quinta-feira, 30 de abril de 2015

Drops: Sniper Americano



Clint Eastwood criou um grande problema para si em Sniper Americano. Se por um lado percebemos no realizador um esforço de realizar entre pesos e contrapesos uma análise sobre o processo de deformação do homem através da guerra, por outro lado, as inclinações políticas conservadoras do diretor acabam por enaltecer em glórias e toda sorte de simbolismos patrióticos as ações desse mesmo homem. No filme protagonizado por Bradley Cooper, indicado ao Oscar e naquela que provavelmente é a melhor interpretação da sua carreira em uma composição cheia de detalhes, o veterano cineasta conta a trajetória de Chris Kyle, atirador americano que durante suas quatro missões no Iraque matou mais de 160 pessoas, incluindo na lista não apenas homens, como também mulheres e crianças. Ainda que a oscilação da trama entre os momentos nos quais Chris está no front e seus dramas familiares no retorno para casa não gere nenhum conflito que não tenhamos visto com mais pulsão em longas como Guerra ao Terror, a precisão e a elegância narrativa de Clint Eastwood estão presentes em Sniper Americano, o que torna a experiência de assisti-lo muito fluida para o espectador. Mas vale reforçar, esta nuvem nebulosa que paira sobre a interpretação que o realizador faz do seu próprio protagonista tornam o longa um terreno minado propenso a distorções sobre a história presente dos Estados Unidos. Uma verdadeira faca de dois gumes a ser manuseada com bastante cautela. 

Drops: Selma - Uma Luta pela Igualdade



Ao narrar a histórica marcha liderada por Martin Luther King Jr. entre a cidade de Selma e Montgomery, no Alabama, o drama Selma -  Uma Luta pela Igualdade, da diretora Ava DuVernay, evita dois equívocos comuns de cineastas com uma queda por tramas baseadas em eventos políticos reais, o pieguismo ou a parcialidade escancarada pela versão do seu protagonista para a sua própria história. Em Selma, DuVernay demonstra elegância como realizadora e não transforma o seu filme, que obviamente dialoga com a sua luta e suas inclinações políticas, em uma obra com gritante tom de manifesto. O mérito de Selma é permanecer sóbrio enquanto narrativa, sem deixar de assumir um discurso, uma bandeira própria ou ganhar contornos de relato emocional e pessoal. A realizadora conta com uma poderosa interpretação de David Oyelowo como Martin Luther King Jr. e um elenco de coadjuvantes bem eficientes como Oprah Winfrey, Carmen Ejogo, Tom Wilkinson e Tim Roth. É uma pena que um longa com a sua dimensão e sua importância tenha sido excluído de algumas das principais categorias do Oscar, daria ainda mais visibilidade a sua mensagem em um momento tão importante dos Estados Unidos. Contudo, a sua ausência trouxe ainda mais fama para si, o que pode ter compensado a maior gafe da Academia em 2015. 

domingo, 26 de abril de 2015

Drops: Whiplash - Em Busca da Perfeição




Whiplash - Em Busca da Perfeição é um filme sobre os nossos limites, mais precisamente sobre o "lugar" que estamos dispostos a ir para sermos quem desejamos ser. O longa de Damien Chazelle, vencedor de 3 Oscars na última edição do prêmio, traz a história de um estudante de música que consegue a chance de entrar para a banda principal do seu conservatório, conduzida por Terence Fletcher, um exigente e agressivo professor. Conduzindo a sua história com o ritmo do jazz que não apenas desenha a trama como também a inquietação e ansiedade do seu jovem protagonista diante dos eventos narrados, Damien Chazelle realiza um trabalho sedutor, que até certo ponto bebe de conceitos e ideias que filmes como Nascido para Matar e Cisne Negro aplicam em outros universos. A trama parece cair no discurso duvidoso de que para amadurecermos precisamos sofrer e passar pelas mãos de figuras como Terence Fletcher, ou seja, de que todo sofrimento e humilhação faz parte do processo. Contudo, a construção do personagem de J.K. Simmons nos leva a uma outra direção sobretudo na cena final na qual o pupilo coloca o professor no seu devido lugar. Miles Teller passa por todos os estágios do seu personagem com muita delicadeza e J.K. Simmons é um trator na pele de Fletcher. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Drops: Vingadores - Era de Ultron



Cheguei à conclusão que o projeto Os Vingadores é uma versão anabolizada, com mais verba, de Power Rangers para o cinema e enfim a minha implicância com essa franquia da Marvel ficou para trás. Grupo de super-heróis por grupo de super-heróis, ainda prefiro os X-Men, cujos filmes conseguem trazer densos e complicados dramas humanos (ou melhor dizendo, mutantes), ou Guardiões da Galáxia, que abraça o "ridículo" sem medo de ser feliz. O meio termo, que possibilita a Vingadores ser um filme de ação adolescente com momentos pontuais de respiro para prestarmos atenção em questões existenciais ou amorosas de seus protagonistas, me parece mais uma tentativa dos seus envolvidos de não afastar um só nicho de público das salas, tenta agradar a gregos e troianos, mas não satisfaz plenamente grupos mais velhos (só suposição, pessoal). E não me entendam mal, isso é uma virtude e funciona muito bem. Assim como no primeiro filme, Vingadores - Era de Ultron tem ritmo e sabe ser um "programa" de fim de semana leve e sem maiores compromissos. Pessoalmente, e aqui uso o direito de deixar a primeira pessoa falar mais alto no texto porque é uma questão de gosto mesmo, o segundo filme Vingadores não cumpriu com as expectativas traçadas por mim (não deveria fazer isso...) em Capitão América 2 - Soldado Invernal , o filme que prepara terreno para Era de Ultron e possivelmente um dos melhores dessa fase independente da Marvel. Esperava uma ação mais contextualizada, mais ousadia e amadurecimento  narrativo da parte de Joss Whedon. Continua sendo um parque de diversões bacana? Continua. Mas é isso e fica por isso mesmo. Nesse caso especifico, para uns não faz diferença, para outros não chega a incomodar, mas também não provoca grande afeto. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Casa Grande



Reduzido pelo grande público aos filmes que chegam no circuito comercial pelas mãos da Globo Filmes, o cinema produzido aqui no Brasil tem lançado verdadeiras pérolas da nossa cinematografia que ainda precisam ser descobertas e sair do nicho restrito do público especializado composto por cinéfilos e críticos. Não que as produções com o selo Globo Filmes mereçam a hostilidade do público ou o seu boicote, mas a pluralidade de propostas cinematográficas e a dissolução de monopólios produtivos e de distribuição são pontos positivos para a evolução de qualquer cinematografia. Nos últimos anos, nosso país foi responsável por obras de relevância pontual que acrescentaram e muito tecnicamente e que alinharam problemas nacionais e globais com a sua ordem de preocupações temáticas. Filmes como O Som ao Redor, O Lobo atrás da Porta e este Casa Grande não são apenas - como se isso fosse pouco -, exemplares apurados no manuseio de uma gramática cinematográfica, mas também são filmes que deveriam ser encarados como pontos de referência para as gerações de cineasta do presente e do futuro.

Ambientado no Rio de Janeiro contemporâneo, Casa Grande traz a história de uma família rica que perde todas as suas regalias com a queda financeira do seu patriarca. Nessa mudança de vida, por exemplo, as rotinas de consumo são modificadas e o quadro de empregados é diminuído. Enquanto Sônia e Hugo tentam de todas as formas manter o padrão de vida que sempre tiveram, seu filho mais velho Jean está alheio à toda a crise familiar pela super-proteção do casal. Prestes a decidir o seu futuro profissional, Jean só pensa em Luiza, garota de classe social diferente da sua que conhece no trajeto da escola para a sua casa e que começa a namorar. Esta relação vai deflagrar uma crise familiar que fará Jean amadurecer e pensar sobre quem ele é e quem ele pretende ser. 

Um dos grandes méritos de Casa Grande é conseguir ser um cinema sofisticado sem perder a simplicidade e o diálogo com a sua plateia. Assim, no lugar de um realizador preocupado única e exclusivamente com o seu ego e em fazer-se "compreensível" somente a si mesmo, vemos em Casa Grande um Fellipe Barbosa que preenche o seu tempo de projeção com planos elegantes e e com a utilização de recursos audiovisuais em prol da sua história, o esgarçamento das possibilidades técnicas e estilísticas alinhados com a narração de uma história. Nesse sentido, ao mesmo tempo que o filme traz uma interessante abertura, marcada por uma câmera estática que observa a casa dos protagonistas enquanto a ação corriqueira de apagar as luzes de todos os cômodos ocorre, vemos os conflitos amorosos do protagonista com a namorada e a empregada doméstica ganhar empatia imediata com o espectados. Esse equilíbrio mantido por Barbosa do início ao fim torna Casa Grande um longa acessível às plateias com os mais diversificados repertórios cinematográficos sem perder a sua elegância e pertinência enquanto obra cinematográfica.

Barbosa conta com o jovem Thales Cavalcanti como a figura central da sua história ao assumir com sensibilidade a composição de Jean, o protagonista de Casa Grande. Cavalcanti interpreta um adolescente cheio de dúvidas sobre a vida, um cenário de incertezas ainda mais acentuado pela super-proteção de seus pais. Quando a família começa a ter o seu padrão de vida alterado, Jean, que nunca teve que se preocupar com dinheiro, fica ainda mais inseguro sobre quem ele é e sobre o seu futuro fazendo o seu universo colidir com o de seus pais, que depositam nele a esperança de manter a situação financeira e social da família. Thales Cavalcanti faz Jean se perder em meio a todos os seus conflitos afetivos e geracionais e iniciar um processo de reconstrução e amadurecimento no decorrer do longa. O jovem ator contracena com Marcello Novaes e Suzana Pires, intérpretes dos pais do seu personagem. Novaes faz de Hugo uma figura rígida e burocrática na convivência familiar, características que encobrem a insegura e imobilidade do patriarca diante dos problemas financeiros. Em contrapartida, Pires faz de Sônia uma mulher que cria no espectador sentimentos ambíguos de afeto e piedade, já que apresenta-se como uma figura bem mais proativa que o esposo, contudo alheia a uma realidade que nunca quis ter contato, situação que a fragiliza ainda mais em situações limítrofes.

A decadência financeira desses personagens é acompanhada por um clima melancólico que toma conta do filme na medida em que eles tentam a todo custo se agarrar nas certezas de um projeto de vida que se revela completamente oco. E não seria exatamente esse o momento pelo qual estamos passando? Grupos que antes tinham níveis de vida precários e estão conseguindo, ainda que com muita dificuldade, melhorar o padrão de vida, enquanto outros que tinham seus privilégios tem que ajustar as suas rotinas em função de uma nova ordem social que se instaura. No meio das tensões sociais causadas por esse câmbio classista uma nova geração representada aqui pelo adolescente Jean, jovens que tentam entender o seu lugar e as relações que vivenciaram no passado, àquelas que os cercam no presente e que tipo de postura devem assumir no futuro. 



Casa Grande, 2015. Dir.: Fellipe Barbosa. Roteiro: Fellipe Barbosa e Karen Sztajnberg. Elenco: Thales Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires, Clarissa Pinheiro, Bruna Amaya, Sandro Rocha, Alice Melo. Imovision. 114 min

Drops: Birdman ou (A Inesperada virtude da Ignorância)



Birdman ou (A Inesperada virtude da Ingnorância) é um filme sobre a necessidade que temos de sermos reconhecidos pelo que fazemos. Mudando os vetores temáticos do que costumava fazer no cinema com filmes duros e pessimistas que traziam escancaradamente ou em subtextos discursos sociais e políticos, como 21 Gramas, Babel, Biutiful Amores Brutos, o mexicano Alejandro González-Iñárritu venceu o Oscar de melhor filme, direção e roteiro por um longa centrado nas angústias existenciais de um ator de meia idade egocêntrico chamado Riggan Thompson, vivido pelo impecável Michael Keaton (irretocável em sua composição). Thompson ficou mundialmente conhecido por interpretar um super-herói chamado Birdman lá pelos idos dos anos de 1980 e 1990 e, já maduro, está prestes a levar um drama seríssimo para os palcos da Broadway. Em meio aos acontecimentos correntes da antecipação da estreia teatral de Riggan e as ardilosas provocações e impiedosas cobranças internas, personificadas pelo "fantasma" do Birdman, González-Iñárritu faz o seu 8 1/2 da Hollywood contemporânea na qual artistas esmagados por um público e por um sistema de produção industrial que, em grande parte, está pouco se importando com uma "autenticidade artística" convivem com os demônios naturais da insegurança sobre o talento e o êxito profissional. Tudo isso é tratado com muita ironia por um Iñárritu que, como já mencionado, revela novas preocupações temáticas em sua filmografia e ainda encontra espaço para a inventividade narrativa  ao lado do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, já que Birdman é todo contado como um grande plano-sequência, uma decisão narrativa que amplifica ainda mais as angústias do protagonista dentro das coxias do teatro. Além do excelente desempenho de Michael Keaton, o filme traz Emma Stone e Edward Norton afiados em papéis muito importantes na história, e participações interessantes de Zach Galifianakis, Naomi Watts, Amy Ryan e Andrea Riseborough.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

(Drops) Vencedora do Oscar, Julianne Moore sustenta o frágil Para Sempre Alice



É assim que as coisas acontecem em Hollywood e Julianne Moore não foi a primeira atriz, nem será a última, a ter seu nome e título de "ganhadora do Oscar" vinculados a um filme mediano. Meryl Streep, por exemplo, ganhou o prêmio pelo medíocre A Dama de Ferro. E o que dizer de Al Pacino que diante de tantas performances icônicas venceu a estatueta por Perfume de Mulher? Não que Para Sempre Alice seja um filme catastrófico, não é, mas é frágil, um dramalhão sobre Alzheimer completamente "lugar comum". O longa de Richard Glatzer e Wash Westmoreland assume o tom de telefilme quando os telefilmes eram ruins ao contar a história de uma renomada professora de linguística descobrindo ter um tipo raro de Alzheimer e como isso mobilizou seus familiares.

Baseado no romance de Lisa Genova, Para Sempre Alice fica entre o drama familiar e a bandeira social. Por oscilar tanto entre essas duas pretensões, acaba sendo falho em ambas: cria conflitos familiares pouco esmiuçados, apenas sugeridos (como é o caso daquele vivido entre Alice e sua filha mais nova, interpretada por Kristen Stewart), e soa artificial e redundante quando tenta chamar a atenção do espectador para a condição clínica da sua protagonista. O desempenho de Julianne Moore é irretocável e garante o interesse no filme e sua singularidade. A atriz percorre toda a trajetória da sua personagem sem grandes afetações e isso ajuda e muito o filme a tornar-se simpático aos olhos do público, mesmo aquele mais exigente.  Contudo, em termos de Oscar, não há como negar que a Academia teve oportunidades melhores de premiá-la, como em Mal do Século (pelo qual não foi nomeada), Boogie Nights, As Horas, Longe do Paraíso e, recentemente, Mapas para as Estrelas, pelo qual, a exceção do Globo de Ouro (ironia do destino, uma das premiações mais criticadas pela sua falta de criticidade nas escolhas), sequer foi lembrada e que fora lançado no mesmo ano de Alice. Acontece.

Assista ao trailer:

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Drops: Insurgente



Divergente me parecia um arremedo de ideias muito bem aplicadas na franquia Jogos Vorazes. A continuação dessa distopia protagonizada por Shailene Woodley, Insurgente, consegue ser ainda pior. Uma mistura de Jogos Vorazes com as duas sequências de Matrix, Insurgente é mais ambicioso em seus efeitos visuais - resultado da ótima bilheteria do primeiro filme da franquia -, mas ainda é carente de propósito e ideias, tal qual o seu original. A continuação continua sustentado-se pelas ideias das facções e de que o "modelo" ideal seria a junção de todas elas, mas tudo isso é um pretexto, e esse segundo filme deixa mais nítido isso, para seus realizadores conceberem mais um blockbuster de ação como tantos outros, esquecível, descartável. Se franquias adolescentes como Jogos Vorazes ou Harry Potter amadurecem no decorrer da evolução das suas respectivas trama, o que Insurgente nos aponta é que as ideias que já não eram lá essas coisas foram todas esgotadas em Divergente. 

P.S.: Para quem tiver interesse, além de Kate Winslet, o segundo filme traz Naomi Watts no elenco. O personagem da atriz deve crescer bastante nos próximos filmes da franquia. Não sei, achei que foi a única coisa relevante e marcante desse filme para falar sobre.

Drops: Cinderela



De repente Hollywood descobriu a mina de ouro que são os contos de fadas. Começou com Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, e o último que tivemos notícia foi o divisivo Malévola, estrelado por Angelina Jolie e que pretendia contar a história de A Bela Adormecida pelo ponto de vista da vilã da história. A questão é que todas essas adaptações falharam em suas tentativas de modernizar, recontar ou tornar mais sombria suas tramas (alguém se lembra das problemáticas versões de Branca de Neve?). Pois bem, o diretor Kenneth Branagh, junto com o roteirista Chris Weitz (sim, o mesmo de A Bússola de Ouro!) e a própria Disney encontrou o tom adequado para uma versão em live action do conto de fadas por excelência, Cinderela. Esta nova versão da conhecida história da Gata Borralheira acerta em cheio ao não querer afastar-se do tom açucarado e ingênuo que é a quintessência do gênero. O filme de Branagh é delicioso do início ao fim e captura o seu espectador, mesmo que ele saiba de antemão todos os eventos que levarão Cinderela ao seu final feliz. Talvez seja essa uma das qualidades de Branagh como realizador, saber como poucos manter a atenção do público em "terras conhecidas", haja vista que alguns dos seus melhores trabalhos são as adaptações de Hamlet, Henrique V e Muito Barulho por Nada. O filme ainda conta com os ótimos desempenhos de Cate Blanchett como a madrasta da protagonista e Helena Bonham Carter como a fada madrinha, ou seja, mais do que obrigação assistir as cópias legendadas do filme nos cinemas. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Vício Inerente



Provavelmente uma das tarefas mais ingratas que já tive neste blog foi escrever sobre um filme do Paul Thomas Anderson que não gostei, no caso, seu mais recente longa Vício Inerente. Por motivos que o próprio blog denuncia, Anderson é um dos meus cineastas favoritos, importante para mim por ter aberto meus olhos para um outro tipo de cinema, aquele que minha perspectiva adolescente para a ainda não tinha conhecido. Portanto, me deparar com uma obra do diretor que não mexa comigo é particularmente difícil. Vício Inerente quebra este pacto que estabeleci com filmes como Boogie Nights, Magnólia, Sangue Negro, O Mestre e até mesmo o seu subvalorizado Embriagado de Amor, obras marcadas pela inventividade e energia narrativa do seu realizador. Vício Inerente traz o mesmo Paul Thomas Anderson desses projetos, um diretor preocupado em testar a linguagem cinematográfica através de ângulos narrativos improváveis, porém, pela primeira vez, o realizador concebe tão e somente um exercício de estilo, o que é uma pena.

Baseado no cultuado romance policial de Thomas Pynchon, Vício Inerente é ambientado na Califórnia da década de 1970 e tem início quando Shasta Fey vai ao encontro do seu ex-namorado, o detetive Larry "Doc" Sportello, para lhe pedir um favor. Ela quer que "Doc" a ajude a sair de uma trama que envolve o seu amante, um magnata do ramo imobiliário, sua esposa e o homem com quem ela o trai. A dupla pede a ajuda de Shasta para que eles consigam dar um sumiço no empresário e ficar com todo o patrimônio dele. O caso leva "Doc" a um enredo muito mais complicado que envolve um esquema de venda de drogas, o FBI e um saxofonista impedido de ver a sua família.

Para contar esta trama policial que insere o noir no universo hippie e de conspirações políticas dos EUA dos anos 1970, Paul Thomas Anderson tenta se aproximar do espírito do livro de Thomas Pynchon realizando um trabalho cujo êxito merece inquestionavelmente o reconhecimento. Todo o longa é marcado por uma ausência de linearidade narrativa e até mesmo pela falta de logicidade, características que são antíteses por excelência do gênero no qual o filme se enquadraria, o suspense ou o filme policial. O objetivo de Pynchon - e, de quebra, Anderson - é conferir à história a perspectiva que o seu narrador, "Doc" Sportello, tem dos eventos que presencia, e claro que é uma perspectiva completamente alucinógena tal qual os efeitos do coquetel pesado de drogas que ele consome. O grande problema é que, a despeito desta coerência, esse exercício narrativo de Anderson acaba entrando em atrito com a própria linguagem cinematográfica e Vício Inerente assume um discurso auto-indulgente e torna-se um filme com mais de duas horas de duração que exigem paciência do espectador sem conseguir estabelecer nenhum vínculo com o público, que nem mesmo se sente envolvido com a trama na tentativa de decifrá-la já que, no fim das contas, muito mais do que lançar pistas visuais todo e qualquer movimento da história tem sua dose de "trip" non sense do protagonista, ou seja, não necessariamente requer uma tentativa de leitura, é simplesmente um delírio narrativo .

Desde Magnólia Anderson não trabalhava com um elenco tão grande. Há participações pontuais e muito positivas de Owen Wilson, Reese Whiterspoon, Benicio Del Toro, Maya Rudolph, Jena Malone e Eric Roberts. Ainda assim, o centro da história é o personagem de Joaquin Phoenix, que nem foi a primeira opção para viver "Doc" (a primeira foi Robert Downey Jr.), mas que mostra-se como uma daquelas escalações que caem como uma luva no personagem. Phoenix tem dois grandes parceiros de cena nesse filme: Josh Brolin, interessante como o policial "Pé Grande" Bjornsen; e a revelação do longa, Katherine Waterson, encarnando com precisão a versão femme fatale do romance de Pynchon, a confusa, "indefesa" e irresistível Shasta Fey.

No final das contas, Vício Inerente não é uma grande tragédia cinematográfica como alguns anunciam, está longe de ser e provavelmente merece ser constantemente revisitado. Por enquanto, e particularmente, o que pode ser dito é que é um filme de acesso emperrado que parece preferir enclausurar-se na definição de exercício narrativo do que estabelecer algum diálogo com o público. Se nos longas anteriores de Anderson o espectador de alguma forma se sentia tocado por personagens cuja humanidade e empatia transbordavam na tela, em Vício Inerente essas figuras e a história que protagonizam parecem rarefeitos. Assim, a filmografia do diretor até então, marcada por histórias que mesmo depois dos créditos finais deixavam suas marcas no espectador, tem um grande corte com Vício Inerente uma mera "piração" ou "trip" coletiva de Anderson, Pynchon e "Doc" Sportello, É isso, apenas uma "trip".


Inherent Vice, 2014. Dir.: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Joaquin Phoenix, Katherine Waterson, Josh Brolin, Owen Wilson, Reese Whiterspoon, Benicio Del Toro, Jena Malone, Maya Rudolph, Eric Roberts, Martin Short. Warner, 148 min. 

Drops: Cinquenta Tons de Cinza



Se a transformação da figura do vampiro Edward ou do lobisomem Jacob em sonho de realização amorosa de muitas fãs de Crepúsculo já se apresentava como algo particularmente preocupante, a obsessão de jovens com o Sr. Grey de Cinquenta Tons de Cinza atinge patamares clínicos. Assim como aconteceu com Crepúsculo, Cinquenta Tons de Cinza não pode se esconder no "argumento" da má adaptação, existem características nele que em nada tem a ver com a passagem da história para as telas, mas com a construção dos seus personagens, suas relações e o que elas representam de fato. Difícil definir o que é mais incômodo se o perdão conferido ao machismo e à natureza doentia do seu protagonista masculino através de demonstrações pontuais de afeto, que nada mais são do que a comprovação de que o moço não regula nada bem da cabeça, ou se a submissão da Anastasia ao tipo de vida que ele lhe impõe e a ingenuidade de acreditar que pode transformá-lo (sim, é com esse tipo de pensamento que algumas mulheres aceitam os maus tratos e grosserias dos seus maridos, namorados etc.). Os equívocos são outros também, desde os diálogos artificiais ao motivo encontrado pela autora para Grey e Anastasia terem o seu primeiro encontro e se apaixonarem até a escalação de Jamie Dornan (inexpressivo) para viver o protagonista e as mãos atadas da diretora Sam Taylor-Johnson que nada pôde fazer para incrementar o filme, já que este era obviamente um projeto de estúdio. De lembrança mesmo só fica a promessa de Dakota Johnson, que em momentos pontuais consegue conferir algum interesse do espectador nessa história bizarra untada por uma psicologia barata.