quarta-feira, 4 de novembro de 2015

007 contra Spectre



Superar algumas marcas deixadas por 007 - Operação Skyfall não seria uma missão fácil para o seu sucessor 007 contra Spectre. O filme de 2012 da franquia 007 nos fez o favor de apagar a péssima impressão deixada por 007 - Quantum of Solace, recebeu algumas das melhores críticas da franquia e figurou no topo da lista de melhores longas do ano em algumas premiações (até 5 indicações ao Oscar o filme levou, ganhando duas dessas estatuetas). A estreia de Sam Mendes na franquia foi um estouro que se justificava. 007 - Operação Skyfall apesar de "sofrer" com o tom sisudo que predomina recentemente na série cinematográfica era visual e tecnicamente irretocável, apresentava ainda uma dramaticidade e um tom de urgência em sua narrativa tão fortes quanto o insuperável destino de Vesper Lynd (Eva Green) em 007 - Cassino Royale. Diante disso, claro que 007 contra Spectre vive à sombra do seu antecessor, mas apesar de uma derrapada ali e acolá não chega a fazer feio no balanço final. 

Dando continuidade aos acontecimentos de Operação Skyfall, 007 contra Spectre traz James Bond investigando uma perigosa e misteriosa organização criminosa chamada Spectre contra a vontade do serviço secreto. Ao mesmo tempo, o seu chefe M tenta manter o serviço em atividade frente ameaças políticas de sua extinção. Os eventos os levarão a um grupo ameaçador de criminosos liderado por uma figura ainda mais sinistra e a revelações sobre o passado do protagonista. 

Escrito por quatro cabeças (os experientes John Logan e Jez Butterworth ao lado dos habituais colaboradores da franquia Neal Purvis e Robert Wade), o roteiro de 007 contra Spectre é um dos grandes percalços do longa. Em diversos momentos a trama parece se arrastar na busca de uma gravidade na investigação da Spectre, algo que quando é revelado decepciona através da construção de um vilão que tem uma justificativa de ação muito simplista diante do que a trama parecia sugerir. A direção, apesar de trazer um Sam Mendes com fôlego para tomar decisões e oferecer soluções visuais interessantes (o plano-sequência de abertura no Dia dos Mortos mexicano é um dos melhores que já vi),  evidencia uma certa ressaca criativa deixada pelo filme anterior, que de fato esgarçou as inventividades estéticas e narrativas da série. 

No elenco, Daniel Craig continua demonstrando sua habitual eficiência no papel de James Bond, cuja equipe formada pelo excelente trio Ralph Fiennes (M) , Naomie Harris (Moneypenny) e Ben Whishaw (Q) também garante ótimos momentos para o filme quando estão em cena juntos. O problema da equipe de 007 contra Spectre parece residir nos personagens novos: a tão anunciada bondgirl da musa italiana Monica Bellucci não passa de um artifício para o filme, desaparecendo de cena com a mesma velocidade que chega; o vilão interpretado por Christoph Waltz não recebe um tratamento digno do roteiro, o que prejudica o trabalho do ator ainda que ele consiga surpreender na construção de um tipo que foge do piloto automático que o vencedor do Oscar estava usando nos últimos anos para viver variações do seu pérfido Hans Landa de Bastardos Inglórios; e, por fim, uma esquecível Léa Seydoux, cujo filme parece querer fazer superar a inesquecível Vesper Lynd de Eva Green (007 - Cassino Royale), mas que não chega nem aos pés daquela que certamente foi a melhor personagem feminina da franquia para a atual geração. 

Ao fim, 007 contra Spectre tenta amarrar todos os pontos "soltos" deixados pelos filmes da franquia sugerindo encerrar um novo ciclo para a encarnação do personagem vivido por Daniel Craig. 007 contra Spectre não deixa de ter os seus ótimos momentos cinematográficos - apesar de não contar com a elogiada fotografia de Roger Deakins do filme anterior, Hoyte Van Hoytema (Interestelar e Ela) compõe planos muito inspirados -, preservando todas as marcas da franquia sem esquecer da nova proposta firmada por ela desde que Craig assumiu o compromisso de viver o icônico personagem. Contudo, assim como aconteceu com 007 - Quantum of Solace, que sucedeu o ótimo 007 - Cassino Royale, fica evidente em Spectre a ressaca deixada por um Operação Skyfall cujas marcas deixadas no caminho dos filmes do personagem dificilmente seriam superadas da noite para o dia. 


007 - Spectre, 2015. Dir.: Sam Mendes. Roteiro: John Logan, Jez Butterworth, Neal Purvis e Robert Wade. Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Christoph Waltz, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomie Harris, Monica Bellucci, Dave Bautista, Andrew Scott, Rory Kinnear, Jesper Christensen, Stephanie Sigman. Sony, 148 min. 

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