quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Caminhos da Floresta



Por ser uma produção Disney, muito se temia que a adaptação cinematográfica do famoso musical de James Lapine Caminhos da Floresta não fosse corajoso o suficiente para assumir os descaminhos que a história propõe ao universo dos contos de fadas. Porém, de alguma maneira, o diretor Rob Marshall conseguiu contornar esse possível empecilho e tornar o longa não apenas uma celebração ao gênero que sempre foi o carro chefe da Disney, mas também uma forma de subvertê-lo, de tensionar o seu discurso utópico do "felizes para sempre". Claro que tudo é feito com uma certa cautela, mas Caminhos da Floresta talvez tenha encontrado guarida nessa nova política da Disney de reinventar determinados terrenos previamente definidos e estanques na construções das suas princesas, príncipes e bruxas. Nesse sentido, podemos afirmar que Caminhos da Floresta é o conto de fadas mais down to earth que o estúdio já concebeu.

Em Caminhos da Floresta a ação tem início quando uma bruxa impõe um desafio a um padeiro e sua esposa para quebrarem um feitiço que os impossibilita de terem o seu primeiro filho. Eles devem adentrar na floresta e buscar uma vaca, uma capa vermelha, um sapato e alguns fios de cabelo dourado. Se eles não cumprirem o combinado, jamais poderão conceber uma criança. 

Relacionando essa trama central às já conhecidas histórias de Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e João e o Pé de Feijão, Caminhos da Floresta é um filme que demanda muito cuidado. Existem diversas tramas e personagens que exigem atenção redobrada de Rob Marshall e James Lapine, que roteirizou o filme. Evitando transformar o musical em um filme disperso ou superficial no tratamento dos seus personagens, os realizadores acabam voltando suas atenções para as tramas do padeiro e da sua esposa, papéis de James Corden e Emily Blunt, e da bruxa, vivida por Meryl Streep, o que faz com que o longa seja um filme surpreendente para quem nunca teve contato com o material original. Inicialmente, Caminhos da Floresta se apresenta como um conto de fadas rotineiro, porém ele acaba se tornando um filme que tenta reconfigurar os estratagemas já conhecidos dessas histórias. O longa acaba falando sobre as aspirações que temos em nossas vidas e como às vezes nos equivocamos em colocar a utopia, que nada mais é do que o conto de fadas, como uma meta a ser alcançada. 

O elenco do filme é harmônico e não há um único desempenho que se sobressaia, mesmo o da badalada Meryl Streep, o que é bem positivo e um sinal de que a vaidade foi um elemento que não prevaleceu no set. Ainda que seja visível a dificuldade do Rob Marshall em lidar com tantos personagens, no final das contas o resultado de Caminhos da Floresta é satisfatório, surpreendente e agradável. 



Into the Woods, 2014. Dir.: Rob Marshall. Roteiro: James Lapine. Elenco: James Corden, Emily Blunt, Meryl Streep, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp, Christine Baranski, Tracey Ullman, Mackenzie Mauzy, Tammy Blanchard, Lucy Punch, Billy Magnussen. Disney, 125 min.

2 comentários:

Stella Daudt disse...

Acho maravilhoso o poster de "Caminhos da Floresta" e gostei muito de sua crítica benevolente, Wanderley. Meryl Streep jamais decepciona! Mas já começava a desanimar diante de comentários negativos ao filme. Agora continuo esperançosa! ;-)

Brenno Bezerra disse...

A mim não agradou. Ressuscitando sem inovar e sem racionalizar as fábulas, que por muitos anos nos encantaram, Caminhos da Floresta só ratifica Rob Marshall como um diretor que todos ainda equivocadamente persistem em dar-lhe confiança, mesmo com os seus atributos cada vez mais em baixa e transparecendo cada vez mais suas limitações e seus defeitos. No que o universo infantil cinematográfico é um produto para crianças, jovens, adultos e idosos, o filme acaba sendo um prato cheio para afugentar todas as idades.