sábado, 27 de junho de 2015

Drops: Minions



Os minions eram a melhor parte de um produto que já não era muito bom. Em dois filmes, a franquia Meu Malvado Favorito mostrou uma narrativa fraca em nada equiparada a boa fase de animações que lhe era contemporânea. Com um filme solo, os ajudantes de Gru não são lá muito beneficiados, alguns problemas persistem e nem mesmo o carisma dos personagens sustenta a história. Em Minions acompanhamos os eventos que antecederam Meu Malvado Favorito. As criaturinhas amarelas procuram um novo vilão para seguir, mas eles são tão desastrados que todas as vezes que encontram um chefe acabam dando um jeito dessa relação terminar mal. Sem um vilão para ajudar em suas maldades, os minions acabam entediados e desmotivados. Tudo muda quando o minion Kevin resolve liderar uma busca por um novo chefe para o grupo. Junto com Bob e Stuart, Kevin chega a Scarlet Overkill, a mais perigosa vilã do mundo, e lhe oferece os serviços dos minions em troca apenas de total subserviência. Scarlet impõe então um desafio a Kevin, Stuart e Bob, eles terão que roubar a coroa da rainha da Inglaterra. A partir dai o filme segue em uma série de esquetes sem fim protagonizadas pelos minions. A animação até tem uma introdução bem interessante que mostra a passagem do grupo por momentos históricos importantes, mas logo depois, a trama em si revela elementos de total desinteresse e apatia, sobretudo a grande vilã Scarlet Overkill, uma personagem mal construída e que em momento algum diz a que veio. Talvez Minions fosse um fracasso anunciado, transformar sidekicks em personagens centrais de uma história nunca dá certo, afinal, eles não teriam graça não fossem alívios cômicos distribuidos em momentos isolados de Meu Malvado Favorito, sustentar uma trama própria são outros quinhentos. 

domingo, 21 de junho de 2015

Operação Sonia Silk


Operação Sonia Silk é um projeto produzido pela atriz Leandra Leal e pelos jovens cineastas Bruno Safadi e Ricardo Pretti que tem como intuito reverenciar a empreitada realizada pelos diretores Júlio Bressane e Rogério Sganzerla à frente da produtora Belair na década de 1970, experimentando a linguagem cinematográfica através de um cinema que ficou conhecido como cinema marginal. A proposta era reconstruir ao máximo que podiam certos dogmas narrativos através de produções baratas que permitiam uma produtividade acima da média para os padrões brasileiros. Leal e os diretores, ao lado dos atores Mariana Ximenes e Jiddu Pinheiro realizaram então três filmes com este espírito, O Uivo da Gaita, O Rio nos Pertence e O Fim de uma Era e batizaram a trilogia de Operação Sonia Silk em homenagem a uma das personagens mais icônicas desta escola, interpretada pela atriz Helena Ignez no filme Copacabana, mon amour, de Rogério Sganzerla. 


O Uivo da Gaita



O Uivo da Gaita é uma história de amor. O enfoque da história são os riscos e a tensão que dominam o jogo de sedução entre os amantes, além dos corações partidos frutos de uma dinâmica que, no final das contas, é vivenciada por dois. Simples assim. O cineasta Bruno Safadi conta a história do triângulo entre o casal Antônia (Mariana Ximenes) e Pedro (Jiddu Pinheiro) e o terceiro elemento desestabilizador, que, na verdade, desestrutura para instaurar uma nova ordem, mas uma ordem mais sincera e honesta com os sentimentos de todos os envolvidos, Luana (Leandra Leal). Safadi evita os diálogos e abusa do potencial imagético como produtor de códigos e sensações no espectador. Os personagens pouco falam, diálogos esparsos e o que ocorre em cena é uma performance inventiva das dinâmicas de encontro, sedução, obsessão, desprendimento, comunhão, enfim, algo que fica claro em sequências nas quais Luana e Pedro se alternam pela atenção de Antônia. 

O Rio nos Pertence



O mais interessante dos três filmes, O Rio nos Pertence coloca o Rio de Janeiro como seu cenário, mas inverte a lógica costumeira de sua apresentação ao espectador. Ao invés de uma cidade marcada pelo verão, pelo caráter acolhedor do seu povo e pelas belezas naturais, o Rio de Janeiro é retratado pelo diretor Ricardo Pretti como um típico cenário de filme de terror. Macabro e sombrio, O Rio nos Pertence traz Leandra Leal como Marina, uma jovem que mora há anos fora do país e retorna a sua cidade natal, o Rio de Janeiro. A personagem é assombrada por um traumático evento do seu passado e reencontra uma antiga paixão e a sua irmã, personagem de Mariana Ximenes, que nutre uma mágoa após ter sido abandonada por Marina por tanto tempo. Neste filme, Pretti consegue criar uma atmosfera soturna o suficiente para gerar no espectador a sensação de claustrofobia e pavor que a protagonista sente corriqueiramente. É o filme que mais consegue reverenciar o cinema marginal sem deixar de lado a execução de uma narrativa com regras próprias. 

O Fim de uma Era



O único título do projeto dirigido em parceria por Bruno Safadi e Rodrigo Pretti é uma espécie de making of  estilizado das outras duas produções. Reunindo arquivos das filmagens de O Uivo da Gaita e O Rio nos Pertence em belíssimos planos em preto e branco, O Fim de uma Era é sugestivo em seu título e evoca melancolicamente algumas histórias de amor vividas nos bastidores de um tempo do cinema sugerido como um período que não volta mais. Repleto de nostalgia e dor, O Fim de uma Era tem sua estrutura dividida em histórias narradas por grandes figuras do cinema marginal que o projeto tenta homenagear, como Maria Gladys e Helena Ignez. Ainda que consiga transmitir toda sorte de sensações com pouquíssimos recursos, o que é um mérito, O Fim de uma Era é levemente inferior aos outros dois filmes, um capítulo bem menos ambicioso da trilogia, mas não menos interessante. 

Drops: Frank



À primeira vista, a julgar pela introdução do personagem do irlandês Domhnall Gleeson, Frank parece ser mais uma daquelas dramédias indies cheia de velhos cacoetes sobre o personagem do loser. Isto é só aparência. O filme de Lenny Abrahamson é sobre um músico, interpretado por Michael Fassbender, conhecido como Frank, que tem problemas de socialização e só consegue estabelecer contado com as outras pessoas através de uma enorme máscara feita de papel mache. O longa mantém um tom leve e divertido, apresentando-nos à estranha dinâmica dos outsiders que compõem a banda de Frank até que o novo tecladista, papel de Gleeson, divulga os ensaios do grupo na internet e a narrativa ganha contornos mais trágicos, dando espaço não apenas para a comovente composição de Michael Fassbender no papel título, como também para Abrahamson mostrar ao público que é um realizador bastante versátil e criativo. O longa é insírado na vida do músico e comediante Chris Slevey, que durante anos assumiu a identidade de Frank através de uma máscara igualzinha àquela usada por Fassbender no filme. Frank trata de um tema complicado, demonstrando muita sensibilidade na abordagem do mesmo e evitando qualquer piedade do público com a situação dos seus personagens. Ao contrário, é um filme que estabelece a cumplicidade do espectador com a dor do seu protagonista. Não poderia ser mais adequado. 

Divertida Mente



Desde que surgiu como um dos "braços" da Disney com o lançamento de Toy Story em 1995, a Pixar sempre se apresentou ao público como uma companhia que antes de produzir desenhos animados estava interessada em contar histórias e a animação era meramente um formato. John Lasseter e cia. colecionaram verdadeiras obras-primas animadas em terceira dimensão como a própria trilogia Toy Story, Procurando Nemo, Monstros S.A., Os Incríveis, Ratatouille, Wall-E, Up - Altas Aventuras. É verdade que, nos últimos anos, o estúdio ficou um pouco desacreditado com a recepção modesta de Valente e seguiu o destino comum das grandes empresas de cinema, preferindo investir no retorno financeiro seguro de continuações pouco expressivas de seu legado, como Carros 2 e Universidade Monstros, mas nada que maculasse sua tradição. A criatividade continuava gerando frutos nos escritórios do estúdio com Divertida Mente, filme que inaugura uma nova fase de obras originais do estúdio.

De uma forma geral, os filmes da Pixar sempre deram prioridade à emoção, até mesmo quando traziam como personagens como brinquedos ou robôs. Quem não se emocionou com a cena final de Toy Story 3, na qual Andy doa toda a sua coleção de brinquedos para uma garotinha? Como não se comover com a sequência que mostra a relação de Carl Fredricksen e sua esposa ao som da trilha de Michael Giacchino em Up - Altas Aventuras ? Confessa também que o romance entre os robôs Wall-E e Eva fez descer (ou quase fez descer) uma lágrima dos seus olhos em Wall-E? Pois é, estas mesmas mentes que conseguem preencher de amor tudo aquilo que tocam fizeram um filme sobre as emoções de uma pré-adolescente e o resultado não poderia ser menos do que sublime. 

Divertida Mente conta a história da garota Riley e das emoções que habitam o seu corpo. Administrado pelo sentimento da Alegria, o interior de Riley nos é apresentado como um universo complexo e rico em memórias e afetividade. Tudo começa a sofrer uma drástica transformação quando Riley chega na adolescência e ela tem que se mudar com os seus pais para São Francisco. As emoções da menina entram em parafuso e quando, por um acidente de percurso, os sentimentos da Alegria e da Tristeza saem da sala de comando das emoções de Riley, todas as suas ações passam a ser decididas pela Raiva, pelo Medo e pelo Nojinho. Para fazer a vida de Riley voltar ao prumo, Alegria e Tristeza terão que empreender uma longa jornada de volta ao comando das ações da garota.

Mais uma vez a Pixar realiza um trabalho primoroso ao fazer o improvável: apresentar as emoções como personagens complexos e transformar a mente de uma adolescente em um universo com gramática própria, porém traduzindo seus elementos com muita inteligência e criatividade através de associações brilhantes com o mundo humano. A transformação da esfera dos sonhos em um típico estúdio de  Hollywood, por exemplo, é apenas uma das sacadas geniais do filme. Divertida Mente é um longa mais inteligente do que aparenta ser, o que já é um indício de sofisticação e uma surra em quem pensa que para fazer um cinema vibrante basta desejar se fazer incompreensível pela sua plateia. Toda a jornada empreendida pela Alegria e pela Tristeza apresenta-se como uma grande aventura, nos moldes de um cinema de gênero, no entanto, quer dizer muito mais do que a superfície revela. O filme mostra uma garota tentando organizar os seus sentimentos, sendo necessário para tanto o conflito, a reestruturação do seu quadro de referências e das suas memórias. 

Semelhante a Toy Story, Divertida Mente é um filme sobre o rito de passagem e sobre a importância de não negligenciarmos nossas emoções, incluindo, entre elas, a Tristeza, tão negada, sufocada e mal vista por uma ilusória necessidade de governança da Alegria ou felicidade constante em nossas vidas. O desfecho deste perspicaz e tocante filme Pixar sugere que não importa o tipo de sentimento que nos guie nos momentos cruciais das nossas vidas, temos que manifestá-los, por mais contraditório que sejam. O controle e a censura das emoções como forma de instaurar a ordem e  um pensamento mais reflexivo e ponderado sobre a vida é uma ilusão, muitas vezes é deixar-se levar pelas emoções é necessário e redentor. 


Inside Out, 2015. Dir.: Pete Docter e Ronaldo Del Carmen. Vozes de: Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Richard Kind, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan. Disney/Buena Vista. 94 min.  

Drops: Dois Lados do Amor



Dividido em dois filmes identificados pelos pronomes Him e Her (aqui no Brasil, foi lançada pela distribuidora apenas a versão Them, um compacto dos dois), Dois Lados do Amor mostra a perspectiva que um casal interpretado por James McAvoy e Jessica Chastain tem sobre a separação. O filmeem inglês The Disappearance of Eleanor Rigby, é um longa sobre ausências, a ideia do desaparecimento de pessoas e aspirações em nossas vidas (algo parecido com o que vimos no brasileiro Entre Abelhas).  A ausência ronda não apenas os seus protagonistas, despedaçados por uma tragédia irreparável, mas também todos os demais personagens que os cercam, todos eles definidos pelo sentimento de incompletude, de frustração e de fúria pelo que suas vidas potencialmente poderiam ser e não foram. Temos a mãe de Eleanor que poderia ter sido uma grande musicista mas optou pelo casamento, o pai de Conor que foi completamente omisso com o filho e sua primeira esposa, a professora universitária desiludida com a docência e com a relação amorosa e Eleanor e Conor, que viram a intensa paixão do seu casamento se transformar em uma espécie de espectro da tragédia familiar. Ned Benson, que dirigiu e roteirizou o projeto, faz de Dois Lados do Amor um filme com personagens de carne e osso, conferindo dramaticidade e leveza a sua história de amor, mas evitando o tom sisudo ou excessivamente otimista que estas tramas costumam ter. No elenco, Benson conta com as interpretações inspiradas dos sempre competentes Jessica Chastain e James McAvoy e ainda dá espaço a momentos pontualmente interessantes de atores como Isabelle Hupert, Viola Davis, William Hurt, Ciarán Hinds e Bill Hader. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Lugares Escuros



Estrelado e co-produzido por Charlize Theron, Lugares Escuros é mais um suspense baseado em um romance da escritora Gillian Flynn, que ano passado roteirizou Garota Exemplar, um livro de sua autoria levado para os cinemas pelo diretor David Fincher. Lugares Escuros, por sua vez, é conduzido para as telonas pelo francês Gilles Paquet-Brenner, de filmes como A Chave de Sarah e A Prisioneira, que, por sinal, também assina o roteiro do longa sozinho, ou seja, sem a participação de Flynn. O resultado pode não ser tão vibrante quanto aquele visto no filme de David Fincher em parceria com a autora, mas, ao menos, apresenta-se ao espectador como um suspense na maior parte do tempo instigante e maduro na construção dos seus personagens e na abordagem das suas principais  temáticas, entre elas o trauma e a sua superação. 

No longa, Charlize Theron, interpreta Libby Day, uma mulher que convive com o fantasma da violenta morte de sua família, testemunhada por ela quando criança. A culpa do crime recaiu sobre o seu irmão mais velho, Ben Day (Corey Stoll), que na época havia se relacionado com grupos de adoração a satã (algo que nos lembra a "família Manson") e que, junto com Libby, foi o único sobrevivente do massacre. Procurada por uma sociedade que se reúnem para desvendar crimes complicados, Libby Day receberá uma considerável quantia em dinheiro para retornar o passado e confirmar ou não a culpa do irmão naquela noite traumática.

A condução de Gilles Paquet-Brenner não tem nenhum atrativo em especial, contudo o diretor não compromete Lugares Escuros com firulas estéticas. Paquet-Brenner é direto, objetivo e consegue um equilíbrio entre a carga dramática pesada e tensa da sua história com momentos introspectivos, nos quais voltamos nossas atenções para a personagem de Charlize Theron, principal atrativo da história. Theron, por sinal, é um dos pontos fortes do longa, conseguindo trazer, com muito segurança e sensibilidade, para a personalidade de Libby Day os efeitos do seu trauma. Nas mãos de Charlize, Libby é uma mulher desacreditada na humanidade, mas não chega a ser dura ou sisuda, a atriz consegue criar brechas que torna a superação do trauma crível e gradual. O filme também conta com Nicholas Hoult, que esteve ao lado de Charlize em Mad Max- Estrada da Fúria, mas que aqui tem muito pouco a fazer na pele do líder da sociedade que procura a protagonista, e Chloe Grace Moretz, uma escolha um tanto quanto óbvia na pele de uma garota-problema envolvida amorosamente com o irmão de Libby. Há também a ótima Christina Hendricks, intérprete da matriarca da família. Hendricks, por sinal, merece o título de co-protagonista do filme, já que a montagem do longa intercala os acontecimentos do passado e do presente da família Day, e a atriz ganha a empatia do espectador ao viver com doçura e dignidade Patty Day.

O maior problema de Lugares Escuros é que ele nos mantém durante boa parte da projeção interessados no desfecho da sua história - e o realizador é muito hábil ao contar paralelamente os acontecimentos que sucederam o crime e a investigação sobre ele empreendida no presente - , contudo, quando o longa chega ao fim, o seu encerramento do caso soa insatisfatório e até mesmo óbvio. Não chega a ser frustrante ou decepcionante, mas menos interessante do que o caminho que a sucessão de descobertas sobre o crime empreendidas por Libby Day traça para o espectador. 



Dark Places, 2015. Dir.: Gilles Paquet-Brenner. Roteiro: Gilles Paquet-Brenner. Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloe Grace Moretz, Christina Hendricks, Tye Sheridan, Corey Stoll, Drea de Matteo, Andrea Roth. 113 min. Paris Filmes.

sábado, 13 de junho de 2015

Drops: Kingsman - Serviço Secreto



Deveriam existir mais realizadores de blockbusters como Matthew Vaughn, cineastas que não se contentam com a função burocrática de executor de roteiros em sets de filmagem que os estúdios costumam delegar. Se pelo menos mais deles existissem, com certeza o marasmo que toma conta de algumas temporadas de verão norte-americanas teriam um fim. O inglês sabe como chegar no circuito gerando baixíssimas expectativas e surpreender os cinéfilos mais desavisados acerca dos materiais-fontes que costumam inspirar seus filmes. Vaughn sabe como deixar o público empolgado sem contar com o hype "marketeiro" que a maioria dos seus colegas contam. Foi assim com Stardust - O Mistério da Estrela, Kick-Ass - Quebrando Tudo, X-Men - Primeira Classe (na época em que a franquia estava relativamente em baixa) e agora Kingsman - Serviço Secreto. O filme traz a história de uma organização secreta de espiões altamente qualificada e refinada que procura um novo agente para substituir um de seus membros morto em uma missão. Harry Hart (Colin Firth), um dos mais respeitados espiões da organização, recruta um jovem problemático para os testes em consideração a um amigo falecido, pai do rapaz. Kingsman conta com o ritmo clipeiro e a violência estilizada - e explícita - de alguns filmes do diretor, o mais notável exemplo é Kick-Ass. Existe uma explícita reverência do longa aos filmes de espionagem do passado, resgatando a classe dos agentes ingleses e o entretenimento e a fantasia em estado bruto, sem recorrer a compromissos com a realidade ou o lado sombrio dos seus personagens, um tom cada vez mais frequente que este tipo de produção tem adotado atualmente (isto é inclusive dito pelo personagem de Samuel L. Jackson em dado momento da história). Kingsman tem um roteiro delicioso, uma direção interessante e vibrante do seu realizador e desempenhos espetaculares de um elenco que inclui Colin Firth, Samuel L.Jackson (imperdível e impagável como o grande vilão do longa) e Michael Caine, sem falar na revelação que é o jovem Taron Egerton, intérprete do aspirante a espião Eggsy. 

Drops: Sob o Mesmo Céu



Cameron Crowe já fez coisa melhor que Sob o mesmo Céu? Já. O filme parece uma versão inferior de Tudo Acontece em Elizabethtown, que nem é o seu melhor longa-metragem. Temos a história de um homem retornando a um lugar que conhecia no passado, no caso o Havaí, reencontrando pessoas que fizeram parte da sua vida e encontrando um novo sentido para a mesma. Como percalço, o longa também apresenta um problema semelhante ao de Elizabethtown porém hiperdimensionado pela carência no tratamento que o roteiro dá ao seu protagonista. Temos um excesso de tramas paralelas, o que torna o filme muito disperso, sobretudo se não há um personagem central interessante e bem delineado para guiar o nosso olhar. Agora, com tudo isso, podemos dizer que Sob o mesmo Céu é o pior filme do ano como andam anunciando nos EUA? Não, bem longe disso. O filme acaba funcionando como uma comédia romântica porém uma comédia romântica com o toque do Cameron Crowe, o que torna tudo muito mais interessante do que a média de filmes do gênero que andamos vendo por ai. Com todos aqueles elementos que tornaram os filmes do diretor conhecidos, Sob o mesmo Céu supera o seu interesse no desfecho e na dinâmica água com açúcar do casal central com ponderações sobre os laços afetivos e até mesmo reflexões de cunho político sobre o momento dos EUA pós-crise econômica de 2008. É um filme que não merece ser descartado como andam falando não. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros



Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros é um daqueles filmes cuja dimensão afetiva está presente na experiência fílmica e até nos permitimos ao relato pessoal em uma crítica ou qualquer outro texto sobre a obra. Não pelo Jurassic World em si, que é um filme repleto de bons momentos e revitaliza de fato uma franquia, coisa que as sequências anteriores de Jurassic Park não conseguem. O afeto em Jurassic World vem pela memória, por todo um legado que o precede e que o filme, para o bem ou para o mal, faz questão de reverenciar.

 Em 1993, tive uma das maiores experiências cinematográficas da minha vida, assisti por duas vezes no cinema Jurassic Park, de Steven Spielberg. Assim como o Dr. Alan Grant (Sam Neill) e  Dra. Ellie Sattler (Laura Dern) ficaram impressionados com a primeira aparição de um braquiossauro, minha geração ficou extasiada com a possibilidade de ver diante dos seus olhos criaturas extintas há milhares de anos atrás, agora vivas em cores, texturas, presença. Vivíamos em uma época na qual os efeitos em CGI não eram tão banalizados no cinema, provavelmente Jurassic Park popularizou o recurso, que daí em diante passou a ser usado não mais para a criação de seres imaginados, como foi o caso de O Exterminador do Futuro 2 ou O Segredo do Abismo, mas também para criaturas reais ou criaturas imaginadas que mimetizavam o real. Além disso, o longa trazia ponderações interessantes sobre a ética na ciência, a relação do homem com os outros seres vivos e até mesmo sua relação com Deus. Enfim, Jurassic Park foi para a minha geração um marco, uma experiência colossal.

Assim, mesmo que a experiência de ver Jurassic World não possa ser comparada à sensação de assistir a Jurassic Park pela primeira vez em 1993, se você leitor vivenciou aquela época ou de alguma forma foi impactado pela obra original de Steven Spielberg, é impossível não sentir os pêlos do braço arrepiarem ao ouvir novamente a trilha tema do filme original composta por John Williams quando os garotos Zach e Gray adentram no parque (sim, aquele que na nossa infância ou adolescência era só um projeto de um "velho maluco"), agora chamado de Jurassic World. As portas do parque estão finalmente abertas. Isso não é maravilhoso?

Em Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros o sonho de John Hammond torna-se realidade e na Ilha Nublar dinossauros são atrações para vários visitantes que circulam pelo complexo em busca de diversão. Zach e Gray vão para lá em busca não apenas de diversão, mas de momentos mais íntimos com sua tia Claire (Bryce Dallas Howard), atual responsável pela atração, que não vêem há anos. Tudo foge de controle de Claire quando uma espécie de dinossauro geneticamente modificada, o indominus rex, escapa do seu "cercado" e invade outras zonas do parque colocando em risco a vida de outras espécies de dinossauros, funcionários e visitantes. Para controlar o animal, a administradora da atração conta com a ajuda de um "adestrador" de velociraptors chamado Owen (Chris Pratt).  

Jurassic World sabe que está  à sombra do seu antecessor. Esta tentativa de revitalização da franquia após dois filmes pouco expressivos, Jurassic Park - O Mundo Perdido (1997) e Jurassic Park 3 (2001), dirigida por Colin Trevorrow (Sem Segurança Nenhuma), tem plena consciência de que paira sobre si todo um legado deixado por Steven Spielberg em Jurassic Park. Esta noção é um dos grandes trunfos de Jurassic World, mas talvez um dos seus maiores tropeços também. É um aspecto  positivo pois permitiu que a equipe de Trevorrow ficasse mais alerta e se esforçasse mais para criar novos elementos de interesse para o público e melhores ganchos na trama, estratégias que tirassem Jurassic World das repetitivas motivações dos filmes anteriores da franquia que sucederam Jurassic Park e que simplificaram suas motivações com o plot "humanos correndo de dinossauros".  Nesse sentido, a própria concretização do parque de John Hammond, assim como a tentativa de utilização de dinossauros como armas de guerra, a "domesticação" dos velociraptors e principalmente a concepção de uma espécie geneticamente modificada, o indominus rex, são ideias muito bem-vindas e atestam o esforço da "não repetição" por parte de Trevorrow e cia.

No entanto, Jurassic World acaba se apresentando à plateia como um longa excessivamente referencial, prestando sempre reverência ao filme de 1993 com a realização de sequências parecidas com a do filme de Spielberg (a entrada no parque, o ataque do indominus rex ao veículo das crianças, a sequência final envolvendo o confronto entre os dinossauros) e até mesmo a inserção de personagens que exercem funções parecidas com àquelas exercidas pelos protagonistas do primeiro filme da franquia. Por esta via, a ciência de que faz parte de um grande legado parece paralizar Jurassic World , fazendo com que o mesmo ímpeto que trouxe para o longa alguns dos elementos mais inventivos da série desde o filme de 1993 também seja responsável por travá-lo diante do seu antecessor, não permitindo que ele percorra caminhos mais ambiciosos do que ele tem potencial para seguir

Esta tensão entre o potencial reinventivo da franquia que o filme apresenta e a excessiva reverência dele ao passado torna Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros um exemplar bem mais interessante que as continuações de Jurassic Park, mas não isento de falhas. Trata-se de um filme que não consegue se desapegar do seu passado, ainda que apresente inúmeras vias temáticas que expandem o universo concebido por Steven Spielberg em 1993. A aposta ousada do longa original é substituída por um tímido potencial em Jurassic World. Talvez Jurassic World seja resultado da recepção nada positiva de O Mundo Perdido e Jurassic Park 3. O longa reinventa determinados elementos da série cinematográfica, mas prefere não arriscar tanto e aposta no seu potencial nostálgico, evidência de que apenas Jurassic Park continua irretocável. Jurassic World ocupa um segundo lugar no podium.


Jurassic World, 2015. Dir.: Colin Trevorrow. Roteiro: Colin Trevorrow, Rick Jaffa, Amanda Silver e Derek Connolly. Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins, Nick Robinson, Irrfan Khan, Vincent D'Onofrio, Judy Greer, Omar Sy, BD Wong. 124 min. Universal. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Drops: Sangue Azul



Depois de dez anos do seu último longa de ficção, Árido Movie, o pernambucano Lírio Ferreira retorna aos cinemas com Sangue Azul, um conto sobre a luxúria protagonizado pelos irmãos Pedro e Raquel, papéis de Daniel de Oliveira e Caroline Abras. Na história, Oliveira interpreta um rapaz que retorna à ilha na qual nasceu, mas teve que sair após as suspeitas da sua mãe de que ele e a irmã poderiam ter um caso quando crescessem. Pedro volta ao local como a principal atração do circo Netuno, o homem-bala Zolah. A presença do rapaz na ilha faz renascer a paixão incestuosa entre ele e Raquel, "contaminando" todos os personagens ao seu redor. Esteticamente, o longa é irrepreensível. Dividido em capítulos, Sangue Azul aplica muito bem todos os seus recursos a favor de uma experiência visual e narrativamente na tela grande. A derrapada do projeto de Ferreira talvez esteja no excesso de personagens que acabam rendendo a atores interessantes e renomados apenas pontas apesar dos seus papéis sugerirem que existem muito mais camadas psicológicas do que o próprio filme faz questão de expor. Sangue Azul é muito aplicado e coerente com o percurso que traça, sobretudo por apresentar-se como uma jornada que provoca o seu espectador  a todo momento (a cena final com o personagem de Ruy Guerra olhando para a lente da câmera/plateia é emblemática).

Drops: O Homem que Elas amavam Demais




O Homem que Elas amavam Demais é um longa francês baseado em fatos reais, o que para muitos significa que ele traz consigo dois selos que atestam a sua qualidade (sim, tem pessoas que qualificam um filme como bom pela sua nacionalidade, pela força do pacto que ele estabelece com a realidade, enfim...). O filme de André Téchiné conta a história de Agnés Le Roux, herdeira de um famoso cassino em Nice que, na década de 1960, põe tudo a perder após se apaixonar pelo mulherengo ex-advogado da sua mãe. Téchiné conduz a sua história com uma certa sobriedade e conta com a presença interessante de Adèle Haenel, no papel principal. É uma pena que o roteiro do próprio Téchiné e de  Cédric Anger não mergulhe na psicologia dos seus personagens e sejamos reféns de uma burocrática Catherine Deneuve e um pouco expressivo Guillaume Canet. É um daqueles filmes que desperta algum interesse do espectador no terceiro ato não pela obra em si, mas pelo material original que a inspirou, porém isso não é o suficiente, falta um pouco de vibração e de vigor no projeto. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Drops: Mapas para as Estrelas



Tratar de Mapas para as Estrelas em um parágrafo será um desafio. O recente filme do cineasta canadense David Cronenberg possui tantas camadas de leituras e é tão rico em suas representações que qualquer interpretação primeira do longa evidencia uma certa precipitação. Expondo para o espectador várias tramas em paralelo, todas elas ambientadas em Los Angeles, Cronenberg traz como centro da sua história a vinda de Agatha, papel de Mia Wasikowska, à cidade. Cruzam o caminho da moça uma atriz decadente que tenta retornar ao estrelato através do remake de um filme protagonizado por sua mãe no passado; um garoto prodígio da televisão, seu pai, um guru de celebridades, e sua mãe, administradora da sua carreira e censora das suas inconsequências fora dos sets; e um motorista de limusine aspirante a ator e roteirista. No elenco do filme, as interpretações de Julianne Moore como Havana Segrand e o garoto Evan Bird saltam os olhos, mas Mia Wasikowska, John Cusack, Robert Pattinson e Olivia Williams têm grandes momentos ao longo da trama. Escrito por Bruce Wagner, Mapas para as Estrelas, nas mãos de David Cronenberg, ganha o tom de um delírio obsessivo. O filme afasta-se do mimético, do mundo real, e é dominado em seu modus operandi pelo psicótico universo interno dos personagens que dão a atual Hollywood sua verdadeira faceta, a egolatria dosada pela presença de fantasmas: o medo que todos aqueles que fazem parte deste ambiente têm da juventude, da sucessão, de não fazer jus ao legado dos seus antepassados etc. Fica evidente que o longa não é sobre Hollywood, o cenário só é usado pela natural propensão a esta cultura psicótica do "eu" que ele evoca, mas que contamina a sociedade contemporânea e fomenta determinadas neuroses de maneira generalizada. É assustador, patético, melancólico. Fica muito bem dado o recado.