quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Caminhos da Floresta



Por ser uma produção Disney, muito se temia que a adaptação cinematográfica do famoso musical de James Lapine Caminhos da Floresta não fosse corajoso o suficiente para assumir os descaminhos que a história propõe ao universo dos contos de fadas. Porém, de alguma maneira, o diretor Rob Marshall conseguiu contornar esse possível empecilho e tornar o longa não apenas uma celebração ao gênero que sempre foi o carro chefe da Disney, mas também uma forma de subvertê-lo, de tensionar o seu discurso utópico do "felizes para sempre". Claro que tudo é feito com uma certa cautela, mas Caminhos da Floresta talvez tenha encontrado guarida nessa nova política da Disney de reinventar determinados terrenos previamente definidos e estanques na construções das suas princesas, príncipes e bruxas. Nesse sentido, podemos afirmar que Caminhos da Floresta é o conto de fadas mais down to earth que o estúdio já concebeu.

Em Caminhos da Floresta a ação tem início quando uma bruxa impõe um desafio a um padeiro e sua esposa para quebrarem um feitiço que os impossibilita de terem o seu primeiro filho. Eles devem adentrar na floresta e buscar uma vaca, uma capa vermelha, um sapato e alguns fios de cabelo dourado. Se eles não cumprirem o combinado, jamais poderão conceber uma criança. 

Relacionando essa trama central às já conhecidas histórias de Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e João e o Pé de Feijão, Caminhos da Floresta é um filme que demanda muito cuidado. Existem diversas tramas e personagens que exigem atenção redobrada de Rob Marshall e James Lapine, que roteirizou o filme. Evitando transformar o musical em um filme disperso ou superficial no tratamento dos seus personagens, os realizadores acabam voltando suas atenções para as tramas do padeiro e da sua esposa, papéis de James Corden e Emily Blunt, e da bruxa, vivida por Meryl Streep, o que faz com que o longa seja um filme surpreendente para quem nunca teve contato com o material original. Inicialmente, Caminhos da Floresta se apresenta como um conto de fadas rotineiro, porém ele acaba se tornando um filme que tenta reconfigurar os estratagemas já conhecidos dessas histórias. O longa acaba falando sobre as aspirações que temos em nossas vidas e como às vezes nos equivocamos em colocar a utopia, que nada mais é do que o conto de fadas, como uma meta a ser alcançada. 

O elenco do filme é harmônico e não há um único desempenho que se sobressaia, mesmo o da badalada Meryl Streep, o que é bem positivo e um sinal de que a vaidade foi um elemento que não prevaleceu no set. Ainda que seja visível a dificuldade do Rob Marshall em lidar com tantos personagens, no final das contas o resultado de Caminhos da Floresta é satisfatório, surpreendente e agradável. 



Into the Woods, 2014. Dir.: Rob Marshall. Roteiro: James Lapine. Elenco: James Corden, Emily Blunt, Meryl Streep, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp, Christine Baranski, Tracey Ullman, Mackenzie Mauzy, Tammy Blanchard, Lucy Punch, Billy Magnussen. Disney, 125 min.

A Entrevista



Por ter degringolado situações que renderam notícias que foram além das usuais coberturas de prémieres e números de bilheterias, a comédia A Entrevista talvez tenha sido o evento cinematográfico de 2014. O anúncio da realização do longa deu início a uma série de ameaças contra a Sony, estúdio responsável pela produção, seguidas de ataques de hackers aos e-mails da empresa, revelando uma série de negociações e projetos sigilosos. O filme tem uma premissa bombástica e promissoramente corrosiva, um vaidoso apresentador de TV  e seu produtor conseguem uma entrevista com o ditador da Coreia do Norte Kim Jong-un. Com esse plot, A Entrevista poderia ser um filme que traria um grau de preocupação com as relações pouco amigáveis entre Estados Unidos e Coréia do Norte. No entanto, o que se vê no resultado do projeto é alarde demais para filme de menos. 

O filme dirigido por Seth Rogen e por Evan Goldberg poderia utilizar todos os recursos da comédia para fazer uma crítica tanto aos Estados Unidos quanto à Coreia do Norte. Contudo, o que se vê na tela é uma coletânea de piadas de mal gosto, que oscilam entre o apelo ao sexo e à escatologia. Ou seja, apesar de pretender ser uma comédia corrosiva em seu discurso sobre as relações internacionais e até mesmo sobre a mídia, A Entrevista acaba adentrando em uma zona já conhecida e pouco produtiva que o gênero tem apelado nos últimos anos através de similares hollywoodianos.

Seth Rogen funciona para o filme, interpretando o personagem que costuma viver em longas como Ligeiramente Grávidos ou Vizinhos, e ainda que esteja diante de um roteiro vacilante como esse, consegue ter bons momentos na fita. James Franco, intérprete do apresentador narcisista Dave Skylark, por sua vez, é o lado mais fraco do filme. Franco compõe seu personagem de maneira excessiva e, em inúmeros momentos, no lugar de provocar riso, gera um certo constrangimento no espectador. 

A Entrevista promete mexer com um vespeiro, o que é natural, já que o longa é abertamente ofensivo. No entanto, toda a celeuma gerada nos faz procurar um sentido para tamanha preocupação tendo em vista que o filme não é eficaz na produção de um discurso crítico ou irônico àquilo que pretende escrachar.


The Interview, 2014. Dir.: Seth Rogen e Evan Goldberg. Elenco: Seth Rogen, James Franco, Lizzy Caplan, Randall Park, Diana Bang, Timothy Simons, Reese Alexander, James Yi, Paul Bae. Sony, 112 min.






terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Teoria de Tudo



O físico Stephen Hawking talvez seja uma das figuras mais conhecidas e respeitadas do círculo científico, não apenas pelo seu legado acadêmico, mas também por sua luta contra a esclerose lateral amiotrófica, doença que descobriu ser portador na década de 1960 e que paralisou os músculos do seu corpo. O diagnóstico dos médicos era que Hawking teria plena função cerebral, mas perderia sua capacidade de se movimentar gradativamente e conseguiria viver por apenas dois anos. Contudo, contrariando todas estas expectativas, o físico vive e continua atuante no meio até hoje

Trata-se de uma grande história de vida e era esperado que alguém um dia a levasse para as telas seguindo à risca tudo o que se espera de uma cinebiografia, algo nos molde de Uma Mente Brilhante, de Ron Howard, por exemplo: um gênio "aprisionado" por uma enfermidade, sua esposa dedicada, grandes feitos para a humanidade etc. A Teoria de Tudo, filme que leva a trajetória de Hawking para as telas, segue todas essas regras mas guarda algumas pequenas subversões quando abandona o rótulo de cinebiografia e lança o seu olhar para o casamento do físico com Jane Hawking, de quem acabou se separando após 26 anos de relação. 

Diretor mais conhecido pelos documentários O Equilibrista e Projeto Nim, James Marsh não se arrisca muito em A Teoria de Tudo, confere uma atmosfera romântica no início do relacionamento entre Stephen e Jane, cedendo espaço para a sobriedade no momento em que Hawking começa a apresentar os primeiros sinais da doença, tudo isso com o auxílio do tímido e pouco inspirado trabalho de fotografia de Benoit Delhomme (de O Menino do Pijama Listrado). Marsh também flerta muito com o melodrama, apela para recursos ingênuos como o flashback em rewind já no desfecho do filme e conta com a trilha sonora invasiva de Johan Johannsson, que jamais entra em harmonia com a própria história e parece querer arrancar emoções do espectador a todo custo.

Em contrapartida, o diretor consegue êxito quando se apoia no forte desempenho de Eddie Redmayne na pele de Hawking. E por mais que saibamos que o Oscar pode premiá-lo porque este é o típico papel que chama a atenção da Academia e não por ser necessariamente o melhor do ano, não podemos negar que a performance dele é admirável, digna de qualquer honraria. Redmayne consegue ser suave e preciso fisicamente, tornando a piora do quadro clínico do seu personagem um percurso gradativo na história, ou seja, o ator evita transições muito bruscas. 

No entanto, também é preciso reconhecer o discreto desempenho de Felicity Jones como Jane Hawking, a quem o filme deve toda a sua singularidade no terreno das biografias "oscarizáveis". Quando A Teoria de Tudo torna-se um filme sobre o casal Hawking e volta-se para a difícil empreitada assumida por Jane ao levar a frente um casamento com um homem com as limitações de Stephen, deixando de lado suas ambições profissionais e pessoais, o longa se transforma em uma história ainda mais rica. Nesse momento, A Teoria de Tudo deixa de seguir o protocolo cumprido pela maioria das cinebiografias e passa a ser a um filme com uma perspectiva original sobre os seus protagonistas, especialmente sobre esta jovem mulher que, ainda que amasse Stephen, tinha toda uma vida pela frente.

É uma pena que ao retornar suas atenções para a ascensão da carreira científica de Stephen Hawking, A Teoria de Tudo retorne a narrar a história do "admirável homem e da grande mulher que está por trás dos seus grandes feitos". É um pouco ainda mais desanimador quando sabemos que o filme é baseado em um livro da própria Jane Hawking, que talvez tenha introjetado este conceito na sua própria biografia sem perceber. O resultado é que temos um filme muito mais inspirado e menos protocolar do que se esperava, mas que, no fundo repete, ainda que não tenha consciência disso, determinados tropeços. Existe timidamente em A Teoria de Tudo uma interessante trama de sentimentos complexos protagonizada por uma mulher sufocada pela trajetória inegavelmente admirável do grande Stephen Hawking. Mesmo que não caia no equívoco de simplificar as emoções de Jane e até mesmo vilanizá-la, é uma pena que o filme não tenha aproveitado mais o potencial de narrar a sua história. 


The Theory of Everything, 2014. Dir.: James Marsh. Roteiro: Anthony McCarten. Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Charlie Cox, David Thewlis, Emily Watson, Simon McBurney, Christian McKay, Simon Chandler. Universal. 123 min.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo



Os acontecimentos de Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo têm como força condutora a insegurança do seu protagonista, o lutador Mark Schultz (Channing Tatum). O fio condutor desse filme sombrio de Bennett Miller é a carência desse personagem, suprida em níveis diferentes pelo seu irmão mais velho David Schultz (Mark Ruffalo) e pelo seu pretenso treinador, o milionário John du Pont (Steve Carell). Bennett Miller constroi toda a atmosfera necessária para fazer de Foxcatcher um filme denso psicologicamente, além de intrincado e coerente como narrativa. As sensações criadas no espectador são fluidas, nada é antecipado, os personagens e suas relações são críveis e a condução é ritmada. Enfim, o melhor trabalho da carreira do diretor de Capote e O Homem que mudou o Jogo, até então.

Foxcatcher tem início quando o jovem lutador de luta greco-romana Mark Schultz recebe um convite do milionário John du Pont. Ele deseja patrocinar o treino e a ida do atleta para as Olimpíadas de Seul em 1988. Schultz passa a morar na casa de du Pont e começa a criar uma certa veneração pela filosofia de sucesso do seu patrocinador e técnico de fachada. Em determinado momento da trama, du Pont começa a fazer pouco caso de Mark e decide trazer para a equipe o irmão do rapaz, David Schultz. A presença de David perturba a relação entre du Pont e Mark, fazendo com que tudo saia de controle.

Tudo em Foxcatcher sugere que Mark e John du Pont, de certa maneira, se complementam. Ambos são governados pelo sentimento de inferioridade, pela necessidade de corresponder e superar às próprias expectativas ou àquelas que pensam que terceiros tenham sobre eles. Isso os torna figuras destrutivas, uma característica potencializada pelo encontro dos dois na trama. Isso faz com que Miller e seu diretor de fotografia Greg Fraser optem por tonalidades mais acinzentadas, que os cortes sejam mínimos e que os movimentos de câmera sejam mais lentos, contrastando com a inquietação psíquica e física de Mark e com o silêncio imprevisível de John du Pont, tudo é muito perturbador de ser acompanhado por tanto tempo. Em contrapartida, a presença de David Schultz (Ruffalo) é um alento afetivo para a história, ironicamente, o personagem que acaba saindo lesado de toda a relação doentia entre Mark e John.

Na pele de John du Pont, Steve Carell provoca no espectador um misto de asco e pena. Carell compõe um tipo absolutamente imprevisível, uma bomba relógio ambulante, a partir de um olhar lânguido, pouquíssimos gestos, todos acompanhados com bastante atenção pela câmera de Miller. Já Channing Tatum tem aqui o melhor desempenho da sua carreira, sua interpretação é repleta de nuances e consegue equilibrar a sensibilidade, imaturidade e agressividade de Mark Schultz. Mark Ruffalo completa o elenco como o personagem mais admirável dos três, um sujeito comum e afetuoso, pai de família, irmão dedicado, profissional exemplar, enfim, tudo o que du Pont e Mark mais almejaram ser na vida.  David é uma espécie de fantasma dos protagonistas

Representando a maturidade da carreira de Bennett Miller, Foxcatcher é um filme de personagens e relações complicadas, algumas delas sombrias demais para quem não deseja ou tem medo de adentrar no que existe de pior nos recôncavos da nossa complicada psique. O filme é sólido dramaticamente, coerente como narrativa, utiliza ao máximo todos os recursos cinematográficos à sua disposição, oferecendo uma trama sobre ambição, relações familiares e homens complicados, ou seja, se inspira no que de melhor a cinematografia norte-americana já fez.No final das contas, Foxcatcher trata, como tantos outros grandes filmes norte-americanos, de um traço peculiar e doentio da cultura dos EUA, a obsessão pelo sucesso e pela figura do sujeito bem-sucedido, uma categoria que não necessariamente está associada à acumulação financeira, mas com o reconhecimento de uma trajetória por terceiros, sua publicização e a construção de um mito. No caso, o longa deixa bem claro que há dois caminhos, cada um deles optados por um dos personagens em questão: a completa escuridão ou a libertação desse ideal de felicidade e reconhecimento pleno, uma doença contemporânea. 


Foxcatcher, 2014. Dir.: Bennett Miller. Roteiro: Dan Futterman e E. Max Frye. Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Sienna Miller, Vanessa Redgrave, Anthony Michael Hall, Guy Boyd, Brett Rice, Jackson Fraser, Samara Lee. Sony. 129 min.

Drops: Depois da Chuva



Depois da Chuva mostra um Brasil específico, aquele do início da década de 1980 marcado pela saída da ditadura militar e a abertura gradativa da democracia política no país. Transcendendo o regime de expectativas gerados sobre si mesmo, Depois da Chuva acaba oferecendo ao espectador mais do que um filme político ainda que seja uma expressão clara de engajamento e posicionamento social. O longa de Cláudio Marques e Marília Hughes é um olhar delicado sobre o doloroso processo de transição pelo qual todos passam na adolescência para se tornar adulto, uma fase na qual precisamos ponderar o que vale a pena preservar dos sonhos e utopias para encarar uma realidade que sufoca qualquer subjetividade em rotinas e discursos previamente agendados. Assim acompanhamos um momento na vida de Caio, vivido pelo jovem Pedro Maia, um adolescente naturalmente contestador e entediado com a oratória alienante dos seus professores, a subserviência dos seus colegas de classe e a palidez da rotina como filho de uma casa completamente apolítica. O filme é marcado pelo punk rock, um elemento interessante para dar vazão aos picos emocionais do seu protagonista e, apesar de ser contextualizado em um momento específico do país, é uma história de apelo universal. Marques e Hughes trazem um olhar vibrante e instintivamente rebelde para a fita, o que é ótimo para compreendermos em seu âmago o momento conturbado da vida de Caio. Depois da Chuva é um filme com um posicionamento político declarado e inconformado com a alienação e hipocrisia em qualquer tempo, mas não é uma crítica social expressa através de uma voz e um olhar imaturo, pelo contrário, é o olhar de quem já passou pelo turbilhão do despertar político e conseguiu preservar o melhor que a juventude pode nos dar, o interesse pela vida e pela mudança.

Drops: Leviatã



 Leviatã  é um soco na corrupção russa, mas no final das contas é um longa sobre uma estrutura social indistinta de território, trata-se de uma história que poderia perfeitamente ter acontecido aqui no Brasil, por exemplo. O filme de Andrey Zvyagintsev não poupa qualquer estratagema burocrático socialmente legitimado que esmaga o homem comum, no caso, o seu protagonista Nikolay (Aleksey Serebryakov) e, consequentemente, todos aqueles que o cercam, como mulher, filho e amigos. No filme, esse personagem acaba travando uma disputa judicial com um político corrupto pelo terreno no qual sua casa está construída. A direção de Zvyagintsev é seca e o olhar do realizador para o cenário social não é panfletário, mas desesperançoso, melancólico, pessimista, o que é bem positivo. O tom de Leviatã pode incomodar quem procure uma reação mais enérgica do realizador e dos seus personagens para todo aquele cenário, se opõe, por exemplo, à abordagem que vimos no segmento protagonizado por Ricardo Darin em Relatos Selvagens, cuja temática é parecida. No entanto, o filme é admirável por levar até as últimas consequências a sua mensagem e perspectiva de mundo, ainda que esta não promova nenhuma catarse ou válvula de escape para os seus personagens ou para o seu público.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Antes de Dormir


 
Caso Nicole Kidman tivesse atuado entre as década de 1950 e 1960, certamente seria uma das preferidas do cineasta Alfred Hitchcock. Não há gênero no qual a atriz se encaixe melhor do que o suspense. No entanto, não é todo dia que se encontra um Hitchcock por ai e por mais que a australiana seja a escolha ideal para o suspense Antes de Domir e se comprometa com o seu personagem, isso não é o suficiente para tirá-lo do terreno do thriller burocrático. 

Em Antes de Dormir, Nicole Kidman vive Christine Lucas, uma mulher de 40 anos que acorda todo dia ao lado do seu marido Ben, papel de Colin Firth, sem se lembrar dos vinte últimos anos vividos. Lucas começa a seguir as orientações do seu psiquiatra, que lhe liga toda manhã e pede que ela assista a um diário gravado em uma câmera fotográfica contendo vídeos com relatos sobre as suas recentes descobertas do passado. Logo Christine é levada a uma rede de informações que envolve a verdadeira história por trás do seu casamento. 

O filme de Rowan Joffe, do drama irregular Pior dos Pecados, consegue ser eficiente como fita de entretenimento durante toda a sua projeção, porém o seu desfecho deixa algumas peças desencaixadas sobre a natureza de Christine e de Ben que podem incomodar espectadores mais atentos ou em busca de respostas mais profundas para a trama. Mesmo com a resolução dos mistérios da história, pouco sabemos sobre seus personagens além de suas funções pré-estabelecidas na trama (sobre Christine, por exemplo, saímos da sala do cinema sem entender quem é aquela mulher além da sua reforçada enfermidade psiquiátrica). 

Joffe consegue manter um ritmo interessante para a sua história e enfrenta o desafio de lidar com fluidez uma trama cujos acontecimentos têm que ser relembrados para sua protagonista a todo momento. Ainda assim, e mesmo com um elenco eficiente em cena  e com a química entre Kidman e Firth em alta temperatura, como já comprovado no drama Uma Longa Viagem, Antes de Dormir não consegue suprir determinadas lacunas criadas por sua própria trama. Na carreira da atriz, está longe de ter o mesmo impacto que Os Outros, mas não chega a ser o desastre que foi Invasores. Dias melhores virão para Nicole, podem estar certos disso.


Before I go to Sleep, 2014. Dir.: Rowan Joffe. Roteiro: Rowan Joffe. Elenco: Nicole Kidman, Colin Firth, Mark Strong, Anne-Marie Duff, Ben Crompton, Adam Levy, Dean-Charles Chapman, Flynn MacArthur, Gabriel Strong. Califórnia Filmes. 92 min

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Livre



Livre não é um filme ausente de percalços. Tão tortuoso quanto a própria jornada empreendida pela sua protagonista após a morte da mãe, o mais recente longa do diretor Jean-Marc Vallée sofre do mesmo problema dos seus filmes anteriores (Clube de Compras Dallas e A Jovem Rainha Vitória). A condução de Vallée não tem personalidade, em alguns momentos é confusa e dispersa, contudo existe algo na essência do projeto que, particularmente, me faz relevar esta minha relação "torta" com sua filmografia e abraçar afetuosamente suas personagens centrais, Cheryl e Bobbi Strayed, vividas por Reese Whiterspoon e Laura Dern, respectivamente.

É bem verdade que o foco de Livre é a trajetória de superação do luto percorrida por Cheryl, mas o filme acaba se revelando para o espectador como a história de um laço forte entre mãe e filha, rompido bruscamente por uma tragédia familiar. Apesar de pertencer a um lar centrado na figura materna, Cheryl sempre relutou em ter um destino semelhante ao de sua mãe Bobbi, uma dona de casa que, antes de abandonar o casamento e tomar as rédeas da própria vida, permaneceu durante alguns anos se submetendo às humilhações de um marido agressivo. No entanto, Cheryl não se dá conta de que sua natureza, sempre à frente das convenções do seu tempo, é fruto da vivência e da admiração que tem por sua mãe. Infelizmente, como a maioria de nós, Cheryl só se dá conta disso após a morte de Bobbi e passa por um processo brutal de luto e recomposição, superado somente no isolamento de uma viagem nada convencional. 

Por conseguir levar o espectador e sua personagem principal a esta redentora compreensão sobre o processo da perda, Livre foge de um desastre maior. Vallée ainda tem uma dificuldade abissal em conferir foco a sua trama, o longa não consegue fazer uma junção agradável e fluida entre os eventos passados na vida de Strayer e sua jornada como mochileira pela costa do Pacífico. Ainda assim, tem certos elementos que superam qualquer equívoco estético ou falta de traquejo na direção que o filme apresenta.  Um dos grandes responsáveis por isso é Nick Hornby, que, com seu roteiro, consegue burlar a precariedade da condução do seu diretor e pontuar em momentos certeiros do longa o verdadeiro propósito de sua história.

 E não há como falar dos méritos de Livre sem mencionar o trabalho de Reese Whiterspoon no melhor momento da sua carreira. O filme nos apresenta uma Reese madura, que consegue encarar de frente as demandas emocionais e físicas de uma personagem como Cheryl Strayer. Além de Reese, temos Laura Dern, que, ao lado de Patricia Arquette de Boyhood - Da Infância à Juventude, traz um retrato materno contemporâneo e positivo como representação, o que aliás é um dos grandes méritos de Livre se analisarmos o atual panorama das personagens femininas no cinema. Cheryl e Bobbi são mulheres que, cada uma a seu modo, conseguem ser donas da própria vida, são críveis, de carne e osso, bem diferente das representações femininas comumente vistas em Hollywood. 

Livre pode não se impor como cinema por uma técnica bem aplicada ou por uma estética sofisticada, seu diretor ainda está longe de imprimir sua marca como realizador em um filme e continua perdido como "contador" das suas histórias, contudo existe um vetor afetivo que se impõe diante desses problemas. Claro que precisaria de muita lapidação para transformar Livre em mais do que uma pedra bruta com seu valor intrínseco, mas o longa consegue ser poderoso, sensível e humano em seus grandes momentos.



Wild, 2014. Dir.: Jean-Marc Vallée. Roteiro: Nick Hornby. Elenco: Reese Whiterspoon, Laura Dern, Gaby Hoffmann, Thomas Sadoski, Keene McRae, Michiel Huisman, W. Earl Brown, Kevin Rankin, Brian Van Holt, Cliff De Young. Fox. 115 min

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Indicados ao Oscar 2015 - Birdman e O Grande Hotel Budapeste lideram a lista com 9 indicações cada




Melhor Filme:
Sniper Americano
Birdman
Boyhood
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Selma
A Teoria de Tudo
Whiplash


Um olhar sobre os concorrentes a melhor filme este ano... 

Sniper Americano - 6 indicações
Melhor Filme
Melhor Montagem
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator (Bradley Cooper)
Melhor edição de som
Melhor mixagem de som



  Birdman - 9 indicações

Melhor Filme
Melhor Diretor (Alejandro González Iñarritu)
Melhor Roteiro Original
Melhor Ator (Michael Keaton)
Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone)
Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Melhor Fotografia
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som

 Boyhood - Da Infância à Juventude - 6 indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Richard Linklater)
Melhor Roteiro Original
Melhor Montagem
Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)
Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke)

 O Grande Hotel Budapeste - 9 indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Wes Anderson)
Melhor Montagem
Melhor Roteiro Original
Melhor Direção de Arte
Melhor Figurino
Melhor Fotografia
Melhor Trilha Sonora Original
Melhor Maquiagem



 O Jogo da Imitação - 8 indicações
 Melhor Filme
Melhor Diretor (Morten Tyldum)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Montagem
Melhor Ator (Benedict Cumberbatch)
Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley)
Melhor Direção de Arte 
Melhor Trilha Sonora Original 


 Selma - 2 indicações
 Melhor Filme
Melhor Canção Original - "Glory" 

 A Teoria de Tudo - 5 indicações
Melhor Filme
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator (Eddie Redmayne)
Melhor Atriz (Felicity Jones)
Melhor Trilha Sonora Original 



  Whiplash: Em Busca da Perfeição - 5 indicações
Melhor Filme
Melhor Montagem
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator Coadjuvante (J.K Simmons)
Melhor Mixagem de Som 

Atores e Atrizes...


Melhor Atriz:
Marion Cotillard - Dois Dias, Uma Noite
Felicity Jones - A Teoria de Tudo
Julianne Moore - Para Sempre Alice
Rosamund Pike - Garota Exemplar
Reese Whiterspoon - Livre


Melhor Atriz Coadjuvante:
Patricia Arquette - Boyhood
Laura Dern - Livre
Keira Knightley - O Jogo da Imitação
Emma Stone - Birdman
Meryl Streep - Caminhos da Floresta



Melhor Ator:
Bradley Cooper - Sniper Americano 

Steve Carell - Foxcatcher
Benedict Cumberbatch - O Jogo da Imitação
Michael Keaton - Birdman
Eddie Edmayne - A Teoria de Tudo


Melhor Ator Coadjuvante:
Robert Duvall - O Juiz
JK Simmons - Whiplash
Ethan Hawke - Boyhood
Edward Norton - Birdman
Mark Ruffalo - Foxcatcher


Demais categorias...

Melhor Diretor:
Alejandro González Iñarritu - Birdman
Richard Linklater - Boyhood
Bennett Miller - Foxcatcher
Wes Anderson - O Grande Hotel Budapeste
Morten Tyldum - O Jogo da Imitação

Melhor Montagem:
Sniper Americano
Boyhood
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Whiplash


Melhor Roteiro Original:
Birdman
Boyhood
Foxcatcher
O Grande Hotel Budapeste
O Abutre

Melhor Roteiro Adaptado:
Sniper Americano
O Jogo da Imitação
Vício Inerente
A Teoria de Tudo
Whiplash

Melhor Longa de Animação:
Operação Big Hero
Os Boxtrolls
Como treinar o seu dragão 2
Song of the Sea
O Conto da Princesa Kaguya


Melhor Canção:
"Everything is Awesome" - Uma Aventura Lego
"Glory" - Selma
"Grateful" - Além das Luzes
"I'm not gonna miss you" - Glen Campbell: I'll be me
"Lost Stars" - Mesmo se nada der certo

Melhor Direção de Arte:
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Interestelar
Caminhos da Floresta
Mr. Turner

Melhor edição de som:
Sniper Americano
Birdman
O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos
Interestelar
Invencível

Melhor Mixagem de som:
Sniper Americano
Birdman
Interestelar
Invencível
Whiplash

Melhores Efeitos Visuais:
Capitão América 2
Planeta dos Macacos - O Confronto
Guardiões da Galáxia
Interestelar
X-Men - Dias de um Futuro Esquecido

Melhor Documentário em Longa:
CitizenFour
Finding Vivian Maier
Last Days in Vietnam
O Sal da Terra
Virunga


Melhor Figurino:
O Grande Hotel Budapeste
Vício Inerente
Caminhos da Floresta
Malévola
Mr. Turner

Melhor Maquiagem:

Guardiões da Galáxia
Foxcatcher
O Grande Hotel Budapeste

Melhor Fotografia:
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Ida
Mr. Turner
Invencível

Melhor Trilha Sonora Original:
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Interestelar
Mr. Turner
A Teoria de Tudo

Melhor Filme Estrangeiro:
Ida
Leviatã
Relatos Selvagens
Timbuktu
Tangerines



Algumas observações

Coisas da Academia...
  • Foxcatcher é indicado em 5 categorias, sendo que, entre elas, as de roteiro original e direção, e não foi indicado a melhor filme;
  • Selma, por sua vez, está indicado a melhor filme com apenas outra indicação a mais, melhor canção original.
 Ausências...
  •  Garota Exemplar, incluindo a indicação a melhor roteiro adaptado;
  • O Abutre, incluindo Jake Gyllenhaal em melhor ator;
  • Jessica Chastain e qualquer menção a O Ano mais Violento
  • Jennifer Aniston. Sua campanha por Cake não surtiu efeito.

 Surpresas (?)...
  •  Bradley Cooper, indicado a melhor ator e melhor filme, já que é produtor de Sniper Americano ao lado de Clint Eastwood. Já se deram conta que ele soma 4 indicações ao Oscar na sua carreira?
  • Marion Cotillard desencantou após ser esnobada tantas vezes pela Academia depois do seu Oscar em 2008 (Piaf - Um Hino ao Amor);
  • Vício Inerente e Paul Thomas Anderson. O filme foi indicado a melhor roteiro adaptado e melhor figurino;
  • Ida recebeu uma indicação a melhor fotografia e parece o preferido a melhor filme estrangeiro;
  • Interestelar em cinco categorias;
  • Laura Dern recebeu uma indicação por Livre

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Invencível



Angelina Jolie parece obstinada em abandonar, pouco a pouco, sua carreira de atriz e se dedicar ao cinema de uma outra maneira, como diretora. Seja qual for a razão desta transição (tédio, capricho ou inquietação artística), Jolie já está no seu segundo longa-metragem, o badalado Invencível. Diferente de Na Terra do Amor e do Ódio, sua primeira incursão atrás das câmeras em um longa de ficção, Invencível parece mais o filme de um estúdio desesperado por uma menção nessa temporada de premiações do que um trabalho que tenha o olhar da sua cineasta. A história real do atleta olímpico e combatente de guerra Louis Zamperini é repleta de truques reconhecíveis que talvez fisgassem a Academia de Hollywood anos atrás. Existe a exaltação do herói americano, o retrato quase que cartunesco da vilania dos japoneses, os grandes cenários fotografados pelo experiente Roger Deakins e a trilha sonora surpreendentemente invasiva e que antecipa e sugere reações do espectador de Alexandre Desplat. Muito hollywoodiano, ou melhor, americano, para alguém com uma orientação política tão liberal quanto Angelina Jolie.

Como antecipado, Invencível narra a trajetória do descendente de italianos Louis Zamperini, interpretado pelo pouco conhecido Jack O'Connell. Zamperini foi um atleta olímpico, ganhador da medalha de ouro, que entrou para o exército durante a Segunda Guerra Mundial. Após um acidente de avião, Zamperini e outros soldados ficaram por mais de um mês à deriva no oceano, vulneráveis a ataques aéreos dos inimigos, tormentas e tubarões. Eles são resgatados por um grupo de japoneses que os tornam reféns. Louis passa a trabalhar para eles e sofre as piores humilhações nas mãos de Watanabe, um cruel cabo japonês. 

Tecnicamente, Invencível proporciona o espetáculo que se espera dele. Jolie conta com um dos melhores diretores de fotografia em exercício, Roger Deakins (Onde os fracos não têm vez, 007 - Operação Skyfall e Um Sonho de Liberdade), que se aqui não faz o seu melhor trabalho, ao menos nos entrega algumas belas composições de imagens que neutralizam os elementos mais incômodos do filme em certos momentos. Na condução da sua história, Jolie parece ainda tatear esse seu novo ofício, existe em Invencível uma certa dificuldade de lidar com flashbacks, por exemplo, e torná-los fluidos e interessantes na narrativa "presente" (a passagem da infância e da vida de atleta de Louie é imersa em clichês, como frases de efeitos, emoções artificiais etc.). 

O melhor momento de Invencível é aquele em que o seu protagonista fica à deriva no mar com seus amigos, talvez uma das passagens que salvam o filme de maiores embaraços, já que o terceiro ato da trama é problemático com direito à interpretação canastrona de Takamasa Ishihara, um vilão que mais parece ter saído do pior dos animes japoneses, tamanha a sua falta de motivações. O protagonista do longa, o jovem Jack O'Connell, é o menor dos problemas do filme de Angelina Jolie, ao menos ele consegue evitar uma atuação over, um caminho possível já que o filme opta pela grandiloquência.
Ao final, completando a coleção de clichês hollywoodianos, Invencível ainda se revela um filme de inclinações cristãs (e, repito, é difícil pensar Angelina Jolie dirigindo um filme assim). Com uma lição moral sobre o perdão e sobre a importância do sofrimento e do esforço pessoal para se alcançar a vitória (sério que ainda tem gente que acredita nesse discurso?), Invencível termina da pior maneira possível. O filme era bem melhor enquanto acompanhávamos a penúria de três soldados em um bote salva-vidas no meio do oceano.

P.S.: O roteiro, cuja co-autoria é atribuída aos irmãos Coen, parece mais fruto do trabalho de Richard LaGravenese (de P.S. Eu te Amo) e de William Nicholson (Os Miseráveis), do que de Joel e Ethan Coen. Os realizadores de Fargo e Onde os fracos não têm vez entraram em um estágio avançado do filme, dando polimento ao trabalho já finalizado de LaGravenese e Nicholson. Resultado, assim como o filme tem mais a cara de um estúdio do que da sua diretora, o roteiro também não tem nada dos Coen e sim dos seus outros roteiristas menos badalados. É "gato por lebre".


Unbroken, 2014. Dir.: Angelina Jolie. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese, William Nicholson. Elenco: Jack O'Connell, Takamasa Ishihara, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Finn Wittrock, C.J. Valleroy, John D'Leo. Universal. 137 min.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Acima das Nuvens



Acima das Nuvens, novo filme de Olivier Assayas, é um longa que possui no seu elenco Juliette Binoche, atriz francesa que circula pelas cinematografias de diversos países, alternando entre o drama autoral de um diretor iraniano (Cópia Fiel) ao romance épico vencedor do Oscar de melhor filme (O Paciente Inglês), e Kristen Stewart, jovem estrela de Hollywood que alcançou o ponto mais alto da sua carreira na saga Crepúsculo, mas que também viveu o ônus dessa confusão que comumente é feita entre o mundo das artes e da espetacularização da vida alheia ao ter sua vida devassada pelos tablóides. De uma certa, a trajetória das protagonistas fora das telas dialoga com a de suas personagens no filme de Assayas, que, por sua vez, possuem conexões com as personagens que eventualmente interpretam na peça fictícia “Maloja Snake”. Dessa forma, Acima das Nuvens parece aquelas matrioshkas (bonecas russas que, quando abertas, escondem dentro de si réplicas ainda menores), revelando ao espectador o intercâmbio de papeis que se instaura sempre que diferentes gerações se relacionam.

No filme, Juliette Binoche vive Maria Enders, uma atriz francesa prestigiada internacionalmente  surpreendida com a morte do escritor responsável pelo seu grande sucesso no teatro e, posteriormente, no cinema, o texto “Maloja Snake”, um drama sobre a conturbada relação entre uma atriz de meia idade e sua jovem e bela assistente. Ainda abalada com a notícia, Enders aceita protagonizar uma nova montagem teatral do texto, só que dessa vez interpretando Helena, a atriz veterana. Durante a preparação para a peça, Maria isola-se com sua assistente Valentine, personagem de Kristen Stewart, na casa do escritor de “Maloja Snake” e, entre um ensaio e outro, a atriz começa a refletir sobre a passagem do tempo.

Em linhas gerais, Acima das Nuvens trata do fascínio e da repulsa que temos a tudo o que é novo ou a tudo o que é velho e como podemos assumir diferentes perspectivas sobre um mesmo assunto quando estamos na maturidade. Dividindo a história em três atos, Assayas dirige de maneira elegante o seu filme e consegue lidar com as múltiplas camadas e interconexões que ele inevitavelmente acaba proporcionando, afinal, além da relação com a própria trajetória das atrizes em questão fora das telas, as personagens de Binoche e Stewart representam na ficção as mesmas funções de Helena e Sigrid, protagonistas da peça em questão. Há quedas de ritmo consideráveis na transição do segundo para o terceiro ato, contudo, o diretor consegue manter sua narrativa desafiadora aos olhos e mentes do espectador, o que é sempre um ponto positivo.

Juliette Binoche e Kristen Stewart se complementam em cena, ponto fundamental para a execução acertada das intenções do roteiro. Binoche consegue construir, como de praxe, todos os conflitos da sua personagem, tudo muito delicado e sem as habituais afetações hollywoodianas que algumas atrizes de sua geração (e mais novas) costumam cair. Já Kristen Stewart surpreende os mais céticos ao rivalizar sem maiores problemas e impor o seu ritmo e as argumentações da sua personagem a uma atriz do porte de Binoche. Também participa do filme Chloe Grace Moretz, que interpreta a jovem atriz contratada para viver Sigrid na nova montagem. Moretz também tem seus momentos na pele da típica jovem estrela de cinema “subversiva”, algumas cenas bem divertidas, por sinal.

Lidando sem movimentos muito abruptos com o diálogo entre o que é da própria trama e o que é externo a ela, Olivier Assayas consegue fazer de Acima das Nuvens um filme que, se não é o mais memorável da sua carreira, ao menos mantém o padrão das suas melhores produções. Contudo, é inegável que o filme é um curioso canal para uma parceria improvável e muito bem sucedida, a de Juliette Binoche e Kristen Stewart.