domingo, 26 de julho de 2015

Drops: Cobain - Montage of Heck



É difícil para qualquer filme dar conta da tumultuada vida do vocalista e guitarrista do Nirvana Kurt Cobain. Com uma carreira meteórica no início dos anos de 1990, Cobain tornou o grunge, um subgênero do rock alternativo, comercialmente viável. Ao lado de todo este êxito musical, o líder do Nirvana lutava contra os seus demônios internos que só se multiplicavam cada vez que o seu nome era envolvido em escândalos midiáticos ao lado da sua esposa Courtney Love ou a cada instante em que se deparava com o mundo a sua volta e os tipos de seres humanos que o habitam. Enfim, tão distante, mas tão próximo de cada um de nós, tão humano, Cobain cometeu suicídio aos 27 anos, fazendo parte de uma lista de jovens artistas que nos deixaram muito cedo, mas que, de antemão, sabíamos que estavam entre nós somente de passagem. O documentarista Brett Morgen em Cobain - Montage of Heck constroi um interessante relato sobre a trajetória de Cobain seguindo um estilo tradicional de narrativa em biografias, com algumas peculiares decisões que tornam o filme uma experiência bem interessante para iniciados ou não na história do músico. Morgen narra a vida de Cobain em ordem cronológica, utilizando depoimentos de familiares (os pais, a madrasta, a irmã, a ex-namorada, Courtney Love, o baixista Krist Novoselic etc.), além de gravações e entrevistas do próprio músico e, o que é mais interessante, seus diários e gravações pessoais. Assim, mesmo optando por uma narração cronologicamente tradicional. Cobain - Montage of Heck tem o mérito de encontrar diversos formatos em um só, ora concentrando-se nos depoimentos (os mais interessantes são aqueles ilustrados por animações), em outros momento nos diários do seu biografado, em seus desenhos e até mesmo na sua música. Isso tudo permite que o espectador adentre na tumultuada e efervescente mente de Kurt Cobain e tenha uma dimensão do universo do biografado tornando Cobain - Montage of Heck  um eficiente retrato de um gênio atormentado. 

sábado, 25 de julho de 2015

Drops: Hacker



Em alguns momentos - pouquíssimos, é bem verdade -, você vai encontrar o cineasta vibrante por trás de O Informante, Fogo contra Fogo e Colateral em Hacker. Este thriller cibernético (!!!) protagonizado por Chris Hemsworth é o ponto mais baixo da prolífica carreira de um dos realizadores mais interessantes dos EUA nas duas últimas décadas, Michael Mann. Hacker, o título original é Blackhat, traz a história de um hacker condenado a 15 anos de prisão após tentar um golpe contra algumas instituições bancárias. Ele é recrutado pela polícia americana para desvendar uma série de atentados planejados por terroristas digitais em troca da sua liberdade. A trama de Hacker é das mais banais e o filme segue em completo desinteresse até o seu desfecho. Parte da ação ocorre no universo cibernético e mesmo quando ela é transposta para o mundo real é acompanhada com muita indiferença pelo espectador já que nem mesmo a conhecida habilidade do diretor em conduzir sequências de ação pode ser vista em prática nesse filme. Adicione a isto um romance completamente dispensável entre o protagonista e a chinesa Tang Wei e o desastre está completo. A impressão que fica é que Michael Mann estava completamente desinteressado pelo seu próprio filme, preguiçoso. Nem mesmo um elenco encabeçado por um empenhado e eficiente Chris Hemsworth e que ainda nos brinda com a presença da sempre interessante Viola Davis, ainda que aqui não tenha absolutamente função alguma, servem para tirar Hacker do marasmo. A certeza que fica é que Michael Mann já teve dias melhores. Boa sorte na próxima!

Drops: Mar Negro



Mar Negro é um filme tenso e claustrofóbico sobre um homem que após ser demitido da empresa para a qual trabalhava é contratado por um banqueiro para achar um tesouro em barras de ouro escondido em um submarino nazista naufragado no fundo do oceano. O longa é dirigido por Kevin Macdonald, de filmes igualmente regulares como O Último Rei da Escócia e Intrigas de Estado. Macdonald conta com um elenco formado por atores interessantes e em ascensão, como Scoot McNairy e Ben Mendelsohn, mas o centro das atenções do realizador e do próprio filme é o seu protagonista Jude Law, cada vez mais empenhado em suas interpretações, o que é bem animador para um ator que iniciou sua carreira com duas indicações ao Oscar um tanto quanto questionáveis (O Talentoso Ripley e Cold Mountain). Law dá tudo de si para um personagem que requer esforços físicos e psicológicos e Macdonald insere esse protagonista em uma atmosfera inquietante proporcionada por conflitos que surgem dentro do minúsculo espaço de um submarino. O filme oferece uma resolução satisfatória para o mote principal do seu protagonista e mostra-se empenhado em manter a atenção do espectador fiel a sua narrativa até o último segundo. 

Drops: Um Pouco de Caos



Um Pouco de Caos traz para o público a história por trás da projeção dos jardins do Palácio de Versalhes na França. O Rei Luis XIV entrega o projeto para o arquiteto André Le Notre e ele contrata a paisagista Sabine de Barra, que tem um estilo oposto ao seu, para ajudá-lo na tarefa. Na carreira de Alan Rickman, Um Pouco de Caos é o segundo filme que tem uma direção com sua assinatura, o primeiro foi Momento de Afeto, protagonizado por Emma Thompson. Esta "pouca experiência" no departamento não prejudica o longa, pelo contrário, Rickman sabe ser delicado com a narrativa visual da sua história e utiliza muito bem os "silêncios" da história para sublinhar o trabalho do seu elenco, sobretudo sua protagonista Kate Winslet, que aqui está em sua zona de conforto, já que, como prova toda a sua filmografia, nasceu para viver esse tipo de personagem, e consegue imprimir na sua interpretação todas as camadas necessárias para que entendamos a sua Sabine de Barra. O grande problema do longa está no tratamento que ele dá ao romance entre André e Sabine. Trata-se de um aspecto fundamental da trama pois ele é importante para a personagem de Winslet sair do seu "casulo", mas ele é articulado com muita pompa e melodrama. O mote de Um Pouco de Caos me parece a inserção de Sabine na corte francesa da época e seu desabrochar para a vida, nesses momentos o filme traz uma perspectiva bem interessante da personagem e da história. É uma pena, no entanto, que o longa perca tanto tempo com o triângulo amoroso folhetinesco entre Sabine, André e a sua esposa adúltera. 

domingo, 19 de julho de 2015

Ex-Machina - Instinto Artificial



Ex-Machina - Instinto Artificial é um dos filmes mais bem resenhados pela crítica internacional nesse primeiro semestre e sequer chegará aos cinemas do nosso país, ele será lançado diretamente em mercado doméstico (DVDs e Blu-Rays) e serviços de video on demand. O longa não foi a primeira e nem será a última "vítima" desse sistema cruel de distribuição, ficando mais do que claro a cada dia que passa que os lançamentos diretos nesse formato não são sinônimos de "bombas cinematográficas", muito pelo contrário. Com algumas exceções, nossas salas comerciais estão abarrotadas de filmes de gosto questionável e nenhuma distribuidora está disposta a perder dinheiro lançando cópias de um longa que está fadado ao fracasso financeiro, afinal de contas, nossas platéias têm o péssimo hábito de só assistir a filmes de língua inglesa se forem um grande blockbuster ou tiverem indicações ao Oscar, tudo que está fora dessa esfera é jogado no limbo - curioso que ninguém adota essa postura quando o objeto em questão são séries televisivas, mas voltemos ao assunto... Uma pena mesmo que Ex-Machina chegue assim em nosso país, pois o longa de Alex Garland, roteirista de Extermínio e Sunshine - Alerta Solar, é um primor cinematográfico e merecia a tela grande. 

A história de Ex-Machina - Instinto Artificial tem início quando um jovem programador ganha uma promoção da sua empresa para participar de um novo experimento de inteligência artificial desenvolvido pelo presidente da companhia, um gênio milionário excêntrico e recluso. O projeto envolve um teste em um robô programado para assumir o sexo feminino chamado Ava e o objetivo é detectar o nível de veracidade dos sentimentos que podem surgir entre essa inteligência artificial e um humano. Caso a experimentação falhe, o robô será descartado e o projeto será reiniciado. O problema é que Ava atinge um nível tão sofisticado de sedução e existe tanto segredo por trás de sua criação que a relação entre ela, o cientista e o jovem programador ganha contornos imprevisíveis. 

Alex Garland era um roteirista habitual de Danny Boyle em um período intermediário da carreira do diretor, aquele que sucedeu a sua revelação como cineasta em longas icônicos da sua filmografia como Cova Rasa e Trainspotting e antecedeu sua popularização e consequente estandardização com projetos como Quem quer ser um milionário? e 127 Horas. Foram filmes modestos, de repercussão média, mas cultuados por um grupo de cinéfilos, como Extermínio e Sunshine - Alerta Solar (vamos excluir A Praia dessa seleção, tá?). Eram longas marcados por tramas tensas e inteligentes, com uma certa dose de elegância no desenvolvimento de seus atos e das suas reviravoltas. Em sua estreia na função de diretor com Ex-Machina, Garland leva todas essas características do seu roteiro para as imagens, proporcionando ao espectador a experiência de assistir a um filme instigante, enervante e consciente dos recursos da linguagem cinematográfica. 

Ex-Machina apresenta-se ao espectador como uma ficção-científica que não é refém dos seus efeitos digitais, apesar de ser um dos departamentos mais interessantes da obra. O filme faz jus ao gênero por utilizá-los em prol de uma trama que pretende discutir temáticas filosóficas sobre a fé, a ética, a sensação de onipotência do homem e a sua relação com a tecnologia, todos eles interligados por um roteiro que evita subestimar o espectador com didatismos e opta pela abordagem direta. Garland conta com um elenco que oferece performances equilibradas, é o caso de Domhnall Gleeson e de Alicia Vinkander, ótima como a robô Ava. Claro que entre as interpretações do filme a do ator Oscar Isaac se destaca por colocar sempre um ponto de interrogação acerca da sinceridade e integridade do excêntrico Nathan.

Com Ex-Machina, Alex Garland faz um filme que evidencia o quanto o homem é arrogante e estúpido por acreditar que detém o controle de tudo. A criação é o que faz as nossas gerações se aperfeiçoarem, mas também pode ser severamente subestimada em sua existência e autonomia pelo próprio ego do criador. Conduzindo esse tema sem muita parafernália, com recursos tecnológicos pontuais e visualmente impressionantes, mas incorporados à trama, e com muita consciência do poder reflexivo da sua própria história, Alex Garland faz um dos filmes do ano. 


Ex Machina, 2015. Dir.: Alex Garland. Roteiro: Alex Garland. Elenco: Domhnall Gleeson, Alicia Vinkander, Oscar Isaac, Sonoya Mizuno, Claire Selby, Symara A. Templeman, Tiffany Pisani, Elina Alminas, Corey Johnson. Universal. 108 min.  

Drops: Uma Nova Amiga



François Ozon sempre me pareceu o mais hollywoodiano dos franceses. O diretor flerta com as tramas mastigadas, o melodrama e até mesmo com a grandiloquência dos dramas americanos. Em alguns casos, isso não chega a ser um problema, pelo contrário, geram filmes bem interessantes. Em outras situações, esta marca do diretor resulta em filmes deslocados, cuja proposta não condiz com o formato dado pelo realizador. É um pouco o caso de Uma Nova Amiga. O filme tem contornos "almodovarianos" ao contar a história de uma jovem que perde sua melhor amiga e se compromete a, dali em diante, ajudar o marido e a filha dela. Com o passar do tempo, a protagonista descobre que o viúvo tem o hábito de vestir roupas femininas e assumir a identidade de mulher. Ele lhe pede segredo e os dois passam a trocar confidências. O filme de Ozon é baseado em um romance homônimo de Ruth Rendell que, curiosamente já foi adaptado para os cinemas pelas mãos de Pedro Almodóvar. O que François Ozon faz com Uma Nova Amiga é transformá-lo em um filme sem tom definido, oscilando entre o melodrama, a comédia ou o suspense, deixando o espectador sem uma chave de leitura precisa para a sua história, o que, nesse caso, ao mesmo tempo que expande a autonomia do público e a sua gerência sobre as possíveis interpretações da história, traz como contrapartida uma dificuldade de imersão e entendimento sobre os objetivos da trama. O filme tem como mérito a maneira complexa e respeitosa com que trata temas como identidade de gênero  e a orientação sexual ao construir com delicadeza a trajetória de seus dois personagens principais, Claire e David/Virgina, interpretados com muita sensibilidade e sem afetações por Anäis Demoustier e Romain Duris, respectivamente.

Drops: Enquanto somos Jovens



Realizador por trás de filmes como A Lula e a Baleia, Margot e o Casamento e Frances Ha, Noah Baumbach tornou-se uma espécie de Woody Allen da nova geração. Seus filmes são de sua própria autoria, repletos de diálogos afiados ditos por núcleos de intelectuais nova iorquinos neuróticos em meio a alguma crise existencial. Porém, ainda que seja possível estabelecer essa comparação, os filmes de Baumbach equilibram bem sua própria existência com as referências cinematográficas do cineasta. Em Enquanto somos Jovens Noah Baumbach traz como protagonistas um casal de meia idade que sai do eixo quando conhece um jovem casal  na faixa dos vinte e poucos anos. Com o filme fica claro que Baumbach quer tratar da forma como somos fascinados, seduzidos e aterrorizados pela ideia da juventude. Os protagonistas interpretados com afinco por Ben Stiller e Naomi Watts estão perdidos com a crise da maturidade e passam a "emular" a rotina dos novos amigos. O resultado é que eles ora se frustram por suas próprias limitações, ora se sentem parte de algo novo ao fugirem dos seus próprios problemas e fracassos pessoais e profissionais. Inconsciente ou conscientemente é como se evitar a própria maturidade significasse colocar para "debaixo do tapete" um projeto de vida que simplesmente não funcionou, uma armadilha tentadora. Em boa parte do filme, Baumbach lida com o tema de forma leve, mas sofisticada. É uma pena que em determinado momento do longa o realizador acabe introjetando certos estratagemas e reviravoltas que soam estranhas dentro da sua própria proposta narrativa e o interesse da história passa a ser o de desvendar a real natureza do fascínio dos jovens pelo casal de "coroas". 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Homem-Formiga



Não tem como retroceder. Depois que a Marvel encontrou o caminho para fisgar o público parece impossível que um projeto do estúdio resulte em fiasco comercial ou mesmo de crítica. A assinatura do jovem estúdio parece fácil de distinguir: os filmes seguem os passos da narrativa seriada da TV, não à toa em grande popularidade, com suas múltiplas referências a projetos do passado e do futuro e ganchos a serem solucionados em episódios seguintes, como é o caso de Os Vingadores e todos os títulos a ele vinculados; além disso, também apostam na veia pop de suas histórias, gerando tramas que não só humanizam seus super-herois, mas também conferem leveza através de uma certa metalimguagem com suas gags em torno de chavões do seu próprio universo fantástico, é o que Guardiões da Galáxia faz de maneira precisa e até mesmo singular dentro do que foi oferecido pelo estúdio até aqui. 

Homem-Formiga segue as duas orientações que acabei de descrever e apesar de não ser tão singular quanto Guardiões da Galáxia ou Capitão América 2 - Soldado Invernal, é um filme mais divertido que os filmes da série Homem de Ferro, todos eles engolidos por um Robert Downey Jr. completamente fora de controle como Tony Stark, e menos desarmônico que Thor e sua continuação, por exemplo. Homem-Formiga conta a história de um ex-detento chamado Scott Lang (Paul Rudd) recrutado pelo Dr. Hank Pym (Michael Douglas) para proteger o experimento do Homem-Formiga de pessoas que têm o intuito de usá-lo com propósitos eticamente duvidosos. Scott Lang é escolhido para a missão por suas habilidades como ladrão já que para evitar o pior Pym terá que pôr em prática um perigoso plano de assalto que envolve o uso do traje do Homem-Formiga, uma roupa que permite a Lang diminuir sensivelmente o seu tamanho mas crescer em sua força . 

Antes de cair nas mãos de Peyton Reed, diretor de comédias como Sim Senhor, Separados pelo Casamento e a interessante Abaixo o Amor, Homem-Formiga seria dirigido por Edgar Wright, de Scott Pilgrim contra o Mundo - o roteiro de Homem-Formiga, por sinal, tem a co-autoria de Wright. O que fez Wright ser substituído por Peyton Reed foi a velha desculpa da "diferença criativa" com a Marvel, o que nos leva a um ponto que não chega a ser um incomodo em Homem-Formiga a ponto de arruiná-lo, mas que evidencia uma política do próprio estúdio (ou habitualmente de todo estúdio, para ser bem sincero) : as decisões em um filme da Marvel são feitas pelos próprios executivos, não por um diretor que tenha uma visão particular sobre o universo dos seus personagens, pelo contrário, toda vez que existe uma interferência mais drástica esse sujeito é imediatamente limado. 

Em alguns casos, eles acertam por seguir a cartilha ou, em casos ainda mais interessantes como os do sombrio e adulto Capitão América 2 - Soldado Invernal e do irreverente Guardiões da Galáxia, acertam por se contraporem a ela. Esse jeito de fazer cinema, no entanto, traz sempre o risco da concepção de filmes sem personalidade ou estranhamente deslocados, como se eles precisassem de um perspectiva bem diferente do que a Marvel tem para oferecer, é o caso de Thor, por exemplo, filme no qual fica evidente a falta de traquejo do estúdio ao lidar com um contexto peculiar, o da mitologia nórdica. O que desejo dizer é que isso não fez muita diferença em Homem-Formiga porque o tom do personagem se harmoniza com o o jeito tradicional da Marvel de fazer cinema, um cinema pop, leve, porém, humano. Peyton Reed no caso de Homem-Formiga não parece fazer muita diferença no processo, ele está mais para um executor de roteiro do que para um cineasta que venha imprimir uma narrativa própria. Aqui, a Marvel é quem dá as cartas e tudo se arranja perfeitamente bem. Homem-Formiga está mais para a falibilidade de um Homem-Aranha, um Star Lord ou um Tony Stark da vida do que para  a perfeição de um Thor e até mesmo do Capitão América, ainda que este último tenha rendido dois ótimos filmes no estúdio. É "juntar a fome com a vontade de comer", um tipo de personagem que faz parte da própria tradição Marvel e que a distingue dos seus concorrentes. Então, no fim das contas, depois de tanto conflito, as coisas deram certo. 

Homem-Formiga, portanto, acerta em cheio não só na condução de um espetáculo do entretenimento como introduz com muita habilidade no universo Marvel um personagem que adere com muita facilidade ao modo de leitura das dinâmicas das histórias do estúdio que "a essa altura do campeonato" já assimilamos muito bem. Ainda que careça de um pouco mais de atenção dentro da sua própria história, já que a história de Scott Lang rivaliza e, am alguns casos, sai perdendo espaço com a de outros personagens, Paul Rudd foi uma escolha certeira para interpretar o personagem principal de Homem-Formiga. Rudd tem muita facilidade em transitar pelos meandros de um personagem cheio de falhas humanas e que ganha a simpatia do público por esses atributos. Michael Douglas é eficiente como o primeiro Homem-Formiga, o Dr. Hank Pym, Michael Peña está hilário como um dos amigos de Lang e Evangeline Lilly está ótima e magnética na pele de Hope Van Dyne, vislumbrando um futuro ainda mais interessante na Marvel quando assumir de vez a identidade da Vespa. 

Em suma, Homem-Formiga representa tudo o que a Marvel sabe fazer de melhor, um filme bem-humorado, humano, enfim, um entretenimento de primeira linha. Com o mérito de não ser um produto tão deslocado e enfadonho quanto Thor e Thor - Mundo Sombrio, mas também sem a ausência de compromisso e "freios" que fizeram de Guardiões da Galáxia um produto tão diferenciado no estúdio, Homem-Formiga é um filme correto e muito agradável, enfim, o que se espera de um bom blockbuster com a assinatura do estúdio de Stan Lee, inegavelmente a grande potência cinematográfica deste início de século. 


Ant-Man, 2015. Dir.: Peyton Reed. Roteiro: Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay e Paul Rudd. Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Michael Peña, Abby Ryder Fortson, Bobby Cannavale, Judy Greer, David Dalstmachian. Buena Vista. 117 min. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Cidades de Papel



John Green tornou-se uma espécie de porta-voz da juventude. Com livros como A Culpa é das Estrelas, Quem é você, Alasca?, O Teorema de Katherine e outros já traduzidos para o Brasil, inclusive, o diretor conseguiu cativar a preferência dos jovens de toda parte do mundo com histórias humanas sobre o amadurecimento. Quando A Culpa é das Estrelas recebeu sua versão para os cinemas, no entanto, muita gente se dividiu. E não era para menos. O filme sobre dois adolescentes diagnosticados com câncer era um drama que, forçadamente, tentava arrancar litros e mais litros de lágrimas do espectador. Pouca coisa ali era espontânea, ainda que a história tivesse os seus méritos ao tratar um tema delicado como o câncer de maneira respeitosa e pontualmente inteligente. A boa notícia é que aqueles que não gostaram de A Culpa é das Estrelas e os fãs incondicionais de John Green podem enfim se conciliar em Cidades de Papel, que não só é superior ao longa protagonizado por Shailene Woodley como também evidencia e sintetiza para os não iniciados na obra do autor as razões do seu sucesso. Cidades de Papel é um belo filme que dimensiona para o público que está fora dessa bolha de idolatria em torno de John Green o motivo dele cativar tantos leitores a cada livro que lança.

Cidades de Papel conta a história de Quentin (Nat Wolff), um adolescente reservado que nutre uma paixão mal resolvida pela impetuosa Margo (Cara Delevingne). Quentin e Margo eram "unha e carne" na infância, mas na adolescência ela se afastou dele e quando conhecemos os dois no filme eles mal trocam olhares nos corredores do colégio. Uma noite, quando Quentin prepara-se para ir dormir, Margo entra pela janela do seu carro e o convida para pôr em prática um plano de vingança contra todos aqueles que a trairam. Os dois se reaproximam naquela noite, mas no dia seguinte Margo desaparece. Quentin resolve então desvendar o mistério em torno do desaparecimento da amiga. 

Há um grande motivo que faz Cidades de Papel ser mais bem resolvido como experiência cinematográfica que A Culpa é das Estrelas (me perdoem, mas as comparações são inevitáveis). Cidades de Papel produz emoções espontâneas no espectador, como já antecipamos, é um filme que não precisa da "muleta" do "drama sobre o câncer" acompanhada daqueles diálogos constrangedoramente lacrimosos para comover o seu público pois trata de questões cotidianas que naturalmente mobilizam o seu espectador, fazendo com que ele se identifique com toda a trajetória do seu protagonista, torça por ele e, portanto, tenha sentimentos autônomos. Em Cidades de Papel dá para entender porque tantos jovens gostam de John Green porque vemos uma história sobre a trajetória de cada um de nós. Sem apelações ou artifícios melodramáticos, vemos a vida projetada na tela através de situações rotineiras dos ritos de passagem para a idade adulta: os medos e as dúvidas sobre o futuro, o desejo de viver cada segundo do presente, as amizades e frustrações, a maturidade do amor etc.

Jake Schreier, do indie  Frank e o Robô, dirige Cidades de Papel e transforma-o em um típico exemplar dos cultuados filmes sobre a adolescência que tomaram conta dos estúdios hollywoodianos na década de 80 (cito principalmente os filmes de John Hughes, como Curtindo a vida adoidado e Clube dos Cinco, além de Conta Comigo, de Rob Reiner) que, provavelmente, devem ter uma ponta de inspiração na literatura do próprio Green. O olhar do filme para essa fase da vida não é tolo, tampouco é hipersofisticado, o que se vê na tela é o retrato de uma época muito divertida, mas também cheia de introspecção, melancolia e aprendizado, enfim, a vida de um ser humano comum. O longa conta com o expressivo Nat Wolff na pele do seu protagonista e uma magnética Cara Delevigne cujos poucos minutos em cena são o suficiente para torná-la presente em toda a história. Há coadjuvantes bem interessantes e que não só servem de alívio cômico para a história como têm a sua própria função no desenrolar da trama principal, como Halston Sage, Justice Smith e, claro, Austin Abrams, que tem potencial para fazer uma geração se lembrar de um clássico musical da década de 90 de uma forma um tanto quanto original. 

O filme pode ser o retrato da adolescência como uma jornada inesquecível se os seus dramas forem superados através da amizade. O título Cidades de Papel, como o filme explica, vem de um termo usado por cartógrafos para identificar em mapas localidades que não existem mas estão lá só para garantir que seus nomes posteriormente não venham a ser usados por outros. Em um momento do filme Margo usa esse termo para definir a forma como todos levam suas vidas no presente: "Todas aquelas pessoas de papel, vivendo suas vidas em casas de papel, queimando o futuro para se manterem aquecidas". O filme portanto fala sobre necessidade de viver o presente de maneira concreta e intensa e não fingir que estamos vivendo um agora forjando-o sob a forma de conjecturas sobre o futuro. Nossa vida não pode se resumir ao medo ou ao planejamento do que está por vir. Por ter a grandeza de sempre oferecer um afago para as novas gerações, e esse é o seu segredo no diálogo com elas, o John Green que conhecemos em Cidades de Papel merece o nosso respeito e agradecimento. 



Paper Towns, 2015. Dir.: Jake Schreier. Elenco: Nat Wolff, Cara Delevigne, Austin Abrams, Halston Sage, Justice Smith, Jaz Sinclair, Griffin Freeman, Meg Crosbie, Madeleine Murden, Josiah Cerio, Hannah Alligood. Fox. 109 min. 

domingo, 5 de julho de 2015

Conheça Gugu Mbatha-Raw


Enquanto todos os blogs especializados na cobertura do Oscar em 2014 polarizaram suas atenções entre as performances de Julianne Moore em Para Sempre Alice e de Reese Whiterspoon em Livre, uma atriz correu por fora e por falta de um fôlego maior na campanha sequer chegou a ser indicada ao prêmio. Estou falando de Gugu Mbatha-Raw, que monopolizou as atenções por duas performances muito elogiadas, uma no filme de época Belle e outra no drama musical Nos Bastidores da Fama. 

Aos 31 anos e com pouquíssima experiência no cinema, Mbatha-Raw foi a revelação do ano de 2014 para muita gente que faz a cobertura de cinema nos Estados Unidos com duas complexas protagonistas. Em Belle, Mbatha-Raw interpretou Dido Elizabeth Belle, filha de uma escrava e de um capitão branco que enfrentou o preconceito na Inglaterra do século XVIII. Já Nos Bastidores da Fama traz a atriz como uma pop star em crise de identidade que redescobre sua própria vocação quando se apaixona por um policial que a salva de um suicídio. Por interpretar dois papéis tão fortes, em filmes de diretoras negras que põem em debate as raízes do preconceito (Belle) e as ações de "cosmetização" e hipersexualização promovidas pela indústria da música, Mbatha-Raw e suas personagens acabaram tornando-se um símbolo da causa negra e feminina no ano passado. 

É uma pena que o primeiro contato do público brasileiro com Gugu Mbatha-Raw tenha sido com o fiasco dos irmãos Wachowski O Destino de Júpiter. Tanto Belle quanto Nos Bastidores da Fama não foram lançados no cinema por aqui, saindo diretamente em DVD e Blu-Ray, mas vale a pena ir atrás dos dois títulos e conhecer esta maravilha de atriz!

Belle



Parece incrível, mas Dido Elizabeth Belle de fato existiu na Inglaterra do século XVIII e foi criada como uma mulher branca do seu tempo, com todas as ressalvas que possamos fazer sobre esta afirmação. Belle conta a história de uma jovem nascida escrava mas logo liberta por seu pai e sua família de aristocratas brancos. Apesar da resistência inicial do seus tios, Belle quebra todo o "gelo" e é amada por todos, tal qual a sua prima Elizabeth. Quando atinge uma certa idade, Dido Belle descobre que o seu pai lhe deixou um grande volume patrimonial como herança. É justamente nessa etapa da sua vida, antes Belle vivia reclusa e protegida de qualquer discriminação, que a jovem é apresentada à sociedade e se depara com o seu lado mais cruel. Dido Elizabeth Belle toma ciência da sua própria condição a partir do momento em que percebe que mesmo com um dote maior que o de Elizabeth poucos pretendentes querem a sua mão. Dido começa a sentir então os sinais do preconceito não só naqueles que não a conheciam e ficam escandalizados por ela circular entre os salões como a aristocrata que é, mas também da sua própria família, cuja discriminação da jovem no ambiente doméstico foi durante anos velada. 

Belle poderia ser uma típica história de Jane Austen com direito até a final romântico e todos aqueles conchavos e arranjos matrimoniais. A diretora Amma Asante parece ter consciência desse potencial da história de Dido Belle e a conduz nesse tom "austeniano". O que Asante faz é quebrar os protocolos que tornariam esse filme mais um romance de época britânico com a força simbólica que a sua protagonista tem através da sua posição nessa história e a reverberação política e social que isso causa. Nesse sentido, Belle é um filme consciente do tom grandiloquente e açucarado da sua narrativa e o utiliza propositadamente, sendo um longa muito mais inteligente do que parece. Há também muita sensibilidade na condução de Asante, que conta com um elenco formidável formado por Tom Wilkinson (ótimo como o juiz e tio de Belle), Emily Watson, Miranda Richardson, Tom Felton, Sarah Gadon, Matthew Goode, Sam Reid e, claro, Gugu Mbatha-Raw, que entrega uma performance estupenda. Mbatha-Raw é expressiva e conduz com muita sensibilidade o despertar de Dido Belle para a compreensão da sua própria posição social. 

Nos Bastidores da Fama



Em Nos Bastidores da Fama (o título original do filme é Beyond the Lights), Gugu Mbatha-Raw interpreta Noni, uma estrela pop nos moldes de Beyoncé Knowles ou Rihanna. Desde pequena Noni era levada por sua mãe para mostrar a sua voz em concursos de talento infantil, mas acabava preterida por garotas loirinhas que mostravam os seus dotes rebolativos para os jurados. Quando cresce, Noni alcança o sucesso mundial através de uma imagem hipersexualizada, um repertório provocante e escândalos midiáticos com seus namorados rappers. Após uma entrega de prêmios, em um ato desesperado, a jovem estrela resolve se suicidar, mas é impedida por um homem por quem acaba se apaixonando. 

Com ecos de O Guarda - Costas, filme com Kevin Costner e Whitney Houston, Nos Bastidores da Fama é um longa que à primeira vista parece banal. Aos poucos, ele vai apresentando suas camadas de leitura sobre o mundo da indústria fonográfica ao espectador e sua existência passa a fazer mais sentido. O longa de Gina Prince-Bythewood mostra através da história de Noni como meninas sensíveis e talentosas se metamorfoseiam em produtos midiáticos totalmente diferentes da sua essência artística. A história soa por vezes clichê ou superficial, mas tem uma base crítica que tem o seu fundo de verdade. Entre altos e baixos de Nos Bastidores da Fama, o maior problema do filme é fazer a sua história engatar e se apresentar de fato ao espectador, isso leva tempo. 

Apesar da irregularidade do filme e do seu lugar-comum inicial, um dos elementos responsáveis por manter o público atento ao desenrolar dos acontecimentos é Gugu Mbatha-Raw. Como Noni, a atriz alterna entre a natureza agressiva da personagem que a própria cantora interpreta para a mídia e a fragilidade de uma jovem insatisfeita com os rumos que o seu sonho tomou. Em uma das cenas mais comoventes do filme, Mbatha-Raw interpreta "Black Bird" de Nina Simone, e não interessa se a versão é cantada pela própria atriz ou não (vide Marion Cotillard em Piaf - Um Hino ao Amor), o que importa é que na cena Gugu sintetiza o drama da sua personagem em poucos minutos. O filme ainda conta com uma ótima interpretação de Minnie Driver, excelente no papel da mãe de Noni, e Danny Glover. 

Drops: 118 Dias



Há anos na bancada do The Daily Show, o comediante Jon Stewart tinha um talento insuspeito: ele é um cineasta muito interessante. No ano passado, Stewart apresentou para o público o primeiro longa-metragem cuja direção e roteiro levam a sua assinatura. 118 Dias, ou no idioma de origem Rosewater, traz a história do jornalista iraniano Maziar Bahari, correspondente da revista Newsweek, que trabalha e vive em Londres com a sua namorada. Ele retorna ao seu país de origem para fazer a cobertura das eleições de 2009, um pleito que resultou na surpreendente vitória com folga de Mahmoud Ahmadinejah. O resultado foi questionado por diversos setores do país e muita gente foi às ruas, o que faz com que Maziar prolongasse ainda mais sua estadia por lá. Durante uma manifestação, o jornalista acaba sendo preso por representantes do governo iraniano. Eles insistiam em acusar Maziar de espionagem em virtude de uma entrevista dada por ele a uma emissora de televisão estrangeira.

Em 118 Dias, Stewart transita por um universo e um período da história mundial que parece ser a menina dos olhos de todo realizador liberal norte-americano. Ou seja, 118 Dias poderia ser um filme batido e adquirir um tom panfletário com muita facilidade. Stewart, no entanto, consegue oferecer um ponto de vista muito peculiar sobre toda a situação política iraniana, aliando-a aos dramas pessoais de Maziar, que revive toda a sua história de proximidade com o lado mais cruel de um governo castrador de liberdades através das experiências de seu pai e de sua irmã. Stewart tem um olhar muito interessante sobre a situação do Irã por não ter respostas ou conclusões prontas para todo o cenário. Mais interessante ainda é como ele consegue encontrar humor em meio a uma atmosfera tão tensa como a que o filme oferece. 118 Dias ainda tem o mérito de trazer uma das interpretações mais interessantes da carreira de Gael Garcia Bernal, excelente como Maziar Bahari.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Terceira Pessoa



Há cerca de dez anos atrás não se ouvia falar de outro nome em Hollywood que o do diretor e roteirista Paul Haggis. Ele havia acabado de receber uma indicação ao Oscar pelo roteiro adaptado de Menina de Ouro, de Clint Eastwood, e surpreenderia na edição seguinte do prêmio ganhando as estatuetas de melhor filme e melhor roteiro original pelo drama Crash - No Limite, que ele mesmo dirigiu. A vitória do último foi questionável, sobretudo pela competição acirrada nos bolões com O Segredo de Brokeback Mountain. Diziam, na ocasião, que a popularidade dos filmes do realizador poderia ser atribuída aos seus roteiros, marcados por histórias simples, emocionalmente engajadas, mas repletas de reviravoltas surpreendentes. Haggis estava no topo do mundo, tanto que a primeira providência dos produtores da franquia 007 foi chamá-lo para escrever os roteiros de Cassino Royale e Quantum of Solace. Qualquer filme que tivesse a participação de Haggis na ocasião, traria o seu nome em destaque nas campanhas de divulgação tal qual o de seus diretores.

Dez anos depois do Oscar de Crash e de arrefecida a badalação em torno do realizador, Paul Haggis retorna para o público com Terceira Pessoa, um filme mosaico do jeito que o diretor e roteirista gosta. Contudo, o resultado é constrangedor se levarmos em consideração que este filme tem a assinatura de Haggis, um realizador que causou tanta comoção anos atrás e tem tantos prêmios em casa. Terceira Pessoa não só é um dos filmes mais desastrosos da sua carreira, como também um atestado do que não deve ser feito no roteiro e na direção de qualquer longa-metragem.

 O filme é ambientado em três cidades diferentes, Paris, Roma e Nova York, e acompanha desenlaces amorosos de três núcleos. O primeiro é aquele protagonizado por um escritor e a sua jovem musa. O segundo traz um americano e uma italiana envolvida com um criminoso que a chantageia. O último traz uma camareira de hotel que acaba de perder a guarda do filho para o ex-marido, um jovem artista plástico. As três histórias pressupõem uma conexão que nunca surge no filme. No máximo, o que Haggis faz é justificar a ligação das tramas com temas generalizantes como o "amor" ou então estabelecer vínculos entre os núcleos através das personagens-coringas de Maria Bello e Kim Basinger, totalmente desperdiçadas na história. Nem mesmo a montagem serve para manter a liga entre as tramas e fornecer ao espectador alguma explicação para a junção das três em um mesmo filme, pelo contrário, a sensação que ela dá é que o montador está indo em um sentido oposto ao do diretor.

Como o constrangimento não é pouco em Terceira Pessoa, o filme presta uma atenção especial ao núcleo do escritor e da sua musa (personagens de Liam Neeson e Olivia Wilde). A história entre eles é sugerida como o elo, a grande razão de ser do filme. Não querendo estragar a experiência do leitor, aviso de antemão que determinados spoilers podem ser oferecidos mais adiante. Haggis trata com muita suavidade e naturalidade a falta de ética, para não dizer canalhice, do personagem de Neeson. O realizador expõe o retrato de um homem que se aproveita da vida dos outros usando como escudo a sua "arte", como se esta, por si só, justificasse os seus atos. Não justifica, sr. Haggis, lamento informar.  

 Haggis desperdiça atores do calibre de Liam Neeson e Adrien Brody, e até mesmo jovens estrelas que se bem aproveitadas oferecem boas interpretações (James Franco, Mila Kunis, Olivia Wilde), com cenas grosseiras e personagens que agem de maneira estúpida. A impressão que fica é que Haggis está dirigindo e roteirizando um longa-metragem pela primeira vez pois Terceira Pessoa tem um roteiro ilógico e uma direção preguiçosa, que em nada nos remete aos seus filmes anteriores. Assim, Terceira Pessoa acaba colocando em cheque o próprio talento de Paul Haggis. Das duas uma, ou todos foram iludidos por um furor de momento ou Haggis estava em um dia muito, mas muito ruim quando concebeu Terceira Pessoa. 



Third Person, 2014. Dir.: Paul Haggis. Roteiro: Paul Haggis. Elenco: Liam Neeson, Olivia Wilde, Mila Kunis, Adrien Brody, James Franco, Moran Atias, Maria Bello, Kim Basinger, Riccardo Scamarcio, Loan Chabanol, Oliver Crouch. Playarte. 137 min. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Belas e Perseguidas



Belas e Perseguidas traz um mashup difícil de resistir. A comédia da diretora Anne Fletcher é protagonizada por duas atrizes em alta no momento. De um lado, Reese Whiterspoon, que transita no gênero com muita facilidade e conseguiu firmar sua carreira em Hollywood graças aos filmes da franquia Legalmente Loira e a comédias românticas como Surpresas do Amor E se fosse verdade. Do outro, a colombiana Sofa Vergara, marcada pela sua hilária Gloria do premiado seriado Modern Family. As duas juntas em um filme é uma parceria interessante, uma oposição entre a darling e a desbocada de Hollywood que, no mínimo, renderia momentos engraçados. E não é que não renda.  Belas e Perseguidas só consegue captar algum interesse no espectador graças ao talento das suas atrizes, mas ainda assim a química é insuficiente para sustentar uma trama tão frágil quanto a que apresenta.

No filme, Cooper (Whiterspoon) é uma policial que decidiu a profissão que queria seguir desde pequena graças à inspiração do seu pai, um oficial exemplar. Ela é designada por seus superiores para escoltar Daniella Riva (Vergara), uma testemunha imprescindível para um caso que envolve um poderoso criminoso. No caminho, Cooper e Daniela se vêem envolvidas em uma perseguição que as faz fugir de alguns bandidos. A viagem será um duplo desafio para Cooper, pois além de ser uma oportunidade para mostrar que não está à sombra da fama do seu pai, sendo um desastre em ação quando vai a campo, terá que lidar com a forte personalidade da sua protegida.

A comédia é dirigida por Anne Fletcher, que já conduziu filmes do gênero, como A Proposta, Vestida pra Casar e Minha Mãe é uma Viagem. Como de praxe, Fletcher não interfere muito na sua história e segue um caminho burocrático, eficiente mas nada que promova mudanças de rota em um roteiro severamente enfadonho. O brilho maior da história, se é que ele existe de fato, como já dito, fica por conta da presença de Vergara e Whiterspoon, que juntas até funcionam muito bem, apesar de não ser o suficiente para sustentar personagens que se baseiam em estereótipos rasos e já vistos em dezenas de outros títulos do gênero. 

Belas e Perseguidas tem até o mérito de não apelar para gags escatológicas, o que poderia ser uma armadilha fácil, haja vista a quantidade de comédias hollywoodianas que se inclinam por esse caminho, mas também não chegam a oferecer oportunidades que de fato tirem o filme da repetição, apatia ou banalidade. Se o star power (Whiterspoon e Vergara juntas) for um motivo suficiente para o leitor assistir esse filme, ótimo, arrisque uma sessão. Se não, é possível que saia um pouco indiferente da sala de cinema. 


Hot Pursuit, 2015. Dir.: Anne Fletcher. Roteiro: David Feeney e John Quaintance. Elenco: Reese Whiterspoon, Sofia Vergara, Matthew Del Negro, Michael Mosley, Robert Krazinsky, Richard T. Jones, Benny Nieves.  Warner, 87 min. 

O Exterminador do Futuro - Gênesis



O Exterminador do Futuro - Gênesis chega aos cinemas com a insustentável obrigação de superar o seu legado. Quanto a isso, não tem como ele escapar. Aliás, nenhuma continuação, reboot ou remake consegue sair dessa esfera de julgamento, as comparações do público e da crítica são praticamente automáticas. No caso desta franquia específica, as comparações chegam a ser injustas quando os filmes anteriores, sobretudo o primeiro e o segundo, ambos dirigidos por James Cameron, revolucionaram a própria indústria do cinema. Infelizmente, a repercussão deste quinto capítulo da franquia, O Exterminador do Futuro - Gênesis, não tem sido boa, na verdade, decepcionante. As cotações do filme nos sites estão baixas e o boca-a-boca confirma as comparações que mencionamos a pouco, Gênesis está anos luz dos seus antecessores, dizem os especialistas. Está sim, mas apesar dos seus equívocos e derrapadas, o filme consegue ser bem divertido, satisfatório até. O seu grande "porém" talvez seria o visível desgaste da série, evidenciado por um final que demonstra pouco fôlego para as futuras continuações.

Em O Exterminador do Futuro - Gênesis vemos os episódios que deram início ao primeiro filme. Em 2029, a resistência humana às máquinas, liderada por John Connor, envia para o ano de 1984 um protetor para a sua mãe, Sarah Connor, o sargento Kyle Reese. Reese terá que salvá-la de um exterminador que pretende matá-la a fim de evitar que, no futuro, Connor represente algum risco a dominação dos homens pelas máquinas. No entanto, em função das mudanças de rumo promovidas por esta mesma ação no início da franquia, o ano de 1984 agora não será o mesmo do primeiro filme da série, ou seja,  Sarah Connor não é mais aquela garçonete desprotegida e conta com a ajuda  de um exterminador que foi enviado para protegê-la quando ainda era pequena.

É verdade que Gênesis se aproveita de todo o legado deixado pelos filmes anteriores da série, tornando-se uma espécie de híbrido anabolizado do primeiro e do segundo longa. O diretor Alan Taylor, de Game of Thrones e Thor - Mundo Sombrio consegue reconstituir sequências semelhantes aos filmes anteriores. O filme então funciona basicamente como uma reverência ao passado, como o recente Jurassic World. No entanto, ao contrário de Jurassic World, O Exterminador do Futuro - Gênesis não consegue promover nenhuma espécie de expansão de um universo já conhecido, soa repetitivo e até mesmo esgota qualquer tipo de possibilidade de ampliação. Sempre que Gênesis tenta promover algum movimento que surpreenda nosso horizonte de expectativas, e ele tem muito potencial para isso já que um dos elementos da franquia é a viagem no tempo e já vimos do que ele é capaz recentemente em Star Trek e X-Men, o filme parece ser engolido por uma megalomania de efeitos especiais que arruina qualquer possibilidade de expansão e está a serviço de mostrar apenas algumas passagens que não foram mostradas no passado por falta de orçamento ou avanços tecnológicos.

O filme é beneficiado por um elenco interessante, que inclui a icônica figura de Arnold Schwarzenegger, sempre a vontade como o exterminador, e os novos rostos de Sarah Connor (Emilia Clarke), Kyle Reese (Jai Courtney) e John Connor (Jason Clarke), todos muito eficientes em suas respectivas funções (a exceção de um J. K. Simmons recém-saido de um Oscar e que aparece completamente avulso em cena). No mais, o longa fica em uma zona cinzenta à procura de uma razão para a sua própria existência ao mesmo tempo em que se justifica por ser funcional aos anseios contemporâneos - e momentâneos -  de uma indústria que sempre que pode tenta retornar ao passado no intuito de perpetuar o que já é conhecido e está na zona de conforto do espectador - e esse ano isso parece mais forte do que nunca. O Exterminador do Futuro - Gênesis entretém e satisfaz o espectador em momentos isolados, mas não chega a surpreender ou revelar uma nova faceta sobre uma história que já conhecemos. 


Terminator - Genisys, 2015. Dir.: Alan Taylor. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Emilia Clarke, Jai Courtney, Jason Clarke, J.K. Simmons, Matt Smith, Dayo Okeniyi, Courtney B. Vance, Michael Gladis, Sandrine Holt. Paramount, 126 min.