terça-feira, 29 de setembro de 2015

Perdido em Marte



Ridley Scott é um diretor de ficções científicas. Não é por acaso que dois dos filmes mais celebrados da carreira do realizador  são Alien - O 8º Passageiro e Blade Runner e que na sua filmografia recente um dos pontos altos tenha sido seu retorno ao gênero com Prometheus. Existe algo no formato que parece inspirar o realizador e trazer uma faceta bem diferente do Scott burocrático e aborrecido de Robin Hood, Cruzada ou Falcão Negro em Perigo. Perdido em Marte é prova viva disso. Dá para sentir em cada sequência do longa um realizador pulsante, envolvido com sua histórias e seus personagens e comprometido a fazer do seu filme uma experiência marcante para o espectador. Dá para perceber cada fibra de Ridley Scott em Perdido em Marte e talvez seja por isso que este seja um dos melhores longas da filmografia recente do realizador. 

Em Perdido em Marte, Matt Damon vive um astronauta que é dado como morto por seus companheiros de missão em Marte. Todos acreditam que Mark Watney (Damon) não conseguiu sobreviver a uma tempestade no planeta vermelho. Watney, no entanto, está vivo e em busca de uma maneira de sobreviver e retornar ao planeta Terra. Com suprimentos escassos, o astronauta tenta estabelecer contato com a Nasa antes que seja impossível manter-se de pé no planeta. 

Em linhas gerais, o longa é um filme de sobrevivência estabelecendo paralelos com produções como Gravidade e Alien - O 8º Passageiro, do próprio Ridley Scott. Portanto, Perdido em Marte explora o temor hipotético de estar sozinho no espaço e todo o empreendimento heróico para tentar sair de uma situação aparentemente incontornável. A grande diferença é que Perdido em Marte apresenta uma faceta improvável do Ridley Scott, o humor. O longa consegue fugir das "obviedades" de um tipo de narrativa ao explorar o riso até mesmo nas situações de risco iminente, sem perder o fio da meada e compreender que a situação na qual o seu protagonista se encontra é angustiante. É genial, por exemplo, a maneira como Scott explora a trilha sonora em determinadas sequências do filme, trazendo canções  icônicas de artistas como o grupo ABBA e até mesmo o clássico "I will survive". 

Assim, através de um Ridley Scott que oferece uma condução equilibrada e interessada no material que tem em mãos (bem diferente do Scott de filmes anteriores que somente "batia o cartão" nos sets de filmagem), Perdido em Marte proporciona ao público um espetáculo com múltiplas gamas de emoções, Emoções estas que também são proporcionadas é claro, pela inteligente e carismática performance de Matt Damon. É claro que apesar do star power de Damon outros atores disputam as atenções do espectador como a sempre impecável Jessica Chastain, o experiente Jeff Daniels, o recém indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor e até mesmo uma Kristen Wiig mais séria que o costume, mas o filme é do seu protagonista e ele segura as rédeas da história como poucos. 

Visualmente interessante e tecnicamente irretocável, Perdido em Marte traz um Ridley Scott interessado no seu ofício ou, se preferir, inspirado. O filme parece um apanhado de recursos e tramas já vistas em outros longas, mas encontra nos esforços e na experiência do seu realizador uma maneira vibrante de cativar o interesse da sua platéia. Trata-se de uma prova cabal de que Ridley Scott deveria evitar dramas existencialistas sobre o mundo do crime (O Conselheiro do Crime) e até mesmo épicos que em nada lembram a exceção do acaso Gladiador. Ridley Scott não deveria nunca mais sair do espaço. O público agradece. 


The Martian, 2015. Dir.: Ridley Scott. Roteiro: Drew Godard. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kristen Wiig, Kate Mara, Michael Peña, Sean Bean, Sebastian Stan, Aksel Hennie, Mackenzie Davis, Donald Glover. Fox. 141 min. 

sábado, 26 de setembro de 2015

Drops: A Pele de Vênus



Em A Pele de Vênus, Roman Polanski apresenta os atores Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric na pele de uma atriz e um diretor de teatro que testam suas respectivas posições de dominação nas esferas da questão de gênero e de criação artística. Simplificando a sinopse do longa, trata-se de uma história ambientada em um único espaço, um teatro no qual um dramaturgo testa uma candidata ao papel principal da sua peça. Em meio ao fetiche da "musa do criador" e a própria dinâmica de ensaio, Polanski centra a atenção do seu filme no desempenho da sua dupla de atores que demonstra muita versatilidade, entrosamento e comando das difíceis demandas que o texto repleto de nuances, camadas e reviravoltas psicológicas e filosóficas demandam, especialmente Emmanuelle Seigner, espetacular como Vanda. Não esperem ver em A Pele de Vênus um grande poder interventivo do cineasta Roman Polanski. Segundo filme consecutivo do diretor a usar uma peça teatral como base para seu roteiro (o anterior foi Deus da Carnificina de 2011), o diretor faz uma espécie de teatro filmado com a proposital exploração de pouquíssimos recursos eminentemente audiovisuais. Tudo o  que se tem em cena são Seigner e Amalric em um jogo de sedução e dominação mútua e isso parece ser o suficiente para o filme ser uma experiência intelectualmente recompensadora. 

Drops: Um Senhor Estagiário



Goste ou não goste da diretora e roteirista Nancy Meyers (Simplesmente Complicado, O Amor não tira Férias e Alguém tem que ceder), uma coisa ninguém pode negar, ela consegue manter uma coerência e uma assinatura própria em sua filmografia. Até mesmo os deslizes da realizadora em cada um dos seus filmes são bem parecidos. Um Senhor Estagiário não fugiria a esta regra, mantém-se agradável graças ao carisma do seu elenco principal (no caso, Robert DeNiro e Anne Hathaway), mas sofre com um roteiro bobinho no tratamento dos dramas dos seus personagens. No filme, Robert DeNiro vive um viúvo aposentado que se candidata e consegue o cargo de estagiário sênior em uma empresa de e-commerce chefiada pela jovem workaholic Jules, personagem de Anne Hathaway. A relação entre os dois começa com uma série de desconfianças e preconceitos da parte de Jules, mas logo ela cria um vínculo de amizade com o estagiário que a ajuda a enfrentar diversos problemas em sua vida pessoal e profissional. No "frigir dos ovos", as "lições de vida" de Um Senhor Estagiário são parecidas com qualquer papo psicanalítico ou motivacional preguiçoso, gerando reflexões que nos levam à conclusão de que a experiência é uma dádiva. É certo que Meyers tenta abordar questões de cunho feminista ao trazer a personagem de Hathaway como uma jovem empreendedora que tenta lidar com a pressão social de ser uma mãe impecável, mas como já mencionei, a diretora e roteirista não costuma ter fôlego para ir além da superfície em suas histórias, aqui não seria diferente. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Drops: Infância



Em Infância, o diretor Domingos Oliveira faz um filme que irrevogavelmente transpira memória. Narrando a história de uma família carioca na década de 1950, Oliveira contrói uma narrativa sobre sucessões que contempla três gerações: uma representada por Dona Mocinha (Fernanda Montenegro), viúva e admiradora fiel de Carlos Lacerda e do seu programa de rádio; os seus filhos (Priscilla Rosenbaum e Ricardo Kosovski), que entre inseguranças e fracassos têm suas vidas são moldadas sob os olhos da matriarca da família; e os netos Rodriguinho e Ricardinho, que com temperamentos completamente diferentes percebem a dinâmica familiar e constroem os seus respectivos lugares no mundo. O olhar de Oliveira para esse breve conto familiar, histórico e sociológico é doce, porém guarda uma perspectiva interessante sobre um contexto de transformações do nosso país, o que é bem interessante. É verdade que Infância, a despeito do seu relativamente curto tempo de projeção, prolonga-se no tempo ou, como preferir, presta atenção em passagens dispensáveis. Ainda assim, o supérfluo mantém um certo charme já que o diretor consegue conduzir muito bem o seu elenco, especialmente os seus jovens atores Raul Guaraná e Lucca Valor, ambos excelentes como os primos Rodriguinho e Ricardinho. Já Fernanda Montenegro, como de costume, está deliciosa na pele da Dona Mocinha. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Evereste



Evereste é um filme relativamente esquisito. Tal afirmação, parte de uma impressão pessoal mas que encontra eco e razão de ser na própria estrutura do longa. Evereste é estranho porque ao narrar a história de um grupo que faz uma expedição para escalar o monte Evereste e centrar suas atenções na gana que essas pessoas nutrem por esta meta completamente insana, jamais oferece ao público uma resposta concreta sobre a paixão dos seus personagens principais por uma jornada tão perigosa. Isso é ainda mais complicado se o filme encontrar uma plateia completamente indiferente a tal jornada, ela continuará gélida àqueles personagens já que, em momento algum consegue compreendê-los.

O longa de Baltasar Kormákur (de longas esquecíveis como Dose Dupla e Contrabando) se passa em 1996 e acompanha dois grupos de alpinistas liderados por guias com estilos completamente diferentes, um interpretado por Jason Clarke e outro por Jake Gyllenhaal. Eles enfrentam uma nevasca que coloca a vida de todos em risco para chegar ao cume do monte Evereste. Assim, alcançar a meta da aventura mostra-se infinitamente mais fácil do que o retorno para casa.

O filme de Kormákur é muito eficiente naquilo que tem mais que a obrigação de ser competente: a produção de grandes sequências de tensão no Evereste utilizando efeitos visuais e sonoros de ponta. Nada menos do que o esperado para um filme do seu porte. Em outro departamento, no entanto, Evereste acaba revelando-se um filme arrastado, com um material humano pouco interessante e que se sustenta em dramas familiares pouco esmiuçados pelo roteiro, mas que surgem na tela como algo muito precioso ao andamento da trama. Há um emaranhado de dilemas familiares que são mal explicados pelo filme (o núcleo do ator Josh Brolin, por exemplo, que tem uma relação complicada com sua esposa vivida por Robin Wright), mas que, por alguma estranha razão, estão lá e entram em ebulição com viagem ao Evereste.

Escrito pelo vencedor do Oscar Simon Beaufoy (Quem quer ser um milionário?) e pelo indicado ao mesmo prêmio William Nicholson (Gladiador), o roteiro desse filme é tão problemático que, como já antecipamos, jamais deixa claro uma informação fundamental para que o espectador se envolva com a trajetória dos seus personagens: a motivação do grupo para empreender uma jornada tão arriscada. Tudo é simplificado com explicações subentendidas do tipo "tesão pela aventura". Desculpem, mas é muito pouco para entender decisões fundamentais que alguns personagens tomam ao longo do filme. Como resultado, Evereste acaba contando com as relações amorosas para causar o mínimo de empatia no espectador,  o que também não funciona já que, com pouquíssimo tempo em cena, alguns personagens sequer conseguem mostrar a que veio, é o caso das esposas vividas por Robin Wright e Keira Knightley, que cumprem a cota "Penélope" de A Odisseia ao viverem mulheres que ficam em casa esperando o retorno dos seus amados. E não é só Wright e Knightley que saem perdendo tamanha a falta de tratamento do roteiro com a história, todos os atores são vítimas dessa característica de Evereste, a falta de densidade do seu script, incluindo aqueles que seriam os seus protagonistas, Jason Clarke, Jake Gyllenhaal e Josh Brolin.

Seguindo a tradição de filmes com um elenco estelar subaproveitado, Evereste não consegue sustentar toda a sua qualidade técnica com personagens e trama que jamais envolvem emocionalmente o público. Assim, todo o seu drama humano, que é sugerido como o foco do filme de Kormákur, é absolutamente oco, estéril e genérico. Entre outras questões mal resolvidas do roteiro, não dá para simplificar a motivação dos personagens para enfrentar o que enfrentam rumo ao Evereste como um insano tesão pelo perigo, tampouco sustentar duas horas de filme com conflitos amorosos tão rasos. 



Everest, 2015. Dir.: Baltasar Kormákur. Elenco: Jason Clarke, Josh Brolin, Jake Gyllenhaal, Keira Knightley, Emily Watson, Robin Wright, Sam Worthington, John Hawkes, Elizabeth Debicki, Ang Phula Sherpa, Martin Henderson, Thomas M. Wright. Universal. 121 min

terça-feira, 8 de setembro de 2015

The Babadook



The Babadook pertence a um grupo de filmes que inaugura uma nova era na difusão de obras cinematográficas. O longa de terror australiano veio para o Brasil através da "locadora virtual" Netflix. Não foi para os cinemas, nem para o mercado doméstico através de mídias como o DVD e o Blu-Ray, chegou aqui pelas vias legais da internet. É possível que esta seja uma tendência crescente tendo em vista a dificuldade que longas como The Babadook sentem para conseguir uma distribuição brasileira. Sem a tutela de um estúdio, o chamariz de uma grande estrela de cinema ou o conforto do vínculo a uma franquia, é menos dispendioso lançá-lo pela internet mesmo. E, cinéfilos xiitas, isso é melhor do que nada, acreditem, vão ter que se acostumar com os novos tempos.

The Babadook fez muito barulho no ano passado, sendo considerado por muitos veículos especializados como um dos melhores longas de terror de 2014 e até mesmo um dos melhores filmes do ano. Não sem razão, o longa de estreia da cineasta Jennifer Kent é uma grande realização para um gênero que na contemporaneidade tem sido adjetivado com muita justiça de enfadonho, haja vista as produções que têm chegado aos cinemas (claro, existem as exceções).

O filme conta a história de uma viúva que começa a ficar preocupada com a instabilidade emocional do seu filho, um quadro que se agrava depois que ele lhe apresenta um livro chamado "Sr. Babadook". No livro, um homem trajando um longo casaco preto e uma cartola assombra uma casa onde mora uma família. A partir daí estranhos eventos começam a acontecer com mãe e filho e eles terão que expulsar Babadook das suas vidas.

Kent acerta ao centrar sua narrativa nos personagens para depois explorar a cartela de efeitos que a apavorante história pode gerar no espectador. Contando com as ótimas interpretações de Essie Davis (a mãe) e do garoto Noah Wiseman (o filho), a realizadora apoia o seu filme em uma atmosfera sombria e psicótica criada no entorno da relação dos seus personagens, evitando a muleta dos sustos gratuitos e da excessiva violência gráfica. Assim, The Babadook conserva com muita precisão algumas marcas vitais do gênero, mas também explora a psicologia dos seus personagens, tornando-se uma obra cinematográfica muito consistente.


The Babadook, 2014. Dir.: Jennifer Kent. Roteiro: Jennifer Kent. Elenco: Essie Davis, Noah Wiseman, Barbara West, Daniel Henshall, Hayley McElhinney, Benjamin Winspear, Chloe Hurn, Bridget Walters, Annie Batten. Disponível no Netflix. 93 min

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Nocaute



De Rocky até Menina de Ouro ou A Luta pela Esperança, passando por variações como Touro Indomável e até O Vencedor, os "filmes de boxe" se consolidaram como um gênero cinematográfico com marcas e códigos de interpretação bem conhecidos. Temos a vida do lutador nos ringues e fora deles, relações familiares mal resolvidas, o desafio de lidar com o comportamento explosivo e auto-destrutivo, tudo isso culminando com uma grande lição sobre a superação. Nocaute, de Antoine Fuqua, segue o destino natural dos filmes ambientados nesse universo e, por seguir as convenções do seu gênero, até tem um decréscimo do seu ritmo em determinados momentos. No entanto, a destreza de Fuqua no desfecho do longa e a empenhada performance de Jake Gyllenhaal fazem Nocaute se sobressair mesmo sendo parecido com outras obras similares que já nos foram apresentadas. 

No filme, Gyllenhaal vive o lutador de boxe Billy Hope um campeão na sua categoria que no auge da carreira é devastado pela violenta morte da sua esposa. Hope fica inconsolável e é tomado por uma raiva tão avassaladora que o impede de cuidar da própria filha. Após perder a guarda da garota, o lutador tem que recomeçar a sua vida e encontra na figura do treinador Tick Wills (Forest Whitaker) a força que ele precisava para colocar tudo nos trilhos, ou seja, ter a sua filha de volta e retornar aos ringues. 

Em Nocaute, Antoine Fuqua, de Dia de Treinamento, faz questão de manter todo o discurso motivacional que é recorrente em "filmes de boxe", a trajetória do homem que é testado pela vida com tragédias pessoais e consegue se reconstruir tornando-se uma lição de superação, a mensagem é que qualquer coisa pode te derrubar mas você tem que extrair forças para se reerguer. Assim, a história de Billy Hope é um conto sobre o amadurecimento, narrando a trajetória de um homem que perde o controle sobre tudo e precisa adquirir responsabilidade para poder criar a sua filha, agora órfã. Um tanto clichê, mas emocionalmente engajado, Nocaute acaba superando o seu próprio lugar comum e conquista públicos mais receptivos a abordagens mais tradicionais.  

De início, a impressão que Nocaute dá é que o filme andará em círculos ao mostrar-nos as tentativas empreendidas por Hope para honrar a memória da sua esposa. Acontece que a virada do longa ocorre pelas mãos do seu próprio protagonista que, encarnado por um Jake Gyllenhaal à flor da pele, mas muito delicado em sua composição, leva o projeto a altas cargas emocionais e de adrenalina. Gyllenhaal está ao lado de grandes atores como Forest Whitaker, que até tem seus grandes momentos na trama, e Rachel McAdams, mas Nocaute parece o show de um homem só, um grande solo de um ator que tem merecido muito reconhecimento nos últimos anos por embarcar em empreitadas difíceis como Os Suspeitos, O Homem Duplicado e O Abutre. Somada a interpretação de Jake Gyllenhaal, o momento final do filme apresenta muita força e vigor, trata-se da grande luta que reerguerá o protagonista de Nocaute. Fuqua conduz muito bem essa sequência final que faz jus a algumas das melhores lutas de boxe realizadas pelo cinema

Sem grandes alardes e pretensões de ser obra-prima, Nocaute acaba se revelando um filme satisfatório. E para que pedir mais? Para que exigir do cinema que ele sempre nos apresente uma grande novidade, um ineditismo? As vezes penso que o problema está em nós mesmos e na eterna insatisfação do homem com o "comum", a "rotina". Parece que todo filme tem que ser um manifesto revolucionário para o cinema. Nocaute não é, trata-se de um reencontro do espectador com velhos conhecidos que nos lembram figuras como Rocky Balboa ou Jake La Motta e o filme parece estar muito bem resolvido com isso.  



Southpaw, 2015. Dir.: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rachel McAdams, Forest Whitaker, Naomie Harris, Oona Laurence, 50 Cent, Rita Ora, Miguel Gomez, Skylan Brooks, Victor Ortiz. Diamond Films, 124 min. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Drops: Ricki and the Flash - De volta pra casa



Na filmografia recente de Meryl Streep, Ricki and the Flash - De volta pra casa está em algum lugar entre Um Divã para Dois (talvez um dos filmes mais subestimados da filmografia da atriz preferida de 9 em cada 10 cinéfilos) e Simplesmente Complicado (comédia comercial bobinha e levemente esquecível de Nancy Meyers). Resumindo, Ricki and the Flash é um filme redondinho e um bom entretenimento, mas não é um longa a ser incluído entre os trabalhos mais memoráveis da atriz. No filme, Streep interpreta Ricki, uma ex-dona de casa que deixou tudo para trás a fim de realizar o sonho de tornar-se uma grande cantora. A carreira dela não emplaca após o lançamento do seu primeiro e único disco, mas Ricki está feliz com a sua vida mesmo completamente endividada e sofrendo com a indiferença e a mágoa dos seus filhos. A vida de Ricki dá uma sacudida quando ela recebe a notícia do divórcio da sua filha e retorna ao seu antigo lar com o intuito de reanimá-la. A direção de Ricki and the Flash é de Jonathan Demme, que aqui não apresenta uma condução tão vigorosa e presente quanto àquelas de O Silêncio dos Inocentes ou O Casamento de Rachel, realizando uma comédia convencional cujo pilar é a própria protagonista vivida por Meryl Streep. Isso poderia ser um problema, como ocasionalmente é no caso de Streep, afinal, um filme é formado por muito mais do que um solo de atuação. No entanto, no lugar de um over acting, o que vemos é a atriz entregar-se a uma personagem que a despeito do visual descolado é extremamente humana, uma mulher de carne e osso, ou seja, um tipo de personagem que é sempre mais desafiador para Streep. Sem grandes pretensões e com uma performance mais relaxada da imbatível Meryl Streep, Demme faz um filme sobre a tolerância nas relações humanas, em específico, nas relações familiares sempre marcadas por mágoas e pela dificuldade de aceitação do diferente. 

Drops: Entrando numa Roubada



A difusão (distribuição e exibição) sempre foi um dos grandes problemas de se fazer cinema no Brasil. De uma maneira geral, a produção brasileira conta com instrumentos relativamente eficientes de viabilização de produção, mas como fazer com que esses longas realizados cheguem até o seu público, fazendo com que eles tragam algum retorno para os profissionais que participaram de sua concepção, instituindo enfim uma indústria profissionalizada e com condições de mercado igualitárias para todos em nosso país, sempre foi um grande "abacaxi" nunca de fato descascado. Entrando numa Roubada trata no final das contas de tudo isso: quem realmente sai financeiramente beneficiado no cinema brasileiro? A metalinguagem "tarantinesca" de André Moraes traz a história de um jovem ator e roteirista que após cair em desgraça na sua carreira tem a chance de retornar ao cinema quando seu novo roteiro recebe um prêmio em dinheiro. Para torná-lo um filme, o rapaz reúne antigos companheiros de set, que, como ele, não conseguiram se realizar profissionalmente. Tudo foge ao controle do jovem roteirista quando um de seus amigos resolve usar o filme como um meio de se vingar do produtor que levou todos ao fundo do poço. Entrando numa Roubada é o típico caso de uma excelente ideia que rende uma execução atabalhoada. O filme poderia investir mais em seu humor corrosivo, mas fica estranhamente sério, sombrio. Moraes conta com um ótimo elenco - Deborah Secco, Lucio Mauro Filho, Júlio Andrade, Bruno Torres, Marcos Veras, Ana Carolina Machado e o impagável Tonico Pereira -, todos prontos para se esbaldarem em cena, mas o diretor parece retrair o seu próprio filme. Em Entrando numa Roubada alguma coisa parece não fazer o projeto ir para a direção das decisões extremas, o que faria muito bem ao filme. O longa tem um excelente ponto de partida, mas um resultado não tão corajoso quanto a sua ideia central. Falta punch

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Drops: Homem Irracional



É óbvio que há de se admirar a produtividade de Woody Allen, que aos 79 anos de idade e em meio a uma indústria que prioriza a reciclagem através de remakes, reboots e adaptações consegue conceber histórias extraídas da sua própria "cachola". No entanto, existem momentos em que fica evidente a necessidade de um profissional desacelerar um pouco o ritmo de produção para arejar as suas ideias, se reinventar. Talvez seja esse um dos problemas do Allen, não existe espaço para "respiros" em sua carreira e seus filmes recentes oscilam entre grandes obras (Blue Jasmine, Meia-noite em Paris, Match Point) e projetos medianos (Magia ao Luar, Você vai conhecer o homem dos seus sonhos , Para Roma com Amor). Homem Irracional talvez seja um dos piores exemplares do realizador nos últimos anos e o seu resultado é consequência de uma certa repetição e desgaste temático do universo do cineasta. O filme conta a história de Abe Lucas (Joaquin Phoenix), um professor do departamento de Filosofia de uma universidade no interior dos EUA. Logo que começa a lecionar lá, ele acaba fascinando Jill (Emma Stone), uma de suas alunas que se apaixona pelo intelecto mas também pela natureza melancólica do professor. Abe está completamente desmotivado e pessimista, concluindo que sua vida nunca teve propósito algum. Tudo muda quando ele encontra na realização de um crime a motivação que ele estava procurando para continuar a viver. Allen retorna a um de seus temas recorrentes em Homem Irracional. O diretor, mais uma vez, tenta entender a origem e a natureza do ato criminoso. Um pouco de Crimes e Pecados, um pouco de Match Point, Homem Irracional fica no meio do caminho com poquíssima coisa a acrescentar ao currículo do realizador. Há uma forte e marcante presença de Joaquin Phoenix, mas isso não é o suficiente para extirpar a sensação de déjà vu que em nada favorece o filme, muito pelo contrário, exaure todo o interesse do espectador pela experiência de assistir à obra, ainda que ela venha repleta da inteligência, humor e sofisticação do velho Allen.  

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Drops: Corrente do Mal



Só o tempo nos responderá se Corrente do Mal de David Robert Mitchell figurará entre as maiores realizações do gênero terror dessa década. O que é certo é que Mitchell fez o que pouquíssimos realizadores de filmes desse tipo conseguiram nos últimos anos: concebeu uma história de dar calafrios e esgarçou todas as possibilidades narrativas que a linguagem cinematográfica oferece ao artista. Com esses dois méritos, Corrente do Mal é um dos exemplares mais interessantes do terror contemporâneo sem sombra de dúvidas, mas acima de tudo uma impecável realização cinematográfica. O filme conta a história de uma jovem que após um ato sexual acaba sendo inserida em uma corrente que a faz ser perseguida por forças sobrenaturais. É claro que toda a trama de Corrente do Mal não é de todo original, o que faz o filme ser uma obra especial é o tratamento dado por David Robert Mitchell a sua história. O longa não desgasta sua relação com o espectador com a produção de sustos artificiais ou o exagerado uso da violência gráfica. Tudo o que Mitchell precisa para fazer uma obra apavorante é a sua câmera, uma trilha sonora muito eficiente de Rich Vreeland e explorar a crescente atmosfera de paranoia que se instala entre os seus personagens principais. Simbolicamente, o longa acaba falando sobre a origem do medo e como ele pode facilmente se propagar entre as pessoas. Cinematograficamente, o longa é uma verdadeira aula de cinema. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Agente da U.N.C.L.E.



Até chegar aos cinemas, O Agente da U.N.C.L.E. teve uma trajetória tortuosa. O filme baseado na  série homônima de TV dos anos 60 quase foi protagonizado por atores como Tom Cruise, George Clooney e Channing Tatum. O projeto esteve por anos nas mãos de Steven Soderbergh, que logo saiu da direção para seguir com a sua "aposentadoria" do cinema e deixou a cadeira vaga para Guy Ritchie. Com a saída de Soderbergh, a escalação do elenco ganhou novos rumos e Ritchie escolheu Henry Cavill (o Superman de O Homem de Aço) e Armie Hammer (de O Cavaleiro Solitário e A Rede Social), para interpretarem os agentes Napoleon Solo da CIA e Illya Kuryakin da KGB, respectivamente. 

Esta trajetória cheia de reviravoltas de O Agente da U.N.C.L.E. poderia ter um desfecho mais feliz não fosse a gélida recepção do filme nos EUA. A crítica oscilou entre a reprovação e a indiferença e o público não foi assistir ao longa no seu final de semana de estreia, fazendo-o amargar o terceiro lugar nas bilheterias. Uma pena pois o resultado não é tão catastrófico assim.

O Agente da U.N.C.L.E. tem como centro da sua narrativa o ódio mortal entre os agentes Napoleon Solo (da CIA, EUA) e Illya Kuryakin (KGB, União Soviética) em plena Guerra Fria. Os dois acabam sendo obrigados a unirem forças para combaterem uma organização que tem o intuito de desenvolver armamentos nucleares. A improvável união acaba fazendo com que seja criada uma nova organização, a U.N.C.L.E..

Sob a enérgica e vibrante direção de Guy Ritchie, O Agente da U.N.C.L.E. adapta a estrutura e a abordagem dos filmes de espionagem dos anos 60 ao estilo "moderninho" do realizador. O longa está longe de ter o aproach sisudo e sombrio dos filmes do 007 mais recentes e está mais próximo de um descompromisso que era a marca dos longas do seu gênero. Ao formato, Ritchie injeta a sua montagem clipeira e sua vocação para escolher trilhas sonoras certeiras, ambientando a trama no espírito da época através de artistas como Nina Simone,  Ennio Morricone e até o brasileiro Tom Zé (!), o que faz com que o filme seja muito charmoso. 

O ponto fraco do longa talvez seja o desnivelamento dos desempenhos dos seus dois protagonistas. Enquanto temos um Armie Hammer muito interessante na pele do explosivo e anti-social Illya, Henry Cavill não se acerta como o cafajeste bon vivant Napoleon. Por esse motivo fica tão evidente a falta de encaixe entre os dois atores na tela, Cavill parece não acompanhar o timing cômico de Hammer e aquele que poderia ser o elemento responsável por dar uma maior consistência à narrativa parece nunca estar presente. Completam o elenco, Alicia Vinkander (ótima na pele de Gaby, a dúbia protegida da dupla de agentes), Elizabeth Debicki (que surge igualzinha ao seu desempenho em O Grande Gatsby) e Hugh Grant (razoável como um personagem que poderia ser aproveitado em sequências que, pelo rumo da recepção do filme, podem não acontecer).

O Agente da U.N.C.L.E. não merece o destino que anda tendo. É old fashioned, mas também é muito contemporâneo, trabalhando com uma variação interessante do seu gênero. É claro que existem determinados elementos que o enfraquecem como a desajustada interpretação de Henry Cavill, uma certa displicência do roteiro com alguns dos seus personagens e a sua excessiva duração, mas é um filme de espionagem divertido e que se sustenta graças à direção sempre eficiente de Guy Ritchie.  



The Man from U.N.C.L.E., 2014. Dir.: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie e Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vinkander, Elizabeth Debicki, Hugh Grant, Jared Harris, Luca Calvani, Sylvester Groth, Christian Berkel. 116 min. Warner