quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Listão 2015 - Música


Trilha Sonora Original
Marco Beltrami
Dívida de Honra

Não é de hoje que Marco Beltrami tem um trabalho irretocável na composição de trilhas sonoras para o cinema. Diferente de alguns dos seus colegas mais badalados, o compositor opta pela realização de trilhas que não se sobrepõem a própria história, elas acompanham o filme. Vem dai a qualidade do seu trabalho nesse filme dirigido por Tommy Lee Jones. Sensível e ritmada pela jornada comovente dos personagens do longa, a trilha de Marco Beltrami para Dívida de Honra foi um dos trabalhos mais interessantes no departamento em 2015.




Outras consideradas...






Daniel Pemberton
Os Agentes da U.N.C.L.E.






Michael Giacchino
Divertida Mente





Rich Vreeland (Disasterpeace)
Corrente do Mal





Vítor Araújo e Fábio Trummer
Que Horas ela Volta?





Canção Original
"I love you all", de Stephen Rennicks e Lenny Abrahamson
Frank

Parte de uma das mais gratas surpresas cinematográficas do ano, "I love you all" entra no final de Frank e expõe todas as angústias do protagonista vivido por Michael Fassbender que o espectador acompanha ao longo do filme com as feições escondidos por uma grande cabeça de papel machê. A canção de Stephen Rennicks e do próprio diretor do filme Lenny Abrahamson é orgânica a narrativa e faz todo o sentido no contexto em que é inserida.


Outras consideradas...

O Pequeno Príncipe

Selma

O Pequeno Príncipe

O Pequeno Príncipe





Compilação Musical
Os Agentes da U.N.C.L.E.


Muita gente não gostou do resultado de Os Agentes da U.N.C.L.E., o filme não foi muito bem nas bilheterias como esperado... Particularmente, o trabalho de Guy Pearce nesta adaptação do seriado homônimo para os cinemas é bem competente e charmoso. Um dos aspectos mais interessantes do filme é a seleção de canções escolhidas pelo diretor para fazer parte da trilha do longa, o que inclui "Compared to what", de Roberta Flack, "Jimmy renda-se", de Tom Zé e Valdez, e "Feeling good", de Nina Simone. É daquelas pra se ter em casa, independente do que tenha achado do filme.



Canção: "Feeling good", de Nina Simone

Outras consideradas...

Trilha de Vício Inerente
"I want to take you higher", de Sly and the Family Stone

Trilha de O Clã
"Sunny Afternoon". de The Kinks

Trilha de Perdido em Marte
"Starman", de David Bowie

Trilha de Mistress America 
"Souvenir", de The Orchestral Manoeuvres in the Dark

domingo, 27 de dezembro de 2015

Drops: Música, Amigos e Festa



Ambientado no universo da música eletrônica, Música, Amigos e Festa parece ter como objetivo tratar sobre um dos principais conflitos da juventude: se posicionar como adulto no mundo e aliar nesse processo os sonhos e as demandas da realidade. É uma pena, contudo, que o longa de ficção de estreia de Max Joseph, conhecido por sua participação no reality show da MTV Catfish, se perca irreversivelmente em dado momento da trama e entregue uma resolução tão precariamente improvisada como a que oferece ao final da história. Música, Amigos e Festa tem como protagonista um aspirante a DJ que conhece um famoso e estabelecido profissional do ramo e vê nessa amizade a possibilidade da sua carreira decolar. Não espere do elenco do filme grandes interpretações. Entre a apatia da linda, porém inexpressiva, Emily Ratajkowski  e o tom sempre morno de Wes Bentley, quem se sobressai é mesmo Zac Efron, que a despeito de não contar com uma composição de personagem muito inspiradora do roteiro do filme, consegue se sair muito bem durante boa parte da trama. O filme se beneficia por lampejos de criatividade narrativa de Max Joseph, cuja condução não chega a ser completamente original (e eu desafio vocês a encontrarem algo genuinamente original no mundo), mas apresenta inserções interessantes, como quando mescla o filme com animações ou com projeções de slides para ilustrar determinados trechos da narração do seu protagonista. Pena que, como já expliquei, sejam lampejos de criatividade porque quando o longa se entrega ao triângulo amoroso entre Efron, Bentley e Ratajkowski, a história perde o seu foco e esquece o seu próprio universo para se preocupar com desenlaces amorosos. Daí em diante, tudo é concluído de maneira atabalhoada por Joseph e Música, Amigos e Festa perde todo o seu charme. 

sábado, 26 de dezembro de 2015

Drops: Já Sinto Saudades



Já Sinto Saudades é o tipo de filme que você consegue enxergar os defeitos de ponta a ponta, mas não deixa de dar um desconto por trazer uma história repleta de momentos emocionantes. O filme de Catherine Hardwicke tem como muleta a trama de um laço de amizade muito forte e uma personagem que possui um câncer em estágio avançado e a diretora não deixa de exibir determinada falta de traquejo com a câmera ao optar por uma condução repleta de decisões visuais aleatórias - como as imagens trêmulas, os cortes abruptos-, mas seria muita prepotência achar que uma boa experiência no cinema se restringe a um uso normatizado e cultuado da linguagem cinematográfica. Narrando a história de duas amigas de infância que se vêem em momentos diametralmente opostos de suas vidas (uma está prestes a se tornar mãe pela primeira vez e a outra descobre um câncer de mama), Já Sinto Saudades conta uma daquelas histórias universais, e que por isso mesmo pega o nosso coração de jeito, sobre a amizade. Nesse aspecto, o filme de Hardwicke é certeiro e ainda conta com duas atrizes do calibre de Drew Barrymore e Toni Collette que constroem uma relação sincera entre as amigas Jess e Milly, o que ajuda ainda mais o espectador a se envolver com o drama das suas personagens. Cinematográfica e narrativamente Já Sinto Saudades não é um dos longas mais impecáveis do ano, mas tem vezes que a gente deve dar um desconto quando uma história tem tanta força e tanta alma quanto aquela conduzida pelos desempenhos sinceros e apaixonados de Barrymore e Collette. Aviso: preparem os lenços. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Star Wars - O Despertar da Força (COM SPOILERS!!!)



ATENÇÃO SPOILERS!!! NÃO LEIA SE VOCÊ NÃO ASSISTIU AO FILME (OU LEIA POR SUA CONTA EM RISCO)

Indubitavelmente, Star Wars - O Despertar da Força é o acontecimento cinematográfico do ano. Com quase quarenta anos de existência, a franquia cinematográfica mais cultuada da história da indústria do cinema teve em seu episódio sete, conduzido pelo experiente J.J. Abrams, criador de Lost e responsável pelo renascimento de outra série cultuada em todo o mundo Star Trek, um capítulo importante da sua trajetória. O lançamento era aguardado com expectativas pelo simples motivo de ser Star Wars, praticamente um embrião do blockbuster norte-americano, mas porque O Despertar da Força representava um recomeço para a saga, cuja última trilogia, prequelas conduzidas pessoalmente por George Lucas, resultara em filmes mornos, com histórias previsíveis (afinal, todo mundo que havia assistido Uma Nova Esperança, O Império contra-ataca e O Retorno de Jedi sabia exatamente o destino de Anakin Skywalker). Ambientado 30 anos após o O Retorno de JediStar Wars - O Despertar da Força dialoga muito mais com a vivacidade da trilogia de 1977-1983  do que com a esquecível de 1999-2005 e apresenta uma história nova com elementos e personagens representando trajetórias conhecidas que moldaram as marcas da própria franquia.

O filme traz o surgimento de uma nova ameaça, a Primeira Ordem, uma organização que visa destruir a República e estabelecer um novo caos na galáxia. Orquestrada pelo Líder Supremo Snooke e por seus comandados diretos Kylo Ren e General Hux, a Primeira Ordem está em busca de um mapa que os levará a localização de Luke Skywalker, considerado uma ameaça por ser o último Jedi vivo que se tem notícia. O paradeiro de Skywalker é mantido em segredo pelo robô BB-8, que por sua vez conta com a ajuda de uma jovem sucateira do planeta Jaku,  a catadora de sucatas Rey. Com a ajuda de um stormtrooper desertor da Primeira Ordem chamado Finn, Rey assumirá a missão de levar BB-8 de volta para a República antes que ele caia nas mãos de Snooke e companhia.

Não existe grandes rupturas com o tom e a trajetória da primeira trilogia Star Wars em Star Wars - O Despertar da Força. A jornada e a função dos seus novos personagens são basicamente as mesmas daquelas exercidas por Luke Skywalker, Princesa Leia, Han Solo e Darth Vader na trilogia de 1977-1983, o que não é um demérito para o novo filme da saga, pelo contrário. Firmando Star Wars como uma grande saga familiar lastreada basicamente pela mitológica disputa entre o bem e o mal e pela ascensão da figura de um herói vindo do lugar mais improvável, O Despertar da Força revive os passos que fizeram George Lucas cimentar a saga como um fenômeno da cultura pop de maneira muito mais eficiente e vibrante do que o próprio criador da franquia no pálido prequel de 1999-2005, composto por A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith, que se enquadram muito mais como um mimo de Lucas e cia. aos fãs ardorosos da série cinematográfica do que uma história com urgência de ser contada. Tudo em O Despertar da Força é crível, tem textura, forma, dimensão e emoções reais - em oposição ao prequel de Star Wars sufocado por dezenas de efeitos especiais que deram um tom cartunesco à trilogia dos anos 2000 - , o que comprova que, talvez, curiosamente, a franquia sempre esteja em boas mãos quando está longe das decisões diretas do seu próprio criador. A exceção de Uma Nova Esperança de 1977, todos os melhores filmes Star Wars não tiveram a direção de George Lucas.

Um dos grandes acertos de Star Wars - O Despertar da Força está em conseguir equilibrar a reverência ao passado da franquia com situações e dinâmicas que nos remetem a Uma Nova Esperança e O Império contra-ataca  e estabelecer novos rumos para o seu universo. Assim, J.J. Abrams consegue agradar antigos fãs de Star Wars e fidelizar uma nova leva de aficionados pela saga, afinal nos são apresentados personagens que, a despeito de "respirarem" as motivações e os "lugares" ocupados pelos seus antecessores naquele universo, possuem identidade própria e fôlego para empreender uma nova e intensa jornada pelos próximos anos. 

Diversas decisões tomadas por J.J. Abrams, Lawrence Kasdan e Michael Arndt no roteiro de O Despertar da Força evidenciam os esforços do trio em promover novos rumos para a saga preservando as marcas da trilogia de 1977-1983, o que é bastante interessante. É como se o trio de roteiristas repaginasse a série cinematográfica conservando elementos vitais e que assumem a identidade de Star Wars. Nesse sentido, entender como centro de suas preocupações a jornada de dois desses personagens, a heroína Rey e o vilão Kylo Ren rumo a construção dos seus respectivos mitos, e trazer novamente uma tragédia familiar como elemento propulsor das suas ações e decisões traz para O Despertar da Força um caráter cíclico, ou seja, a noção de que as histórias se repetem pelas gerações.

ATENÇÃO MEGA-SPOILER!  ATENÇÃO MEGA-SPOILER!  ATENÇÃO MEGA-SPOILER!

Um dos momentos mais emblemáticos de O Despertar da Força que evidenciam esta oscilação sadia entre o nostálgico e o rejuvenescimento da franquia  é a corajosa decisão que os roteiristas tiveram ao matar um dos personagens mais emblemáticos e queridos de toda a franquia, o Han Solo de Harrison Ford, assassinado pelas mãos do seu próprio filho com Leia, o vilão Kylo Ren. A morte de Han Solo em O Despertar da Força remete à icônica cena em que Darth Vader revela a Luke Skywalker que é o seu pai em O Império contra-ataca, mas também mostra-se como um momento singular para a saga dali em diante e que, por sua gravidade, justifica a formação de conflitos ainda mais severos entre os seus personagens pelos próximos capítulos. A decisão drástica dos roteiristas de O Despertar da Força confirma a natureza perversa de Kylo Ren,  que durante todo o filme sempre esteve em conflito entre a luz e o lado negro da força e que, após o assassinato do pai, parece ter fincado de vez a sua posição no universo. Além disso, mexe drasticamente com a trajetória de diversos personagens traumatizados pelo acontecimento, como Chewbacca, Leia e até mesmo os novatos Finn e Rey, cuja verdadeira filiação não tivemos conhecimento em O Despertar da Força.

Somado a uma direção eficiente e um primoroso trabalho em seus departamentos técnicos e artísticos, Star Wars conta com um elenco espetacular de jovens atores que se junta a uma velha-guarda encabeçada por Mark Hamill (em breve participação nesse episódio já que o desaparecimento do seu personagem é o mote do filme), Carrie Fisher e Harrison Ford, mais uma vez impagável como Han Solo. A protagonista da nova trilogia é a radiante Daisy Ridley, que consegue fazer de Rey uma jovem marcada pelas dificuldades da sua realidade, mas que não perde a doçura e até mesmo a ingenuidade diante da descoberta de um novo universo. Fica evidente também na performance de Ridley a transformação sofrida pela personagem que, na medida em que a história chega ao seu fim, amadurece e assume seu lugar e sua responsabilidade nesse universo. Na pele do ex-stormtrooper Finn, John Boyega transborda carisma e humanidade sem tornar o seu personagem uma caricatura ambulante. Ao mesmo tempo em que, por diversos momentos, Finn seja utilizado como um alívio cômico do novo filme, Boyega não se esquece que seu personagem possui traumas tão profundos quanto os de Rey a partir do momento em que todas as suas decisões na história são tomadas por um medo de ser punido pela Primeira Ordem, cujo modus operandi ele conhece como nenhum outro. Existem outros personagens interessantes ao longo de O Despertar da Força que podem ser explorados em maior profundidade nos próximos filmes, mas que aqui já demonstram seu potencial através do tom certeiro dos seus atores, como o piloto de X-Wing Poe Dameron do ator Oscar Isaac, a Capitã Phasma de Gwendoline Christie, o General Hux de Domhnall Gleeson e até mesmo os personagens construídos por captura de movimentos dos atores Lupita Nyong'o e Andy Serkis, Maz Kanata e o Líder Supremo Snooke, respectivamente.

E a maior prova de que J.J. Abrams conseguiu conservar os já numerosos fãs da série e angariar um novo e jovem grupo de fanáticos por Star Wars está ao final das sessões de O Despertar da Força ou mesmo nas ruas. É perceptível a empolgação de pequenos de diversas faixas etárias quando os créditos finais do novo filme da franquia começam a aparecer. As crianças não param de falar da Rey, do Finn, do Kylo Ren, de Han Solo, do Chewbacca, do BB-8... Basta entrar também em qualquer loja de brinquedos e ver como meninos e meninas com menos de dez anos de idade estão loucos para ter o próprio sabre de luz, que, por sinal, andam esgotados. Enfim, J.J. Abrams conseguiu mesmo despertar a força de uma franquia que nem mesmo o seu criador foi capaz de respeitar nos monótonos A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith. Amigos e haters, gostem ou não, Star Wars está de volta! 


Star Wars - The Force Awakens, 2015. Dir.: J.J. Abrams. Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan e Michael Arndt. Elenco: Harrison Ford, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Adam Driver, Carrie Fisher, Mark Hamill, Domhnall Gleeson, Lupita Nyong'o, Andy Serkis, Gwendoline Christie, Max von Sydow, Peter Mayhew, Anthony Daniels. Disney, 135 min. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

As Sufragistas



A causa feminina foi um dos temas evidentes em 2015 na indústria cinematográfica. Das declarações de Jennifer Lawrence sobre a desigualdade de salários entre atores e atrizes em Hollywood ao mega-sucesso Mad Max - Estrada da Fúria e a icônica personagem interpretada por Charlize Theron no filme de George Miller, a Imperatriz Furiosa, nunca se discutiu tanto o lugar das mulheres nas narrativas cinematográficas como agora. As Sufragistas seria a "cereja no bolo" de toda esta atmosfera saudável de debates, prometendo levar a discussão para a temporada de premiações. O grande problema é que a recepção norte-americana ao filme não foi muito calorosa e o longa teve pouquíssimas menções em prêmios que antecedem o Oscar, nem mesmo nomeações ao trabalho da atriz Carey Mulligan, que parecia uma das poucas seguranças do filme, surgiram nas listas de indicados ao Globo de Ouro ou ao SAG Awards. E não é querendo ser "agorento" não, mas esta ausência é bem merecida. Ainda que As Sufragistas esteja longe de ser um desastre cinematográfico, é um filme bem morno, previsível e emocionalmente mecânico.

As Sufragistas é baseado em eventos reais e conta parte da trajetória do movimento feminista na Inglaterra. O filme é ambientado no início do século XX e traz o grupo reivindicando o direito ao voto através de atos coordenados para chamar a atenção das autoridades públicas. A trama é centrada na adesão de Maud Watts, um jovem trabalhadora de uma fábrica, que mesmo sem ter nenhuma formação política se envolve com o movimento.

A diretora Sarah Gavron dirige o seu longa com propósitos muito claros e isso fica evidente desde o início de As Sufragistas: mostrar o quanto a causa das suas personagens foi e continua sendo importante. É uma pena que a realizadora torne tudo muito didático, usando um leve maniqueísmo na construção dos seus personagens, e flertando com chavões de dramas políticos que tornam a trama emocionalmente fria, ainda que vez ou outra busque criar uma empatia entre o espectador e a situação das suas personagens. Gavron opta por um filme burocrático, por uma narrativa "quadradona" ao estilo de telefilmes históricos da BBC, o que enfraquece e muito As Sufragistas como filme.

Do elenco, Carey Mulligan é o único destaque, já que a sua personagem é o centro de toda a trama de As Sufragistas. A atriz está muito bem como Maud Watts, optando por uma interpretação repleta de sutilezas. Ainda assim, é preciso sublinhar que não é o melhor desempenho da sua carreira (este continua sendo em Shame) e não mereceria menção a prêmios como alguns previram meses atrás. Os demais atores, incluindo aqui Helena Bonham Carter, Anne-Marie Duff, Romola Garai, Ben Whishaw, Brendan Gleeson e, claro, Meryl Streep, não tem grande destaque que mereça uma maior atenção, todos flanam na história de Maud Watts. Meryl Streep é o maior exemplo disso, com menos de três minutos em cena (não estou sendo exagerado, cronometrado deve dar isso mesmo), a atriz só por ter o seu nome vinculado ao projeto gera uma expectativa frustrada no público (afinal é Meryl Streep) e acaba chamando muita atenção para uma cameo, ofuscando a própria obra.

Em tom esquemático, As Sufragistas acaba se impondo pela própria história que busca contar - que de fato é muito importante e, mais do que nunca, merece ser conhecida. O filme  em si decepciona pela falta de personalidade da sua condução e por navegar em águas tão mornas que não fossem o seu desfecho e aquilo que antecede os seus créditos finais seria um filme esquecível, uma pena pois aquilo que lhe dá origem merecia um tratamento melhor.


Suffragette, 2015. Dir.: Sara Gavron. Roteiro: Abi Morgan. Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Anne-Marie Duff, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Romola Garai, Meryl Streep, Grace Stottor, Adam Michael Dodd, Drew Edwards, Geoff Bell. Universal, 106 min. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Macbeth - Ambição e Guerra



Longa que encerrou as atividades da última edição do Festival de Cannes, Macbeth - Ambição e Guerra não anda conseguindo a repercussão que merecia, pelo menos nos EUA. Dirigido pelo australiano Justin Kurzel, que possui pouquíssimos filmes no currículo mas que já anda nas altas rodas hollywoodianas por ser o realizador da adaptação do game Assassin's Creed (também protagonizada por Fassbender e Cotillard), Macbeth - Ambição e Guerra não é só um filme muito interessante e visualmente instigante, como também trata-se de uma das melhores adaptações cinematográficas daquele que é o mais interessante e soturno dos trabalhos do dramaturgo William Shakespeare.

Macbeth - Ambição e Guerra traz a conhecida história protagonizada por um nobre general do exército seduzido pela profecia de  três bruxas que afirmam que um dia ele será o rei da Escócia. Tentado pela ideia de tomar posse do trono, ao lado de sua esposa, ele trama o assassinato do monarca, uma atitude que fará com que gradualmente o novo rei seja consumido pela culpa e pela loucura.

Justin Kurzel acerta em Macbeth - Ambição e Guerra ao conseguir tornar o texto original contemporâneo sem modificá-lo drasticamente, reforçando quão resistente ao tempo é esta história sobre a ganância humana de Shakespeare. Kurzel opta por uma atmosfera sombria, o que se reflete na fotografia de Adam Arkapaw (um trabalho primoroso ao priorizar os tons escuros - e avermelhados ao fim  da história -, mas também por conseguir usar com muita pertinência as paisagens naturais, a névoa... Sem dúvida, um das fotografias mais acertadas e esteticamente bem executadas do ano) e na interpretação de Michael Fassbender e Marion Cotillard, Macbeth e Lady Macbeth, respectivamente. A dupla principal consegue conduzir com muita delicadeza a trajetória sombria dos seus personagens, passando longe do overacting, uma armadilha fácil para qualquer ator que se arrisque a interpretar um texto denso de Shakespeare como esse.

Nem mesmo o fato de Kurzel cair na tentação de usar o slow motion à la Zack Snyder nas sequências de batalha estragam o resultado de Macbeth - Ambição e Guerra pois tudo, no geral, é tão bem executado. O realizador mostra-se avesso ao entendimento de que para atualizar Shakespeare faz-se necessário alterar a trama e sua linguagem drasticamente. Kurzel faz um filme contemporâneo sem grandes afetações, permitindo que seus atores ofereçam interpretações intensas e longe das afetações. Ao final, deixa-se claro que poucas tramas como Macbeth conseguiram dar conta de maneira tão rica de lugares nada nobres da natureza humana.  




Macbeth, 2015. Dir.: Justin Kurzel. Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso. Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Paddy Considine, Sean Harris, Jack Reynor, David Thewlis, David Hayman, Elizabeth Debicki, James Harkness, Brian Nickles. Diamond Filmes, 113 min.  

domingo, 20 de dezembro de 2015

Listão 2015 - Piores filmes

Como é tradição no blog, eis os piores filmes lançados nos cinemas brasileiros em 2015. Um adendo, a seleção foi feita a partir dos títulos vistos por mim  ao longo do ano e não pela totalidade de longas lançados no circuito brasileiro. Portanto, não estranhem se alguma "bomba" não for mencionada na lista, afinal muitas delas foram evitadas pois o tempo anda cada vez mais curto e a paciência, às vezes, também, não é verdade?


# 10. Peter Pan
Com o intuito de contar as origens de Peter Pan e Gancho, Peter Pan nos traz um diretor inventivo como Joe Wright, de maravilhas como Desejo e Reparação e Anna Karenina, completamente anulado em uma trama que perde o fio da meada e aposta na aventura descartável. Com um elenco talentoso completamente desperdiçado composto por Hugh Jackman, Rooney Mara e Garrett Hedlund, ficou ainda mais difícil engolir Peter Pan



# 09. Victor Frankenstein
Com tropeços bem parecidos com os de Peter Pan, Victor Frankenstein pretende (ou pretendia, no papel) contar os acontecimentos da criação do monstro do Dr. Frankenstein pelo ponto de vista do seu ajudante, o corcunda Igor. Em dado momento, o filme opta por uma adaptação convencional pouco fiel ao espírito e às reflexões do livro de Mary Shelley e ainda traz a atuação mais canastrona da carreira de James McAvoy como Victor Frankenstein. 



# 08. Promessas de Guerra
Ano de astros na direção de longas de ficção, em 2015, nem Angelina Jolie, nem Russell Crowe se salvaram. Primeiro vamos a Russell Crowe. O australiano nos entregou esta história aborrecida sobre um pai tentando juntar os cacos da sua família que escorrega na emoção fácil ao se render a uma trama romântica com uma linda, mas decorativa Olga Kurylenko. O filme tem belíssimas sequências, mas só isso.



# 07. Invencível
Com resultado semelhante, porém um pouquinho mais problemático, Invencível de Angelina Jolie nem parece ser um filme da Jolie. Quadradão ao extremo, Invencível ainda  cai no equívoco de reverenciar excessivamente o seu biografado, Louis Zamperini. A diretora realiza até mesmo metáforas bíblicas no seu segundo longa-metragem.


# 06 . À Beira Mar
E a coisa não anda fácil para a sra. Jolie-Pitt, pois pior do que o seu épico sobre Louis Zamperini é esta aborrecida tentativa da diretora fazer o seu filme de arte, uma espécie de arremedo do De Olhos bem Fechados de Stanley Kuvrick. Acumulando além da função de direção a de roteirista, Angelina Jolie estrela Á Beira Mar ao lado de Brad Pitt dez anos depois de Sr. e Sra. Smith, mas como a própria diretora fez questão de avisar desde o ano passado, esse novo filme do casal em nada lembrava o divertido filme de Doug Liman de 2005. À Beira Mar é pretensioso, tem uma narrativa frouxa e tem uma das conclusões mais estapafúrdias do ano. 


#05. Bem Casados
Esta comédia romântica protagonizada por Alexandre Borges e Camila Morgado, dirigida por Aluízio Abranches, conseguiu ser pior do que muito título co-produzido pela Globo Filmes. Patrocinado por uma grande loja de departamentos brasileira, o longa constrange o espectador não apenas por sua trama sem graça, mas também por suas divulgações nada orgânicas de serviços da empresa.



#04. Ruth e Alex
Reunir Morgan Freeman e Diane Keaton em um mesmo filme é motivo fácil para fazer a alegria de qualquer cinéfilo, certo? Mais ou menos, pelo menos não se o filme em questão for tão fraco quanto Ruth e Alex. Ao contar uma história sobre um casal em conflito sobre a venda de um antigo apartamento, o diretor Richard Loncraine e o roteirista Charlie Peters contextualizam embaraçosamente a trama leve dos Carver com a paranóia pós-11 de setembro e o resultado é bem esquisito, com direito a uma conclusão atabalhoada e tudo. 



# 03. 50 Tons de Cinza
As fãs de 50 Tons de Cinza só podem estar com um parafuso a menos ao eleger o protagonista dos livros de E.L. James como um modelo masculino. Não sei a obra literária, mas o filme é uma das coisas mais estranhas a chegar aos cinemas em 2015. Da entrevista de Anastasia com Christian Grey às cenas de sexo do tipo "muito barulho por nada", 50 Tons de Cinza apela para um discurso perigoso sobre o amor superando qualquer humilhação física e emocional. 



# 02. Hitman - Agente 47
Tão enfadonho quanto o primeiro filme baseado no mesmo game, Hitman - Agente 47 cumpre muito bem a cota de filme de ação mais mecânico do ano. Repleto de chavões visuais do gênero, nem ao espetáculo o filme serve pois suas cenas de ação são mal conduzidas. É um daqueles casos em que o volume de dinheiro e de aparato técnico investido pelo estúdio resulta em catástrofe. 



# 01. Terceira Pessoa
Roteirista de Menina de Ouro, de Clint Eastwood, e diretor e autor do roteiro de Crash - No Limite, filme que lhe valeu duas estatuetas do Oscar (melhor roteiro original e melhor filme), Paul Haggis era considerado um dos melhores da sua área em meados da década passada. Chega ser melancólico saber que o mesmo Haggis retorna depois de anos longe dos holofotes com um filme cujo principal problema é justamente o seu roteiro. O longa em questão é Terceira Pessoa, um típico filme mosaico com atores do calibre de Liam Neeson, Olivia Wilde, Adrien Brody, James Franco, Mila Kunis, Maria Bello, Kim Basinger, todos subaproveitados, cuja história parte do nada para ir ao lugar nenhum. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Drops: À Beira Mar



Em seu terceiro longa-metragem como diretora (e agora roteirista também), Angelina Jolie esquece um pouco as questões políticas e os dramas épicos em grande escala para investigar a relação despedaçada de um casal juntos há 13 anos em À Beira Mar. Para contar essa história, ela e o seu marido fora das telas, Brad Pitt, encarnam Roland e Vanessa, um casal americanos em viagem pela França na década de 1970 no que parece ser uma jornada para que ambos redescubram a relação que fora profundamente afetada após um evento traumático na vida de ambos. No que parece ser o De Olhos bem Fechados do casal Jolie-Pitt (só esperamos que o destino não seja o mesmo de Nicole e Tom no derradeiro filme de Stanley Kubrick), À Beira Mar mistura voyeurismo e muita D.R. (discussões de relacionamento) com uma roupagem de "cinema de arte", como se toda a história do casal principal fosse dotada de uma profundidade que poucos alcançarão. Na verdade, o terceiro longa de Angelina Jolie soa mais como uma narrativa pretensiosa que parece querer dizer mais do que realmente consegue. Como roteirista, Jolie economiza nos diálogos e nos elementos que compõem o arco da sua história, oferecendo ao público um filme cujo tom predominante é o da monotonia do início ao fim. As feridas do relacionamento de Roland e Vanessa não são abertas em profundidade e quando tudo parece ser solucionado por um ato estapafúrdio da personagem de Jolie no terceiro ato da trama, as horas gastas pelo espectador em À Beira Mar parecem completamente desperdiçadas. Um belo ornamento, já que o novo filme da diretora não economiza nas tomadas que realiza em terras francesas, mas a nova empreitada do sr. e da sra. Jolie-Pitt não passa disso. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Drops: Pegando Fogo



Bradley Cooper encarna Adam Jones, uma espécie de Gordon Ramsay, em Pegando Fogo novo filme de John Wells, que dois anos atrás dirigia Álbum de Família, com Meryl Streep e Julia Roberts. Apesar desse filme ter um elenco tão estelar quanto o filme de Wells de 2013 - pensem que além do protagonista, desfilam na tela Uma Thurman, Emma Thompson, Riccardo Scamarcio, Omar Sy, Alicia Vikander, Lily James -, todas as atenções são mesmo para Cooper e, pontualmente, para dois dos seus coadjuvantes mais destacáveis, Sienna Miller, interesse amoroso do protagonista no longa, e Daniel Brühl, maître do restaurante que Adam Jones começa a trabalhar. Pegando Fogo acompanha a vida do seu protagonista algum tempo depois da sua mais séria crise nervosa. Tentando recompor a sua vida e se livrar de algumas dívidas adquiridas com traficantes de drogas, Adam Jones retorna a Londres e passa a trabalhar em um restaurante comandado por um antigo amigo. Jones administra sua cozinha e chama um grupo de profissionais que o ajudarão a tornar o local um dos melhores restaurantes da cidade. Para isso, o chef buscará a sua terceira estrela Michelin, um dos títulos mais cobiçados no mundo da gastronomia. Não fosse o carisma dos seus atores principais, sobretudo Cooper, Miller e Brühl, Pegando Fogo tenderia ao fiasco, tamanha a banalidade de sua trama. O filme de Wells nunca consegue gerar dinâmicas espontâneas entre os seus personagens ou mesmo dimensionar a natureza intempestiva do seu protagonista. Tudo fica na superfície, até mesmo o romance principal não consegue oferecer o mínimo brilho à trama. Existe até mesmo uma mensagem motivacional e uma lição de vida ao fim da jornada de Adam Jones, mas tudo é muito superficial e, ao final da sessão, não ficará a menor lembrança sobre tudo aquilo que foi visto pelo espectador. 

Drops: O Clã



Vencedor do prêmio de melhor direção para Pablo Trapero no último Festival de Veneza, O Clã conta a história verídica de uma família de criminosos responsável por sequestrar e matar pessoas na Argentina ao longo dos anos de 1980. O filme de Trapero concentra a sua narrativa na relação entre Arquimedes Puccio, vivido brilhantemente por Guillermo Francella, e seu filho, o jogador de rúgbi Alejandro Puccio, interpretado por Peter Lanzani. O maior mérito de O Clã é mesmo contar com a direção de Trapero, que transforma uma história marcada por crimes em um filme com tons tragicômicos. Ao mesmo tempo em que Trapero consegue demonstrar para o público a natureza obscura de um sujeito como Arquimedes Puccio e da relação que ele mantinha com o seu filho Alejandro, o realizador consegue encontrar o absurdo na trama de um grupo que transformou a violência em um negócio de família, evidenciando ainda a imaturidade emocional do primogênito dos Puccio em sua passividade diante do absurdos cometidos pelo pai. No fundo, O Clã tem uma leve inspiração nos filmes de gângster de Martin Scorsese que expunha a violência em carne viva,penetrando na mais comum das esferas da vida humana, o ambiente familiar, preenchendo o longa com momentos pontuais de humor que evidenciam uma certa ironia do realizador com a história contada e com os seus personagens. O resultado é bem interessante. 

sábado, 5 de dezembro de 2015

Olhos da Justiça



Toda vez que Hollywood inicia a produção de um remake as falas de descrédito para esta obra que sequer viu a luz do dia começam a brotar, especialmente se a produção em questão é uma segunda versão de um filme tão reverenciado por cinéfilos quanto o argentino O Segredo dos seus Olhos. Assim, foi inevitável que um grupo torcesse o nariz para Olhos da Justiça, remake do longa de Juan José Campanella que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 e passou a ser um dos estandartes da qualidade do cinema argentino contemporâneo. A versão norte-americana da obra de Campanella está longe de ser tão boa quanto o original, mas Olhos da Justiça não pode ser qualificado como um filme ruim, muito pelo contrário. No frigir dos ovos, o longa é muito bom e extremamente eficiente. 

Em Olhos da Justiça, um grupo de profissionais responsável por uma divisão do FBI especializada em ações terroristas logo após o 11 de setembro é abalados pelo assassinato da filha de Jess (Julia Roberts), uma das investigadoras do departamento. Logo, outro investigador da divisão e amigo da mãe da vítima, Ray (Chiwetel Ejiofor), e a procuradora Claire (Nicole Kidman) empreendem uma caçada ao responsável pelo crime que dura uma década e transforma a vida dos três personagens.  

Dirigido por Billy Ray, que merece a menção por seu trabalho em O Preço de uma Verdade, Olhos da Justiça toma algumas liberdades em sua adaptação, modificando alguns personagens e o seu desfecho, mas deixa em evidência as suas origens ao reproduzir determinados elementos do argentino, como a cena no estádio a alguns dos diálogos entre os seus personagens. Olhos da Justiça, portanto, não renega o seu "carimbo" cinematográfico de remake, mas o sustenta com muita elegância narrativa e ritmo sem desejar ousar muito, o que jamais soa como um problema da obra. 

O elenco principal é um dos pontos fortes do longa-metragem. Enquanto Julia Roberts entrega uma interpretação visceral na pele de uma mulher absolutamente despedaçada por uma tragédia pessoal, Nicole Kidman e Chiwetel Ejiofor ficam na órbita desse crime brutal e tentam entender a natureza dos sentimentos que seus personagens nutrem um pelo outro. Kidman está impecável na pele de uma mulher que tenta se firmar profissionalmente em meio a um ambiente predominantemente masculino e que a enxerga como um elemento frágil do grupo. Já Chiwetel comanda com vigor a busca obsessiva de Ray pelo autor do assassinato da filha de Jess. Enfim, a escalação do trio foi mais do que acertada. 

Realizando uma reflexão sobre as cicatrizes que a violência deixa em seus personagens, Olhos da Justiça de Billy Ray aborda um ponto de vista pertinente sobre justiça e punição, deixando claro no seu desfecho quem serão aqueles que de fato sofrerão as consequências do crime por toda a vida. Em suma, o longa está longe de ser a tragédia que alguns pintaram por ai. Obedece a cartilha do drama policial norte-americano, mas faz isso com muito equilíbrio e sem ofender ninguém, muito menos o argentino O Segredo dos seus Olhos.  


Secret in their Eyes, 2015. Dir.: Billy Ray. Roteiro: Billy Ray. Elenco: Julia Roberts, Nicole Kidman, Chiwetel Ejiofor, Alfred Molina, Dean Norris, Michael Kelly, Joe Cole, Zoe Graham, Lyndon Smith, Don Harvey, Ross Partridge. Diamond Films. 111 min. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Drops: No Coração do Mar



Ron Howard é um diretor que não tem muitos "rapapés" para contar as suas histórias. Diretor de Uma Mente Brilhante e Apollo 13, o vencedor do Oscar opta sempre pelo american way ao narrar suas tramas com a grandiloquência e a lacrimosidade de um clássico da old Hollywood. Tudo é muito vintage na carreira do realizador. E quando Howard propõe fazer isso sem maiores subterfúgios consegue um resultado bem interessante em seus filmes, é o caso do recente No Coração do Mar que narra a jornada da tripulação do baleeiro Essex que inspirou Herman Melville a escrever o clássico Moby Dick. No longa, o navio é naufragado após o ataque de uma baleia cachalote e toda o grupo de marujos fica à deriva aguardando o dia em que serão resgatados ou morrerão de fome e sede. Ron Howard explora muito bem o espetáculo que reside na história do Essex, tornando No Coração do Mar um dos melhores longas em alto mar desde Mestre dos Mares, de Peter Weir. É bem verdade que a dinâmica entre os personagens é rasa, sobretudo a rivalidade entre dois de seus protagonistas, Chris Hemsworth e Benjamin Walker, primeiro oficial e capitão da embarcação, respectivamente. Contudo fica evidente que dramaturgicamente as coisas permanecem na superficialidade por opção do próprio Howard que acolhe abertamente a condução de uma fita de puro entretenimento. Howard ainda traz uma ponta de reflexão sobre a relação do homem com a natureza, mas no fundo quer inserir o espectador em uma experiência audiovisual inclinada para o espetáculo. O resultado é bem recompensador. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Drops: Bem Casados



Diretor experiente de longas importantes da recente filmografia nacional como Um Copo de Cólera e Do Começo ao Fim, o cineasta Aluizio Abranches rende-se a comédia e consegue um resultado mais decepcionante do que muitas das malfadadas e estigmatizadas "comédias da Globo Filmes" com o longa Bem Casados. O filme conta a história de uma equipe que realiza filmagens de casamento e conta inesperadamente com a adição de um novo elemento em seu grupo, Penélope (Camila Morgado), ex-namorada do noivo de um casamento que o time acaba de ser contratado. Penélope acaba chamando a atenção de Heitor (Alexandre Borges), um solteirão convicto em crise de meia idade que é o chefe da equipe de filmagem. Não há problema algum em seguir fórmulas, flertar abertamente com a comédia romântica e apelar para os clichês do gênero como Bem Casados faz, porém além de sofrer da falta de personagens interessantes, que poderiam cair na caricatura não fossem os esforços de Camila Morgado e Alexandre Borges, Bem Casados sofre de uma falta de trama evidente já que diversos conflitos são abandonados pelo caminho ou solucionados de maneira improvisada. Para completar, o filme cai na esparrela do merchandising nada discreto de uma famosa loja de conveniências brasileira. Bem Casados é uma decepção para quem esperava uma boa inserção na comédia de um diretor com uma certa experiência em outras searas cinematográficas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Tudo que Aprendemos Juntos




Tudo que Aprendemos Juntos apresenta um Sérgio Machado que bebe de várias fontes para contar os eventos reais por trás da formação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis. A mais óbvia são as clássicas e edificantes narrativas sobre o poder da educação centradas em um icônico personagem já visto em filmes como Sociedade dos Poetas Mortos, o professor que torna-se inspiração para um grupo de jovens. Aliado a isso está o contexto problemático da exclusão social no Brasil, o crime como alternativa de vida sedutora para uma juventude com pouca perspectiva e o universo elitizado da música erudita. A combinação de tudo isso traz um dos longas mais eficientes da carreira do baiano Sérgio Machado, que tem no currículo produções como Cidade Baixa e Quincas Berro D'Água

Tudo que Aprendemos Juntos é, inicialmente, centrado na vida de Laerte, um dedicado e talentoso violinista interpretado por Lázaro Ramos que encontra dificuldades para passar no teste da OSESP, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Como um meio de sobrevivência, Laerte acaba aceitando o emprego de professor em uma escola pública da periferia de São Paulo para ensinar música a um grupo de adolescentes. A experiência que a princípio mostra-se completamente desestimulante pelo desinteresse do grupo nas aulas e pela convivência diária com o crime organizado da favela passa a fazer nascer no violinista um interesse pelos jovens a partir da descoberta de um talento excepcional na classe. Daí em diante, os garotos e Laerte aprenderão lições importantes que os farão enxergar outras possibilidades na vida e conferir importância a determinadas coisas que antes não tinham valor ou sentido.

Mesmo tendo em mãos um tipo de história aparentemente "batida" e com sério risco de tornar-se piegas em determinado momento, a condução de Sérgio Machado e o roteiro lúcido escrito por Maria Adelaide Amaral, Marta Nehring, Marcelo Gomes e pelo próprio diretor tornam Tudo que Aprendemos Juntos um filme capaz de gerar um envolvimento emocional espontâneo e intenso no espectador. Os roteiristas e o diretor constroem uma história que sai da banalidade para ir gradativamente ganhando o coração da plateia na medida em que consegue passar uma mensagem simples, repetida, é verdade, mas como muita lucidez, sensibilidade e sempre pertinente: a de que a educação e a arte são chaves de transformação humana.

Sem maiores elucubrações ou experimentações visuais e narrativas, Sérgio Machado realiza um filme repleto de momentos emocionantes e pungentes apoiados em uma interpretação certeira de Lázaro Ramos e do seu elenco de jovens talentos. Assim, Tudo que Aprendemos Juntos é um tipo de filme que já vimos alguma vez em algum lugar com outras caras (talvez gringas) na pele dos seus personagens e cuja mensagem nos soa familiar, mas que sempre que realizada de maneira emocionalmente sincera como Sérgio Machado faz do início ao fim da sua história evidencia um reforço de consciência sobre o que realmente é importante no mundo e faz a vida das pessoas melhorarem.


Tudo que Aprendemos Juntos, 2015. Dir.: Sérgio Machado. Roteiro: Sérgio Machado, Maria Adelaide Amaral, Marcelo Gomes, Marta Nehring. Elenco: Lázaro Ramos, Kaique de Jesus, Fernanda de Freitas, Sandra Corveloni, Elzio Vieira, Hermes Baroli, Criolo, Thogun Teixeira. Fox. 102 min. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Presente



De maneira bastante cautelosa e honesta, o ator australiano Joel Edgerton estreia na direção de longa-metragens com esse simples e eficiente suspense que teve uma aceitação muito positiva pela crítica nos EUA. Narrando em O Presente uma clássica história de obsessão protagonizada por um misterioso e sinistro personagem interpretado pelo próprio ator/diretor/roteirista, Edgerton oferece uma trama que ainda que seja previsível pelas suas reviravoltas e pelo seu desfecho, ao menos é conduzida com muita eficiência pelo realizador estreante. 

O Presente conta a história de um casal, Simon e Robyn, interpretados respectivamente pelos ótimos Jason Bateman e Rebecca Hall, que muda-se para uma nova vizinhança e acaba reencontrando um antigo colega de infância dele, Gordo, papel de Joel Edgerton. Logo Gordo começa a incomodar Simon pela sua forçada tentativa de fortalecer vínculos antigos e pelas suas constantes visitas a Robyn quando ele está no trabalho. À medida que o casal se aproxima de Gordo passa a ser envolvido em um jogo paranóico marcado pelo mistério em torno das reais pretensões do novo "amigo". 

Basta ter o mínimo de repertório cinéfilo para conseguir se antecipar a determinados movimentos da trama de O Presente: o cara bonzinho que não é tão bonzinho assim, o amigo psicótico que tem lá as suas razões para agir como age... Tudo em O Presente soa familiar, o suspense parece ser predestinado a se tornar um daqueles filmes exbidos na TV aberta sábado à noite. Esta familiaridade de O Presente contudo vai até certo ponto pois se os passos dos personagens podem ser antecipados pelo próprio espectador, o olhar de Edgerton para esta narrativa de gênero é singular e possui a sua própria força. A forma como o diretor costura a sua história e encerra o destino de seus personagens supera qualquer leitura do filme pela chave de um gênero, transformando-o em um entretenimento adulto com ritmo, inteligência e consciência cinematográfica. 

Com interpretações marcantes do seu trio principal, dando um especial destaque ao próprio Edgerton que, acertadamente, pouco entrega do seu misterioso Gordo ao espectador, O Presente é uma excelente estreia para o diretor e roteirista. Atrás das câmeras, Edgerton demonstra a precisão narrativa necessária para tornar o pouco e o óbvio, já que o filme é narrativamente simples e tem os seus similares, em uma experiência cinematográfica muito eficiente. 


The Gift, 2015. Dir.: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton. Elenco: Joel Edgerton, Jason Bateman, Rebecca Hall, Allison Tolman, Tim Griffin, Busy Phillipps, Adam Lazarre-White, Beau Knapp, Wendell Pierce, Mirrah Foulkes, Nash Edgerton, David Denman. Playarte. 108 min.  

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Drops: Victor Frankenstein



A clássica história de Mary Shelley sobre o jovem e ambicioso cientista Victor Frankenstein que fez as vezes de Deus ao conceber a vida a um monstro formado por partes de corpos de pessoas mortas talvez tenha sido uma das histórias mais exploradas pelo cinema. Esta versão intitulada Victor Frankenstein tem como intuito narrar em minucias os eventos que antecederam a criação do monstro de Frankenstein e o encontro entre Victor e seu fiel ajudante, o corcunda Igor. Dirigido por Paul McGuigan, de Xeque-Mate e Herois, Victor Frankenstein sofre de uma visível dispersão ao não saber se centra as suas atenções nos conflitos pessoais de Igor e sua visão particular sobre a história de Frankenstein ou se esmiúça a questionável conduta ética do cientista vivido por James McAvoy. No meio do caminho, o filme deixa o espectador sem motivação para acompanhar sua trama. Certas reflexões sobre a ética e a natureza humana, que são parte da essência da própria história de Shelley, se perdem em meio a tramas amorosas pouco produtivas e a uma crise de consciência abrupta de Victor Frankenstein no último ato da história. A atuação de Daniel Radcliffe como Igor, talvez um elemento central na trama, pouco chama a atenção em função de características do personagem que se perdem em meio ao imperativo de uma narrativa heróica romântica, e James McAvoy está um pouco acima do tom ao retratar Victor como um completo lunático. Tecnicamente o filme é irrepreensível e como entretenimento pode até valer o ingresso em determinados momentos, mas parece estar bem aquém da proposta inicial de McGuigan para a história. 

domingo, 29 de novembro de 2015

Drops: American Ultra - Armados e Alucinados



Em American Ultra - Armados e Alucinados, Jesse Eisenberg e Kristen Stewart vivem o que deveria ser um casal de viciados em drogas inserido em uma trama repleta de conspirações políticas e informações sigilosas do governo norte-americano. Acontece que o maior problema do filme é que o diretor Nima Nourizadeh tenta criar uma comédia de ação, mas não consegue dosar o humor com as sequências de ação e violência gráfica, ou melhor, o diretor não consegue em momento algum tornar o seu filme naturalmente leve, o que seria fundamental aos seus propósitos no subgênero. American Ultra - Armados e Alucinados é um filme que se leva a sério demais para um projeto que tem a premissa que possui. Assim, ainda que conte com uma química boa entre Jesse Eisenberg e Kristen Stewart e tenha no elenco figuras interessantes como Connie Britton e Topher Grace, que parece ser o único a compreender o "espírito descompromissado da coisa", o filme não decola. Por ser sisudo demais, American Ultra estaciona, torna-se algo difícil de se descrever ou atribuir valor. Como longa sério de ação, a história não "cola" e gera desinteresse no público. Como narrativa pop, o filme não consegue ser enfático como os longas de Matthew Vaughn (Kick-Ass, Kingsman), por exemplo, um dos diretores que mais sabem mesclar ação e comédia em uma roupagem como a que esse longa exige. O caminho que Nima Nourizadeh reserva a American Ultra é a completa indiferença e indefinição sobre o que o filme realmente quer ou representa em seu próprio contexto cinematográfico. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A Visita



Desde a metade da década passada o cineasta M. Night Shyamalan, que fez fama após o retumbante sucesso de O Sexto Sentido, amarga um fiasco atrás do outro. Alvejado pela crítica e pelos péssimos números nas bilheterias de filmes como A Dama na Água, Fim dos Tempos, Depois da Terra e O Último Mestre do Ar, Shyamalan e sua filmografia viraram motivo de piada em Hollywood, sobretudo porque o cineasta fora lançado em 1999 com o rótulo de "o novo Hitchcock". O terror A Visita é anunciado como o retorno do realizador à boa forma, algo que em parte se justifica já que o longa possui ideias interessantes, mas, por outro lado, soa precipitado, afinal o filme possui alguns problemas que emperram a história e sabotam o próprio fluxo criativo do realizador. 

A Visita conta a história de dois irmãos que são mandados pela mãe para a casa dos avós já que ela passará alguns bons dias em uma merecida viagem de férias. O casal de idosos mora em uma fazenda isolada de tudo e os garotos, que filmam a rotina da visita para um documentário, começam a estranhar o comportamento deles. Essa experiência fará com que muitas questões mal resolvidas nas relações dessa família sejam solucionadas, como o passado conturbado entre a mãe dos jovens e os seus pais e uma mágoa da irmã mais velha com o seu pai, que abandonara mulher e filhos de maneira abrupta e sem justificativa aparente. 

Em A Visita, M. Night Shyamalan resolve explorar uma das "meninas do olhos" do cinema de terror contemporâneo, o found footage, recurso pelo qual o espectador acompanha a trama pela perspectiva de um personagem que filma os acontecimentos da narrativa em uma câmera caseira. A câmera em primeira pessoa de Shyamalan em A Visita funciona em parte: se por um lado o realizador consegue tornar o formato orgânico a sua própria história e personagens, por outro soa repetitivo diante de tantos longas que já usaram o recurso e também vira uma muleta da qual o cineasta não consegue se desgarrar em momentos necessários (pense, quem conseguiria continuar preocupado com a gravação de um filme diante da ocorrência de acontecimentos tão macabros consigo mesmo? Os personagens do filme conseguem). 

Por outro lado, fica evidente que A Visita é um dos filmes mais bem resolvidos da carreira recente de Shyamalan, cujo último trabalho relevante foi A Vila de 2004, que ainda assim teve os seus "detratores" declarados na época do seu lançamento. O filme não chega a ser comparado a O Sexto Sentido, inegavelmente o seu melhor trabalho, mas consegue construir uma narrativa fluida, utilizando muito bem as marcas do seu próprio gênero e deixando o espectador instigado pelo desfecho da sua história. 

Há uma cena ao final do longa completamente desnecessária que evidencia uma espécie de mea culpa do diretor, que não satisfeito em construir um filme de terror digno sente a necessidade de transformá-lo em algo mais do que isso. Me pergunto, para que? Deixando qualquer "birra" de lado, A Visita tem mais pontos positivos a serem mirados do que negativos, prova de que umas boas bordoadas da opinião pública, quando merecidas, não faz mal a ninguém. É um filme eficiente aos seus propósitos e por seus defeitos e qualidades estimula a discussão sobre o seu próprio valor. Afinal, se existe algo que não podemos negar na carreira de Shyamalan é que ele suscita a divergência de percepções acerca da sua própria obra e isso é extremamente salutar. 


The Visit, 2015. Dir.: M. Night Shyamalan. Roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn, Celia Keenan-Bolger, Samuel Stricklen, Patch Darragh, Jorge Cordova. 94 min. UIP.