quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Drops: Que horas ela volta?



A produção nacional parece mesmo ter deixado um pouco de lado a violência das favelas que dominou os títulos da década passada para se interessar pelos confrontos cotidianos entre as classes sociais. Fantasmas da classe média, as relações entre patrões e empregados,  assim como a ascensão social de uma classe anteriormente desfavorecida e a decadência da antiga elite são temas de filmes como O Som ao Redor, o documentário Doméstica e o recente Casa Grande, longas importantes para esse cinema brasileiro que se constrói nesta década. Que horas ela volta? de Anna Muylaert é dessa mesma "escola temática". A diferença é que o longa da diretora de Durval Discos e É Proibido Fumar conta com uma atriz que faz toda a diferença no resultado da obra e o tom crítico surge em meio a uma certa leveza. A atriz em questão é Regina Casé, que é sempre muito interessante na tela. Que horas ela volta? conta a história de Val (Casé), uma empregada doméstica nordestina que trabalha há anos na casa de uma família paulistana. A relação entre Val e seus patrões muda quando sua filha Jéssica (Camila Márdila), que ela não vê há dez anos, vai morar com ela em São Paulo para prestar vestibular. Em seu filme, Muylaert trata dessa complicada relação entre patrões e empregados, marcada por muita intimidade e laços afetivos muito fortes, mas também pela distância e pela desigualdade. Esta crítica está presente na obra de Muylaert e é muito bem conduzida pela realizadora, ainda que não traga nada que já não tenhamos visto em outros longas. O diferencial de Que horas ela volta? é mesmo a interpretação de Regina Casé que faz de Val uma figura muito querida e humana, uma personagem que nas mãos da atriz ganha camadas e densidade, mas sem se tornar excessivamente pesada. Ao lado de Regina está a maravilhosa Camila Márdila, intérprete de Jéssica, personagem que acaba estabelecendo um confronto de gerações interessante com a protagonista do filme que evidencia as transformações sociais que o país viveu. Que horas ela volta? é a repetição de conclusões que já vimos em outros lugares, mas é tão agradável pela sua sensibilidade e simplicidade que dispensa qualquer "busca incessante" por ineditismos ou originalidade que plateias mais birrentas possam ter. É um filme de uma forte posição política frente a uma realidade do nosso país, mas emocionalmente engajado. Agradável de se assistir e pertinente. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Expresso do Amanhã



Precisou passar quase dois anos para Expresso do Amanhã ser lançado no Brasil. As razões do atraso só a confusa logística das distribuidoras brasileiras explica. Nesse jogo de alterações constantes de data que foi Expresso do Amanhã, a certeza que temos é a completa falta de timing da sua estreia já que, com a rapidez com que cada vez mais temos acesso ao que vem de fora seria fundamental encurtar as janelas dos lançamentos internacionais no Brasil. A verdade é que Expresso do Amanhã chega às nossas salas quando a maior parte dos cinéfilos brasileiros já assistiram ao filme por vias alternativas em função da incerteza acerca de uma resposta definitiva sobre sua estreia nos cinemas. E nem adianta culpar a internet, novos tempos exigem novas estratégias de lançamento para barrar esse tipo de concorrência que, com o perdão das palavras rudes, é imbatível. Dito isso, vamos ao filme que é, sem exagero, espetacular. 

Baseado em uma HQ francesa chamada Le TransperceneigeExpresso do Amanhã é ambientado em um futuro pós-apocalíptico no qual o ecossistema foi destruído e as tentativas de recuperação climática por ação do homem não deram certo. Agora todos vivem em uma implacável era glacial e os sobreviventes desse cenário acabam mantendo-se vivos presos em um trem dividido em vagões que acabaram abrigando castas sociais: a elite possui diversos privilégios e ocupa os vagões da frente enquanto ao fundo estão os mais pobres, mantidos em condições precárias. Um dia, o grupo do último vagão empreende um plano para tomar o poder dos mais abastados e equilibrar as condições de vida no trem. Para conseguirem o que querem, eles devem passar por todos os vagões até chegarem àquele em que vive o homem por trás de toda a desigualdade instalada no trem, o Sr. Wilford. 

Expresso do Amanhã é o primeiro trabalho em língua inglesa do diretor sul-coreano Joon-ho Bong, responsável por filmes primorosos como O Hospedeiro e Mother - A Busca pela Verdade, uma estreia, é preciso que se diga, que não deixa em nada a desejar, sobretudo quando os exemplos cotidianos nos mostram o quanto experiências de realizadores em línguas não-nativas são conturbadas. Nesse caso, facilita o controle que Joon-ho Bong tem em  Expresso do Amanhã, não apenas por ter sido o roteirista do filme, mas também por ter na produção pessoas que entendem o seu modo peculiar de fazer cinema (o realizador também sul-coreano Chan-wook Park é um deles). Assim, o que vemos é sim um filme comercial e palatável às plateias com os mais diversificados repertórios, com determinados estratagemas do cinemão norte-americano, mas tudo com muito pulso e a assinatura de Joon-ho Bong, que concebe uma história de trama intrincada, com uma linguagem audiovisual segura e bem aplicada e que está muito longe de ser um esquecível caça-níqueis. 

O filme se apresenta como um eficiente filme-pipoca, mas mostra uma faceta mais interessante ainda quando demonstra o seu potencial como alegoria sociológica, abordando temas eternamente contemporâneos como as nossas relações com o poder, a corrupção e a desigualdade social. Apesar de ter um elenco diversificado, Expresso do Amanhã não é um filme no qual esse ou aquele ator se destaque é o tipico "filme de elenco", portanto cada personagem é peça fundamental de uma engrenagem que é mais importante como coletivo do que individualmente, entre os elementos desse grupo harmônico estão Octavia Spencer (vencedora do Oscar por Histórias Cruzadas), Jamie Bell (o Coisa do recente Quarteto Fantástico), John Hurt (de Imortais), Ed Harris (de Medo da Verdade) e Kang-ho Song (colaborador do diretor em O Hospedeiro). Ainda assim, é preciso reconhecer os méritos de dois atores em especial. O primeiro deles é a camaleônica Tilda Swinton, sempre um diferencial em qualquer produção. A atriz vive aqui a asquerosa Mason, que leva as ordens de Wilford aos passageiros do último vagão. O outro elemento interessante do elenco é o ator Chris Evans, popularizado como o Capitão América dos filmes da Marvel, o ator domina dramaticamente dois momentos cruciais da história ao final do longa.

Amplo em sua simbologia sem ser pretensioso, Expresso do Amanhã é um filme acessível e que sustenta a sua proposta do início ao fim sem as usuais concessões dramáticas que alguns filmes de estúdio costumam fazer. O longa acaba sendo interessante por contemplar profundidades de leituras diversas: pode ser encarado como uma ficção-científica pós-apocalíptica de primeira linha, como também um aplicado e inteligente "tratado sociológico cinematográfico", ou ainda como uma combinação dos dois, o que o torna ainda mais interessante. Expresso do Amanhã tem muita violência gráfica, mas ela acaba não sendo mais impactante para o espectador do que a diversão que ele proporciona e do que a mensagem que Joon-ho Bong quer passar sobre a humanidade e sua urgente porém corrosiva necessidade de se organizar coletivamente para sobreviver.  



Snowpiercer, 2014. Dir.: Joon-ho Bong. Roteiro: Joon-ho Bong, Kelly Masterson, Elenco: Chris Evans, Tilda Swinton, Kang-ho Song, Jamie Bell, John Hurt, Ed Harris, Octavia Spencer, Ah-sung Ko, Alisson Pill, Marcanthonee Reis, Ewen Bremner. Playarte, 126 min. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Hitman - Agente 47



Para quem não está familiarizado, Hitman é uma série de games centrada em um assassino geneticamente condicionado a não apresentar qualquer tipo de afeto. O jogo ganhou uma versão cinematográfica (claro!) em 2007 protagonizada por Timothy Olyphant, Dougray Scott e Olga Kurylenko. O longa de Xavier Gens não era grande coisa e acabou afundando em um merecido  ostracismo não apenas por ação da crítica especializada, mas também dos fãs mais radicais de filmes de ação. Como vivemos num tempo na qual reciclar é a palavra de ordem, Hitman retorna aos cinemas com Hitman - Agente 47. E se a primeira adaptação do game sofria com a morna frequência da sua narrativa, esse daqui não fica atrás, e o que é pior, ganha a adesão de um tratamento técnico completamente amador.

Em Hitman - Agente 47, acompanhamos o personagem título no encalço de uma jovem que é a chave para a realização de um plano maquiavélico de usar a técnica aplicada para a criação dos Agentes com o propósito de formar um exército de assassinos implacáveis. O personagem terá como desafio burlar a proteção que a moça recebe de um homem misterioso que se apresenta como alguém que pode levá-la a seu pai. A trama levará todos às origens do Agente 47 e sua conexão com toda essa trama de transformação do homem em uma máquina de matar sem sentimentos. 

Para um longa de ação, Hitman - Agente 47 é um filme morno e genérico. Contando com o roteiro de Skip Woods (o mesmo do primeiro filme!) e a direção Aleksander Bach, que estreia na função, o longa dá a entender que o seu grande trunfo, responsável pela virada na trama, é a natureza do seu protagonista: O Agente 47 é vilão ou mocinho? Ao definir o rumo do seu filme (o mais óbvio possível), Woods e Bach se perdem em meio a uma história completamente banal e desinteressante, parecida com zilhões de outras tramas do gênero, e personagens mal construídos encarnados por atores em desempenhos esquecíveis, é o caso de Rupert Friend (da série Homeland) como o Agente 47 e de Hannah Ware (de Shame), a mocinha da história - não vou nem comentar sobre Zachary Quinto (o Spock do novo Star Trek) que tem a difícil missão de vestir a camisa de um rascunho de personagem. 

Hitman - Agente 47 é um filme que se narrativamente é fraco, com personagens insossos e mal construídos, tecnicamente é ainda pior, já que suas cenas de ação mostram-se mal coreografadas e montadas de maneira confusa. Soma-se a isso a péssima captação de som dos atores que, no nosso caso, não fosse o nosso foco nas legendas e não falarmos a língua de origem da produção, ficaria ainda mais visível e grotesco aos nossos ouvidos.

Esquecível e burocrático, pouca coisa se salva em Hitman - Agente 47. Melhor, fazendo um balanço de toda experiência, não consigo enxergar um só elemento positivo no filme, o que é bem triste. Acreditem, esse tipo de conclusão não traz nenhuma satisfação para este que vos escreve. É melancólico ver que tanto trabalho e tanto dinheiro resultou em um filme assim, mas fazer o que, acontece. 



Hitman - Agent 47, 2015. Dir.: Aleksander Bach. Elenco: Rupert Friend, Hannah Ware, Zachary Quinto, Ciarán Hinds, Thomas Kretschmann, Angelababy, Dan Bakkedahl, Rolf Kanies, Jerry Hoffmann, Sebastian Hülk. Fox. 96 min

domingo, 16 de agosto de 2015

Drops: O Pequeno Príncipe



Se você assistir a O Pequeno Príncipe sem informação alguma sobre o filme, achará que se trata de mais uma adaptação literal da história de Antoine de Saint-Exupéry que é livro de cabeceira de dez em cada dez misses em todo o mundo. Durante a sessão, certamente será surpreendido por uma obra  original que se apropria do livro de Saint-Exupéry para contar uma história completamente diferente, mas que preserva com muita intensidade o espírito desta marcante fábula da literatura mundial. Nesta animação de Mark Osborne, acompanhamos a trajetória de uma garota cuja vida é regulada por uma mãe controladora que traça um plano da rotina da sua filha para que ela consiga entrar em uma instituição de ensino renomada e ter estabilidade para toda uma vida. Por intermédio do seu novo vizinho, a menina passa a conhecer a história do Pequeno Príncipe e um mundo novo se abre para ela. Osborne conduz sua animação com muita delicadeza. Sem se preocupar com a possibilidade de perder um público infantil ou adulto, a animação possui um certo requinte narrativo e estético, sobretudo nas passagens que remontam a história do Pequeno Príncipe em belíssimo stop-motion, e não mantém-se superficial no tratamento do seu tema principal, advindo da oposição filosófica e poética apresentada no livro de Saint-Exupéry: o "ser criança" e o "ser adulto". O filme faz uma comovente e atual leitura sobre isso quando nos apresenta a relação entre a protagonista e sua mãe em um modelo familiar muito contemporâneo. O longa, no final das contas, é um conto sobre o amadurecimento, ou melhor, como tornar-se adulto sem perder a imaginação e o interesse pela vida e pelas pessoas. É uma experiência cinematográfica muito recompensadora.

Drops: A Escolha Perfeita 2



A Escolha Perfeita foi uma das maiores surpresas de 2012. O filme sobre as Barden Bellas, um grupo de universitárias que participam de competições musicais a capela,  foi um dos maiores sucessos financeiros da Universal naquele ano, custando cerca de US$ 17 milhões e arrecadando em torno de US$ 115 milhões. O segundo filme não ficou para trás, A Escolha Perfeita 2 saiu por US$ 29 milhões e já tem em seus cofres quase US$ 281 milhões. A razão para tamanho sucesso é bem clara, a franquia é óbvia e flerta com todos os clichês possíveis de filmes adolescentes mas mantém o seu brilho graças ao carisma do grupo de meninas encabeçadas pela querida Anna Kendrick e pela hilária Rebel Wilson, que se destaca como "Fat" Amy. No segundo filme, as Barden Bellas seguem participando de algumas apresentações e competições até que um incidente durante um show para o presidente dos EUA leva o grupo mais uma vez ao descrédito nacional. As meninas têm a chance de recuperar a imagem durante o torneio mundial de capela em Copenhague mas terão que encarar um competente grupo alemão chamado Das Sound Machine. Todas as características do primeiro filme são mantidas nessa sequência e as meninas continuam funcionando muito bem juntas. É certo que a continuação não é um filme tão "redondinho" quanto o primeiro, demonstrando um leve desgaste em elementos que garantiram o interesse na primeira história (algumas piadas acabam não funcionando), mas, no geral, tudo continua bem divertido. O filme é a estreia na direção da atriz Elizabeth Banks, que continua impagável como a narradora Gail e demonstra uma certa eficiência na nova função.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Obra



A existência do ser humano é passageira. Cabe a nós deixar prolongar esta passagem com um legado, ato de generosidade, mas também de extrema vaidade humana. Obra acaba sendo um filme sobre o estágio de nossa vida em que a gente se dá conta disso e nos perguntamos sobre o que realizamos e deixamos como herança para esse planeta e o que ainda podemos fazer. Invariavelmente, estes momentos de introspecção revelam uma crise. 

Em Obra, Gregório Graziosi coloca esta crise em foco por intermédio do protagonista do filme, o arquiteto João Carlos, interpretado pelo ator Irandhir Santos. O personagem está vivendo um momento crucial em sua vida, está em plena execução da obra de uma nova construção, seu pai está com uma doença severa e ele está prestes a se tornar pai pela primeira vez. Em meio a todo este contexto conflituoso, João Carlos passa por uma crise de idade, questionando suas relações e sua vocação profissional. Cenário que só piora quando ele descobre uma enfermidade em sua coluna.

O diretor Gregório Graziosi nos apresenta a uma narrativa sustentada pelos silêncios, há pouquíssimos diálogos. Estes momentos de silêncio, por refletirem um vazio no peito e os pensamentos obsessivos e conflituosos do protagonista, acaba carregando a trama com uma atmosfera densa e até mesmo soturna, reforçada por uma bela e melancólica fotografia em preto e branco. O diretor e roteirista estabelece um óbvio paralelo entre a própria profissão de João Carlos e o estágio atual da sua vida, com a sucessão do passado pelo futuro, além, claro, da hérnia do protagonista, uma materialização do "peso nas costas" que uma responsabilidade nos traz.

Ao mesmo tempo que Obra tem como benefício evitar uma hiper-exposição, sendo bastante sutil em seu diálogo com o público, mais apoiado na linguagem audiovisual do que verbal, o longa acaba martelando em tópicos cíclicos, quando o que se espera é um avanço na abordagem do seu plot. Irandhir Santos sustenta muito bem o filme, que praticamente está sob a sua responsabilidade, já que o olhar de Graziosi é todo voltado para o seu João Carlos. 

Em tempos de muito barulho e pouca produção intelectual ou ousadia narrativa, Obra é relativamente um alento, ainda que eventualmente ande em círculos. Trata-se de um filme que convoca e desafia a cognição e o afeto da sua audiência. Ocasionalmente esta relação é recompensadora, em outros momentos leva a uma busca cansativa marcada por signos que não são nem tão complexos quanto aparentam ser, mas também requer um exercício constante das plateias. De qualquer forma, é uma obra temática e formalmente relevante. 


Obra, 2015. Dir.: Gregório Graziosi. Roteiro: Gregório Graziosi. Elenco: Irandhir Santos, Julio Andrade, Lola Peploe, Marku Ribas, Luciana Domschke, Christiana Ubach, Marisol Ribeiro, Fernando Coimbra, Ravel Andrade, Helena Albergaria. 80 min. 

Missão: Impossível - Nação Secreta




Missão: Impossível - Protocolo Fantasma mudou um pouco o destino e a trajetória da franquia Missão: Impossível nos cinemas. É certo que Missão: Impossível 3 de J.J. Abrams já trazia transformações importantes na série após a bagunça cometida por John Woo no problemático segundo filme protagonizado pelo agente Ethan Hunt, mas Protocolo Fantasma trouxe um formato, uma base na qual os diretores das possíveis sequência poderiam trabalhar de maneira concisa. Isto se confirma neste quinto filme da série cinematográfica Missão: Impossível - Nação Secreta. Antes de Protocolo Fantasma o que a gente tinha eram três filmes com frequências completamente diferentes em universos praticamente opostos, conectados apenas pelo fato comum de que eram protagonizados por Tom Cruise na pele de um personagem que modificava sua natureza conforma a música.  A impressão que tivemos em Protocolo Fantasma era que uma linguagem própria estava sendo traçada.

Missão: Impossível - Nação Secreta traz Tom Cruise novamente como o agente do Ethan Hunt. No longa ele descobre um grupo que está tentando destruir o IMF. O desafio do personagem neste quinto filme da franquia é encontrar uma forma de destruir esta poderosa organização que está tão equipada e tem habilidades tão especiais quanto as dele e de seus colegas. A missão de Ethan e daqueles que restaram da IMF é acabar com esta organização antes que todos sejam exterminados.

Missão: Impossível - Nação Secreta não é o melhor filme da série - nesse posto, ainda prefiro Protocolo Fantasma -, mas o filme mantém o espetáculo em alto nível oferecido pelo longa anterior. É claro que a ausência de Brad Bird na direção é sentida, já que Protocolo Fantasma tinha sacadas muito interessantes e originais, sobretudo para as cenas de ação. Christopher McQuarrie, que dirigiu Jack Reacher e tem sido a "menina dos olhos" de Cruise desde então já que o ator o chama para qualquer função em seus recentes filmes, não tem a mesma capacidade de tirar o fôlego do público e raros são os momentos em que vemos algo verdadeiramente revigorante para o gênero neste filme (a cena na ópera em Viena talvez). Ainda assim, McQuarrie é coerente com o que foi estabelecido no filme anterior da franquia e isso é muito bom para a longevidade da série cinematográfica e para a fidelidade e interesse do público nela.

Como sempre, Tom Cruise continua eficiente nesse tipo de personagem e Ethan Hunt é a origem de toda esta vocação do ator para o cinema de ação, portanto ele está em casa. Cruise continua com a interessante parceria com o ator britânico Simon Pegg, que na pele de Benji garante mais leveza e humor ao filme. A adição de Rebecca Ferguson como a misteriosa Ilsa Faust é muito bem-vinda, ainda que indique um certo machismo do cinema de ação em descartar com muita facilidade as personagens femininas de uma grande franquia, cadê Paula Patton que é tão fundamental para o grupo quanto Pegg, Ving Rhames e Jeremy Renner? Por sinal, Renner continua absolutamente descartável e nulo para a engrenagem de Missão: Impossível, ainda que aqui tenha lá a sua função. Como os vilões, Sean Harris e Simon McBurney, por sua vez, não deixam a desejar.

Não tão eletrizante quanto Missão: Impossível - Protocolo Fantasma, mas coerente com os termos estabelecidos por este, Missão: Impossível - Nação Secreta é um filme eficiente que serve bem aos seus propósitos sem desmerecer ou renegar o próprio gênero com um pretenso realismo ou seriedade que têm predominado no cinema de ação/espionagem nos últimos anos. Mesmo que McQuarrie seja um diretor que ainda não conseguiu dar fôlego ou vigor aos filmes que dirige, Missão: Impossível - Nação Secreta entrega o que propõe e o faz muito bem. 


Mission: Impossible - Rogue Nation, 2015. Dir.: Christopher McQuarrie. Roteiro: Christopher McQuarrie. Elenco: Tom Cruise, Jeremy Renner, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Alec Baldwin, Ving Rhames, Sean Harris, Simon McBurney, Tom Hollander. Paramount. 131 min. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A Dama Dourada



Hollywood é fascinada por histórias de lições de vida baseadas em eventos reais e tramas sobre o nazismo. Quando ambas se juntam então, é quase certo ganharão as telas. A Dama Dourada reúne estes dois elementos em um filme que se não é cinematograficamente revolucionário, sutil ou "original", ao menos apresenta-se como uma narrativa "redondinha", ou seja, correta e agradável a públicos com os mais diversificados repertórios.

O filme traz Helen Mirren (eternizada como a rainha Elizabeth em A Rainha, desempenho que lhe rendeu um Oscar) na pele de Maria Altmann, uma judia austríaca que fugiu para os Estados Unidos a tempo de não sofrer nos campos nazistas, mas que deixou para trás os seus pais e toda a coleção de obras de arte que eles tinham e que foram roubadas por Hitler e cia. Anos depois, motivada por recentes casos bem sucedidos de restituição de patrimônios artísticos tomados dos seus antigos donos pelo nazismo, Maria Altmann resolve exigir do governo da Áustria que lhe devolvam um dos quadros mais valiosos da coleção de seus pais e que, por sua vez, pertencia a sua tia, a modelo da obra: a famosa "A Dama Dourada" de Gustav Klimt.

O filme conta com a direção de Simon Curtis. Puxando a sua filmografia descobrimos que ele também dirigiu Sete Dias com Marilyn e percebemos a mesma linearidade em seu modos operandi aqui. Nada de grandes movimentos ou rupturas de linguagem, A Dama Dourada mostra um certo tradicionalismo na maneira de contar sua trama, que pode parecer monótona para alguns, mas também pode ser encarado como o movimento calculado de um diretor despretensioso que parece saber até onde pode ir com a sua habilidade de contar histórias. 

Curtis coloca parte do seu filme nas mãos de Helen Mirren, que surge aqui com a sua habitual segurança e competência, fazendo com que estabeleçamos uma simpatia imediata por Altmann. A inglesa divide a responsabilidade da protagonista com Tatiana Maslany (de Orphan Black), que está tão bem quanto Mirren e segura as pontas em momentos bem delicados do filme. Ryan Reynolds tem um desempenho interessante como o advogado que ajuda Maria a reaver "A Dama Dourada". O elenco ainda traz Katie Holmes e Daniel Brühl, cujos personagens têm muito pouco a oferecer ao filme (Brühl ainda tem uma participação mais determinante que Holmes até). 

A Dama Dourada  é um drama convencional, mas que não chega a ser incomodo para públicos mais exigentes. O filme até faz uso de alguns recursos antiquados ou preguiçosos, existem alguns diálogos expositivos (para demonstrar a importância do quadro, o personagem de Daniel Brühl fala "É a Monalisa da Áustria!", tá, já entendemos que é uma obra importante) e a questionável ideia de que os Estados Unidos são a terra da liberdade, restituindo uma ordem a um cenário de desordem provocado por governos estrangeiros maquiavélicos. Tudo isso incomoda um pouco, é verdade. Mas o saldo é mais positivo que negativo já que o filme usa seus chavões com uma certa moderação e, no geral, o longa acaba sendo uma experiência agradável garantida, sobretudo, por uma Helen Mirren em ótima forma.


Woman in Gold, 2015. Dir.: Simon Curtis. Roteiro: Alexi Kaye Campbell. Elenco: Helen Mirren, Ryan Reynolds, Daniel Brühl, Tatiana Maslany, Katie Holmes, Max Irons, Elizabeth McGovern, Antje Traue, Jonathan Pryce, Charles Dance. 109 min. Diamond Filmes

domingo, 9 de agosto de 2015

Drops: Jogada de Mestre



Jogada de Mestre parece ser um daqueles filmes que você confere no SuperCine quando está de bobeira em casa num sábado à noite. O longa é baseado em eventos reais e narra o sequestro do empresário Freddy Heineken (sim, o dono da cerveja de mesmo nome). Na ocasião, o preço do resgate do magnata foi o maior valor pago em um sequestro já registrado. O longa de Daniel Alfredson (das versões suecas da trilogia Millenium), no entanto, é levemente insignificante, bem esquecível. O interesse de Alfredson parace ser basicamente na história do sequestro, narrando todos os eventos que envolveram a sua preparação, as relações entre sequestradores e sequestrado no cativeiro e o que ocorreu após a entrega do dinheiro. Alfredson pincela um dado ou outro sobre o próprio Heineken ou sobre os seus sequestradores, mas tudo é muito superficial, praticamente não há personagens desenvolvidos e todos existem em função do evento narrado no longa, tornando o filme frio e, por vezes, desinteressante. Nisso, as interpretações do seu elenco são bem apagadas, ainda que Anthony Hopkins exerça alguma atração por não poder dar vazão ao seu modo "piloto automático Hanibal Lecter". Jogada de Mestre capta a atenção como o relato de um crime que aconteceu de fato, mas como narrativa, está longe de ser das mais interessantes em cartaz. 

sábado, 8 de agosto de 2015

Drops: Real Beleza



Jorge Furtado ganhou popularidade com o grande público através de comédias como O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara. Desta vez, o diretor gaúcho optou por exercitar uma veia mais "séria" com o drama Real Beleza. O longa conta a história de um experiente fotógrafo chamado João que, entediado e em crise criativa, decide ir para o interior do sul do Brasil em busca de uma modelo de beleza arrebatadora. Ele chega até Maria, uma jovem muito bonita, mas encontra a resistência do pai da garota que não a autoriza a seguir a carreira de modelo. O fotógrafo vai ao encontro dele e acaba conhecendo a mãe da menina, Anita, por quem ele se apaixona. Em Real Beleza, Jorge Furtado estabelece uma interessante reflexão sobre o papel e a verdadeira localização do belo em nossas vidas, algo que, curiosamente, não está nas feições da encantadora Vitória Strada (intérprete da Maria), ou melhor, também está nela, mas não somente nela. Além disso o diretor acaba estabelecendo um jogo interessante entre o "observador" e o artista através do confronto entre o protagonista e o pai da garota. Porém Furtado parece apenas sugerir esses links em sua história, a dinâmica entre os seus personagens é, por vezes, simplificada, além disso o filme é estética e tecnicamente um resultado do trabalho de um diretor que claramente não está no seu momento mais inspirado, salvo um momento aqui ou ali. Há um paralelo interessante do filme com As Pontes de Madison e seu romance entre um fotógrafo aventureiro e a dona de casa solitária. A interpretação sutil de Adriana Esteves e sua parceria com Vladimir Brichta (ótimo) e Francisco Cuoco está entre as melhores coisas do longa. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Drops: Magic Mike XXL



Quando Magic Mike foi lançado em 2012 pelas mãos de Steven Soderbergh, uma série de elementos se sobrepuseram ao simples fato de que ele era um filme sobre um grupo de rapazes bonitos que tiravam a roupa: tínhamos a história real por trás do filme que envolvia o seu próprio protagonista e co-criador da trama, o ator Channing Tatum, um ex-stripper fora das telas (sua história se confunde com a do Mike do filme); Matthew McConaughey entregava uma das interpretações mais impactantes do filme na pele do stripper Dallas, talvez o personagem mais sombrio da história; e temas como a cultura narcísica e a misoginia rondavam o longa. Não que estes elementos fossem prejudiciais a Magic Mike (tá certo que a comédia com tons realistas nos fizeram questionar se aquele universo não era mais pesado e sombrio do que o filme realmente nos passava), mas convenhamos que todos estes caminhos eram subterfúgios para o que, no fundo, era simplesmente uma comédia sobre um grupo de strippers. Magic Mike XXL escancara o que de fato o produto é, constituindo-se como um road movie que traz o seu protagonista, o Magic Mike do título (Tatum), retornando ao ramo do striptease após anos afastado dos palcos. A motivação é uma convenção de strippers encarada por Mike e seus amigos como uma derradeira apresentação do grupo. O longa, que não é dirigido por Soderbergh e sim por um de seus assistentes, Gregory Jacobs, não tem muita liga entre os diversos acontecimentos que o preenchem, toda a jornada dos rapazes tem um objetivo um tanto quanto capenga, mas isso parece importar de menos e é levemente camuflado pelo próprio filme. Jacobs assume a veia cômica da franquia nessa continuação e ainda abre espaço para um olhar sobre as mulheres que cobiçam o grupo de strippers ao longo do filme, em especial a excelente Andie MacDowell na pele de uma ricaça que laça o personagem de Joe Manganiello. Assim Magic Mike XXL extrai aquele tom de "algo mais que entretenimento" que o primeiro filme tinha e desagradou a muitos e veste a camisa da pura diversão na estrada. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Quarteto Fantástico



Logo quando saíram as primeiras imagens, teasers e trailers do reboot de Quarteto Fantástico, a primeira impressão que tivemos sobre o trabalho do diretor Josh Trank (de Poder sem Limites) era a de que ele estava levando a popular família de super-heróis da Marvel para um terreno mais sombrio e sério, ou seja, algo bem diferente do tom bem-humorado dado por Tim Story em Quarteto Fantástico (2005) e Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007), que, apesar das duras críticas, dizem alguns (não conheço bem as HQs), estava mais próximo do espírito dos personagens. O que a gente não esperava era que esta releitura (prefiro chamar assim) da abordagem de Quarteto Fantástico fosse o menor dos problemas já que o primeiro ato até funciona e promete entregar um filme, no mínimo, promissor. Os problemas do longa surgem quando o elemento "fantástico" entra em ação e Trank e seus co-roteiristas (entre eles Simon Kinberg, de X-Men - Dias de um Futuro Esquecido) não conseguem lidar com o "arroz e feijão" das histórias de super-heróis, transformando-o em uma sobreposição de clichês constrangedoramente cafonas. 

A trama de Quarteto Fantástico traz a já conhecida origem dos heróis, aqui, quatro jovens enviados em uma missão fora da Terra. A expedição dá errado e eles retornam com alterações no próprio corpo: Reed Richards (Miles Teller, de Whiplash) ganha elasticidade, Sue Storm (Kate Mara, de Transcendence) pode tornar-se invisível e criar campos de força, o irmão dela, Johnny Storm (Michael B. Jordan, de Fruitvale Station), passa a ter o corpo coberto por chamas, e Ben Grimm (Jamie Bell, o eterno Billy Elliot), amigo de infância de Reed, transforma-se em um gigante rochoso apelidado de Coisa. Suas novas características, inicialmente encaradas como deformidades a serem curadas com a ajuda do próprio Reed Richards, passam a lhes ser úteis no enfrentamento de um grande vilão, o Doutor Destino (Toby Kebbel, de O Conselheiro do Crime), um companheiro de expedição que não retornou da viagem e tinha sido considerado morto por todos. 

Funcionando como um recomeço da franquia nos cinemas, Quarteto Fantástico tenta alterar tudo aquilo que havia sido criticado na série de filmes anterior e que, curiosamente, a tornava singular em meio a um universo de super-heróis cada vez mais sisudos (uma conclusão que só cheguei com o tempo e a maturidade). O novo Quarteto Fantástico é mais sombrio e sério sim, mas evoca uma complexidade e densidade dramática que fica apenas no discurso e no seu visual. O roteiro de Josh Trank, Simon Kinberg e Jeremy Slater nunca conseguem ir além nos temas que sugerem no primeiro ato e que até parecem promissores, como a forte amizade entre Richards e Grimm, a relação amorosa de Richards e Sue Storm e os conflitos de Johnny Storm com o seu pai, o Dr. Franklin Storm. 

Quando os personagens ganham poderes, então, o filme se revela um verdadeiro projeto mal sucedido, para não dizer o pior. Trank e seus roteiristas simplificam as emoções dos seus personagens e suas dinâmicas são recheadas por clichês do sub-gênero "filmes de super-heróis" materializados no pior personagem de todo o longa, o Dr. Destino, péssimo não apenas na sua caracterização como incômodo em seus propósitos e motivações simplistas. Destino é reduzido ao lugar-comum de um vilão interessado em destruir o mundo, algo que lhe é motivado pela vontade de se isolar de todos e expresso por frases que parecem soltas de um seriado animado de super-heróis genérico. Do aparecimento ou ressurgimento do vilão em diante, os protagonistas do longa são consumidos pelo mesmo tom canastrão presente em toda participação de Destino, até mesmo a morte de um personagem importante, e que poderia ser o cume dramático do longa, é tratada com o tom de uma novela mexicana e a frivolidade de um filme antiquado de ação. 

A impressão que fica é que existiu o toque impertinente e equivocado de um estúdio sempre interessado em simplificar tudo através de uma subestimação da inteligência e do gosto do seu público, mas isto é só especulação de quem já assistiu esta novela se repetir em tantos outros longas promissores e que mudam de tom da água para o vinho no meio do caminho. O que quer que tenha acontecido no processo de concepção do novo Quarteto Fantástico, o que fica é uma promessa abandonada precocemente para abraçar um amontoado de cafonices que já foram superadas, não cabem mais nos exemplares da temporada de blockbusters e que só mancham a credibilidade tradicionalmente questionada deste tipo de produção.  


Fantastic Four, 2015. Dir.: Josh Trank. Roteiro: Josh Trank, Simon Kinberg e Jeremy Slater. Elenco: Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, John L. Armijo. Fox. 100 min