. O filme de Linklater, maior do que suas histórias de bastidor (o filme levou 12 anos para ser feito e acompanha o crescimento do seu protagonista em tempo real), em determinado momento, conecta a vida do garoto com a de seus pais e é nesse instante que o realizador revela-se grande e generoso com o seu espectador. Linklater entende que a maturidade não é uma questão de idade, que nossos pais são tão inseguros e apreensivos com o futuro quanto a gente e que, no fundo, o que importa, é viver o momento, o presente. Simples, sem frufrus, coerente com seus propósitos, direto, sem frufrus, protagonizado por personagens de carne e osso, enfim, como a vida.



 # 08. Garota Exemplar
Dir.: David Fincher

David Fincher é um realizador habilidoso com suspenses. Da sua geração, provavelmente não há um diretor que conduza melhor um filme desse gênero do que ele. Até certo momento, Garota Exemplar cumpre todos os requisitos já esperados em um longa do diretor, até mesmo nas suas reviravoltas. No entanto, Fincher dá um salto quando transforma a história do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike) em uma leitura macabra sobre o casamento e sobre as aparências. Nesse momento, o realizador transforma essa adaptação do romance de Gillian Flynn em um dos filmes mais interessantes de sua carreira, demonstrando que, mesmo com toda a frieza que lhe é habitual, ele pode fazer muito mais do que contar uma trama de gênero e subverter nossas expectativas de leitura sobre o seu filme. 




# 09. The Rover - A Caçada
Dir.: David Michôd

Na distopia do australiano David Michôd a sociedade vive a barbárie. Não há lei, repeito, relacionamentos calcados no sentimento, enfim, é um "salve-se quem puder". Cansado de tudo isso, um homem usa da própria força para resgatar o seu único bem das mãos de um grupo de criminosos. No início da jornada encontra um rapaz ferido e desnorteado que pode lhe levar ao grupo. O que o espectador e os personagens não esperam é que nesse encontro possam ser desenvolvidos a fidelidade, a confiança... Cabe ao protagonista decidir se retorna à condição humana ou se prefere permanecer na barbárie. Michôd entrega um filme tão corrosivo quanto Reino Animal  e conta com os ótimos desempenhos da dupla Guy Pearce e Robert Pattinson, que, sim, revela-se um ator surpreendente. 




# 10. Relatos Selvagens
Dir.: Damián Szifron

Não cansamos de dizer o quanto os argentinos são maravilhosos no cinema (e, cá entre nós, são mesmo). Relatos Selvagens é uma prova cabal disso. O filme de Damián Szifron tinha tudo para sofrer com os mesmos problemas que assolam todo longa composto de múltiplos segmentos dramáticos, mas, contrariando as regras, Relatos Selvagens é bom do início ao fim, em todas as suas histórias. Funcionando como uma compilação de crônicas sobre os instintos humanos reprimidos e a vingança, o filme traz histórias que instigam e provocam empatia no espectador, além de interpretações certeiras de um elenco que vai do astro latino Ricardo Darín, passando pela surpreendente Erica Rivas como a noiva Romina e Rita Cortese como a fria cozinheira do primeiro "conto" do longa. 





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Listão 2014: Atrizes



Paulina Garcia em Gloria


 
Rosamund Pike em Garota Exemplar


 
Leandra Leal em O Lobo atrás da Porta



 Emma Thompson em Walt nos bastidores de Mary Poppins


 
Bérénice Bejo em O Passado


Coadjuvantes
 
Lupita Nyong'o em 12 Anos de Escravidão


 
Erica Rivas em Relatos Selvagens


 
Patricia Arquette em Boyhood - Da Infância à Juventude


 
Sarah Paulson em 12 Anos de Escravidão


 

Rita Cortese em Relatos Selvagens

Listão 2014: Atores



 Jake Gyllenhaal em O Abutre



 Chiwetel Ejiofor em 12 Anos de Escravidão





Joaquin Phoenix em Ela


   
Oscar Isaac em Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum


Guy Pearce em The Rover - A Caçada


Coadjuvantes 

 
Jared Leto em Clube de Compras Dallas

 
Ali Mossafa em O Passado


 
Jesuita Barbosa em Praia do Futuro 


 
Ethan Hawke em Boyhood - Da Infância à Juventude


 
Robert Pattinson em The Rover - A Caçada 

Repescagem 2014

The Rover - A Caçada

O longa Reino Animal do australiano David Michôd, primeiro longa de ficção do realizador, já nos apresentava um diretor vibrante e pertinente na composição e condução das suas histórias. The Rover - A Caçada, segundo longa de ficção de Michôd, tem um resultado tão interessante quanto. Em um futuro árido e caótico, um homem cansado pelos rumos da humanidade resolve dar um basta em tudo quando passa a perseguir um grupo que rouba o seu veículo. Durante a caçada, ele conhece um dos irmãos de um dos criminosos e o obriga a entregar a localização do grupo. A atmosfera de desesperança e vazio reinante desde o primeiro ato do filme cede espaço para a construção do afeto já que o rapaz começa a única esperança para o protagonista não se transformar por completo e abandonar de vez a sua condição humana. As interpretações certeiras de Guy Pearce e, principalmente (pasmem!), Robert Pattinson, servindo como uma luva na pele de um rapaz ingênuo e desorientado, dão o tom do filme. 

Até o Fim

O filme de J.C. Chandor não tem um personagem específico guiando as atenções do espectador. O personagem de Robert Redford em Até o Fim é um homem que, diante de um acidente marítmo que compromete a permanência de sua embarcação no mar, se vê completamente vulnerável diante da própria natureza. Talvez daí a falta de necessidade de Chandor de compor um personagem. Naquela situação, não importa quem sejamos, somos pequenos, insignificantes e desprezíveis diante de uma força ainda maior. Redford demonstra um vigor invejável para segurar as rédeas de cenas complicadas, que exigem um grande esforço físico do ator, invejável, por sinal, haja vista que o veterano está no auge dos seus 78 anos. Talvez tenha faltado timing para o lançamento desse filme, já que estreou na mesma temporada que Gravidade e apresenta propósitos semelhantes, com a diferença que as ações ocorrem no mar, há pouquíssimas falas (ou quase nenhuma) e o protagonista é um homem. Chandor comprova ser um exímio diretor, já que sustenta toda essa trama, baseada em ações, por quase duas horas, com muito equilíbrio e firmeza.

Drops: Êxodo - Deuses e Reis


Êxodo - Deuses e Reis é um épico bíblico que segue o destino da maioria dos filmes que Ridley Scott têm feito nos últimos anos, sendo assim, trata-se de um longa completamente descartável. Não chega a ser desastroso, como anunciado, mas é um filme morno e com pouca vida. Scott dirige sem grandes evoluções dramáticas a saga de Moisés para libertar os hebreus dos egípcios. Christian Bale não compromete a fita com sua interpretação de Moisés, mas Joel Edgerton poderia ter dado mais na pele como Ramsés, dado o seu potencial. No entanto, não é culpa de Edgerton, o roteiro escrito a oito mãos não fortalece os elos entre os seus personagens e as tensões dos seus relacionamentos só são sugeridas, como é o caso de Ramsés e Moisés. No mais, o espetáculo visual rende muito mais a plateia do que o seu fator humano, uma lástima, já que os dois deveriam andar lado a lado.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Uma Longa Viagem



Uma Longa Viagem é um filme sobre fantasmas. Existe um elemento que a gente não sabe bem como explicar que perambula toda a narrativa e atormenta os seus personagens. Esse teor de "abstração" presente no filme impõe-se como um desafio ao diretor Jonathan Teplitzky. Como transformar estas visões, vozes e memórias da cabeça de um homem atormentado em uma história ritmada e inventiva cinematograficamente? Não é tarefa fácil, mas Teplitzky tem uma sensibilidade que supera os percalços do seu projeto que, ainda que careça de uma solução melhor para lidar com os dois tempos que correm em paralelo no seu filme (o presente e o passado), consegue fazer um trabalho honesto e levemente envolvente.

O longa é baseado nas memórias do britânico Eric Lomax, um homem que esteve na Segunda Guerra e foi torturado por soldados japoneses. Quando o conflito acaba, Lomax leva consigo todas as cicatrizes daquele período, o que torna complicado, por exemplo, seu relacionamento com sua esposa Patti. Inconformada com a situação e visando encontrar uma solução para os problemas de Eric, Patti procura um ex-companheiro de front do esposo para saber o que ele passou nas mãos dos japoneses e o que precisamente ela pode fazer para aliviar a dor do marido. 

Jonathan Teplitzky é um diretor com uma estrada relativamente curta, tendo conduzido filmes australianos como Burning Man, com Matthew Goode, ou Paixão e Sedução. Uma Longa Viagem é um filme de temperatura levemente fria, ritmo um pouquinho mais lento e que privilegia os registros de tormento do seu personagem. Em sua maioria, as ações do filme são internas, se passam na cabeça dos sujeitos, no caso, a forma como Eric Lomax administra o seu passado traumático e como ele afeta a sua relação com a esposa Patti no presente. Como já mencionado, trata-se de um desafio para um diretor administrar isso no cinema e Teplitzky se esforça ao encontrar a atmosfera correta para o seu filme através de um trabalho interessante de fotografia.  Contudo, claro que precisaria mais que isso.

Colin Firth interpreta muito bem o protagonista da trama, um homem com severas marcas do passado. O inglês parece o tipo ideal para viver Eric Lomax, personagem cujo conflito central é tentar superar as limitações impostas pela sua natureza introspectiva e traumatizada. Nicole Kidman interpreta de maneira correta o papel da esposa dedicada tentando resgatar o marido da mais profunda melancolia. A parceria entre Kidman e Firth é um dos melhores elementos de Uma Longa Viagem, os dois se entendem em cena e promovem alguns dos melhores momentos de todo o filme. Outro nome do elenco que merece ser citado é Jeremy Irvine, intérprete do personagem de Firth na juventude. Aqui ele apresenta um desempenho que nem nos faz lembrar sua irritante presença em Cavalo de Guerra de Steven Spielberg. 

Com suas mais que evidentes limitações, Uma Longa Viagem ao menos consegue ser um filme sincero em seus propósitos. Jonathan Teplitzky fez o melhor que pôde com uma trama repleta de ações internas que dificultam o trabalho de qualquer diretor. No final das contas, graças ao seu interessante e entrosado elenco e à força da trajetória do seu próprio protagonista, o filme triunfa mais do que vacila.

O Abutre



Os rumos da carreira de Jake Gyllenhaal tem sido bem interessantes. O ator poderia se acomodar na alcunha de galã da nova geração que lhe foi proposta logo após O Segredo de Brokeback Mountain e confirmada em filmes como Amor e Outras Drogas. No entanto, Gyllenhaal preferiu se jogar de cabeça em projetos ousados e que lhe impuseram desafios dramáticos severos, é o caso do detetive Loki de Os Suspeitos, o policial Brian Taylor de Marcados para Morrer e, mais recente, os sósias Adam e Anthony de O Homem Duplicado. Talvez, o cinegrafista Lou Bloom seja o momento mais maduro dessa fase da carreira do ator. Gyllenhaal não mede esforços na compreensão de um homem eticamente questionável com severos danos psicológicos, trata-se de um tour de force sustentado por uma consciente direção do experiente roteirista Dan Gilroy que tem lhe rendido algumas indicações a prêmios e cujo próximo passo promete ser o retorno do ator ao Oscar, desta vez na categoria melhor ator.

O Abutre traz a história de Lou Bloom um jovem desempregado que se vira como pode para conseguir se sustentar, até mesmo voltar-se para atividades ilegais como invasão e assalto de propriedades privadas. Um dia, Bloom vislumbra uma forma rentável de ganhar a vida. Após um acidente em uma rua de Los Angeles, ele observa um grupo de cinegrafistas filmando a vítima para vender esse material a uma emissora local. Logo, Bloom se aventura na atividade e descobre um talento nato para o ramo, além de entender que aquilo é um negócio altamente lucrativo e, para ele, fascinante. 

O Abutre pode não ter grandes saltos em sua trama, não promover nenhuma grande transformação no seu personagem ou mesmo que não dizer nada do que ainda não tenha sido dito sobre o universo do "jornalismo" sensacionalista, contudo, a forma que o diretor e roteirista Dan Gilroy encontrou para fazer sua crítica a esse tema é fascinante. Através do seu protagonista, Gilroy acompanha o mergulho sem perspectiva de retorno à Terra de um grupo de pessoas tragadas pelas facilidades desse tipo de abordagem "jornalística" e pela própria rotina dos meios. Pode parecer reducionista para o próprio filme, mas não é pequeno o número de colegas de profissão que são enredados nesse universo onde a ética é elástica e apenas um acessório indesejado. Claro que Lou Bloom é um homem visivelmente desarranjado psicologicamente, mas a maneira como ele se descobre nesse "ramo" e as razões pelas quais seu perfil se encaixa na atividade são dados certeiros de um tipo específico de profissional, guardada as devidas proporções. Outros personagens e suas respectivas  dinâmicas dão contornos mais interessantes a esse retrato, como a diretora de jornalismo da emissora para a qual Bloom vende seu material, Nina Romina, vivida por Rene Russo. 

Sobre o desempenho de Gyllenhaal, ele é o grande protagonista desta fita e não de uma forma exibicionista ou extravagante. O ator constroi um tipo que exige dele a confecção de um sujeito singular, mas Jake é tão inteligente em suas escolhas e no caminho que traça para tanto que jamais cai na zona do caricato, do tipo. Bloom é um personagem interessante por trazer, através do desempenho do ator, um certo grau de insegurança para o espectador, que oscila entre a certeza e a incerteza sobre os próximos passos daquele sujeito, afinal, a ética não é o seu forte. 

Conduzido por um diretor que sabe bem o limite entre a correta aplicação da linguagem cinematográfica e o exibicionismo, O Abutre traz essa performance memorável de um jovem ator que chamou a atenção dos cinéfilos no início da década passada com Donnie Darko e que parecia ir por um caminho nada aconselhável, ou, pelo menos, artisticamente pobre, com filmes irrelevantes como Príncipe da Pérsia, O Amor e Outras Drogas e O Dia depois de Amanhã, mas que amadureceu espantosamente bem como profissional. E ainda tem muito mais a oferecer. 

Drops: O Homem mais Procurado


Um dos últimos projetos protagonizados por Philip Seymour Hoffman, O Homem mais Procurado pode ser uma experiência melancólica. Constatamos que a despeito de parecer que, relativo ao ator, nada mais surpreenderia, tamanha a diversidade de personagens que compôs ao longo da sua carreira, ainda existia mais a ser oferecido, Philip era um talento nato. Hoffman entrega aqui uma interpretação calculada e sutil na pele de um agente da polícia alemã à caça de um imigrante muçulmano de origem chechena e russa que, segundo muitos suspeitam, pode ser um extremista. O filme de Anton Corbijn, do ótimo Control, adaptação do livro de John Le Carré (O Jardineiro Fiel), é um thriller adulto, com muito ritmo e que não subestima a inteligência do espectador entregando de bandeja para o mesmo os seus desenlaces, como costuma acontecer quando filmes desse gêneros caem em mãos nada habilidosas. Hoffman conta contracena com um grupo de atores fabulosos, Rachel McAdams, Robin Wright, Willem Dafoe, Nina Hoss, Daniel Brühl, e a despeito da sua interpretação exemplar, o filme se sustenta independente do desempenho do ator.

Drops: Operação Big Hero


Inspirado em uma série de HQs da Marvel, Operação Big Hero sela a união da Disney e da mais nova potência cinematográfica dos EUA, antes somente uma editora de quadrinhos. O filme não é muito inspirador, dirigido por Don Hall, de O Ursinho Pooh, e Chris Williams, de Bolt, Operação Big Hero parece mais um filme burocrático de super-heróis, onde tudo parece completamente esquematizado antes mesmo da concepção do projeto. Não existe aqui a mesma força dramática e inventividade de um Os Incríveis ou personagens que se sobressaiam às próprias limitações da história como Meu Malvado Favorito, o universo dos super-heróis é reduzido à reunião de um time para enfrentar um super-vilão e nem mesmo as leves referências às animações japonesas tiram esta animação da banalidade. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Homens, Mulheres e Filhos




O que mais se tem discutido nos últimos anos são as relações entre o homem e as tecnologias. De que maneira a internet e a possibilidade de se comunicar em qualquer lugar do mundo graças às facilidades de manuseio e transporte dos aparelhos alteraram as relações no ambiente real? Aumentaram as tensões entre pais e filhos? Até que ponto o controle do uso desses meios ou a completa liberdade são positivos? De cara, diria que o cerne da questão não está na tecnologia. Ela amplifica os problemas, talvez, mas quão frágil é este ser humano que se deixa levar e usa todas estas facilidades com propósitos nada positivos? É o mesmo quadro de sujeitos que buscam refúgio nas drogas como uma forma de suprir suas carências ou evitar as dores do mundo real.  Ela, de Spike Jonze, deixa bem claro, o problema não está na tecnologia, está no homem que deixou de lado o contato com... o outro homem. 

Homens, Mulheres e Filhos traz um mosaico de personagens inseridos nesse novo contexto, o das relações intermediadas pelos novos meios, pela internet, redes sociais, enfim, por esta "excessiva conectividade". A ideia do filme é entender como este cenário transformou ou acentuou o descompasso das relações pessoais. De certa forma, Jason Reitman até consegue trilhar esse caminho em Homens, Mulheres e Filhos, mas escorrega na simplificação da construção dos seus personagens. Explico, para mostrar o lado bom e o lado ruim da intermediação ou interferência do uso da tecnologia nas relações pessoais, o realizador constrói, ingenuamente, personagens unidimensionais que representam extremos, como é o caso da mãe hiperliberal, a excelente Judy Greer, que expõe fotos da sua filha com roupas íntimas como forma de fisgar interessados em alavancar a carreira midiática da garota, ou a mãe supercontroladora, interpretada por Jennifer Garner, que tem acesso ao Facebook e e-mail da sua filha e acompanha a localização dela, da escola até a casa, através de um aplicativo. Ou seja, não há sutilezas e para sustentar as suas defesas e conclusões, Reitman apela para o mais fácil, o menos arriscado: os extremos. 

O diretor continua elegante na condução de sua história, fazendo uma espécie de Beleza Americana dos novos tempos ao tentar construir esta crônica de famílias da classe média norte-americana e suas ranhuras imperceptíveis em uma análise superficial. No entanto, é visível que Homens, Mulheres e Filhos é um projeto que exigiria um cineasta mais problematizador, um realizador que virasse suas tramas e personagens pelo avesso e não caísse nas conclusões óbvias que corriqueiramente são extraídas dos temas que a história sugere como: "as pessoas estão mais distantes umas das outras", "nem tão liberal, nem tão controlador, a melhor política na educação dos filhos é o meio termo" etc. 

Há desempenhos honestos ao longo da fita, como é o caso de Judy Greer, já citada, que vai percebendo aos poucos a que ponto a sua permissividade moldou o caráter da filha, ou Adam Sandler (impecável), sempre interessante quando procura se levar a sério como ator. No mais, não há muito o que se desenvolver em termos de composição de personagens com um roteiro que, como já dito, tem suas limitações. Há o charme da narração de Emma Thompson e a eficiência do diretor, mas a história merecia mais apuro.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Drops: Sétimo


Todos os elogios que a "escola" de cinema argentino tem colhido por seus ótimos roteiros parecem ir pelo ralo quando nos deparamos com um filme completamente perdido e óbvio quanto Sétimo. O longa traz Ricardo Darín como um advogado em vias de separação cujos filhos desaparecem subitamente no prédio onde morava. O filme Patxi Amezcua é um suspense que tenta seguir as marcas do gênero, mas este objetivo fica somente na aparência. Enquanto Amezcua constroi reviravoltas que se apresentam ao espectador como soluções mirabolantes e arquitetadas com meticulosidade pelo roteiro, no fundo, são resoluções óbvias que não expandem a trama e a tornam um daqueles suspenses baratos das noites de sábado do Super Cine. Darín e Belén Rueda cumprem suas funções, mas seus personagens são tão rasos que sequer realçam as performances dos seus atores.

Drops: As Aventuras de Paddington


As Aventuras de Paddington é uma agradável surpresa para quem desconhecia por completo esse personagem da literatura infantil inglesa criado pelo escritor Michael Bond. A direção do longa é de Paul King, egresso da televisão inglesa, e o projeto conta com uma série de grandes atores no seu elenco, entre eles, Nicole Kidman (divertidíssima como a vilã Milicent), Hugh Bonneville, Sally Hawkins, Julie Walters e Jim Broadbent. No entanto, em suas econômicas (e pertinentes) uma hora e meia de projeção, o grande destaque é o urso Paddington, dublado na versão original por Ben Whishaw - e não deixa de ser um crime que no Brasil sejamos forçados à péssima dublagem de Danilo Gentili. O personagem é adorável e permite leituras interessantes sobre temas como solidariedade, amizade, enfim, mensagens rotineiras mas apropriadas para o seu pretenso público alvo. Claro que, para nós, existe um certo desconforto e a história de um urso oriundo das matas peruanas perambulando por Londres como um imigrante que torna-se praticamente um pedinte e é acolhido pela família encabeçada por Hawkins e Bonneville sugira leituras dúbias sobre as relações "assistencialistas" entre europeus e sul-americanos imigrantes, mas talvez sejam só divagações pessoais...