segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Drops: Victor Frankenstein



A clássica história de Mary Shelley sobre o jovem e ambicioso cientista Victor Frankenstein que fez as vezes de Deus ao conceber a vida a um monstro formado por partes de corpos de pessoas mortas talvez tenha sido uma das histórias mais exploradas pelo cinema. Esta versão intitulada Victor Frankenstein tem como intuito narrar em minucias os eventos que antecederam a criação do monstro de Frankenstein e o encontro entre Victor e seu fiel ajudante, o corcunda Igor. Dirigido por Paul McGuigan, de Xeque-Mate e Herois, Victor Frankenstein sofre de uma visível dispersão ao não saber se centra as suas atenções nos conflitos pessoais de Igor e sua visão particular sobre a história de Frankenstein ou se esmiúça a questionável conduta ética do cientista vivido por James McAvoy. No meio do caminho, o filme deixa o espectador sem motivação para acompanhar sua trama. Certas reflexões sobre a ética e a natureza humana, que são parte da essência da própria história de Shelley, se perdem em meio a tramas amorosas pouco produtivas e a uma crise de consciência abrupta de Victor Frankenstein no último ato da história. A atuação de Daniel Radcliffe como Igor, talvez um elemento central na trama, pouco chama a atenção em função de características do personagem que se perdem em meio ao imperativo de uma narrativa heróica romântica, e James McAvoy está um pouco acima do tom ao retratar Victor como um completo lunático. Tecnicamente o filme é irrepreensível e como entretenimento pode até valer o ingresso em determinados momentos, mas parece estar bem aquém da proposta inicial de McGuigan para a história. 

domingo, 29 de novembro de 2015

Drops: American Ultra - Armados e Alucinados



Em American Ultra - Armados e Alucinados, Jesse Eisenberg e Kristen Stewart vivem o que deveria ser um casal de viciados em drogas inserido em uma trama repleta de conspirações políticas e informações sigilosas do governo norte-americano. Acontece que o maior problema do filme é que o diretor Nima Nourizadeh tenta criar uma comédia de ação, mas não consegue dosar o humor com as sequências de ação e violência gráfica, ou melhor, o diretor não consegue em momento algum tornar o seu filme naturalmente leve, o que seria fundamental aos seus propósitos no subgênero. American Ultra - Armados e Alucinados é um filme que se leva a sério demais para um projeto que tem a premissa que possui. Assim, ainda que conte com uma química boa entre Jesse Eisenberg e Kristen Stewart e tenha no elenco figuras interessantes como Connie Britton e Topher Grace, que parece ser o único a compreender o "espírito descompromissado da coisa", o filme não decola. Por ser sisudo demais, American Ultra estaciona, torna-se algo difícil de se descrever ou atribuir valor. Como longa sério de ação, a história não "cola" e gera desinteresse no público. Como narrativa pop, o filme não consegue ser enfático como os longas de Matthew Vaughn (Kick-Ass, Kingsman), por exemplo, um dos diretores que mais sabem mesclar ação e comédia em uma roupagem como a que esse longa exige. O caminho que Nima Nourizadeh reserva a American Ultra é a completa indiferença e indefinição sobre o que o filme realmente quer ou representa em seu próprio contexto cinematográfico. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A Visita



Desde a metade da década passada o cineasta M. Night Shyamalan, que fez fama após o retumbante sucesso de O Sexto Sentido, amarga um fiasco atrás do outro. Alvejado pela crítica e pelos péssimos números nas bilheterias de filmes como A Dama na Água, Fim dos Tempos, Depois da Terra e O Último Mestre do Ar, Shyamalan e sua filmografia viraram motivo de piada em Hollywood, sobretudo porque o cineasta fora lançado em 1999 com o rótulo de "o novo Hitchcock". O terror A Visita é anunciado como o retorno do realizador à boa forma, algo que em parte se justifica já que o longa possui ideias interessantes, mas, por outro lado, soa precipitado, afinal o filme possui alguns problemas que emperram a história e sabotam o próprio fluxo criativo do realizador. 

A Visita conta a história de dois irmãos que são mandados pela mãe para a casa dos avós já que ela passará alguns bons dias em uma merecida viagem de férias. O casal de idosos mora em uma fazenda isolada de tudo e os garotos, que filmam a rotina da visita para um documentário, começam a estranhar o comportamento deles. Essa experiência fará com que muitas questões mal resolvidas nas relações dessa família sejam solucionadas, como o passado conturbado entre a mãe dos jovens e os seus pais e uma mágoa da irmã mais velha com o seu pai, que abandonara mulher e filhos de maneira abrupta e sem justificativa aparente. 

Em A Visita, M. Night Shyamalan resolve explorar uma das "meninas do olhos" do cinema de terror contemporâneo, o found footage, recurso pelo qual o espectador acompanha a trama pela perspectiva de um personagem que filma os acontecimentos da narrativa em uma câmera caseira. A câmera em primeira pessoa de Shyamalan em A Visita funciona em parte: se por um lado o realizador consegue tornar o formato orgânico a sua própria história e personagens, por outro soa repetitivo diante de tantos longas que já usaram o recurso e também vira uma muleta da qual o cineasta não consegue se desgarrar em momentos necessários (pense, quem conseguiria continuar preocupado com a gravação de um filme diante da ocorrência de acontecimentos tão macabros consigo mesmo? Os personagens do filme conseguem). 

Por outro lado, fica evidente que A Visita é um dos filmes mais bem resolvidos da carreira recente de Shyamalan, cujo último trabalho relevante foi A Vila de 2004, que ainda assim teve os seus "detratores" declarados na época do seu lançamento. O filme não chega a ser comparado a O Sexto Sentido, inegavelmente o seu melhor trabalho, mas consegue construir uma narrativa fluida, utilizando muito bem as marcas do seu próprio gênero e deixando o espectador instigado pelo desfecho da sua história. 

Há uma cena ao final do longa completamente desnecessária que evidencia uma espécie de mea culpa do diretor, que não satisfeito em construir um filme de terror digno sente a necessidade de transformá-lo em algo mais do que isso. Me pergunto, para que? Deixando qualquer "birra" de lado, A Visita tem mais pontos positivos a serem mirados do que negativos, prova de que umas boas bordoadas da opinião pública, quando merecidas, não faz mal a ninguém. É um filme eficiente aos seus propósitos e por seus defeitos e qualidades estimula a discussão sobre o seu próprio valor. Afinal, se existe algo que não podemos negar na carreira de Shyamalan é que ele suscita a divergência de percepções acerca da sua própria obra e isso é extremamente salutar. 


The Visit, 2015. Dir.: M. Night Shyamalan. Roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn, Celia Keenan-Bolger, Samuel Stricklen, Patch Darragh, Jorge Cordova. 94 min. UIP. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Drops: Cidade de Deus 10 anos depois



Se há um capítulo na história recente do cinema brasileiro que não há como ser "pulado" é aquele protagonizado por Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles que, entre muitas glórias, coleciona uma passagem alvoroçada por Cannes, um debate acalorado no Brasil sobre os novos horizontes estéticos e narrativos do cinema nacional, uma "gorda" bilheteria não apenas por aqui mas em todo o mundo e quatro indicações ao Oscar em categorias principais (melhor direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia). O documentário Cidade de Deus 10 anos depois não traz nenhuma dessas histórias, contudo. Após uma década do lançamento do longa, o filme de Cavi Borges e Luciano Vidigal busca nas histórias dos atores do filme e suas trajetórias após o longa de Meirelles o enfoque da sua narrativa. Com um elenco composto majoritariamente de jovens moradores das favelas cariocas, Cidade de Deus poderia expor uma série de histórias sobre as glórias de garotos pobres que conseguiram melhorar suas vidas graças ao cinema através do sucesso comercial e de crítica de um dos filmes mais importantes do país. Poderia, se não estivéssemos falando de um país como o Brasil. O que Borges e Vidigal expõem em seu documentário, que beneficia-se por recusar ser um apêndice do longa de Meirelles, é uma realidade contrastante entre os atores que conseguiram seguir uma carreira em ascendência ou que estão batalhando diariamente por um lugar ao sol e aqueles que sucumbiram ao mundo do crime ou enfrentaram dificuldades para seguir a profissão quando o frenesi em torno da obra passou. Em suma, o que os diretores nos apresentam é que, para alguns, o cinema não conseguiu promover transformações positivas - e como é duro acompanhar o que o destino reservou a Rubens Sabino da Silva, mas não por culpa de um descaso de Meirelles ou dos envolvidos que "exploraram" os garotos para realizarem sua obra e os deixaram ao léu, mas pela realidade de um país marcado pela desigualdade social e pelo tratamento descartável que confere aos seus talentos.  

domingo, 22 de novembro de 2015

Drops: Mistress America



Queridinhos do circuito indie norte-americano por Frances Ha, o diretor Noah Baumbach (que já esteve nos cinemas brasileiros esse ano com Enquanto somos Jovens) e a atriz Greta Gerwig retornam ao circuito com Mistress America, filme que assim como o longa anterior da dupla também é roteirizado por ambos. O título é uma dramédia sobre duas jovens de gerações diferentes que tornam-se amigas quando os seus pais resolvem se casar. Tracy (Lola Kirke) é uma caloura de 18 anos que sonha em entrar para um clube de escritores da sua universidade. Já Brooke é uma jovem na faixa dos 27 e 30 anos que ainda não conseguiu se firmar profissionalmente e tem uma vida amorosa desastrosa. Ao promover o encontro das duas gerações, Gerwig e Baumbach deixam claro: estamos todos perdidos, indecisos e confusos, oscilando entre o desencanto com a proximidade da maturidade (Tracy) e o desespero diante do tempo, além da constatação de que hábitos e comportamentos da adolescência já não são compatíveis com a vida adulta (Brooke). Nem o roteiro e nem a direção de Mistress America deixam o pessimismo de suas ideias cair em um poço de melancolia, o filme apresenta um humor que compatibiliza diálogos inteligentes com  momentos absurdamente non sense, oferecendo ainda uma dinâmica de cena bem interessante entre os seus personagens (toda a sequência na casa de um desafeto de Brooke, na qual todos os personagens estão reunidos, é prova disso). O longa ainda conta com o carisma delicioso de Gerwig, que firma-se como uma atriz inteligente e de timing cômico, acertadamente econômica em cena, e a revelação da interessante Lola Kirke. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Drops: Jogos Vorazes - A Esperança, O Final



Foi extremamente difícil para o espectador acompanhar após a ação ritmada e enérgica de Jogos Vorazes e Jogos Vorazes - Em Chamas, a atmosfera anestesiante, bucólica e sombria de Jogos Vorazes - A Esperança: Parte 1. A Esperança: Parte 1 sofre de inegáveis falhas inerentes a essa "modinha" dos estúdios de dividirem o último capítulo de uma saga em duas partes. O principal dos problemas de A Esperança: Parte 1 (assim como Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1, por exemplo) é que o filme tem uma série de cenas absolutamente dispensáveis que fazem com que o núcleo dramático da trama demore de ser acessado pelo espectador. Ainda assim, é preciso ponderar que A Esperança: Parte 1 apresenta ao público da franquia uma drástica mudança de tom e certamente isso causou um certo estranhamento nas plateias. É preciso reforçar, no entanto, que a mudança de tom é necessária e pertinente nesse momento em que a jornada de Katniss Everdeen se encontra. Há um certo esgotamento emocional que circula em A Esperança: Parte 1 que condiz com os resultados psicológicos que os jogos deixaram em personagens que antes, mesmo diante de uma realidade tão opressora, conseguiam ainda esboçar uma certa vivacidade em suas relações. Jogos Vorazes - A Esperança: O Final coloca um ponto final  (em se tratando de Hollywood, a gente nunca pode garantir isso) bastante coerente com a jornada que caminhamos até aqui. A atmosfera do filme é bem parecida com a de A Esperança: Parte 1 e o que temos ao fim da jornada não é um desfecho apoteótico, mas sóbrio e bastante satisfatório. A trama política do longa tem ótimos momentos, principalmente aqueles protagonizados pelo Presidente Snow de Donald Sutherland (maravilhoso até o último momento) e pela dúbia Alma Coin de Julianne Moore. Segurando as pontas da história como fazem desde o primeiro filme, os jovens Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson confirmam-se como a força-motriz da franquia na pele de Katniss Everdeen e Peeta Mellark, respectivamente. O diretor Francis Lawrence está longe de ser tão interessante quanto o realizador do primeiro filme Gary Ross, mas não chega a prejudicar a sua narrativa. A Esperança: O Final até sofre do excesso de momentos dispensáveis que prejudicou tanto A Esperança: Parte 1, o que me faz pensar que teria sido bem melhor transformar A Esperança em um único filme, mas o saldo é bem positivo e agradará afetivamente aos fãs da franquia. 

P.S.: É de se lamentar que Francis Lawrence e os envolvidos em A Esperança: O Final não tenham encontrado uma solução melhor para suprir a lacuna deixada por Philip Seymour Hoffman após a sua morte. Os mais espertos perceberão que algumas cenas foram improvisadas por não poderem ser filmadas com o ator. É o caso, por exemplo, da cena em que o personagem de Woody Harrelson lê uma carta de Plutarch para Katniss. Hoffman morreu em 2014 e o filme só estreou em 2015, não dava para ter pensado em algo melhor para solucionar esse problema não?

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Malala



Ativista pelos direitos das mulheres e pela educação, a pessoa mais jovem a receber o prêmio Nobel, capa da revista Time, que a considerou em 2013 uma das cem pessoas mais influentes do mundo... Malala Yousafzai tem apenas 18 anos mas já tem associada ao seu nome uma série de títulos e feitos que a tornaram símbolo de uma luta contra as ações opressoras do Talibã, movimento fundamentalista islâmico que se difundiu no Paquistão, sobretudo contra as mulheres e o direito delas terem acesso à educação. 

O documentário Malala narra a trajetória de Malala Yousafzai desde a origem do seu nome, escolhido pelo pai Ziauddin em homenagem a uma guerreira afegã, até os acontecimentos que sucederam o ataque talibã sofrido pela jovem e suas colegas próximo de uma escola. Entre depoimentos de Malala, Ziauddin e do restante dos membros da família Yousafzai, hoje todos residentes na Inglaterra, e animações que remontam algumas passagens da história da jovem ativista antes do ataque covarde que sofrera, o diretor Davis Guggenheim, de Uma Verdade Inconveniente, contrói uma narrativa abertamente pró-educação. Por intermédio da luta de Malala, a mensagem do diretor é clara: a educação abre as portas, engrandece, torna o ser humano mais crítico e preparado para construir um mundo melhor. Não há camuflagem de discursos ou conemporizações em Malala

Malala é um documentário que assume um partido e é completamente afetuoso e admirador da sua protagonista sem que isso confira deméritos a obra. Ao mesmo tempo em que Guggenheim consegue fazer do filme uma bandeira ideológica, ele não traz grandes afetações melodramáticas e discursos vazios. O realizador busca ir ao íntimo da sua personagem principal, extraindo feridas e acompanhando de perto o dia-a-dia da família Yousafzai, que como qualquer grupo familiar é marcado por hierarquias, conflitos e contradições, mas também por muito amor, implicâncias entre irmãos e relações de sucessão. Tudo é construído para tornar Malala próxima do espectador, criando empatia com a protagonista do documentário, mas sem dramalhões. 

O filme de Davis Guggenheim não é inovador em seu gênero, tampouco deseja ser. Em sua narrativa documental repleta de chavões no formato (os flashbacks em animação, os depoimentos dos envolvidos, a linearidade cronológica etc.), Malala encontra sua relevância e é eficiente em seus propósitos ideológicos. Guggenheim acerta ao evitar qualquer sensacionalismo no retrato da trajetória ainda breve de Malala fazendo com que, no fim das contas, o documentário seja um relato sóbrio de sua biografada revestido por uma completa adesão a sua causa. 


He named me Malala, 2015. Dir.: Davis Guggenheim. Documentário. Fox, 88 min.

sábado, 14 de novembro de 2015

Drops: Aliança do Crime



Aliança do Crime nos traz a história verdadeira de James "Whitey" Bulger, um criminoso de Boston conhecido por seus atos violentos e por ter conseguido fazer uma carreira relativamente longeva no crime graças a sua atuação como informante do FBI. Toda conversa gerada em torno de Aliança do Crime tem girado em torno da interpretação de Johnny Depp na pele do criminoso James "Whitey" Bulger, um desempenho que pode fazê-lo retornar ao Oscar após oito anos da sua última indicação (Sweeney Todd). Com uma maquiagem carregadíssima e completamente artificial, nem posso dizer que consegui vislumbrar os esforços dramáticos de Depp. O diretor Scott Cooper, de Coração Louco (filme que rendeu o Oscar ao ator Jeff Bridges em 2010), e os roteiristas Mark Mallouk e Jezz Butterworth se esforçam tanto em evidenciar o trabalho do ator que a presença dele e, consequentemente, do próprio "Whitey" Bulger é um entrave no desenvolvimento da própria história. Depp surge calvo, com dentes amarelados e lentes de contato azul, há inúmeras cenas evidenciando a natureza doentia da violência do personagem, suas paranoias e métodos nada tranquilos de persuadir os demais personagens... Em meio a esse redemoinho gerado em torno da figura de Bulger, um dos desempenhos mais comedidos e lúcidos da carreira de Depp, que andava entregue demais a tipos esquisitos em composições hiperbólicas, acaba ficando comprometido. Nesse cenário caótico, os coadjuvantes de Aliança do Crime ganham destaque em interpretações que por não ganharem um excessivo holofote dos realizadores acabam sendo brilhantes, é o caso de Peter Sarsgaard na pele de um dos delatores de Bulger viciado em drogas ou de Julianne Nicholson, maravilhosa em uma cena na qual a sua personagem, a esposa do policial do FBI vivido por Joel Edgerton, é "levemente" ameaçada pelo personagem de Depp. Não que Johnny Depp não esteja muito bem no filme, mas a impressão que fica é que todo o longa gira em torno do enaltecimento do seu próprio trabalho e isso acaba prejudicando a própria performance do ator, que recebe um personagem com grandes picos dramáticos, porém carente de uma interação maior entre os seus atos e o que está ao seu redor. 

sábado, 7 de novembro de 2015

Drops: A Floresta que se Move



A Floresta que se Move é uma leitura contemporânea de uma das mais aclamadas obras de William Shakespeare, Macbeth. Investigando a fundo aquele que talvez seja um dos mais sinuosos ímpetos humanos, a ambição, A Floresta que se Move traz a história de Elias, um funcionário de uma importante instituição bancária particular instigado pela profecia de uma bordadeira que encontra ao acaso na rua. Ela acaba lhe revelando que ele um dia será o presidente da empresa. A profecia da mulher é o suficiente para que a esposa de Elias, a marchand Clara, comece a arquitetar um plano para apressar a alavancada da carreira do marido na empresa. Fica claro que Elias, interpretado por Gabriel Braga Nunes, é o nosso Macbeth e que Clara, vivida por Ana Paula Arósio, é Lady Macbeth. A direção de Vinicius Coimbra é soturna e bastante interessante ao explorar metáforas visuais e recursos cênicos em prol da construção de sua história. A Floresta que se Move acerta ao preservar a essência da obra de Shakespeare, expondo um retrato sincero e assustador sobre aquilo que somos de fato caso não fôssemos controlados pela ética ou pelo medo de ceder a instintos bárbaros. Ao dissecar as reverberações das ações dos seus protagonistas, consumidos por uma culpa que é a própria punição para os seus atos na Terra, A Floresta que se Move se aproxima dos seus propósitos. Tanto Gabriel Braga Nunes quanto Ana Paula Arósio dão conta do recado maravilhosamente bem (fora o elenco de coadjuvantes composto por Nelson Xavier, Ângelo Antônio e Fernando Alves Pinto que não ficam atrás). Talvez o filme dê uma "bola fora" ao conceber uma trama policial pouco plausível para os tempos atuais. Como a proposta do projeto não é apresentar-se como exemplar do gênero policial, algumas escorregadas do roteiro podem passar despercebidas sem maiores problemas. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Drops: 45 anos



Interessante notar que enquanto o assunto do momento em Hollywood é o raro e volumoso número de histórias protagonizadas por mulheres em 2015, poucos são os veículos que reparam que todas estas atrizes em evidência por lá estão na casa dos seus 20 anos: Jennifer Lawrence, Brie Larson, Alicia Vinkander, Rooney Mara... Enquanto o cinema norte-americano ainda parece negar espaço à maturidade, sobretudo a maturidade feminina, a Europa está anos luz à frente. Não são poucas as atrizes europeias com mais de 40 anos que conseguem construir carreiras longevas protagonizando filmes que lhes proporcionam personagens complexas, multifacetadas. 45 anos é um exemplar disso nos oferecendo uma interpretação soberba da veterana Charlotte Rampling. O filme é dirigido pelo inglês Andrew Haigh que conduz com sobriedade a história de um casal prestes a completar 45 anos de casamento. As comemorações são abaladas com uma notícia sobre o passado do protagonista masculino e a partir daí Haigh trabalha com a ideia de que esse matrimônio possui significado e foi construído com bases diferentes por cada um dos cônjuges. O ponto alto do filme é a parceria da dupla de protagonistas, tanto Charlotte Rampling quanto Tom Courtenay estão ótimos em cena. Claro que há um destaque para a interpretação de Rampling na medida em que sua personagem começa a desvendar os segredos guardados durante anos por seu esposo. Contida e atenta ao redemoinho de emoções contraditórias vividas por sua personagem, Charlotte Rampling é um show à parte em 45 anos.  

Drops: Ruth e Alex



Há anos Diane Keaton pena para encontrar um bom projeto que lhe sirva desde Alguém tem que ceder. De Minha mãe quer que eu case ao recente Um Amor de Vizinha, no qual divide cena com Michael Douglas, a eterna Annie Hall tem enfrentado tempos difíceis no cinema. Ruth e Alex não seria diferente. Ao lado de Morgan Freeman, a atriz protagoniza a história de um casal que decide vender o apartamento onde viveram juntos durante anos em Nova York. Sob o comando de Richard Loncraine, de filmes pouco expressivos como Wimbledon - O Jogo do Amor, apesar de ter no currículo o interessante Ricardo III com Ian McKellen, Ruth e Alex é um filme absolutamente apático às voltas com a vida do casal protagonista. Ao longo da fita não nos é oferecida uma razão aceitável para que tal história nos seja contada a não ser o fato de vermos Freeman e Keaton  juntos pela primeira vez nos cinemas. O roteiro de Charlie Peters une algumas tramas paralelas em busca de uma coesão ou unidade e de uma "mensagem" para a sua história. Temos a trama da venda do apartamento em si, o drama envolvendo a cachorrinha do casal que apresenta um problema sério na coluna e corre o risco de perder o movimento das patas e uma caçada ao responsável por um atentado criminoso na vizinhança. A conexão encontrada por Peters é risível e gira em torno do mundo louco que vivemos, de acordo com a narração do personagem de Morgan Freeman. Não se pode falar nem mesmo das interpretações dos seus atores, já que enquanto Freeman e Keaton estão no automático, a querida Cynthia Nixon vive uma estereotipada corretora de imóveis. Tudo é desperdício em Ruth e Alex, tudo. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Olmo e a Gaivota



Em 2012, a diretora brasileira Petra Costa causou uma comoção no circuito cinematográfico a partir da exibição de Elena, filme no qual a realizadora narrava a melancólica jornada de sua irmã que partiu para Nova York em busca da realização do sonho de ser atriz. O filme era um relato emotivo de Petra que baseava-se em memórias de infância e confissões atuais dimensionando para o espectador a relação das irmãs e o trauma que o repentino desaparecimento de Elena gerou na família. Em Olmo e a Gaivota a diretora retorna a esgarçar as fronteiras entre o real e a ficção através de relatos íntimos de profunda carga emocional ao contar a história de uma atriz que vivencia todo o complexo processo da gravidez pela primeira vez. 

Em Olmo e a Gaivota, Petra Costa e sua parceira de direção Lea Glob contam a história de Olivia, uma atriz que está ensaiando uma montagem da peça A Gaivota, de Tchekov, e acaba descobrindo durante o processo que está grávida do seu primeiro filho. Olivia interrompe os ensaios para conseguir levar a gestação adiante já que após uma descoberta na ultrassonografia a gravidez passa a requerer cuidados. À medida que o tempo passa e Olivia começa a ser obrigada a ficar em repouso ela passa a refletir sobre a responsabilidade da maternidade e a conciliação entre as funções de mãe e atriz no futuro próximo. 

Com a ajuda de Olivia Corsini e Serge Nicolaï, Costa e Glob costuram confissões pessoais que se entrelaça com o próprio momento da vida dos seus atores. Em determinado momento de Olmo e a Gaivota, a realidade dos personagens e dos atores se encontram e existe a consciência de que aquele relato é uma espécie de "documentário emocional" sobre as angústias dos novos pais, há inclusive a interferência das realizadoras na construção da narrativa ficcional de maneira escancarada para os espectadores (em certas passagens, acompanhamos as orientações de Costa e Glob a Corsini e Nicolaï na composição de algumas cenas). Esta mistura de realidade e ficção, de relato documental e expressão afetiva que foi tão presente em Elena, se repete em Olmo e a Gaivota de maneira igualmente íntima e universal. O filme de Petra Costa e Lea Glob trata de dilemas e emoções comuns a qualquer sujeito de carne-e-osso. 

Menos expositivo para a realizadora brasileira que Elena, Olmo e a Gaivota não deixa de trazer a coragem de Olivia Corsini ao colaborar com as diretoras do projeto em questão em uma narração sincera dos meandros íntimos da gravidez e da criação artística. Costa e Glob extraem da atriz o máximo que podem e independente do fato de que nem tudo que ocorre na tela é ipsis litteris a vida de Olivia e Serge, existe uma exposição emocional à carne viva que desnuda por completo dos dois atores para o espectador. 


Olmo e a Gaivota, 2015. Dir.: Petra Costa e Lea Glob. Roteiro: Petra Costa e Lea Glob. Elenco: Olivia Corsini, Sergei Nicolaï, Arman Saribekyan, Sylvain Jailloux, Philippe Duquesne, Marie Constant, Camille Grandville, Célia Cataliffo. Pandora Filmes. 97 min

007 contra Spectre



Superar algumas marcas deixadas por 007 - Operação Skyfall não seria uma missão fácil para o seu sucessor 007 contra Spectre. O filme de 2012 da franquia 007 nos fez o favor de apagar a péssima impressão deixada por 007 - Quantum of Solace, recebeu algumas das melhores críticas da franquia e figurou no topo da lista de melhores longas do ano em algumas premiações (até 5 indicações ao Oscar o filme levou, ganhando duas dessas estatuetas). A estreia de Sam Mendes na franquia foi um estouro que se justificava. 007 - Operação Skyfall apesar de "sofrer" com o tom sisudo que predomina recentemente na série cinematográfica era visual e tecnicamente irretocável, apresentava ainda uma dramaticidade e um tom de urgência em sua narrativa tão fortes quanto o insuperável destino de Vesper Lynd (Eva Green) em 007 - Cassino Royale. Diante disso, claro que 007 contra Spectre vive à sombra do seu antecessor, mas apesar de uma derrapada ali e acolá não chega a fazer feio no balanço final. 

Dando continuidade aos acontecimentos de Operação Skyfall, 007 contra Spectre traz James Bond investigando uma perigosa e misteriosa organização criminosa chamada Spectre contra a vontade do serviço secreto. Ao mesmo tempo, o seu chefe M tenta manter o serviço em atividade frente ameaças políticas de sua extinção. Os eventos os levarão a um grupo ameaçador de criminosos liderado por uma figura ainda mais sinistra e a revelações sobre o passado do protagonista. 

Escrito por quatro cabeças (os experientes John Logan e Jez Butterworth ao lado dos habituais colaboradores da franquia Neal Purvis e Robert Wade), o roteiro de 007 contra Spectre é um dos grandes percalços do longa. Em diversos momentos a trama parece se arrastar na busca de uma gravidade na investigação da Spectre, algo que quando é revelado decepciona através da construção de um vilão que tem uma justificativa de ação muito simplista diante do que a trama parecia sugerir. A direção, apesar de trazer um Sam Mendes com fôlego para tomar decisões e oferecer soluções visuais interessantes (o plano-sequência de abertura no Dia dos Mortos mexicano é um dos melhores que já vi),  evidencia uma certa ressaca criativa deixada pelo filme anterior, que de fato esgarçou as inventividades estéticas e narrativas da série. 

No elenco, Daniel Craig continua demonstrando sua habitual eficiência no papel de James Bond, cuja equipe formada pelo excelente trio Ralph Fiennes (M) , Naomie Harris (Moneypenny) e Ben Whishaw (Q) também garante ótimos momentos para o filme quando estão em cena juntos. O problema da equipe de 007 contra Spectre parece residir nos personagens novos: a tão anunciada bondgirl da musa italiana Monica Bellucci não passa de um artifício para o filme, desaparecendo de cena com a mesma velocidade que chega; o vilão interpretado por Christoph Waltz não recebe um tratamento digno do roteiro, o que prejudica o trabalho do ator ainda que ele consiga surpreender na construção de um tipo que foge do piloto automático que o vencedor do Oscar estava usando nos últimos anos para viver variações do seu pérfido Hans Landa de Bastardos Inglórios; e, por fim, uma esquecível Léa Seydoux, cujo filme parece querer fazer superar a inesquecível Vesper Lynd de Eva Green (007 - Cassino Royale), mas que não chega nem aos pés daquela que certamente foi a melhor personagem feminina da franquia para a atual geração. 

Ao fim, 007 contra Spectre tenta amarrar todos os pontos "soltos" deixados pelos filmes da franquia sugerindo encerrar um novo ciclo para a encarnação do personagem vivido por Daniel Craig. 007 contra Spectre não deixa de ter os seus ótimos momentos cinematográficos - apesar de não contar com a elogiada fotografia de Roger Deakins do filme anterior, Hoyte Van Hoytema (Interestelar e Ela) compõe planos muito inspirados -, preservando todas as marcas da franquia sem esquecer da nova proposta firmada por ela desde que Craig assumiu o compromisso de viver o icônico personagem. Contudo, assim como aconteceu com 007 - Quantum of Solace, que sucedeu o ótimo 007 - Cassino Royale, fica evidente em Spectre a ressaca deixada por um Operação Skyfall cujas marcas deixadas no caminho dos filmes do personagem dificilmente seriam superadas da noite para o dia. 


007 - Spectre, 2015. Dir.: Sam Mendes. Roteiro: John Logan, Jez Butterworth, Neal Purvis e Robert Wade. Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Christoph Waltz, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomie Harris, Monica Bellucci, Dave Bautista, Andrew Scott, Rory Kinnear, Jesper Christensen, Stephanie Sigman. Sony, 148 min. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Drops: Os 33



Co-produção EUA e Chile, o filme Os 33 sofre do mal que algumas obras ambientadas na América Latina são vítimas em tempo de globalização de culturas. O filme transforma o dramático resgate dos 33 mineiros soterrados no Chile em 2010 num mexidão melodramático globalizado com direito até à escalação do espanhol Antonio Banderas, do brasileiro Rodrigo Santoro e da francesa Juliette Binoche para encarnarem personagens chilenos que falam inglês (!!!!). O longa dirigido pela mexicana Patricia Riggen demora a decolar e até demonstra uma certa ineficiência da diretora na condução de sequências de "ação", já que toda a cena do soterramento é confusa e sem ritmo algum. Com problemas de ritmo em seus minutos iniciais e com todos os defeitos que citamos no início, Os 33 ainda tem momentos bons. Riggen tem o benefício de narrar uma história emocionalmente engajada, com dramas humanos simples e envolventes baseados em eventos que todos nós acompanhamos e nos emocionamos. A história por si só tem a sua força. Ter Banderas, Santoro ou mesmo Binoche no elenco não traz nenhum benefício ao filme, já que é uma história na qual o coletivo conta mais do que um desempenho individual. Portanto, é na força do drama verídico que Riggen encontra a salvação do seu filme e atenua certos "micos" como, por exemplo, o fato de todos os personagens do longa falarem inglês quando são todos chilenos. Claro que as razões são óbvias, evitar qualquer entrave do filme com as plateias estrangeiras, sobretudo a norte-americana, mas não deixa de ser, no mínimo, esquisito para quem é latino-americano e sabe que brasileiros, espanhóis e chilenos não são a mesma coisa e que a língua oficial do Chile não é a mesma dos EUA.