quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Blog completa 9 anos!


Leitores e amigos,

Nesse mês de outubro (dia 22), o Chovendo Sapos completou os seus 9 anos de existência e nem eu acredito que já é tudo isso. Em meio a todas as transformações pelas quais passou a minha vida nesse período e a questionamentos sobre a manutenção do espaço ou não, que persistem (o mimimi de sempre), esse espaço pessoal sobreviveu. Aos trancos e barrancos, mas sobreviveu. Gostaria de agradecer a todos pela receptividade com os meus textos por aqui.

Como os 10 anos do blog se aproximam, decidi revisar filmes que fizeram a minha cabeça ao longo desse tempo e que mereceram o devido espaço nesse endereço: Filhos da Esperança (2006), Pecados Íntimos (2007), Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Amantes (2009), Avatar (2009), A Rede Social (2010), A Árvore da Vida (2011), Drive (2012), Amor (2013), Sob a Pele (2014) e o longa de 2015 que ainda será escolhido. 

Espero poder contar com todos nesse décimo ano do blog,

Muito obrigado, mesmo!  

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Grace de Mônaco



Grace de Mônaco será o tipo de filme que sempre trará lembranças amargas para os envolvidos, mas que será difícil de esquecer por um bom tempo. É o tipo de projeto que fica para a história do cinema não pelo seu resultado final, mas pelos inúmeros problemas de bastidor que trouxe à tona. Escolhido para abrir as atividades do Festival de Cannes de 2014, Grace de Mônaco chegava aos cinemas no calor da febre por cinebiografias de estrelas de Hollywood e realezas europeias contando parte da trajetória de Grace Kelly, um ícone que reunia em sua imagem esses dois fascinantes universos para o grande público. Teríamos um outro ícone por trás desta história, a atriz Nicole Kidman dando vida a sua protagonista, além dela, o diretor Olivier Dahan, que a despeito do fracasso de Minha Canção de Amor tinha sido bem-sucedido no retrato de Edith Piaf em Piaf - Um Hino ao Amor, e a distribuição norte-americana de um verdadeiro Midas, o produtor Harvey Weinstein, conhecido por realizar campanhas muito eficientes dos seus filmes para o Oscar e que comprou os direitos do projeto antes mesmo de vê-lo completamente realizado. Grace de Mônaco tinha como proposta contar o período em que Grace Kelly, após largar sua carreira em Hollywood, se viu tentada a retornar ao cinema mas decidiu permanecer ao lado do marido, o príncipe Rainier, e enfrentar as dificuldades da sua nova vida como princesa de Mônaco. 

Antes de chegar a Cannes, os primeiros atritos de backstage em Grace de Mônaco chegaram ao público. Filmado em 2013, o filme sofreu uma grande pressão de Harvey Weinstein que desejava que Olivier Dahan terminasse a sua montagem no final daquele mesmo ano para que o filme pudesse ter chances nas premiações do início de 2014. Dahan não conseguiu terminar o seu trabalho a tempo e Weinstein anunciou o lançamento do longa para o primeiro semestre de 2014, um pesadelo para qualquer título que tenha pretensões de angariar indicações a prêmios como o Oscar ou o Globo de Ouro (poucos títulos de começo do ano são lembrados pela Academia cujo processo de votação começa somente no final do segundo semestre). Começaram a surgir nos veículos especializados informações que indicavam que Dahan e Weinstein discordavam sobre a versão final de Grace de Mônaco a ponto do diretor afirmar que existiriam duas versões do filme, a dele, distribuída na Europa, e a do produtor, a versão norte-americana que o realizador não reconheceria. 

Abrindo o Festival de Cannes, o longa acabou gerando críticas que o consideravam como uma das aberturas mais infelizes da história do evento. Além disso, os Grimaldi reprovaram a maneira como o longa retratava o relacionamento de Grace Kelly e Rainier, considerando as tensões do casamento fantasiosas e até ofensivas. Acontece que os problemas não pararam na riviera francesa... Após a exibição do filme no festival, o roteirista Arash Amel se manifestou em seu twitter pessoal e disse não reconhecer na versão de Olivier Dahan o seu roteiro, o que foi muito estranho já que desde o início da produção de Grace de Mônaco ele relatava ao público no mesmo perfil o quanto estava animado com o andamento do projeto.

A estreia de Grace de Mônaco nos EUA ficou indefinida, o filme era arrastado demais para ser inserido na temporada de blockbusters de verão, tampouco parecia ser um candidato ao Oscar, ficando Harvey Weinstein com a difícil missão de encontrar uma data para fazer o debut do seu elefante branco. A solução encontrada pelo produtor foi negociar a sua exibição no canal de TV Lifetime (Sim! De abertura do festival de cinema de maior visibilidade do mundo, o longa foi para uma emissora conhecida por produzir telefilmes biográficos de gosto extremamente duvidoso). Assim, Grace de Mônaco estreou em maio de 2015 nos EUA, diretamente na TV, com uma versão redusidíssima de uma hora e dez minutos de duração. Durante a exibição, o roteirista Arash Amel comentou cada cena em seu twitter pessoal em posts irônicos que só foram gentis com os atores e Harvey Weinstein. Amel declarou coisas do tipo: "Eu escrevi uma biografia no estilo Peter Morgan (A Rainha) que se transformou em um melodrama de Douglas Sirk" ou "Em suma, 'Grace of Monaco' foi como ir ao Vietnã. Eu sobrevivi a isso, mas nunca esquecerei". O imbróglio parou por ai? Não. Quando todos pensaram que o assunto havia morrido (sim, porque Grace de Mônaco virou uma espécie de zumbi da indústria cinematográfica dos últimos anos), eis que o Emmy, popular premiação da televisão norte-americana, indica o longa na categoria melhor minissérie ou filme de TV, encerrando sua carreira (???) com um paradoxo. 

O filme

É claro que nenhum dessas informações sobre os bastidores de Grace de Mônaco devem servir como desculpa para redimi-lo em qualquer avaliação. A obra merece ser julgada pelo que se apresenta ao público e o longa é um equívoco do início ao fim sem maiores desculpas. No entanto, no caso de Grace de Mônaco a culpa do grande "abacaxi" recaiu no colo da sua protagonista Nicole Kidman, que injustamente recebe rotineiramente a alcunha de "produtora de bombas cinematográficas".

Antes de adentrar em mais este parênteses, queria deixar claro que, a despeito de ser grande admirador do trabalho da atriz, e isso nunca escondi de ninguém, reconheço os grandes erros da sua carreira e a acredito saber reconhecê-los, entre eles bobagens como Reféns e Esposa de Mentirinha. Acontece que, em meio a enxurrada de críticas negativas a Grace de Mônaco , surgiram os rotineiros comentários depreciativos a aparência da atriz, que me parecem mais próximos de manifestações de um certo "espírito de porco" do que um juízo sobre a obra, afinal as plásticas de Nicole nunca a impediram de oferecer algumas das melhores interpretações da sua carreira em trabalhos recentes como Reencontrando a Felicidade, Margot e o Casamento, Obsessão, Hemingway e Gellhorn, Segredos de Sangue e nos recentes e ainda inéditos no Brasil Strangerland e The Family Fang, sem falar no seu recente sucesso de crítica nos palcos londrinos Photograph 51. Em nenhum dos textos que avaliam os trabalhos que citei a aparência da atriz é usada como argumento, mas quando surge alguma "bomba" em sua carreira, pode ter certeza que o maldito botox será usado como muleta da crítica.

Nas palavras da própria Kidman em recente entrevista para a revista Interview, "Como ator, você não tem controle sobre o resultado final. [...] a gente aparece, participa do filme e depois vai embora.". Em Grace de Mônaco, a performance de Kidman, que não é o ponto alto da sua carreira, é bem verdade, não é a principal responsável pelo fiasco do filme. Ainda que percebamos um evidente erro de escalação, talvez uma atriz mais nova se encaixasse melhor no papel de uma Grace Kelly por volta dos seus 30 e 40 anos, Kidman faz o melhor que pode com aquilo que lhe é dado. O grande problema de Grace de Mônaco está justamente no tom que Olivier Dahan e Arash Amel, que não assumem a culpa do fracasso, deram ao longa ( aproveito para reforçar que não há razão para o roteirista sair de "bonzinho" nessa história toda). 

Grace de Mônaco usa como recurso narrativo um tom artificialmente melodramático que não está apenas na maneira como Olivier Dahan enquadra as situações narradas ou quando ele utiliza uma aborrecida e grandiloquente trilha sonora nos momentos de maior impacto da trama, mas também pela costura que Amel faz da sua visão particular sobre a vida de Grace Kelly, explorando com dramaticidade excessiva questões completamente banais e concebendo diálogos rasos que giram em torno de relacionamentos amorosos, família e toda sorte de especulação sobre a vida íntima dos Grimaldi. O grande problema de Grace de Mônaco, deixo bem claro, não é flertar com o melodrama, que, como qualquer gênero, é capaz de gerar obras boas ou ruins, mas utilizá-lo de maneira desastrada e com total ineficiência. 

O filme é responsável por um desserviço a quem de fato queira conhecer a história da família real de Mônaco, já que muito pouco do que é mostrado em Grace de Mônaco de fato ocorreu. O que os realizadores do longa fazem é utilizar algumas informações sobre os seus biografados e carregar  um pouco na tinta nos seus dramas. Assim, diante de questões como o complicado relacionamento de Grace Kelly com o seu pai, a dificuldade de adaptação da atriz a sua vida de princesa e as tensas relações políticas entre o governo francês e Mônaco, Dahan e Amel conferem uma excessiva gravidade e fazem a sua versão fantasiosa desses fatos, preenchendo-os de elementos que não passam de especulações. Por vezes, Grace de Mônaco parece funcionar como uma espécie de fábrica de boatos que envolve até mesmo a caracterização de Rainier como um homem que oscila entre a insegurança e um excessivo ímpeto de controlar o espírito independente da sua esposa americana. Ao final, o que temos não é necessariamente um filme sobre parte da vida da Grace Kelly, mas de uma Grace Kelly inventada cujos dramas e motivações soam artificiais ou banais e o espectador pouco se importa com o que vê na tela, apenas espera ansiosamente por toda aquela ornamentação acabar (sim, porque se o filme tem alguma qualidade está em recursos como figurinos e direção de arte). A excessiva liberdade criativa que os realizadores tiveram com os Grimaldi (sim, porque tal qual um tablóide, Grace de Mônaco chega a faltar com ética em alguns momentos) não é eficiente nem mesmo para criar motivações e conflitos críveis a sua protagonista. Em nenhum momento o espectador sai com respostas sólidas a principal questão que surge ao longo do filme: Por que tanto drama? Qual a razão desses personagens estarem com os nervos à flor da pele?

Entre erros por todos os lados, afirmar que o longa prima por figurinos e direção de arte deslumbrantes seria oferecer migalhas a um filme cujo resultado é bem insatisfatório. Nem mesmo o desempenho de atores como Nicole Kidman (que já mencionamos parágrafos atrás), Tim Roth, Paz Vega e Parker Posey podem ser muito exaltados já que eles têm muito pouco material para trabalhar, tendo em vista que seus personagens são desenvolvidos de maneira confusa em seus propósitos e motivações. Portanto, se nem as interpretações animam, não é por culpa dos atores. Talvez Frank Langella saia levemente ileso na pele de Tucker, grande confidente de Grace Kelly no longa. 

Em meio à guerra pública que se transformou Grace de Mônaco, na qual os envolvidos diretamente na obra não assumem a culpa pelo "filho" concebido, ninguém é inocente. O diretor Olivier Dahan demonstrou ser um realizador controlador e intransigente, incapaz de dar ouvidos aos seus colaboradores. O roteirista Arash Amel, que mostrou-se realizado com os caminhos da produção, pulou covardemente para fora do "barco" no momento em que ele estava afundando. Já Harvey Weinstein e sua gana por prêmios foi imprudente ao comprar os direitos de um filme, do qual não participou em seu estágio embrionário, a partir de um clipe de pouquíssimos minutos exibido em Cannes no ano de 2013. A mítica protagonista de bombas cinematográficas em série Nicole Kidman também tem sua parcela de culpa, não por ter oferecido um trabalho mal feito, mas por ainda aceitar impulsivamente fazer parte de um filme como Grace de Mônaco. Não que atrizes, sobretudo na sua faixa etária, tenham de fato um poder de escolha na indústria do cinema, poucas têm as cartas nas mãos como Meryl Streep - dependem muito mais daquilo que lhes é oferecido e quando você encontra uma jovem como Anne Hathaway dizendo que tem encontrado dificuldades de achar papéis interessantes na sua idade é porque as coisas andam mesmo complicadas -, mas já está na hora de Kidman dizer alguns "nãos" para alguns "abacaxis" como esse. 



Grace of Monaco, 2014. Dir.: Olvier Dahan. Roteiro: Arash Amel. Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Geraldine Somerville, Jeanne Balibar, Roger Ashton-Griffiths, Derek Jacobi, André Penvern, Robert Lindsay. Playarte, 103 min

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Beasts of no Nation



Se não esbarrar em uma certa rigidez da Academia de Cinema de Hollywood, o drama Beasts of no Nation promete desestabilizar o reinado de muitos estúdios que sempre se gabaram de impor as cartas nos jogos das premiações cinematográficas do final do ano e trazer a primeira indicação ao Oscar para a Netflix. Promover alterações dentro da própria indústria, o longa parece já ter promovido - ainda que tenha sido uma transformação tardia tendo em vista que para a televisão a estratégia de lançamento de Beasts of no Nation é indiferente. O filme de Cary Fukunaga é a primeira produção original da Netflix no formato, sendo lançado simultaneamente (nos EUA) nos cinemas e no site da empresa. Para quem andou fora do planeta Terra nos últimos anos, a Netflix é uma empresa especializada na veiculação de obras audiovisuais via streaming, uma espécie de locadora virtual. Entre seriados, a companhia já produziu histórias originais como Orange is the New Black, Sense 8 e House of Cards, que desestruturaram relativamente o reinado da HBO na preferência do público e nas indicações ao Emmy, principal premiação da TV americana. Seria Beasts of no Nation, alardeado pela crítica especializada como um sério candidato ao Oscar, capaz de destronar a Weinstein Company, a Fox, a Warner e tantas outras empresas que dominam as premiações desde que o cinema era coisa exclusiva das salas de exibição?

Qualquer diagnóstico sobre a trajetória de Beasts of no Nation daqui pra frente é precoce e muita reviravolta promete ser dada até o anúncio de prêmios como o Globo de Ouro, SAG Awards, Oscar e cia. A batalha da Netflix será árdua, já que, ao contrário da TV, o cinema sempre se mostrou inflexível e tradicional diante das mudanças da indústria. As reações e a tentativa de convergência sofrem resistência de setores mais conservadores, basta pensarmos, por exemplo, na crise severa que a pirataria causou à indústria e nos discursos de conservação de antigas formas de se pensar o cinema que se proliferaram na ocasião e estão ai até hoje. É possível que a Netflix trave uma verdadeira cruzada durante a temporada e que se multipliquem as defesas em prol do culto cinéfilo nas salas de projeção, encarando Beasts of no Nation como um grande mal à sétima arte. Aliás, isso já está acontecendo pontualmente, basta ler algumas críticas contrárias ao filme de Cary Fukunaga.

Particularmente, Beasts of no Nation não fere em nada minha preferência pelo contato com uma obra cinematográfica na tela grande. O que desejo pontuar, antes de adentrar na análise do filme em si, é que é extremamente saudável a multiplicidade de maneiras de se ver um longa da sua importância. Democratiza o cinema, potencializa o processo de socialização da obra, torna o filme objeto de um debate de muitos ao invés de restringi-lo aos guetos de cinéfilos ratos de cineclube que encaram, equivocadamente, o filme apenas como arte.

Feita esta longuíssima observação, vamos ao longa. Beasts of no Nation conta a história de Agu (Abraham Attah), um menino africano que presencia a morte de seu pai e irmão durante uma ação de militares na guerra civil. Agu é recrutado por um severo comandante (Idris Elba) que forma um exército de crianças preparadas para resistir à invasão inimiga e matar o grupo rival à sangue frio. No decorrer do tempo, Agu vai percebendo o tipo de ser humano que ele se transformou a partir do momento em que a guerra entrou na sua vida.

Cary Fukunaga (da primeira temporada de True Detective e da adaptação Jane Eyre, com Mia Wasikowska e Michael Fassbender no elenco) traz uma história de uma realidade marcada pela barbárie que devasta tudo ao seu redor: ética, cidades, vidas, famílias e principalmente a inocência. A herança de Cidade de Deus está presente em todo o filme de Fukunaga. No filme de Fernando Meirelles, acompanhávamos a formação de um psicopata através da trajetória de Zé Pequeno e sua completa contraposição representada por Buscapé, jovem que mantém-se afastado do crime mesmo vivendo sua realidade 24 horas por dia. A diferença de Beasts of no Nation para Cidade de Deus é que o filme de Fukunaga apresenta este confronto na figura de um único personagem que oscila entre crises de consciência a cada sequência em que se depara com o inferno do qual acabou aceitando fazer parte. Este personagem é interpretado com muita maturidade pelo jovem Abraham Attah, que carrega o delicado e conflituoso arco dramático de Agu nas costas.

Estas comparações com Cidade de Deus são pertinentes para que pontuemos que Cary Fukunaga não "descobriu a pólvora". Beasts of no Nation é uma variação desse cinema que busca entender  determinadas mazelas sociais desenhado a trajetória do seu protagonista de maneira épica, dramaticamente empática. Quando tal comparação é feita não é para desmerecer o trabalho de Fukunaga, mas para localizá-lo no cenário contemporâneo. Beasts of no Nation é um filme de fôlego, inspirado na utilização dos recursos da linguagem cinematográfica e narrativamente eficiente. As transformações em Agu são mostradas ao longo do filme de maneira que fiquemos chocados e enternecidos com a infância lhe escapando pelos dedos. Muito mais do que realizar um tratado sociológico em torno do seu tema, Fukunaga faz de Beasts of no Nation uma obra universal que trata da natureza humana sem estabelecer compromissos com o tempo ou com o espaço dos seus acontecimentos. Isso é bastante positivo no filme.  

Com um excelente elenco - é preciso dizer que Idris Elba está formidável na pele do monstruoso comandante que recruta Agu -, Beasts of no Nation é um atestado da competência de condução narrativa de Cary Fukunaga. Trata-se, contudo, de um filme que promete ficar marcado na história do cinema muito mais pelo seu contexto de produção do que por uma inventividade ou vanguardismo estético. Cinematograficamente, o longa de Cary Fukunaga tem precedentes e referenciais que de maneira alguma o inferiorizam, pelo contrário, reforçam seus valores ao vinculá-lo a um determinado olhar sobre a humanidade. Agarrando-se na emoção e na empatia do público com a história de uma infância roubada, Beasts of no Nation é um longa satisfatório que mexe com a sensibilidade de qualquer espectador.


Beasts of no Nation, 2015. Dir.: Cary Fukunaga. Elenco: Abraham Attah, Idris Elba, Emmanuel Nii Adom Quaye, Emmanuel Affadzi, Ama K. Abebrese, Kobina Amissah-Sam, Fred Nii Amugi, Francis Weddey, 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ponte dos Espiões



O lado mais "sério" da filmografia de Steven Spielberg poucas vezes me animou. Ao mesmo tempo em que ele foi capaz de criar verdadeiras obras-primas abordando temas contundentes em universos realistas, como A Lista de Schindler ou O Resgate do Soldado Ryan, o diretor concebe um filme aborrecido e verborrágico como Lincoln (conclusão que cheguei após uma revisão do longa, já que meu primeiro contato com ele foi bem amistoso) ou até mesmo Amistad. O Spielberg escapista sempre me pareceu mais sedutor e sem auto-censura, um cineasta que não condena as suas próprias inclinações com a emoção escancarada, o universo da infância e a imaginação sem limites. Particularmente, prefiro esse Spielberg que fez minha infância com a franquia Indiana Jones, Jurassic Park e E.T. - O Extraterrestre a versão mais "controlada" e sisuda do diretor. Ponte dos Espiões pertence ao grupo dos longas "sérios" da carreira do realizador, nos coroando com sua leitura sobre a Guerra Fria. Ainda bem que, mesmo que seja um Spielberg realista, Ponte dos Espiões é um longa que caminha na mesma linha de excelência de A Lista de Schindler O Resgate do Soldado Ryan e evita os caminhos de Lincoln ou Amistad.

Ambientado na Guerra Fria, Ponte dos Espiões conta o caso verídico de um advogado que trabalhava com conflitos judiciais envolvendo seguros e foi convocado para defender um espião soviético preso pelo governo norte-americano. No decorrer do julgamento, o protagonista acaba sendo enviado para Berlim a fim de que possa negociar a libertação do espião em troca de um agente norte-americano capturado pelos soviéticos. 

Ponte dos Espiões é um filme cujas ações ocorrem quase que em sua totalidade nas conversas e negociações de gabinete que são protagonizadas pelos seus personagens, algo bem parecido com o que Spielberg fez em Lincoln. Porém, curiosamente, Ponte dos Espiões evita a pomposidade do longa anterior do diretor e opta até mesmo por um certo bom humor para tornar a história fluida - nisso, a co-autoria do roteiro pelos irmãos Coen deve ter favorecido o filme. Spielberg consegue transpor para a  tela o clima da Guerra Fria em suas paranóias, conversas sigilosas e a tensão acobertada pelo clima de uma falsa amistosidade.

É certo que ao inserir todas as ações do longa em ambientes fechados como escritórios, salas de audiência e gabinetes, Spielberg acaba fazendo com que seu filme não tenha tantos momentos visualmente icônicas como o restante da sua filmografia, que entre tantas referências visuais podemos listar a violenta sequência do ataque na praia de Omaha em O Resgate do Soldado Ryan ou a inesquecível bicicleta voadora em E.T. - O Extraterrestre, mas seria incoerente o realizador encher Ponte dos Espiões desses momentos, afinal estamos tratando de um período pós-Segunda Guerra Mundial marcado pela presença de conflitos e do receio de levá-los da "porta para fora". A sobriedade e o cuidado com os excessos são fundamentais e revelam-se como escolhas acertadas do realizador. 

À frente do seu filme, Spielberg conta com Tom Hanks que confere não apenas credibilidade ao protagonista mas também a empatia do público, já que seus propósitos, profissionais ou familiares, são compreensíveis e passíveis de admiração. Ponte dos Espiões conta ainda com a presença de um verdadeiro achado chamado Mark Rylance, ator que interpreta o espião soviético Rudolf Abel, peça central da negociação EUA e União Soviética mostrada no filme. Mark Rylance é responsável por uma composição meticulosa e muito interessante, transformando Rudolf Abel em um tipo peculiar, mas não uma caricatura através do seu jeito calmo, olhar pacífico e sua voz suave . Rylance já venceu prêmios importantes do teatro como o Olivier e o Tony, foi indicado ao Emmy por seu papel na minissérie Wolf Hall e tem chances de ser indicado ao Oscar por esse longa. Se ocorrer a nomeação, será bem merecido.

 Nada burocrático ou aborrecido, Ponte dos Espiões é um filme que aborda questões históricas e políticas sérias sem esquecer do seu aspecto humano e, consequentemente, da sua conexão com o espectador. É claro que nos minutos finais do seu filme, Steven Spielberg não se esquece de sublinhar o esforço empreendido pelo seu protagonista, alçando-o a categoria de herói sem concessões. Não estaríamos falando de um filme de Steven Spielberg caso o longa não apresentasse este arco dramático. O que importa é que Ponte dos Espiões consegue ter consistência, coerência e logicidade interna, aspectos que não chegam a transformá-lo em mais uma obra-prima de Steven Spielberg (está difícil encontrá-la na filmografia recente do diretor), mas, pelo menos, em um excelente filme. 


Bridge of Spies, 2015. Dir.: Steven Spielberg. Roteiro: Matt Charman, Joel e Ethan Coen. Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Amy Ryan, Alan Alda, Austin Stowell, Will Rogers, Domenick Lombardozzi, Joshua Harto, Billy Magnussen. Fox. 142 min. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Goosebumps - Monstros e Arrepios



Sucesso da década de 1990 graças à imaginação do escritor R.L. Stine, a série literária de terror juvenil Goosebumps ganha uma nova versão cinematográfica em 2015. Goosebump também já virou série pela Fox, que trazia diversas histórias publicadas em cerca de sessenta livros, cada uma com universos e personagens diferentes. Tratava-se de um apanhado de narrativas feitas para o público infantil e adolescente, trazendo tramas com fantasmas e monstros que não necessariamente metem medo em um público mais experiente. A proposta de Stine é abordar tudo com muito humor em narrativas que geralmente trazem jovens em meio ao universo fantástico proposto pelo autor quando se mudam para um novo bairro e acabam de passar por eventos traumáticos.

O longa de Rob Letterman inicia sua história nos apresentando a um desses jovens, Zach, interpretado, Dylan Minnette. Ele acaba de se mudar para Greendale, no estado de Maryland, com sua mãe Gale, personagem da atriz Amy Ryan. Zach e Gale mudam-se para a cidade após um evento traumático na família e têm que se adaptar a nova vida na escola local, onde ele entra como calouro entre os alunos e ela passa a trabalhar na diretoria. A vida de Zach é colocada de cabeça para baixo quando ele conhece o seu estranho vizinho, interpretado pelo ator Jack Black, e sua filha Hannah, por quem o protagonista se apaixona. Inesperadamente, esta relação será o estopim para a libertação de uma série de estranhas criaturas aprisionadas em um outro universo e que passam a infernizar a vida dos moradores de Greendale. 

Tendo feito sua carreira basicamente na animação, com produções como Monstros vs. Alienígenas e O Espanta Tubarões - o único trabalho dele com atores de carne e osso foi um nada animador As Viagens de Gulliver, também com Jack Black no elenco - Rob Letterman demonstra outro fôlego em Goosebumps. Goosebumps - Monstros e Arrepios é um produto bem mais interessante na carreira do diretor. Com o roteiro de Darren Lemke (Jack, o caçador de gigantes), Letterman faz um filme metalinguístico que se enquadra na mesma categoria de alguns dos melhores filmes do gênero para públicos juvenis e que já se tornaram os icônicos clássicos da "Sessão da Tarde" dos anos 90, uma espécie de Jumanji dos nossos tempos, com todas as criaturas concebidas por R.L. Stine invadindo o mundo real e muita correria, gags, adolescentes lidando com a descoberta do amor e um adulto de passado conturbado, mas suavizado pelo humor e pelo carisma de uma figura como Jack Black.

Estruturalmente, Goosebumps - Monstros e Arrepios não subverte nenhuma regra, nem precisaria, sua proposta não é essa. A ideia é se apoiar em marcas do modelo de narrativa da "aventura juvenil" e entregar um filme que reverencia não apenas a série literária de R. L. Stine como também a série de TV que os contos originaram. Os responsáveis por essa adaptação inseriram figuras icônicas desse universo, incluindo a mais representativa de todas elas, o boneco de ventríloco Slappy, além disso encontram no filme uma forma de homenagear o seu escritor através do personagem de Jack Black. 

Divertido e afetuoso, Goosebumps - Monstros e Arrepios é uma aventura juvenil que demonstra potencial para agradar públicos de diversas faixas e com diversos tipos de relação com a obra original, ou seja, iniciados ou não na série de Stine irão se esbaldar. Rob Letterman conseguiu criar o seu próprio parque de diversões nostálgico com uma pontinha de originalidade e um tratamento interessante a universos já concebidos em outra plataforma. Em suma, ele foi certeiro. 


Goosebumps, 2015. Dir.: Rob Letterman. Roteiro: Darren Lemke. Elenco: Jack Black, Dylan Minnette, Amy Ryan, Odeya Rush, Ryan Lee, Jillian Bell, Ken Marino, Halston Sage, Steven Krueger, Keith Arthur Bolden, Timothy Simons, Amanda Lund. Fox. 103 min. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A Colina Escarlate



Se formos enquadrar A Colina Escarlate em um gênero, o filme poderia ser classificado com mais propriedade como um romance de horror ou romance gótico. A força motriz do novo longa de Guillermo Del Toro (O Labirinto do Fauno) são as paixões que mobilizam todos os seus personagens, toda a história é centrada no amor vivido por Edith Cushing (Mia Wasikowska) e Thomas Sharpe (Tom Hiddleston). Contudo, o caminho dos amantes é atravessado por medos da infância, fantasmas, uma casa repleta de segredos e violentos assassinatos, enfim, tudo com o "gostinho de sangue" que Del Toro adora. Esta mistura de romance vitoriano e terror, no entanto, funciona parcialmente. Se, por um lado, existe toda uma atmosfera que parece contribuir para as intenções do realizador e sua trama consegue prender o espectador até a metade da sua projeção com manutenção dos segredos por trás da relação entre os irmãos Sharpe (Hiddleston e Jessica Chastain), por outro, Del Toro perde-se na contemplação do seu próprio estilo e oferece ao espectador revelações previsíveis e um romance que não empolga em nenhum momento o público.

Ambientado nos EUA e na Inglaterra do século XIX, A Colina Escarlate traz a história de Edith Cushing (Mia Wasikowska), uma jovem escritora que se apaixona por Thomas Sharpe (Hiddleston), um inglês misterioso que logo ganha a antipatia do pai da moça. Edith insiste na relação e se casa com Sharpe, partindo para a Inglaterra junto com ele e sua fria irmã mais velha, Lucille (Jessica Chastain). Os três passam a morar no casarão da família Sharpe e Edith começa a presenciar eventos sobrenaturais que confirmam premonições que ela teve na infância: o lugar não é nada amistoso e sua vida corre um sério risco se ela permanecer lá.

Talvez a grande "sacada" de A Colina Escarlate seja salientar que o mundo dos vivos é muito mais assustador, perigoso e doentio do que o mundo dos mortos, mas o grande problema do filme é lidar com o seu romance central. A história de Edith e Thomas não chega a ser inspiradora e isso é problemático para o filme sobretudo se pensarmos que trata-se do seu grande mote. Apesar de toda a atmosfera gótica que Del Toro sabe oferecer como ninguém ao público, o realizador não consegue sustentar sua história de amor, detectada pela plateia apenas pelas palavras proferidas pelos personagens, jamais ela é de fato sentida por quem está do outro lado da tela.

Tecnicamente, A Colina Escarlate enche os olhos, fazendo do seu visual um dos elementos responsáveis por conferir a atmosfera sombria que virou marca do Del Toro, mas nada que surpreenda. Trata-se de uma variação daquilo que já conhecemos em O Labirinto do Fauno, A Espinha do Diabo e a franquia Hellboy. Sobre o elenco, Mia Wasikowska, Tom Hiddleston e Charlie Hunnam estão corretos em seus respectivos papéis, mas não resta dúvidas ao final da projeção que a grande performance desse longa é a de Jessica Chastain. A despeito das revelações em torno da sua personagem não serem nada surpreendentes, a atriz consegue ser precisa na composição de Lucille, uma mulher que tenta esconder suas obsessões por trás de uma persona fria e austera.

Falhando por uma certa falta de sensibilidade do realizador naquilo que deveria ser mais à flor da pele na história, A Colina Escarlate não é um desastre na carreira de Guillermo Del Toro, trata-se de um filme no qual a sintonia do cineasta não está na mesma frequência da sua narrativa. A Colina Escarlate não evoca a passionalidade que deveria evocar e por vezes fica emperrado no admirável senso estético do realizador. Se em O Labirinto do Fauno ou A Espinha do Diabo, Del Toro soube lidar com o choque entre o universo inocente da infância e os monstros e fantasmas do nosso imaginário, em A Colina Escarlate o romance de Edith e Thomas causa indiferença no espectador e o horror fica somente na exposição visual, sendo poucas vezes sentido. Em suma, falta sensorialidade e sobra estilo.


Crimson Peak, 2015. Dir.: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo Del Toro e Matthew Robbins. Elenco: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Doug Jones, Burn Gorman, Leslie Hope, Jonathan Hyde, Bruce Gray. Warner. 119 min 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sicario - Terra de Ninguém



Desde que foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro por Incêndios, o canadense Denis Villeneuve tem colhido frutos interessantes aqui e ali, estabelecendo-se como um realizador de filmografia diversificada e de volumosa repercussão. Do enervante Os Suspeitos, provavelmente um dos melhores longas do gênero suspense nesta década, ao divisivo O Homem Duplicado, adaptação do livro homônimo de José Saramago, Villeneuve tem conseguido se firmar e ser disputado por estúdios, atores e roteiristas de Hollywood. Sicario - Terra de Ninguém é mais um exemplar dessa lista, tendo colhido muitos elogios na última edição do Festival de Cannes e, após a sua recente estreia no circuito comercial norte-americano, começa a ser apontado como um dos títulos com potencial de angariar indicações ao Oscar em 2016. O mais recente longa do realizador canadense tem os seus bons momentos, sim, mas também revela-se como um dos mais mornos exemplares da carreira do diretor. 

Em Sicario, uma policial do FBI (Emily Blunt) é escolhida e aceita participar da caçada ao líder de um cartel de drogas do México. A protagonista acaba enredada em uma trama de corrupção e violência que coloca sua rigidez ética à prova, sobretudo quando ela passa a trabalhar com um homem misterioso que parece conhecer como ninguém o funcionamento da guerra do tráfico na América Central.  

Fotografado impecavelmente por Roger Deakins - sim, porque, nesse caso, comentar sobre o trabalho de Deakins nunca é uma menção residual a fotografia -, Sicario é um filme tenso do início ao fim e Villeneuve consegue construir toda essa atmosfera de incertezas ao lado do veterano diretor desse departamento. É uma pena que, no caso de Sicario, o espectador fique mais impactado por esse programa de efeitos proporcionado pelo realizador do que pela trama em si, que, por sinal, parece uma versão de A Hora mais Escura porém ambientado na guerra contra o tráfico no México - até as imagens infra-vermelho da Kathryn Bigelow o Denis Villeneuve usa em determinado momento. 

Emily Blunt está excelente no longa e é um dos melhores elementos da história. Na pele da agente Kate Macer, Blunt consegue percorrer todos os dilemas éticos e morais pelos quais a policial passa em sua missão no México. O mesmo pode ser dito de Benício Del Toro que tem na impassibilidade do seu olhar um instrumento capaz de dimensionar a dor, a raiva e a obstinação do seu personagem diante do seu grande objetivo. Por fim, Josh Brolin chama pontualmente para si diversos momentos do longa com um personagem repleto de senso de humor, mas de caráter questionável. É verdade que o filme falta com o público e com o próprio elenco por não se aprofundar nos fantasmas dos seus personagens, mas os atores conseguem "dar conta do recado" em todos os momentos em que são solicitados.

Apesar de encher os olhos do público com excelentes tomadas e uma precisão técnica usual na carreira do diretor, ao final de Sicario as conclusões de Villeneuve sobre sua história são absurdamente "lugar comum", todas simplificadas ao subtítulo brasileiros do longa: estamos diante de uma terra de ninguém. Seria preciso bem mais do que isso para fazer do filme uma obra que refletisse de fato sobre os problemas que pretende abordar e sobre a natureza dos seus próprios personagens cuja complexidade é alcançada em parte graças ao excelente trabalho do seu trio principal, jamais por esforços de Villeneuve e muito menos do seu roteirista Taylor Sheridan. 


Sicario, 2015. Dir.: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan, Julio Cedillo, Hank Rogerson, Kevin Wiggins. 121 min. Paris Filmes. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Drops: Grandes Olhos




Grandes Olhos é um filme peculiar na carreira do Tim Burton. O realizador de longas como Os Fantasmas se Divertem, Edward Mãos de Tesoura A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça sempre fez questão de imprimir as suas marcas estilísticas em sua filmografia, todas elas reconhecidas até mesmo pelo menos iniciado dos cinéfilos. Eis que Burton realiza Grandes Olhos, filme que em nada lembra a filmografia do realizador e que conta a história real da pintora Margaret Keane e sua complicada relação com seu marido Walter, que lhe usurpou a autoria de todos os seus famosos quadros estabelecendo uma dinâmica familiar de dominação e submissão com ela. Para muitos, essa neutralidade do gênio de Burton em Grandes Olhos era motivo de celebração, afinal a estética do diretor foi responsável pelo seu sucesso nos anos 80 e 90, mas também pelo seu desgaste nos anos 2000 com filmes absolutamente esquecíveis como Sombras da Noite ou Alice no País das Maravilhas, marcados por um excessivo destaque visual e um completo desleixo em sua narrativa. Grandes Olhos é um filme mais sóbrio na carreira do diretor sim, mas nem por isso é um de seus trabalhos mais interessantes, pelo contrário, talvez um dos piores. Burton se apaga completamente no filme e entrega uma história sem pulso e energia. A apatia é tão grande que a impressão que fica é a de que o diretor tem completo desinteresse no drama dos Keane. Entregue a um roteiro raso e cheio de frases de efeito digna dos piores dramalhões mexicanos, Burton dirige o seu filme como se estivesse realizando um telefilme em início de carreira. Como se não bastasse tudo isso, o diretor ainda entrega uma performance canastrona do ótimo Christoph Waltz, que transforma Walter em uma espécie de mitômano, e uma Amy Adams apenas correta. 

domingo, 11 de outubro de 2015

Drops: A Espiã que sabia de Menos



Paródia dos filmes de espionagem - para ser mais específico, a franquia 007- A Espiã que sabia de Menos é a mais recente parceria do diretor Paul Feig e da atriz Melissa McCarthy, que juntos fizeram Missão Madrinha de Casamento. Parte do sucesso desse novo produto da dupla tem o dedo de McCarthy e seu incontestável talento para a comédia, mas também a Feig, que vem se mostrando como um realizador que leva o gênero com a paradoxal seriedade que deve ser encarado. No longa, McCarthy vive a assistente de um agente da CIA que se oferece para a missão de evitar que uma bomba cause um desastre de proporções globais. McCarthy explora todas as possibilidades cômicas que a inserção dessa personagem completamente comum no mundo da espionagem pode oferecer e brinca com todas as marcas dos filmes do gênero, incluindo uma curiosa dinâmica sexual com seus parceiros do sexo oposto. A atriz está acompanhada de um elenco irretocável, todos em atuações muito interessantes: Jude Law, Rose Byrne, Allison Janney, Miranda Hart, Peter Serafinowicz e até mesmo Jason Statham (!!!). Adicionem a esse delicioso elenco, um roteiro inspirado que acerta ao ter de fato uma trama consistente que tem o humor como sua linguagem e temos uma das grandes e mais merecidas "galinhas dos ovos de ouro" da Hollywood atual, um combo que promete se repetir na nova versão de Os Caça-Fantasmas que chega aos cinemas em 2016.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Peter Pan



Peter Pan, no original somente Pan, nasceu como um projeto que traria para o público as origens dos personagens criados por J.M. Barrie em seu homônimo. Como Peter foi parar na Terra do Nunca? Como ele se tornou o líder dos Garotos Perdidos? E, ainda, como Peter conheceu aquele que mais tarde viria a ser o seu maior inimigo, o capitão Gancho? O filme, portanto, se apresenta como uma variação de uma tendência recente em Hollywood de adaptações de contos de fadas em live action. Em Peter Pan, ao invés de preservar a história tal qual a conhecemos, o diretor Joe Wright e os produtores responsáveis resolveram buscar nas origens do personagem a verdadeira razão de ser do filme em meio a tantas leituras do mesmo universo. As intenções são muito bem-vindas e até certo ponto Wright consegue imprimir uma certa originalidade na sua versão de Peter Pan, o problema é que depois de meia hora de projeção a história desanda e o que o público acompanha é um exemplar genérico e completamente supérfluo do gênero fantasia que não cumpre nem a metade da sua proposta inicial. 

Como já adiantamos, Peter Pan traz a história da origem do personagem icônico das histórias infantis. O diretor Joe Wright e o roteirista Jason Fuchs iniciam a sua trama com Peter sendo deixado pela sua mãe em um orfanato administrado por freiras. Peter cresce em meio às injustiças e maus tratos do lugar até que durante uma madrugada é capturado por piratas a mando do perverso capitão Barba Negra, para quem passa a trabalhar nas minas da Terra do Nunca. Lá, Peter conhece um jovem chamado James Gancho e descobre que está predestinado a liderar o povo da Terra do Nunca contra as maldades de homens como Barba Negra.

À primeira vista, Joe Wright parece ser o diretor ideal para conduzir a releitura de qualquer clássico. O realizador fez maravilhas com sua "trilogia" protagonizada por Keira Knightley, tornando possível não apenas a adaptação para as telonas de textos de autores tão diversos e difíceis como Jane Austen (Orgulho e Preconceito), Ian McEwan (Desejo e Reparação) e Leo Tolstoy (Anna Karenina) como também pertinente o seu olhar cinematográfico particular para a proposta desses escritores em seus respectivos livros. Em Peter Pan, o Joe Wright inquieto e inventivo parece estar presente apenas em meia hora de projeção para logo ceder lugar a um diretor que está apenas cumprindo a sua função de empregado de um estúdio interessado em fornecer ao espectador um blockbuster genérico. 

O início de Peter Pan é relativamente interessante. A dinâmica de Peter e os garotos no orfanato, o sequestro do protagonista pelo grupo do Barba Negra e a apresentação do vilão de Hugh Jackman ao som de "Smells like teen spirit" do Nirvana são os pontos altos do filme. Logo em seguida Peter Pan se transforma em um remedo de tramas e ações que não capturam a atenção do espectador, que fica indiferente ao destino do seu protagonista até o desfecho do filme. 

Há uma série de referências ao clássico de J. M. Barrie, entre eles a origem dos nomes Gancho, Sininho e Garotos Perdidos, mas tudo é tão evidente que nenhum desses momentos chega a ser fruto do brilhantismo dos seus realizadores, por exemplo, O que fica mais evidente, no entanto, é a maior lacuna em Peter Pan: o longa não entrega as razões para a transformação do Gancho no vilão que conhecemos. Acreditando pretensiosa e gananciosamente que o filme terá uma continuação direta (o que hoje não é uma garantia), os envolvidos resolvem postergar o momento, fazendo com que Peter Pan perca o seu principal mote e aquele que poderia ser um clímax dramático que tiraria a narrativa da completa pasmaceira. 

Com atores do porte de Hugh Jackman, Garrett Hedlund e Rooney Mara sem ter muito o que fazer em cena e com Levi Miller como um jovem protagonista que não compromete o longa, mas também não consegue cativar a plateia, Peter Pan mostra-se como um filme completamente banal, algo inédito na carreira de Wright, que mesmo em filmes considerados medianos e de pouca repercussão como O Solista ou Hanna fazia questão de deixar sua forte personalidade prevalecer na história. O que vemos em Peter Pan é um filme que não consegue cumprir o que prometera ao seu público. O longa parece preferir perder o seu tempo com sequências de ação redundantes, romances que não dizem a que veio e referências ao original jogadas de qualquer jeito na tela ao invés de gerar qualquer empatia espontânea na sua plateia. 


Pan, 2015. Dir.: Joe Wright. Roteiro: Jason Fuchs. Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Amanda Seyfried, Cara Delevingne, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Kathy Burke, Lewis McDougall. Warner. 111 min.  

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Travessia



O que vemos ser narrado em A Travessia já nos foi contado no documentário O Equilibrista. Em 1974, o francês Philippe Petit realizou um feito impressionante, fez uma travessia entra as torres do World Trade Center se equilibrando em um cabo de aço que ligava o topo dos dois prédios. Um ato de muita coragem e destreza física, mas também de valor performático. De maneira bem criativa e tecnicamente irrepreensível, mas também muito simples na produção dos efeitos da sua mensagem, A Travessia narra essa mesma história com uma aplicação pertinente do 3D - um dos raros casos em que o formato faz toda a diferença na experiência e serve aos propósitos da narrativa - e com um tom lúdico dado por um Robert Zemeckis que recria a beleza do feito de Petit. 

Como antecipamos, A Travessia conta a história de Philippe Petit até o ato que levou o seu nome ao reconhecimento mundial, a sua performance no topo das torres do WTC. No longa, o diretor Robert Zemeckis procura entender as razões que levaram Petit a buscar obsessivamente a travessia dos prédios do WTC através de cabos de aço. O cineasta explora o fascínio de Petit pelo circo, seu convívio com aquele que foi o seu grande mentor e sua ida a Nova York para realizar o seu feito em um dos projetos arquitetônicos urbanos mais conhecidos do mundo e que na ocasião estava sendo inaugurado. 

O grande benefício de A Travessia é contar com um realizador como Robert Zemeckis à frente da concepção visual e narrativa da sua história. Em tom levemente fabular, Zemeckis reconta a trajetória de Philippe Petit em primeira pessoa de forma muito agradável, não repetitiva e espirituosa. O acerto do realizador é entender que o feito do equilibrista nada tem a ver com o anseio por chegar a uma marca, mas sim à busca obstinada de um artista pela sua obra-prima e pelo reconhecimento público dela. Assim, percebemos como o olhar de Zemeckis para uma trama que poderia ganhar contornos motivacionais e um tom de manual de auto-ajuda faz toda a diferença na condução do filme. Aliás, a estrutura e o programa de efeitos de A Travessia são os pontos altos do longa. O diretor acerta ao conferir um tom lúdico e leve no primeiro ato, preencher o "miolo" da narrativa com a engenhosa trama de elaboração do plano de "invasão" das torres e no final oferecer uma das melhores experiências em 3D produzidas pelo cinema atual.

Como experiência, A Travessia tem um dos usos mais eficientes, pertinentes e coerentes do 3D. O recurso é essencial para fazer com que o público realize uma imersão na história. Os ângulos construídos com o auxílio de recursos tecnológicos que captam as torres de cima são essenciais para proporcionarem às plateias a sensação de profundidade. Tudo isso faz com que no último ato de A Travessua o público não desgrude da poltrona. Com seu 3D, Zemeckis mantém o filme, ao mesmo tempo, em estado de apreensão e contemplação. 

Contando com uma correta interpretação de Joseph Gordon-Levitt, que interpreta o protagonista francês sem incomodar com as usuais tintas que os sotaques costumam ganhar em sua versão hollywoodiana, A Travessia é um trabalho certeiro de Robert Zemeckis que, assim como o seu protagonista Philippe Petit, tenta encontrar a beleza nos lugares e feitos mais improváveis. A Travessia acaba sendo um feito técnico à serviço de uma cartela de sensações que proporciona ao espectador, mostrando-se como uma obra esteticamente impecável que não se mutila em prol de um estúdio ou do "cinema de arte", mas busca negociar aquilo que o cinema sempre se propôs, a tecnologia e a sensibilidade. 


The Walk, 2015. Dir.: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, Clément Sibony, James Badge Dale, Ben Schwartz, Steve Valentine, Sergio Di Zio. Sony. 123 min