quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Listão 2014: Filmes



# 01. Sob a Pele
Dir.: Jonathan Glazer

Jonathan Glazer é um diretor de carreira relativamente recente mas que traz em seus trabalhos aquela vontade de explorar ao máximo as possibilidades da linguagem cinematográfica/audiovisual. Em Sexy Beast foi assim, Reencarnação não fugiu à regra, ainda que algumas pessoas tenham torcido o nariz para o filme na ocasião do seu lançamento... Contudo, Sob a Pele é um capítulo bem mais audacioso da sua trajetória. Através da história de uma alienígena que toma a forma humana e sai à caça de homens mesquinhos, o filme tem como norte uma protagonista que tem como objetivo aniquilar esse projeto que "não deu certo", o homem. O tema que salta aos olhos em Sob a Pele é a confiança e sua elasticidade quando ela é depositada na raça humana. Trata-se de uma visão pessimista sim, mas que tem consciência do suporte que está usando para transmitir essa mensagem, o cinema, e faz isso de uma maneira exemplar, singular. 




# 02. Guardiões da Galáxia
Dir.: James Gunn

Já perdi as contas de quantas vezes utilizei o adjetivo "divertido" para descrever Guardiões da Galáxia, porém não há outra palavra que melhor se encaixe para argumentar a presença desse sucesso comercial e de crítica dos estúdios Marvel na segunda posição. Fora as franquias que foram concedidas para outros estúdios de Hollywood (X-Men, Homem - Aranha, Quarteto Fantástico e Demolidor), os filmes da fase independente da Marvel (agora associada a Disney) são um pouco problemáticos. Guiados pelo projeto Os Vingadores, quase não há distinção entre Homem de Ferro e Thor, e Capitão América, por mais que tenha rendido ótimas adaptações, torna-se frágil por ser uma espécie de capítulo de transição de Avengers. Guardiões da Galáxia quebra com a rotina e oferece um autêntico "filme-pipoca", sem pretensões de parecer existencialista, com personagens bem desenvolvidos, muito humor (a comédia é orgânica), enfim, elementos que fizeram toda a diferença na temporada de férias. Esperamos por mais, James Gunn!




# 03. Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum
Dir.: Joel e Ethan Coen

Inside Llewyn Davis não foi um filme fácil de "se vender" para o Oscar. Trata-se da história de um músico folk fracassado. O mito americano do "faça você mesmo" foi um obstáculo para esse filme nos EUA, um longa cujo discurso vai na contramão dessa máxima dizendo: "às vezes você pode se esforçar e não conseguir o que tanto quer". A estrutura social é invasiva e opressora diante da pequenez do homem comum. Isso é Inside Llewyn Davis, um salto imperceptível e discreto na filmografia dos Coen no presente. Os diretores de Fargo e Onde os fracos não têm vez continuam ali com seu humor inconfundível, mas um desdobramento, uma variação, dessa marca foi revelada nessa melancólica e irônica crônica sobre o "fracassado" americano.




# 04. O Lobo atrás da Porta
Dir.: Fernando Coimbra

O filme nacional mais interessante do ano foi visto por poucas pessoas, uma lástima, melhor, um retrocesso para a nossa filmografia. Explico, O Lobo atrás da Porta é um daqueles casos nos quais um filme consegue equilibrar os anseios do seu realizador com a criação de uma história que não afasta as plateias com os mais diversos repertórios cinematográficos possíveis, ou seja, um longa com um potencial gigantesco para ser popular. No entanto, por força de monopólios e políticas predatórias de distribuição e exibição, é um trabalho pouco conhecido, ficou restrito às salas de arte. Uma pena. Esperamos que o tempo faça justiça a essa estreia de Fernando Coimbra na direção de um longa conduzindo  por um elenco que entrega um trabalho coletivo harmônico raro de se ver encabeçado pela arrebatadora Leandra Leal. 




# 05. Ela
Dir.: Spike Jonze

Apesar de não ser um dos grandes entusiastas das novas tecnologias, levanto as mãos para os céus por Spike Jonze não ter feito um filme calcado no discurso "as tecnologias estão nos tornando mais distantes uns dos outros". Jonze fez com Ela um filme contextualizado na nova era, mas o seu longa é sobre o amor e a dificuldade de lidar com o ônus das relações amorosas: as brigas, as diferenças do outro etc. Theodore, um Joaquin Phoenix soberbo, não quer nada disso e encontra em Samantha, a voz de Scarlett Johansson, um Sistema Operacional, a companhia ideal. Ela é um longa que tenta entender por quais vias nos esquivamos do amor e do contato físico quando sofremos uma desilusão amorosa. Spike Jonze, em seu terceiro e mais consistente voo solo após o rompimento da parceria com Charlie Kaufman, faz isso da maneira mais sensível e brilhante que se possa imaginar.




# 06. 12 Anos de Escravidão
Dir.: Steve McQueen

Existe uma espécie de "tradição" na qual vencedores do Oscar acabam sendo injustamente avaliados por terem simplesmente ganhado uma competição. Em termos comparativos, a vitória de um filme correto pode parecer injusta diante de um concorrente "superior", também na disputa. Daí o longa fica marcado para sempre com o selo de "filme ruim" ou "não tão bom quanto dizem". Irei citar nas duas próximas posições um longa que venceu o Oscar de 2014 e outro que promete "fazer a festa" em 2015, e os dois merecem sim toda a atenção que tiveram. Sou partidário da ideia de que, antes de ser uma obra atemporal e objeto de apreciação de um grupo seleto, o cinema está na sociedade e, por vezes, a força de sua mensagem se sobrepõe a qualquer virtuosismo técnico. Esse é o caso de 12 Anos de Escravidão, longa dirigido com uma vitalidade  que salta aos olhos por Steve McQueen e que consegue narrar com propriedade pulsante uma ferida de difícil cicatrizar na nossa sociedade, a escravidão.




# 07. Boyhood - Da Infância à Juventude
Dir.: Richard Linklater

Outro filme que pode se enquadrar na mesma categoria é Boyhood - Da Infância à Juventude, forte candidato a melhor filme na premiação da Academia de Holywood em 2015. Com sua história sobre o amadurecimento de Mason, Richard Linklater não quer fazer um filme cheio de arroubos estéticos, não é isso que se deve procurar aqui. O filme de Linklater, maior do que suas histórias de bastidor (o filme levou 12 anos para ser feito e acompanha o crescimento do seu protagonista em tempo real), em determinado momento, conecta a vida do garoto com a de seus pais e é nesse instante que o realizador revela-se grande e generoso com o seu espectador. Linklater entende que a maturidade não é uma questão de idade, que nossos pais são tão inseguros e apreensivos com o futuro quanto a gente e que, no fundo, o que importa, é viver o momento, o presente. Simples, sem frufrus, coerente com seus propósitos, direto, sem frufrus, protagonizado por personagens de carne e osso, enfim, como a vida.



 # 08. Garota Exemplar
Dir.: David Fincher

David Fincher é um realizador habilidoso com suspenses. Da sua geração, provavelmente não há um diretor que conduza melhor um filme desse gênero do que ele. Até certo momento, Garota Exemplar cumpre todos os requisitos já esperados em um longa do diretor, até mesmo nas suas reviravoltas. No entanto, Fincher dá um salto quando transforma a história do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike) em uma leitura macabra sobre o casamento e sobre as aparências. Nesse momento, o realizador transforma essa adaptação do romance de Gillian Flynn em um dos filmes mais interessantes de sua carreira, demonstrando que, mesmo com toda a frieza que lhe é habitual, ele pode fazer muito mais do que contar uma trama de gênero e subverter nossas expectativas de leitura sobre o seu filme. 




# 09. The Rover - A Caçada
Dir.: David Michôd

Na distopia do australiano David Michôd a sociedade vive a barbárie. Não há lei, repeito, relacionamentos calcados no sentimento, enfim, é um "salve-se quem puder". Cansado de tudo isso, um homem usa da própria força para resgatar o seu único bem das mãos de um grupo de criminosos. No início da jornada encontra um rapaz ferido e desnorteado que pode lhe levar ao grupo. O que o espectador e os personagens não esperam é que nesse encontro possam ser desenvolvidos a fidelidade, a confiança... Cabe ao protagonista decidir se retorna à condição humana ou se prefere permanecer na barbárie. Michôd entrega um filme tão corrosivo quanto Reino Animal  e conta com os ótimos desempenhos da dupla Guy Pearce e Robert Pattinson, que, sim, revela-se um ator surpreendente. 




# 10. Relatos Selvagens
Dir.: Damián Szifron

Não cansamos de dizer o quanto os argentinos são maravilhosos no cinema (e, cá entre nós, são mesmo). Relatos Selvagens é uma prova cabal disso. O filme de Damián Szifron tinha tudo para sofrer com os mesmos problemas que assolam todo longa composto de múltiplos segmentos dramáticos, mas, contrariando as regras, Relatos Selvagens é bom do início ao fim, em todas as suas histórias. Funcionando como uma compilação de crônicas sobre os instintos humanos reprimidos e a vingança, o filme traz histórias que instigam e provocam empatia no espectador, além de interpretações certeiras de um elenco que vai do astro latino Ricardo Darín, passando pela surpreendente Erica Rivas como a noiva Romina e Rita Cortese como a fria cozinheira do primeiro "conto" do longa. 





Um comentário:

Stella Daudt disse...

Ainda não vi todos os filmes da sua lista, mas "Rover" e "Guardiões da Galáxia" me agradaram demais!