sábado, 30 de janeiro de 2016

Filho de Saul


A Segunda Guerra Mundial é uma das passagens da história da humanidade mais revisitadas pelo cinema. Entre as mais diferentes abordagens, quase sempre as reflexões sobre o conflito giram em torno de questões geo-políticas e as consequências humanas da guerra, sendo que a última surge sobretudo como uma forma de exorcizar a culpa alemã pelas ações nazistas. Filho de Saul, premiado longa de László Nemes, que até então ficara conhecido no circuito europeu pelo seu trabalho como curta-metragista, tem essa preocupação como um dos seus principais propulsores dramáticos. Com uma atmosfera carregada que consegue dar conta dos horrores do conflito em uma esfera particularizada, Filho de Saul apresenta-se ao público como um filme que retoma antigas dores por uma perspectiva que ainda que não pareça completamente inédita, ao menos tenta caminhos e olhares narrativos inventivos que envolvem emocionalmente a sua plateia. 

László Nemes ambienta o seu filme em um campo de concentração de Auschwitz no ano de 1944, em pleno conflito mundial. Nesse cenário, acompanhamos um momento específico da vida de Saul, um judeu obrigado a trabalhar para os nazistas cuja função principal no campo de concentração é limpar as câmaras de gás após a morte de outros judeus. Durante a execução da sua tarefa, Saul acaba deparando-se com o corpo do seu próprio filho e resolve empreender esforços para driblar a vigilância nazista e enterrar o garoto dignamente. 

Filho de Saul acerta ao personalizar a sua perspectiva sobre os eventos da Segunda Guerra Mundial. Ao centrar sua atenção na perspectiva do seu protagonista para o que acontece a sua volta , o diretor e roteirista László Nemes evita o didatismo histórico e traz para o seu filme uma estratégia muito mais eficiente no dimensionamento dos horrores e das consequências da guerra para a sua plateia: o drama humano. Assim, ao ter como foco a jornada de Saul para honrar a memória do próprio filho, o realizador consegue oferecer ao público um longa de maior impacto emocional e força dramatúrgica do que se oferecesse dados históricos em uma perspectiva macro e reconstituições de época precisas. 

Tudo é ainda mais eficiente se pensarmos na maneira como László Nemes filma Filho de Raul. O diretor opta por uma câmera subjetiva quase que na totalidade da sua narrativa, acompanhando cada decisão, passo, olhar e respiração de Saul, interpretado com uma apropriada discrição pelo ator Géza Röhrig. O efeito dessa opção do diretor é ainda mais interessante se pensarmos que mesmo que todas as situações de degradação humana mostradas em Filho de Saul sejam, em sua maioria, expostas propositalmente fora de foco, conseguimos senti-las como se todas estivessem em evidência já que o que tem importância o tempo todo é a jornada de uma das vítimas daqueles horrores. 

Portanto, um dos maiores acertos de Filho de Saul é conseguir uma certeira produção de efeitos emocionais sem apelar para imagens de violência sensacionalista ou mesmo para o frio didatismo histórico. Ao acompanharmos em Filho de Saul a jornada de um homem comum preso nessa barbárie, conseguimos entender o ponto nevrálgico das principais consequências do nazismo e compreender que determinados feridas jamais serão cicatrizadas. 


Saul Fia, 2015. Dir.: László Nemes. Roteiro: László Nemes e Clara Royer. Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnar, Urs Rechn, Todd Charmont, Jerzy Walczak, Gergö Farkas, Balász Farkas, Marcin Czarnik, Levente Orbán, Uwe Lauer. Sony, 107 min. 

Drops: Trumbo - Lista Negra


Após a Segunda Guerra Mundial, um número grande de atores, diretores e roteiristas de Hollywood se filiaram ao Partido Comunista. Acontece que o conflito foi sucedido pela Guerra Fria e a polarização entre o capitalismo norte-americano e o socialismo soviético e nesse ambiente em que qualquer inclinação ideológica ao comunismo representava uma ameaça a valores tradicionais da cultura americana, todos esses profissionais do cinema começaram a ser perseguido por um grupo anticomunista no país que levou alguns deles ao exílio, à prisão e, posteriormente, ao completo boicote, já que estúdios e produtores passaram a ser ameaçados caso contratassem esses profissionais. Essa passagem da história dos EUA, que não se restringe a indústria cinematográfica, está em Trumbo - Lista Negra a partir da trajetória do roteirista Dalton Trumbo, conhecido por seus roteiros de Spartacus e A Princesa e o Plebeu e que fora inserido nessa época na "lista negra" de roteiristas acusados de comunismo no país. Por conta do episódio, durante anos, Trumbo assinou o roteiro de muitos filmes com falsas identidades e até recebeu duas estatuetas do Oscar no completo "anonimato". Cinematograficamente falando, Trumbo - Lista Negra tem muito pouco a oferecer, o filme tem um ritmo monótono em sua primeira hora e o diretor Jay Roach, famoso por ótimos trabalhos na HBO como os telefilmes Virada no Jogo e Recontagem, não tem um olhar mais enérgico para sua própria história e para o seu protagonista. Porém, é preciso salientar que Trumbo -Lista Negra não é e nem deseja ser uma obra marcada por peripécias audiovisuais, mas pela precisão da narrativa histórica e pelo senso de justiça com a vida do seu biografado. Assim, o filme é guiado o tempo todo pela obrigação de tentar corrigir um erro do passado na história norte-americana: a injustiça com Trumbo e todos aqueles que pertenceram a "lista negra". Se por um lado tais intenções não deixam de ser louváveis, por outro reveste o filme de cacoetes na construção dos seus personagens e das situações vivenciadas por eles. Há uma interessante interpretação de Bryan Cranston como Dalton Trumbo, além de Helen Mirren como a implacável perseguidora do roteirista Hedda Hopper e Diane Lane como a esposa do protagonista, mas a obra é monótona e sem menor vivacidade na sua condução. 

sábado, 23 de janeiro de 2016

Drops: Reza a Lenda


Há muito se fala sobre um certo engessamento do cinema nacional em dois modelos cinematográficos opostos: de um lado, os filmes de apelo popular  e narrativa frouxa co-produzidos pela Globo Filmes e do outro lado o cinema autoral dos festivais e do restrito público das salas de arte. Volta e meia determinados títulos fogem desses extremos e chegam aos cinemas impondo-se como obras intermediárias. Tratam-se de títulos que não perdem de vista o intuito de alcançar as grandes plateias, mas também fincam as suas bases em consistentes e aplicadas propostas cinematográficas. Reza a Lenda é um desses filmes. Com uma proposta de cinema pop com ambiência nordestina, o filme de Homero Olivetto tem várias referências e se apropria de interessantes recursos narrativos para contar a história de um grupo de motoqueiros à espera do milagre dos céus que tire sua terra da seca e da injustiça. Com inspirações que vão do western hollywoodiano ao Mad Max de George Miller, Olivetto constroi um filme com ótimas intenções que resultam em momentos isoladamente inspirados, ainda que quando chegue no seu clímax a trama não consiga dar conta da sua verve frenética como deveria, oferecendo um terceiro ato pouco vibrante. O que interessa, no entanto, é que o realizador oferece uma alternativa interessante para a nossa cinematografia que dialoga com públicos dos mais diversos repertórios, sobretudo as gerações mais novas, com um entretenimento que, na maior parte da projeção, é repleto de frescor, instigando e seduzindo as plateias (no bom sentido do termo). Com um elenco equilibrado e repleto de jovens talentos como Cauã Reymond, Sophie Charlotte, Luisa Arraes e Jesuita Barbosa (todos muito bem, por sinal), o maior destaque entre os atores vai para Humberto Martins, delicioso como o vilão desse bang bang on the road nordestino. Apesar do resultado oscilar sobretudo em seu desfecho (e entendendo que é de tentativas e iniciativas que chegamos lá), a gente deveria torcer para que mais filmes como Reza a Lenda fossem feitos no país. É um frescor para a nossa cinematografia, independente do resultado. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Joy - O Nome do Sucesso


Quando começou sua carreira nos anos de 1990 com filmes como Procurando Encrenca ou Três Reis, David O. Russell não dava sinais do tipo de diretor que se tornaria com títulos como O Vencedor, O Lado bom da Vida e Trapaça, longas que lhe renderam três indicações quase que consecutivas ao Oscar de melhor filme e melhor diretor. Naquela época, O. Russell tratava-se "apenas" de uma promessa do circuito indie que começava a cair nas graças da crítica e chamar a atenção da mídia especializada pelo seu temperamento forte e por suas constantes discussões com seus atores nos sets dos seus longas, como aquela que protagonizou com George Clooney em Três Reis e a mais famosa com Lily Tomlin em Huckabees - A Vida é uma Comédia. Desde que começou a seguir um certo tipo de fórmula que tem agradado os votantes do Oscar, os filmes do O. Russell parecem não ser mais os mesmos, mas também adquiriram uma estranha constância nas suas estruturas e apresentações de narrativas e personagens. O mais novo título dessa safra do realizador, Joy - O Nome do Sucesso, contudo, parece não ter agradado tanto a Academia quanto os filmes anteriores do diretor, tanto que dele apenas a sua protagonista mereceu uma indicação ao prêmio. A exclusão é merecida, mas não podemos deixar de mencionar que Joy - O Nome do Sucesso apresenta na sua estrutura e abordagem narrativa riscos muito maiores que os títulos anteriores do diretor.  

No longa, Jennifer Lawrence, que ganhou o Oscar de melhor atriz com O Lado bom da Vida, dirigido por O. Russell, e também esteve em Trapaça, interpreta Joy, uma jovem mãe de dois filhos divorciada que assume a responsabilidade de dar suporte para a sua grande e complicada família, mas que encontra-se em uma fase da vida na qual faz um balanço a respeito daquilo que ela esperava ser quando se tornasse adulta e a mulher que ela é de fato. Em meio a essa crise pessoal, Joy inventa um utensílio de limpeza doméstica que pode tirar ela e a sua família de alguns problemas financeiros, tornando-se o nome central de um negócio que viria a ser extremamente lucrativo no futuro. 

David O. Russell adorar trazer como centro das suas histórias famílias disfuncionais formadas por diversos personagens, por vezes, reunidos em um mesmo ambiente. O olhar de O.Russell para esses núcleos familiares é sempre muito forte em seus filmes, foi assim em O Vencedor, em O Lado bom da Vida e isso se repete em Joy - O Nome do Sucesso. Porém, se em dada medida, isso era bem administrado pelo diretor nos outros dois filmes, aqui tudo fica um pouco disperso. Parece muito claro que o filme é de Jennifer Lawrence e do grande feito da sua personagem e são nos momentos em que o realizador centra sua narrativa em Joy que o longa tem os seus melhores momentos. Ao tentar suprir a demanda da apresentação dos familiares da protagonista e suas dinâmicas com ela, tudo fica um tanto quanto disperso, e a centralidade de Joy nesse núcleo disfuncional parece ser "engolida" por uma série de personagens que, se parecem interessantes ao próprio filme conferindo um certo humor à história, tem um tempo de cena escasso o suficiente para fazer com que o espectador compreenda muito pouco sobre eles. O caso mais emblemático é o da personagem de Diane Ladd, intérprete da avó de Joy, uma personagem cuja importância é sempre sublinhada pelo longa, mas cujo laço com a protagonista, factualmente, é pouco trabalhado na obra. Quanto aos demais, interpretados por atores do calibre de Robert DeNiro, Virginia Madsen e Édgar Ramirez, tem todos os seus momentos, mas na ânsia de suprir todos eles o diretor acaba não conseguindo desenvolver substancialmente nenhum. Uma pena, pois é através deles e dos seus respectivos laços com Joy que dimensionamos de fato o lugar e a importância dessa personagem nesse núcleo familiar, algo que é dito com frequência ao longo do filme, mas cuja extensão jamais é sentida pelo público. 

Há ainda em Joy - O Nome do Sucesso o mérito de querer transformar uma história real com mensagens motivacionais e personagens inspiradoras em uma narrativa que fuja dos recursos convencionais a esse tipo de história. Portanto, nada de trilhas grandiloquentes, narrativa linear, muitos picos dramáticos... O filme de David O. Russell procura se distanciar do lugar comum, o que é particularmente muito bom e interessante. É uma pena que o diretor esgarce sua narrativa a tal ponto que em dado momento fica difícil entender exatamente onde ele quer chegar com a história de Joy. De irretocável mesmo, só a ótima interpretação de Jennifer Lawrence, que se está longe de ter um desempenho tão formidável quanto aquele que a revelou para os holofotes de Hollywood em Inverno da Alma em 2010, pelo menos está magnética e consegue modular com destreza todos os caminhos percorridos por sua personagem ao longo do filme. 

Ao querer transformar a trajetória edificante da sua protagonista em um longa que foge da abordagem comumente conferida a narrativas baseadas em fatos reais, David O.Russell acaba transformando o seu filme em uma "faca de dois gumes": Se por um lado é louvável que o diretor proponha um modo diferente de contar um modelo de história com propósitos e caminhos largamente conhecidos pelo grande público, por outro, o resultado não parece plenamente satisfatório, afinal, na ânsia de ser muito mais do que ele é, Joy - O Nome do Sucesso acaba mostrando-se como um filme de narrativa relativamente frouxa. Um pouquinho mais ousado do que o que o realizador mostrou em filmes como Trapaça, O Lado bom da Vida e O Vencedor, Joy - O Nome do Sucesso é um filme que percorreu formatos e caminhos interessantes, mas cujo resultado - que está longe do fiasco cinematográfico, diga-se de passagem - não chega a impressionar. 


Joy, 2015. Dir.: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell. Elenco: Jennifer Lawrence, Robert DeNiro, Bradley Cooper, Virginia Madsen, Diane Ladd, Isabella Rossellini, Édgar Ramirez, Dascha Polanco, Elisabeth Rohm, Susan Lucci, Aundrea Gadsby, Gia Gadsby, Melissa Rivers. Fox, 125 min. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Carol


Dos cultuados cineastas norte-americanos contemporâneos, Todd Haynes talvez seja um dos que mais dê preferência a histórias centradas em fortes personagens femininas, e talvez também seja um dos que mais saiba manejá-las. De Longe do Paraíso à minissérie da HBO Mildred Pierce, sem falar em outros trabalhos do diretor como Mal do Século, Não estou lá e Velvet Goldmine, que abordam questões que estão fora dessa esfera temática, o realizador dimensiona como poucos os reflexos dos preconceitos de uma sociedade machista nas esferas subjetivas das suas protagonistas. Convidado por Cate Blanchett para dirigir um projeto que há anos a atriz queria ver ser levado para o cinema, a adaptação de O Preço do Sal, livro da escritora Patricia Highsmith (de O Talentoso Ripley), Haynes retorna a esse tipo de narrativa que lhe é tão familiar e realiza Carol

Baseado no livro de Highsmith, longa traz o romance entre a jovem Therese Belivet, uma vendedora de uma loja de departamento interpretada por Rooney Mara, com a sofisticada dona de casa Carol Aird, papel de Cate Blanchett, nos EUA do início da década de 1950. Carol passa por um tumultuado processo de divórcio com o pai da sua filha, enquanto Therese começa a se descobrir como mulher a partir da sua relação com ela. O amor entre as duas começa a passar por turbulências quando Carol enfrenta alguns problemas com o seu marido a respeito da guarda da filha e todas as convenções e preconceitos sociais da época passam a ser uma ameaça para a felicidade de ambas. 

À primeira vista, Carol pode parecer um romance frio sobre o relacionamento entre duas mulheres, já que muita pouca coisa é dita entre elas sobre sentimentos e não há momentos de arrebate emocional. Ao contextualizarmos a obra ao período em que ela se passa, entendemos as razões para que as emoções e os desejos das personagens, sobretudo os de Therese que está descobrindo a própria sexualidade, fiquem em constante estado de tensão e nas entrelinhas. Se em pleno século XXI já é complicado assumir uma relação, se descobrir e se aceitar como homossexual, imaginem na década de 1950. Nesse sentido, Haynes é impecável na condução do seu romance, permitindo não apenas que tenhamos uma dimensão da maneira como a sociedade tratava o assunto na sua época, mas lançando um olhar para as consequências disso na relação e na própria trajetória das suas duas personagens, sem apelar para didatismos históricos.

Sem sensacionalismo ou estardalhaço sobre o assunto, Todd Haynes conduz Carol com muita elegância, permitindo que o filme contenha uma reflexão sobre a homossexualidade e as consequências individuais da reprovação social sobre o assunto, sem apelar para discursos e sequências redundantes. O melhor de tudo é que o realizador consegue tratar essa questão sem perder de vista a relação entre Carol e Therese, o grande foco de toda a narrativa do filme. Assim, Carol mostra-se como uma obra socialmente contundente ao abordar de maneira delicada o preconceito social como um obstáculo para suas personagens, ao mesmo tempo em que estabelece muito bem um pacto com gêneros ou escolas cinematográficas às quais o diretor costuma se filiar como o melodrama, algo que ele já havia feito muito bem em Longe do Paraíso e Mildred Pierce. Em suma, assim como fez nesses trabalhos citados, Haynes utiliza em Carol o gênero como uma forma de investigar como a sociedade cria mecanismos para jogar indivíduos em calabouços, podando seus sentimentos, sua liberdade e impossibilitando a própria felicidade. 

Como costuma ser uma regra em todos os filmes de Todd Haynes, Carol é um filme marcado por poderosas performances dos seus atores. Dessa vez, Haynes permite que Cate Blanchett e Rooney Mara nos conduzam de maneira sensível à redentora relação entre Carol Aird e Therese Belivet. Blanchett talvez tenha uma das melhores performances de sua carreira no filme. Com uma personagem que evita que a atriz incorra em um overacting, algo que, por vezes, a australiana acaba cedendo, Blanchett faz de Carol Aird uma figura etérea, provavelmente por um mecanismo de defesa, mas muito sedutora e repleta de dignidade. Já Rooney Mara conduz de forma impecável o processo de descoberta da sexualidade e do amor de Therese Belivet. Mara tem momentos maravilhosos no filme, sobretudo quando coloca em evidência as incertezas e inseguranças da personagem sobre o que sente verdadeiramente por Carol. Entre os dois desempenhos maravilhosos das protagonistas, estão outros excelentes atores que são fundamentais para a história e que também merecem a menção, entre eles Sarah Paulson, que merecia mais atenção por sua discreta interpretação como uma ex-namorada de Carol, e Kyle Chandler, ótimo em diversos momentos como o marido da personagem de Blanchett. 

Na filmografia de Todd Haynes, Carol pode não apresentar o mesmo ímpeto vanguardista de obras como Longe do Paraíso ou Não estou lá, mas demostra um diretor que sempre conduz com sensibilidade questões que lhe são caras em formatos conhecidos. Natural em suas próprias convicções e no seu caráter humanista, Carol é um romance calibrado pelas excelentes performances de Cate Blanchett e Rooney Mara e pelo olhar de um diretor que consegue entender a fundo as suas personagens sem perder de vista a elegância narrativa. Carol é uma belíssima extensão da própria carreira de Todd Haynes, um diretor que como poucos sabe utilizar as convenções de um gênero narrativo em prol de questões sociais que estão em suas entrelinhas mas que se impõem como bandeiras necessárias através das batalhas pessoais empreendidas por suas personagens para simplesmente ser o que são e buscar aquilo que todo ser humano merece: a felicidade. 



Carol, 2015. Dir.: Todd Haynes. Roteiro: Phyllis Nagy. Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, Jake Lacy, John Magaro, Cory Michael Smith, Kevin Crowley, Nik Pajik, Carrie Brownstein, Trent Rowland. Maré Filmes, 118 min. 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Drops: Creed - Nascido para Lutar


Se hoje qualquer filme de boxe parece genérico ao funcionar como uma espécie de manual de auto-ajuda tudo isso deve ser creditado na conta de Rocky, Um Lutador, longa de John G. Avildsen que transformou Sylvester Stallone em um ícone na pele do lutador Rocky Balboa, faturou três estatuetas do Oscar em  1977, incluindo a de melhor filme, e que consolidou o "filme de boxe" como um gênero com marcas e programas de efeitos bem particulares. Aos 69 anos, Sylvester Stallone retorna na pele de Rocky Balboa em Creed - Nascido para Lutar, certamente um dos longas mais importantes com o personagem depois daquele que nos apresentou a ele na década de 1970. Dirigido por Ryan Coogler (de Fruitvale Station - A Última Parada), Creed - Nascido para Lutar traz a história de Adonis Johnson, filho "bastardo" do lendário lutador de boxe Apolo Creed, que enfrentou Rocky no primeiro filme da franquia. Adonis procura Balboa para que ele o treine e o transforme em um grande lutador em sua categoria, tarefa que o "Garanhão Italiano" aceita inicialmente com uma certa exitação, mas que acaba fortalecendo os seus laços com o rapaz. Co-autor do roteiro do filme, Coogler preserva a essência dos "filmes de boxe" ao fazer da trajetória de Adonis Johnson um conto sobre a superação. Contudo, cabe pontuar, que esse propósito do realizador não soa em momento algum como uma repetição e nem mesmo a presença de Rocky Balboa como um personagem importante e determinante para a história de Adonis Johnson transforma Creed uma espécie de produto derivado sem personalidade da franquia Rocky. Ao contar com o excelente Michael B. Jordan como o seu protagonista, Ryan Coogler apresenta para a plateia um personagem fascinante repleto de camadas e movido por objetivos próprios, ainda que inegavelmente estabeleça um diálogo com a jornada do seu próprio treinador Rocky Balboa. É uma pena que o filme derrape ao incluir uma trama lacrimejosa envolvendo Balboa (algo que suspeito deve ter favorecido a inclusão do autor na seleção do Oscar de melhor ator coadjuvante) e que, no final das contas, mostra-se pouco produtiva para a própria história de Adonis Johnson. Contudo, entre erros e acertos, o filme é uma narrativa repleta de virtudes e que deve ser assistida de braços abertos e sem muito cinismo.

Drops: Snoopy e Charlie Brown - Peanuts, o Filme


Peanuts ganha a sua primeira adaptação para os cinemas com Snoopy e Charlie Brown - Peanuts, o Filme da Blue Sky, o mesmo estúdio de animação responsável por filmes como A Era do Gelo e Rio. Na versão do diretor Steve Martino, os personagens de Charles Schulz preservam seus traços e personalidades originais em uma animação que apesar de não surpreender em sua trama, afinal utiliza histórias já conhecidas do Peanuts como a paixão de Charlie Brown pela menina do cabelo vermelho, ao menos mantém tudo aquilo que mais fez o público amar Snoopy e sua turma. Personificação do próprio Schulz nas tirinhas, Charlie Brown continua o menino mais azarado da vizinhança e cheio de crises existenciais, nos encantando por manter certos valores e por finalizar cada uma de suas autoanálises com um profundo e melancólico "Que puxa...". Apesar de Snoopy também ter o seu lugar no filme, como teve em toda a trajetória dos Peanuts, com sua forte imaginação, sarcasmo e suas surpreendentes habilidades para um cachorro, Charlie Brown continua sendo o grande elo do público com Peanuts e todos os seus adoráveis personagens, como Linus, Patty Pimentinha, Lucy, Marcie, Sally, Schroeder... Tecnicamente atual sem perder o espírito da obra e os traços dos personagens de Schulz, Snoopy e Charlie Brown - Peanuts, o Filme é um acerto e um reencontro com velhos e apaixonantes conhecidos, a turma do Charlie Brown. Que bom que eles estão de volta!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Grande Aposta


A loucura do mercado financeiro é tema recorrente do cinema norte-americano. De Wall Street - Poder e Cobiça, de Oliver Stone, a O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, Hollywood já explorou com as mais diferentes abordagens o fascínio de engravatados especuladores financeiros pelo dinheiro e por tudo aquilo que ele pode trazer. A Grande Aposta é um dos títulos recentes a explorar esse universo, especificando sua localização ao expor para o público os meandros da bolha imobiliária que levou não apenas os EUA como o mundo a uma preocupante crise financeira na segunda metade dos anos 2000. O filme é uma adaptação um livro de Michael Lewis, autor das obras literárias que deram origem aos longas Um Sonho Possível e O Homem que Mudou o Jogo, e, não por acaso, é baseado também em eventos e personagens reais. 

A Grande Aposta inicia sua narrativa nos apresentando a Michael Burry, vivido por Christian Bale, o dono de uma empresa pequena que acompanha ações do mercado ao coordenar um fundo de investimento. Burry decide apostar todas as suas fichas na quebra do mercado imobiliário norte-americano. O diagnóstico de Burry leva o mercado financeiro ao frenesi já que outros profissionais do setor começam a sugerir aos seus clientes que sigam a tendência vislumbrada pelo excêntrico especulador financeiro. Acabam entrando na aposta perigosa um corretor que passa por problemas emocionais após o suicídio do seu irmão, interpretado por Steve Carell, e dois inexperientes na Bolsa de Valores que são guiados por um guru de Wall Street, interpretado por Brad Pitt, que há anos vive bem longe da agitação e do estresse do mercado financeiro. 

Ao apostar no humor, o diretor Adam McKay acerta na condução de um roteiro ritmado e cheio de energia e frescor escrito por ele e por Charles Randolph. McKay dimensiona para o espectador o universo neurótico e de ética questionável da especulação econômica através do sarcasmo de um roteiro que é acompanhado pelo olhar irônico e inventivo do realizador. Em A Grande Aposta, Adam McKay joga todas as suas fichas em múltiplas formas de tornar uma trama repleta de termos e jogadas marcadas pelo "ecomiquês" em algo, no mínimo, "palatável" e compreensível para a plateia: existe a quebra da quarta parede por alguns personagens, interrupções da narrativa com sequências nas quais  algumas celebridades surgem para explicar determinados movimentos da trama... E McKay faz isso não porque não confia na capacidade de leitura e assimilação de conteúdos do seu público, mas porque são interferências necessárias para a fluidez da trama e acabam sendo formas inventivas de costurar o seu filme que estão à serviço do próprio tom encontrado pelo realizador para a sua narrativa. 

Do elenco, Christian Bale detém o personagem mais complicado da trama, ou pelo menos aquele que requer um exercício de composição mais rígido. Na pele do antissocial Michael Burry, Bale oferece uma interpretação cheia de detalhes, tornando-se, talvez, um dos pontos emotivos mais fortes de um filme que, acertadamente, sai gradualmente do humor e da ironia e acaba assumindo um tom mais grave em seu desfecho. Nesse sentido, Steve Carell também ganha destaque ao dar vida a um personagem que, se inicialmente parece ser um típico neurótico do mercado financeiro, aos poucos vai revelando uma crise de consciência e sua fragilidade emocional. Certamente, Bale e Carell são os atores com as performances mais interessantes do filme, talvez porque detenham os personagens cujos arcos dramáticos sejam mais intensos ao longo da trama, porém os demais colegas dos atores, entre eles, Brad Pitt e Ryan Gosling, também estão excelentes em momentos pontuais da história. Em suma, o elenco está imbatível e é um dos pontos fortes do longa.

Encontrando a medida certa entre a ironia e o humor que o universo que aborda merece ser tratado, sem cair no equívoco de abordar com desrespeito todas as consequências das ações questionáveis da maioria dos seus personagens ao longo da projeção, já que o filme consegue dar a dimensão da gravidade dos seus atos ao final da narrativa, A Grande Aposta é um êxito. Trata-se de um filme corrosivo e sério sobre o capitalismo, sem transformar-se em um filme sisudo ou pesado que força o espectador a aderir a uma determinada bandeira política ou ideológica. A Grande Aposta é um filme certeiro em seus propósitos. Adam McKay consegue tornar sua trama complicada e cheia de meandros "espinhosos" para olhares leigos em um longa cuja condução é marcada pelo frescor, sem perder o compromisso e a responsabilidade crítica que inevitavelmente atrai para si ao falar sobre o capitalismo e seus ciclos destrutivos e excludentes.   


The Big Short, 2015. Dir.: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay e Charles Randolph. Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Melissa Leo, Karen Gillan, Hamish Linklater, Jeremy Strong, Byron Mann, Rafe Spall.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Steve Jobs


Quando faleceu em 2011, o co-fundador da Apple Steve Jobs instantaneamente tornou-se tema de inúmeras publicações interessadas em sua biografia. Não demorou muito também para que o setor cinematográfico escolhesse Jobs como protagonista de projetos de documentários e longas de ficção que teriam como centro narrativo a sua trajetória e vida pessoal. Tratava-se de um movimento natural dada a magnitude e a representatividade da figura de Jobs no final do século XX e início do século XXI, afinal estamos falando do homem que revolucionou a indústria dos computadores em diversas frentes e que mantinha um certo interesse midiático por controversos aspectos da sua vida pessoal e profissional - os mais evidentes deles eram os seus atritos com antigos companheiros de trabalho como Steve Wozniak, amigo pessoal de Jobs e peça fundamental na concepção de computadores pessoais da Apple II (modelo da empresa na década de 1970), e o antigo CEO da Apple John Sculley. Assim, multiplicaram-se os livros, documentários e filmes de ficção que buscavam explorar os meandros da ascensão de Jobs, mas talvez nenhuma dessas obras seja tão eficiente quanto Steve Jobs, filme de Danny Boyle, que traz o ator Michael Fassbender na pele do empresário e inventor. 

Steve Jobs traz os bastidores de três momentos importantes na vida do seu biografado: em 1984, acompanhamos o fundador da Apple no lançamento do Macintosh, no qual vislumbrava-se o potencial comercial de uma máquina cujas funções eram comandadas pelos usuários através do mouse; o ano de 1988, quando Jobs foi desvinculado da Apple e fundou a Next, uma empresa especializada no desenvolvimento de computadores voltados para instituições de educação superior; e 1998, época em que Steve retornou a Apple e apresentava ao público o iMac. Nos três períodos, o espectador acompanha os passos da vida e da carreira de Jobs e a maneira como ele lidava com alguns dos mais importantes relacionamentos da sua vida, entre eles,  a sua complicada relação com a filha Lisa e os atritos o antigo companheiro da Apple Steve Wozniak. 

Para começar, o longa beneficia-se pelo incrível roteiro escrito pelo sempre afiado Aaron Sorkin, baseado no livro de Walter Isaacson. Por mais que o diretor Danny Boyle faça aqui um dos seus trabalhos mais equilibrados da sua recente filmografia, fica evidente que o realizador interfere muito pouco no trabalho do seu roteirista ao transformar Steve Jobs em uma grande peça de teatro filmada. Boyle interfere muito pouco em cena e demonstra muita maturidade ao entender que  no caso de Steve Jobs quanto menos interferência visual, melhor.

Com o roteiro usualmente verborrágico de Aaron Sorkin (tal qual seus trabalhos em A Rede Social de David Fincher ou na série West Wing) e a interessante estrutura em três atos, Steve Jobs funciona como uma encenação teatral na qual os atores ocupam praticamente um mesmo espaço, basicamente os interiores dos grandes auditórios e salas de apresentação que Jobs escolhia para fazer os seus anúncios empresariais. Dessa forma, o que se vê são atores entrando e saindo de cena em três décadas diferentes e todas as ações e dinâmicas centradas nos relacionamentos dos seus personagens com o Steve Jobs interpretado por Michael Fassbender. Assim, Steve Jobs beneficia-se pela estrutura do seu roteiro, que soube dar conta das principais questões que rondaram a vida do seu biografado sem recorrer à clássica cartilha das biografias cinematográficas: o nascimento, a vida, a obra e a morte do protagonista. O roteiro do filme, aliado ao tom da interpretaçao dos seus atores, também acerta ao evitar transformar seus personagens em vilões ou mocinhos, ou seja, não se perde em meio a um "fascínio adolescente" pela figura de Steve Jobs. Tanto ele, quanto os demais personagens da obra tem muitas camadas e cada um traz em si defeitos e qualidades que os tornam humanos e por isso mesmo fascinantes para o público nos três atos do filme. 

Por todo o cuidado que Danny Boyle tem com o texto de Aaron Sorkin e o destaque que ele dá aos duelos de palavras entre os seus personagens, o desempenho dos atores de Steve Jobs acaba tendo importância fundamental para o êxito do filme e não há um só integrante do elenco que se saia mal. A começar pelo seu protagonista, Michael Fassbender que acerta imensamente ao evitar o overacting ou buscar trejeitos ou transformações físicas e vocais muito drásticas em sua performance, uma muleta recorrente em trabalhos de atores que se dedicam a interpretar personagens reais, principalmente figuras históricas como Steve Jobs (foi o caso da péssima composição de Ashton Kutcher em Jobs, cinebiografia mal sucedida do mesmo personagem). Fassbender acerta ao ter como principal preocupação do seu trabalho as palavras de Aaron Sorkin e os vestígios da natureza de Steve Jobs que cada uma delas oferece, sendo fiel ao biografado não por uma fisicalidade, mas por conseguir dimensiona-lo como homem, empresário, inventor, pai e amigo e, desta forma, aproximar intimamente o público da sua personalidade. Ao lado de Fassbender estão atores que conseguem magistralmente dar conta de personagens igualmente interessantes e multifacetados que engrandecem ainda mais o desempenho do  seu protagonista, entre eles, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg e Katherine Waterston.

Mostrando-se como um rica e profunda biografia, que surpreende a plateia pela estrutura extremamente sagaz do seu roteiro, Steve Jobs fisga o público não apenas por ter como epicentro uma figura conhecida, uma vantagem que parte das cinebiografias ruins conseguem usufruir, mas porque é um grande filme. Com um elenco talentoso que aproveita cada cena do elegante e inteligente roteiro de Aaron Sorkin e com um diretor  como Danny Baoyle que mostra-se inteligente o suficiente para saber que muitas vezes é preciso que o cineasta saia de cena para que parte da sua equipe brilhe e revele o verdadeiro poder da sua obra, Steve Jobs é um longa repleto de virtudes. 


Steve Jobs, 2015. Dir.: Danny Boyle. Roteiro: Aaron Sorkin. Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Perla Haney-Jardine, Ripley Sobo, Makenzie Moss, Sarah Snook, Adam Shapiro, John Steen. Universal, 122 min. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Drops: O Bom Dinossauro


Segundo filme da Pixar em 2015, O Bom Dinossauro não pode nem ser comparado com Divertida Mente, magnífica animação do estúdio que o trouxe de volta a antiga forma. O filme de Peter Sohn é um longa de animação escancaradamente infantil, coisa que os títulos da empresa costumam evitar, e talvez seja um dos mais genéricos e simples de toda a história da Pixar. Ao contar a história de um jovem apatossauro chamado Arlo que faz amizade com um menino das cavernas em sua jornada de retorno para sua casa, Sohn oferece ao público um conto que toca em temas universais que costumam rondar as fábulas infantis e que já foram abordados inúmeras vezes por filmes da própria Pixar e da Disney: a importância da amizade, o rito de passagem, a construção da confiança, a superação do medo. Por um lado, O Bom Dinossauro parece querer fazer forçadamente um mix de todas esses temas como se desejasse desesperadamente ter o resultado que longas como Bambi, O Rei Leão e Toy Story tiveram (há como incômodo, por exemplo, a cópia escarrada de uma cena marcante de O Rei Leão).  Porém, se pensarmos que, como já dito, são temáticas que circulam pelos contos infantis antes mesmos desses filmes citados explorarem elas e que o filme de Peter Sohn consegue dar um tratamento interessante em todas essas temáticas com sequências belíssimas e emocionantes, não tem como ficar contrário à animação. O Bom Dinossauro não está entre a nata da filmografia da Pixar, mas também está longe de ser semelhante a alguns dos piores títulos do estúdio de animação, como Carros 2 e Universidade Monstros. Está ao lado de Valente como um filme tecnicamente competente e ocasionalmente comovente e de Carros por ser um dos títulos do estúdio que mais acertam o coração e o "paladar" da criançada. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Os Oito Odiados


Em seu anunciado oitavo longa-metragem, Quentin Tarantino reitera elementos que são marcas do realizador ao longo de toda a sua carreira: os diálogos afiados, a estrutura narrativa por vezes acronológica, muita violência e as dezenas de referências a todos aqueles filmes que são cultuados pelo realizador. Os Oito Odiados fortalece suas origens tarantinescas ao trazer para sua trama todos esses recursos. É bem verdade que o longa acaba não sendo o mais memorável da carreira do diretor e em determinadas situações suas marcas de autoria soam como repetição, mas em mais de três horas de projeção, o realizador mantém o espectador atento a sua história e a seus personagens trabalhando um domínio narrativo que poucos cineastas contemporâneos possuem. 

Em Os Oito Odiados, Quentin Tarantino traz a história de John Ruth (Kurt Russell), um carrasco que em sua viagem leva como prisioneira a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh). Ruth captura Daisy a fim de trocá-la por uma volumosa quantia em dinheiro como recompensa. No caminho, Ruth e Daisy enfrentam como dificuldade uma violenta nevasca e se deparam com um caçador de recompensas (Samuel L. Jackson) e um homem que acaba de ser empossado como xerife de uma cidade (Walton Goggins). Os quatro acabam se juntando e buscam abrigo em um armazém até que o temporal passem. Lá, eles conhecem quatro sujeitos que também estão no local aguardando a nevasca passar. No decorrer da trama, os oito personagens vão descobrindo os segredos dos seus companheiros de abrigo e, isolados do restante do mundo e obrigados a conviver  no mesmo local, acabam entrando em um inevitável confronto. 

Assim como fizera em Django Livre, em Os Oito Odiados, Tarantino retorna ao western. Contudo, este filme do realizador é bem diferente do seu longa de 2012. Aqui, Tarantino surge mais descompromissado com propósitos que vão além do entretenimento e se por um lado isso é bastante positivo pois permite que o realizador se entregue aos extremos da sua própria assinatura cinematográfica, por outro, não deixa de trazer para Os Oito Odiados uma certa sensação de repetição. Assim como seu segmento no projeto Grindhouse, o filme À Prova de Morte, Os Oito Odiados acaba mostrando-se como um bom entretenimento, porém esquecível ao final da projeção. Não há personagens memoráveis ou diálogos e cenas a se destacar como em Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, Bastardos Inglórios ou mesmo Django Livre, pelo qual confesso ter algumas reservas, mas reconheço as qualidades. A sensação após uma sessão de Os Oito Odiados é que a narrativa que nos foi apresentada tem uma correta execução, mas de que tudo é relativamente efêmero. 

Tarantino acerta mais uma vez na escalação e na condução do seu elenco. Como destaque há a marcante presença de Jennifer Jason Leigh como a prisioneira Daisy Domergue e, claro, Samuel L. Jackson que como o caçador de recompensas Marquis Warren demonstra mais uma vez que talvez não exista ator no mundo que compreenda mais as palavras e o olhar de Tarantino para os seus personagens do que ele. Há ainda que se pontuar os trabalhos de Kurt Russell, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e Channing Tatum em performances equilibradas e orgânicas ao universo proposto pelo diretor. 

Longe de ser um dos melhores filmes de Tarantino, mas também bem distante de um desastre cinematográfico - afinal, com um diretor consciente da linguagem cinematográfica e com o repertório como Tarantino dificilmente o filme cairia nessa zona de perigo - Os Oito Odiados agrada sobretudo aos fãs do estilo do cineasta. É certo que o longa não representa nada que já não tenhamos visto Quentin Tarantino fazer e que a "luz vermelha" de alerta pode começar a piscar para o realizador sinalizando que, de alguma maneira, ele tem que seguir outros caminhos para sair de uma relativa zona de conforto que ele mesmo criou (com dois filmes no gênero a cota de westerns do Tarantino já está mais do que cumprida, por exemplo), mas o filme apresenta uma narrativa construída com fluidez e domínio, entretendo a plateia com a usual assinatura do cineasta. Esse mérito, ninguém pode lhe tirar. 


The Hateful Eight, 2015. Dir.: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Bruce Dern, Michael Madsen, Channing Tatum, Zoë Bell, Dana Gourrier, James Parks, Gene Jones. Diamonds Filmes, 187 min.

Spotlight - Segredos Revelados


Em 2001, um grupo de jornalistas especializados em jornalismo investigativo do Boston Globe recebe do novo editor executivo do jornal a incumbência de desvendar alguns casos de pedofilia envolvendo padres da capital do estado de Massachusetts. A reportagem que inicialmente teria como protagonistas sete sacerdotes, chega a um número assustador de 90 padres acusados de molestar meninos e meninas de diferentes idades em casos que foram silenciados pela igreja, por advogados, pelo sistema judiciário e até mesmo por jornalistas. A reportagem do grupo, cuja seção no jornal fora batizada de Spotlight, ganhou repercussão mundial, resultou em uma atenção maior ainda para os casos de pedofilia envolvendo a igreja católica e acabou ganhando o prêmio Pulitzer de jornalismo. 

Conduzido com uma sobriedade admirável por Tom McCarthy, realizador cujos trabalhos mais marcantes até então vieram do circuito independente norte-americano, entre eles, O Agente da Estação e O Visitante, Spotlight - Segredos Revelados revive os passos da investigação empreendida pelos jornalistas do Boston Globe e é um filme cujo principal mérito é abordar um tema revoltante como a prática da pedofilia na igreja católica evitando qualquer tipo de sensacionalismo. Mesmo que adote uma abordagem quase que cerebral sobre o assunto, McCarthy não faz um filme frio, há um envolvimento emocional do diretor, do roteiro e dos personagens  na medida em que determinados fatos sobre os casos vêm à tona. Assim, há o jornalismo, mas o "sangue" está presente nas "veias" do longa-metragem. 

Grande parte desse interessante equilíbrio encontrado por Tom McCarthy em Spotlight deve-se ao fato do realizador ter compreendido que a perspectiva lançada por sua obra era a da investigação jornalística e de que o olhar lançado para o caso era do grupo de profissionais do Boston Globe. Ao adotar esse ponto de vista, McCarthy ainda consegue fazer do seu filme, essencialmente verborrágico, uma trama investigativa enervante com ganchos que mantém o espectador atento e envolvido na dinâmica de trabalho do grupo de jornalistas do filme sem recorrer a elucubrações visuais. Tudo em Spotlight parece monocórdico e ter o seu próprio tempo, o que, curiosamente, em momento algum prejudica o ritmo do filme, pelo contrário, põe em evidência o trabalho investigativo que o longa quer destacar e mantém o espectador envolvido por horas nas descobertas feitas pelos personagens. 

É como se o filme de McCarthy se transmutasse na própria reportagem cuja realização dramatiza. São raras no filme as sequências que não passam pelo crivo do olhar ou pela ação do seu grupo de jornalistas. Vivenciamos os horrores dos casos de pedofilia contados somente pela narrativa da investigação jornalística e todos os seus bastidores. Esta opção do realizador é o que sustenta o seu filme e evidencia as suas próprias pretensões: não apenas indignar o público com os crimes da igreja, mas destacar a função social  do jornalismo em casos como esse. Nesse sentido é que Spotlight consegue ser um filme sóbrio, porém evitando qualquer tipo de indiferença àquilo que está revelando a sua plateia. 

Com a mesma sobriedade que Tom McCarthy conduz a sua história, ele dirige o seu elenco. Nesse sentido, seria injusto destacar esse ou aquele desempenho no seu filme porque todos os atores estão igualmente excelentes. Tal qual o trabalho da equipe do Spotlight do jornal Boston Globe, Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci, só para citar alguns dos atores centrais do longa, trabalham harmonicamente como uma equipe, sem sobressalências ou interpretações em tons mais elevados, o que é coerente com o próprio propósito filme. 

Além de expor toda uma estrutura de poder que acobertou e continua acobertando os casos de pedofilia da igreja católica, Spotlight - Segredos Revelados acaba mostrando-se ao público como uma narrativa que reforça a importância do jornalismo (não quele de fachada que parte das redações espalhadas por ai exercem) para a sociedade. Parece um pouco "lugar comum" dizer isso, mas em tempos de "copia e cola" e da busca insana pelo furo de reportagem, resultando em práticas irresponsáveis e marcadas pelo anti-profissionalismo e por apurações cada vez mais pobres, nunca é demais abrir um parênteses para esse potencial da obra. Além disso, o filme de Tom McCarthy, em seu próprio propósito de ser uma espécie de "bastidor de uma grande reportagem" confirma que para oferecer uma trama tensa, envolvente e emocionalmente engajada não é necessário recorrer a diálogos, trilhas ou cenas excessivamente expositivas e manipulatórias, a descoberta dos fatos é por si só um instrumento de envolvimento e fidelização do público à obra do início ao fim. 



Spotlight, 2015. Dir.: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy e Josh Singer. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Brian D'Arcy James, Stanley Tucci, Billy Crudup, Jamey Sheridan, Neal Huff. Sony, 128 min. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Listão 2015 - Filmes

Chegamos ao fim do nosso Listão 2015 com a escolha dos 10 melhores lançados no Brasil no ano que passou, segundo, é claro, os critérios do Chovendo Sapos. Antes de chegarmos ao nosso Top 10, gostaria de citar outros filmes que foram lançados comercialmente em 2015 nos cinemas ou em DVD, Blu-Ray e via streaming no nosso país que merecem uma devida menção:



#20. A Espiã que sabia de Menos
Dir.: Paul Feig

#19. Tudo que Aprendemos Juntos
Dir.: Sérgio Machado

#18. Cobain - Montage of Heck
Dir.: Brett Morgen

#17. The Babadook
Dir.: Jennifer Kent

#16. Mad Max - Estrada da Fúria
Dir.: George Miller



#15. Casa Grande
Dir.: Fellipe Barbosa

#14. O Ano mais Violento
Dir.: J.C.Chandor

#13. Macbeth - Ambição e Guerra
Dir.: Justin Kurzel

#12. Dívida de Honra
Dir.: Tommy Lee Jones

#11. A Travessia
Dir.: Robert Zemeckis


#10. Corrente do Mal
Dir.: David Robert Mitchell

O terror do ano, não há dúvidas. Enquanto seus colegas exploram reiteradamente recursos já batidos, David Robert Mitchell explora de maneira inventiva todo o vínculo estabelecido durante anos entre a narrativa do gênero e a sexualidade na história de uma maldição transmitida pela relação sexual a jovens que passam a ser perseguidos por estranhos fenômenos e aparições. Mitchell se destaca pela maneira como conduz a trama, surpreendendo o espectador com ângulos e perspectivas inesperadas. E o que é melhor, o diretor não recorre ao found footage para fazer um dos melhores e mais perturbadores exemplares do gênero que foi exibido nas telonas em 2015.





# 09. Expresso do Amanhã
Dir.: Joon Ho Bong

Levou dois anos para que o público assistisse a esse primeiro filme em língua inglesa do sul-coreano Joon Ho Bong, a ficção-científica Expresso do Amanhã. Claro que versões do filme já estavam disponíveis por ai, mas valeu a pena esperar para ver no cinema. O longa é ambientado em um futuro distópico no qual a sociedade vive em um trem dividido por vagões ocupados  por diversas classes em seus privilégios ou carências. Reunindo em seu elenco atores de trajetórias profissionais diversificadas como Chris Evans, Tilda Swinton, Ed Harris, Octavia Spencer, Jamie Bell, John Hurt, além de antigos colaboradores do diretor como Kang-ho Song e Ah-sung Ko, Expresso do Amanhã se impõe como uma narrativa sobre a humanidade e sua relação com o poder. 
  




#08. Mapas para as Estrelas
Dir.: David Cronenberg

Juntem a marca inconfundível das narrativas de David Cronenberg a um roteiro sobre a doentia cultura narcísica do mundo contemporâneo e teremos um dos melhores filmes da recente filmografia do diretor, Mapas para as Estrelas. Iniciando sua trama com o retorno da jovem problemática Agatha Weiss (papel de Mia Wasikowska) a Los Angeles após passar um tempo em uma instituição psiquiátrica, Mapas para as Estrelas é um dos filmes mais enérgicos e interessantes do realizador em anos. Entre os personagens que Agatha encontra no seu caminho estão a atriz decadente, interpretada por uma afiada Julianne Moore; um jovem motorista aspirante a ator, vivido por Robert Pattinson; um garoto prodígio que é estrela de um programa de TV, a revelação Evan Bird; e um guru de celebridades, papel de John Cusack. 






#07. Belle
Dir.: Amma Asante

À primeira vista, Belle pode até ser interpretado como um romance de época banal, mas a história da cineasta Amma Asante, baseada em eventos e personagens reais, sobre uma nobre filha de uma escrava com um capitão britânico que movimentou a sociedade inglesa do século XVIII tem um valor representativo inestimável ao observar todo esse cenário de transformação pela perspectiva da sua conflituosa protagonista. Evidenciando uma forte interpretação de Gugu Mbatha-Raw, Belle discute o preconceito velado, mas também a própria crise de identidade que a segregação racial causa na protagonista Dido Elizabeth Belle, criada entre brancos como uma branca da sua época, mas vítima de uma discriminação escamoteada. Como esta personagem encontra o seu caminho para a libertação é um dos grandes méritos do filme de Asante, um belíssimo e comovente romance de época que impõe a força do seu discurso com muita organicidade.







# 06. Star Wars - O Despertar da Força

Dir.: J. J. Abrams

A força finalmente despertou! Foram quase dois anos de muita expectativa para o retorno de uma das franquias mais celebradas da história do cinema e a espera valeu muito a pena. Star Wars - O Despertar da Força chegou com tudo nos cinemas e nos prepara para muitas das emoções que a nova trilogia promete nos reservar pelos próximos anos. Num misto de nostalgia, ao dialogar com alguns elementos dos mais cultuados filmes da saga (Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca), e frescor, O Despertar da Força é conduzido por um J. J. Abrams que entendeu muito mais o espírito da franquia do que o seu próprio criador George Lucas, que se perdeu em absoluto em A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith. A gente mal pode esperar para ver o que vem a seguir...





# 05. Que horas ela volta?
Dir.: Anna Muylaert

Poucas vezes na história recente do cinema nacional um filme conseguiu aliar o seu compromisso com um discurso político e ideológico e se comunicar com públicos dos mais diversos diversos repertórios como Que horas ela volta?. Conduzido com delicadeza por Anna Muylaert, que praticamente confiou a sua história nas mãos da fantástica interpretação de Regina Casé, Que horas ela volta? mostra um Brasil que muitas vezes é ignorado, mas que está ai e parece irreversível. O tratamento que o filme de Muylaert dá às relações entre patrões e empregados e o choque de gerações entre Val e Jéssica, personagens de Casé e da jovem Camila Márdila, coloca em evidência o olhar clínico para as mudanças sociais no país sem ter a menor inclinação para o aborrecido "cinema panfletário". 






# 04. Divertida Mente
Dir.: Pete Docter e Ronnie Del Carmen

De Toy Story 3, lançado em 2010, para cá, a Pixar parecia ter simplesmente adormecido. Tá, Valente pode até ter os seus méritos, mas filmes como Carros 2 e Universidade Monstro estavam aquém de produções como Wall-E, Ratatouille ou Procurando Nemo, que impuseram a presença do estúdio de animação como uma dos maiores celeiros de produções cinematográficas contemporâneas (e não apenas de animações - como se isso fosse pouco...). Divertida Mente retoma os elementos de alguns dos melhores filmes da Pixar e os aprimora ao contar uma história sobre as transformações da cabeça de uma pré-adolescente pela perspectiva das suas emoções mais básicas: a Alegria, a Tristeza, o Raiva, a Nojinho e o Medo. A Pixar sempre acerta em cheio ao nos emocionar com histórias encabeçadas por personagens inusitados como brinquedos, robôs, insetos e monstros, mas ao transformar emoções em protagonistas com camadas e personalidade eles deram um passo além. 





# 03. Ex Machina - Instinto Artificial
Dir.: Alex Garland

Um dos filmes mais comentados de 2015 sequer chegou às salas de cinema do Brasil. Uma pena, porque Ex Machina - Instinto Artificial merecia ser visto na tela grande. Estreia como cineasta de Alex Garland, roteirista de Danny Boyle em Extermínio e Sunshine - Alerta Solar, Ex Machina chegou no país diretamente em DVD e Blu-Ray e por serviços de streaming de TV a cabo. O longa traz a história de um milionário excêntrico que oferece como prêmio a um de seus funcionários uma estadia em sua luxuosa mansão para que participe de um experimento com uma robô criada por ele chamada Ava. Com um elenco jovem e muito requisitado nos últimos anos (Alicia Vikander, Oscar Isaac e Domhnall Gleeson), Ex Machina é um filme que mexe com os nervos e a curiosidade do espectador do início ao fim e introduz discussões pertinentes e bem colocadas sobre a fé, a ética e a relação do homem com as suas criações. 






# 02. Dois Dias, Uma Noite
Dir.: Jean-Pierre e Luc Dardenne

Guiado por uma soberba interpretação de Marion Cotillard, Dois Dias, Uma Noite acompanha o esforço da operária Sandra para sair da depressão em meio a uma difícil missão que a mesma acaba assumindo quando está prestes a retornar ao trabalho após ficar um tempo afastada do serviço em função de uma crise nervosa: convencer os seus colegas a votarem pela sua permanência no emprego e abrirem mão de um possível bônus salarial que a sua demissão traria a todos. No filme, a condução dos Dardenne é bastante simples e evita qualquer firula estética, seu objetivo é mostrar a batalha pessoal empreendida pela sua protagonista para superar a depressão. Nesse sentido, Dois Dias, Uma Noite evita um ponto de vista carregado de melancolia e pessimismo, ainda que ele faça parte do filme (não poderia ser diferente tendo em vista a condição da sua protagonista), os Dardenne preferem olhar com otimismo e celebrar a vida ao final da história, o que só enobrece a obra e o seu lugar entre alguns dos melhores longas a abordar o tema.






# 01. Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo
Dir.: Bennett Miller

Talvez uma escolha polêmica pois de antemão tenho ciência que muitas pessoas não foram muito com a "cara" desse terceiro longa-metragem do talentoso Bennett Miller, que já conhecíamos por Capote e por O Homem que mudou o Jogo, mas trata-se de uma escolha consciente e sincera. Indicado a 5 Oscars (diretor, roteiro original, ator para Steve Carell, ator coadjuvante para Mark Ruffalo e maquiagem) e vencedor do prêmio de direção em Cannes, Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo é baseado em eventos reais e narra parte da trajetória do atleta de luta greco-romana Mark Schultz (Channing Tatum) e sua delicada relação com o seu novo treinador, o excêntrico (para dizer o mínimo) milionário John Du Pont (papel de Steve Carell). No fundo, Foxcatcher traz ingredientes e temáticas de alguns dos melhores filmes do cinema norte-americano ao explorar as consequências da "cultura do vencedor" na sociedade estadounidense, Bennett Miller nos apresenta, sem concessões, a sujeitos marcados pela imaturidade emocional (Mark Schultz) ou psicologicamente perturbados (John Du Pont). O resultado é um filme importante, sombrio, elegante e consciente do tipo de trauma coletivo que pretende explorar. 

 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Listão 2015 - Atrizes




#01. Regina Casé
Que horas ela volta?

Não é exagero algum dizer que sem Regina Casé, Que horas ela volta? não teria o mesmo resultado que teve. Como Val, Casé nos fez lembrar novamente da grande atriz que é, capaz de conduzir e atrair a própria obra para a sua própria órbita. No filme de Anna Muylaert, a atriz interpreta uma empregada doméstica nordestina que trabalha por anos para uma família de classe média alta paulistana. Com a chegada de Jéssica a casa dos patrões, uma filha que sempre criou a distância, Val se confronta com uma série de certezas que antes tinha e com o lugar que pensava ocupar na vida daqueles para quem trabalhava. Arrancando do espectador o riso e a lágrima nas situações mais simples, com esse desempenho, Casé conquistou os que torcem o nariz para o seu Esquenta na Rede Globo e nos relembra da atriz que já conhecíamos em filmes como Eu Tu Eles. Ela reina absoluta em Que horas ela volta? e em 2015. 


#02. Marion Cotillard
Dois Dias, Uma Noite

A brasileira reina absoluta, mas tem algumas companhias importantes na ala feminina das interpretações do ano. A começar pela vencedora do Oscar por Piaf - Um Hino ao Amor que em Dois Dias, Uma Noite nos dá mais uma vez a dimensão do calibre do seu talento. Marion Cotillard pode ter entrado de última hora na lista de indicados ao Oscar por sua performance no filme dos Dardenne, ocupando uma vaga que poderia ter sido de Jennifer Aniston em Cake - Uma Razão para Viver, mas aqui ela entra com folga entre os melhores desempenhos femininos do ano. Cotillard vive  Sandra em Dois Dias, Uma Noite uma operária que é afastada do trabalho após uma crise de depressão e tem que ir atrás de vários dos seus colegas para pedir que em assembleia eles votem pela sua permanência no emprego. A atriz mais uma vez tem em sua sensibilidade a arma para construir de maneira emocionante a trajetória de Sandra, oscilando entre as diversas emoções sentidas por sua personagem ao longo de um filme que acompanha o seu olhar fragilizado para a situação. 


#03. Gugu Mbatha-Raw
Belle

É uma pena que Gugu Mbatha-Raw tenha sido um nome pouco comentado no Brasil em 2015. Na temporada de premiações 2014-2015, a inglesa chegou a ser apontada como uma possibilidade para o Oscar, afinal somente naquele ano duas de suas interpretações havia chamado a atenção dos críticos, uma em Nos Bastidores da Fama e outra no romance de época Belle. Como não foi mencionada nas principais premiações, os filmes de Mbatha-Raw ficaram no limbo por aqui, sendo lançados diretamente para o mercado doméstico em Blu-ray e DVD ( o que praticamente significa a morte de uma obra, já que, a exceção de colecionadores que compram essas mídias, hoje praticamente ninguém loca filmes). Mbatha-Raw está excelente em Nos Bastidores da Fama, mas é em Belle que a atriz brilha e mostra todo o seu talento. No longa, baseado em eventos e personagens reais, a atriz vive uma Dido Elizabeth Belle, uma negra que na Inglaterra do século XVIII é criada pela família branca e aristocrática do seu pai. Mbatha-Raw traz para a sua Dido todo o conflito de pertencer a um grupo social, mas, ao mesmo tempo, ser colocada à margem dele. 


#04. Hilary Swank
Dívida de Honra

Tommy Lee Jones trouxe para a filmografia de Hilary Swank um dos desempenhos mais fortes da sua carreira e que figura tranquilamente ao lado de Meninos não Choram e bem acima de Menina de Ouro como uma das interpretações mais acertadas da atriz. Em seu segundo longa-metragem para o cinema, Tommy Lee Jones, traz Hilary Swank na pele de Mary Bee Cudy uma solitária mulher que nos EUA de 1854 leva três mulheres com problemas mentais até Iowa para que possam ter uma vida decente. Swank encontra um interessante equilíbrio entre a determinação de Cudy e sua fragilidade emocional que culmina em uma das cenas mais cruciais e delicadas da obra. Não apenas a atriz merecia mais reconhecimento por esse trabalho, como o próprio filme merece ser descoberto por quem ainda não assistiu. 


#05. Charlize Theron
Mad Max - Estrada da Fúria

Alçada a símbolo da causa feminista dentro e fora das telas, a Imperatriz Furiosa de Charlize Theron em Mad Max - Estrada da Fúria foi uma das personagens mais celebradas de 2015. Não é exagero dizer que o filme de George Miller é dela e não do próprio Max Rockatansky, vivido agora por Tom Hardy. Theron merece reconhecimento não apenas por viver uma personagem que é símbolo de uma discussão tão séria e sempre pertinente em nossa sociedade, mas também por dar vida e alma a uma heroína de ação como há muito não víamos nas telonas, resgatando lindamente uma tradição oitentista de atrizes como Sigourney Weaver (franquia Alien) e Linda Hamilton (franquia O Exterminador do Futuro). Com uma performance marcada por poucos diálogos, Theron traz para a sua Furiosa a expressividade do olhar de quem guarda muitos traumas, mas também de quem possui muita nobreza da alma. Inesquecível. 


Coadjuvantes


#01. Julianne Moore
Mapas para as Estrelas

Julianne Moore é a peça central da nossa lista de coadjuvantes, ainda que em 2015 ela tenha ganhado o Oscar de melhor atriz por Para Sempre Alice, que convenhamos não é o filme ou o desempenho mais memorável da carreira daquela que já viveu personagens marcantes em filmes de diretores como Paul Thomas Anderson, Robert Altman, Joel e Ethan Coen, Stephen Daldry, Todd Haynes e por ai vai. Em Mapas para as Estrelas de David Cronenberg, Moore ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes como Havana Segrand, uma atriz decadente de Hollywood tentando resgatar a glória em sua carreira ao interpretar um personagem que anteriormente foi vivido por sua mãe. Em um filme que obviamente tem Mia Wasikowska como o centro da sua narrativa, Julianne Moore rouba a cena alucinadamente na pele de uma mulher sem o menor senso de realidade e incorpora todas as neuroses de uma sociedade centrada no ego. Moore dá contornos e emoções profundas a uma personagem que poderia ficar somente na caricatura e na superfície. 


#02. Camila Márdila
Que horas ela volta?

É certo que Regina Casé brilha em Que horas ela volta?, mas o filme apresenta ao grande público uma atriz cuja personagem é fundamental para a transformação da própria Val na história de Anna Muylaert: Jéssica, interpretada lindamente por Camila Márdila. Questionadora e ciente do seu lugar no mundo, Jéssica chega na casa dos patrões de Val como um verdadeiro furacão. Habilmente, Márdila evita transformar Jéssica em uma "revoltadinha", vivendo-a como uma representante da sua própria geração, que enxerga com olhos de estranhamento determinadas hipocrisias nas relações entre patrões e empregados legadas na sociedade brasileira. Com Jéssica, Camila Márdila conseguiu ampliar discussões sobre as questões sociais do país através de uma composição de personagem delicada e muito aplicada desenvolvida com muito cuidado e esmero por ela em suas dinâmicas com sua principal colega de cena, Regina Casé, e com a diretora Anna Muylaert. 


#03. Kristen Stewart
Acima das Nuvens

Ao contracenar de igual para igual com o ícone do cinema mundial Juliette Binoche em Acima das Nuvens de Olivier Assayas, Kristen Stewart silenciou quem a esnobou por sua participação na franquia adolescente Crepúsculo ao se tornar a primeira atriz norte-americana a vencer um prêmio César, maior premiação do cinema francês. Stewart foi escolhida como a melhor atriz coadjuvante do ano ao viver Valentine, assistente de uma estrela internacional do teatro e do cinema em crise, Maria Enders, papel de Binoche. Em cenas e diálogos complicados que expõem as inseguranças e os conflitos da sua personagem, Stewart se impõe em cena e coloca sua Valentine como o centro das principais questões abordadas em Acima das Nuvens. Acima das Nuvens representa para a carreira da atriz o mesmo que filmes como The Rover - A Caçada representaram para seu colega de cena Robert Pattinson. Ao sairem de um "abacaxi" como Crepúsculo, ambos evitaram os rótulos hollywoodianos e optaram por diretores e projetos que os testassem como intérpretes e fizessem diferença em suas carreiras. Estão muito bem encaminhados. 


#04. Jessica Chastain
O Ano mais Violento

Desde que conhecemos Jessica Chastain em A Árvore da Vida, temos nos apaixonado pela atriz e por seus inúmeros desempenhos formidáveis nas telonas. Da doçura de sua platinada Celia Foote de Histórias Cruzadas a sua kick-ass de A Hora mais Escura, Chastain teve a sua assinatura em interpretações tão memoráveis em poucos anos de carreira que nem dá para imaginar o que o seu repertório e o seu talento nos reserva pelos próximos anos. Em O Ano mais Violento a atriz demonstra mais uma vez a sua força dramática na pele da matriarca da família Morales, Anna, ao lado de Oscar Isaac. No longa de J. C. Chandor, Chastain interpreta uma mulher com moral e escrúpulos próprios que não mede esforços para manter a situação financeiramente confortável da sua família. Diferente de tudo o que Chastain já fez até aqui, Anna Morales é uma prova das facetas que a atriz ainda pode e conseguirá explorar em sua carreira.


#05. Katherine Waterston
Vício Inerente

No cenário pirado das paranoias e good vibes dos anos de 1970 criado pelo autor Thomas Pynchon e reinventado pelo cineasta Paul Thomas Anderson  para Vício Inerente, uma personagem paira constantemente pela trama apesar de ter pouquíssimas cenas, a musa do detetive "Doc" Sportello de Joaquin Phoenix, Shasta Fay. Interpretada pela pouco conhecida Katherine Waterson, Shasta Fay torna-se uma autêntica femme fatale nesse ambiente incomum e alucinógeno do filme de Paul Thomas Anderson em cenas nas quais simplesmente não conseguimos tirar os olhos dela. Não por uma beleza física desconcertante ou pelo fato da atriz estar completamente nua em uma das sequências - afinal, se levarmos em consideração os padrões hollywoodianos, Waterston é uma mulher absolutamente comum -, mas porque Katherine saboreia cada palavra do roteiro de Anderson como se fosse sua. É uma pena que o filme não tenha tido a repercussão que Waterston merecia para o seu trabalho. A sua Shasta Fay protagoniza momentos que certamente estão entre os preferidos dos fãs do cineasta.  

domingo, 3 de janeiro de 2016

Listão 2015 - Atores




# 01. Channing Tatum
Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo

Do elenco principal de Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo, Channing Tatum foi o único que não recebeu indicações a prêmios na temporada passada. Levando em consideração o que Tatum conseguiu com sua performance no filme de Bennett Miller foi uma grande esnobada. O ator saiu da moldura que Hollywood costuma colocar atores com a sua estampa e impressiona por seu empenho em Foxcatcher. Na pele do lutador Mark Schultz, Tatum expõe toda a vulnerabilidade, a instabilidade e a imaturidade emocional do personagem, tornando-o uma verdadeira "bomba relógio" ao longo do filme. 


# 02. Steve Carell
Foxcatcher - Uma História que chocou o Mundo

Lembrado no Oscar pelo seu desempenho em Foxcatcher, Steve Carell não impressiona na pele do excêntrico milionário John Du Pont apenas por sua transformação física, elemento que tornou sua performance nesse filme altamente subestimada nas rodinhas cinéfilas, mas também por ter conseguido manter o seu assustador personagem envolto pela imprevisibilidade ao longo de todo a narrativa, passando bem longe da caricatura do "vilão malucão". Merecia mais respeito e reconhecimento por seus esforços do que teve já que seu personagem era armadilha fácil para a caricatura e o ator o interpretou na medida certa. 


# 03. Michael Fassbender
Macbeth - Guerra e Ambição

Segurar um Shakespeare é para poucos. Segurar um Macbeth é ainda mais difícil. Foi isso que Michael Fassbender fez em Macbeth - Ambição e Guerra. Com um texto complicado marcado pelo inglês arcaico, Fassbender conseguiu uma fabulosa performance como o general escocês tomado pela ganância e atormentado pela culpa. Pode-se dizer que ele não conseguiu isso sozinho, já que contava com Marion Cotillard ao seu lado na pele de Lady Macbeth e com a condução acertada do diretor Justin Kurzel, mas a interpretação de Fassbender foi parte importante nos acertos da adaptação. 


# 04. Miles Teller
Whiplash - Em Busca da Perfeição

Quem ganhou o Oscar foi J.K. Simmons, mas quem dá todo o suor e é levado à exaustão psicológica na pele do aspirante a músico em Whiplash - Em Busca da Perfeição é o jovem Miles Teller. Não é a primeira vez que Teller nos impressiona, basta assistir a sua estreia nas telonas ao lado de Nicole Kidman em Reencontrando a Felicidade, porém aqui o ator eleva o seu potencial a outro nível. O ator compõe com maestria toda a jornada de Andrew, trafegando em caminhos como a insegurança, a arrogância e a fúria. 


# 05. Michael Keaton
Birdman (ou A Inesperada virtude da Ignorância)

O comeback de 2014-2015 foi do eterno Batman de Tim Burton, Michael Keaton, que está formidável em Birdman (ou A Inesperada virtude da Ignorância), filme de Alejandro González Iñárritu que venceu 5 Oscars no início do ano, incluindo o prêmio de melhor filme. É uma pena que uma dessas estatuetas não tenha ido para Keaton (sim, foi para Eddie RedmayneZzzzZzzZZz). Keaton dá o sangue como Riggan, um ator que tornou-se ícone no passado por viver o super-herói Birdman nos cinemas e que na maturidade encontra-se em uma profunda crise pessoal e profissional. 

Coadjuvantes


# 01. Mark Rylance
Ponte dos Espiões

Steven Spielberg e seu Ponte dos Espiões nos revelou esse que é provavelmente um dos atores do ano: Mark Rylance. Em alta também por causa da minissérie Wolf Hall, Rylance já venceu três Tony Awards e dois Olivier Awards, prêmios importantes na comunidade teatral. Nos cinemas, ele ganha pela primeira vez um merecido destaque na pele de Rudolf Abel, um espião soviético que é peça central na negociação entre EUA e União Soviética empreendida pelo personagem de Tom Hanks no filme. Rylance compõe uma figura interessantíssima, marcada pela calma, pelos gestos suaves e pelo baixo tom de voz. É uma dessas interpretações econômicas que dá gosto de assistir pela riqueza de detalhes que ela revela. Tem sido indicada a vários prêmios e torcemos para sua ótima campanha até o Oscar. 


# 02. Oscar Isaac
Ex Machina - Instinto Artificial

Desde Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum, Oscar Isaac está em tudo quanto é lugar. Em 2015, o ator esteve em Star Wars - O Despertar da Força prometendo ser o herói de uma geração na pele de Poe Dameron e em O Ano mais Violento como um paí de família em conflito com os meandros do seu trabalho. Há que se notar, porém, a interessante presença do ator em Ex Machina - Instinto Artificial como o excêntrico inventor da robô Ava, Nathan. Isaac vive um sujeito sem limites para as suas ambições que paga um preço muito alta por sua falta de "pé no chão". 



# 03. Josh Brolin
Vício Inerente

Vício Inerente, um dos filmes mais divisivos da carreira do cultuado Paul Thomas Anderson, pode ter todos os defeitos do mundo, mas eles passam bem longe do seu elenco. Na pele de Christian F. "Pé Grande" Bjornsen, o chato policial que está sempre no pé do personagem de Joaquin Phoenix, "Doc" Sportello, Josh Brolin é um elemento à parte no filme de Anderson. Alguns dos momentos mais non sense e impagáveis de Vício Inerente estão nas mãos de Brolin e sua parceria com Phoenix. 


# 04. Marcello Novaes
Casa Grande

Um dos grandes filmes brasileiros do ano, Casa Grande conta com uma das mais interessantes interpretações da carreira de Marcello Novaes. Na pele de Hugo, o patriarca de uma família burguesa em decadência, Novaes tem em suas mãos algumas das cenas chaves do longa que colocam em evidência o conservadorismo, os preconceitos e os recalques de um grupo social que não sabe se colocar diante da nova ordem das coisas na sociedade brasileira. 


# 05. Benicio DelToro
Sicario - Terra de Ninguém

Alguns disseram que o que Del Toro faz em Sicario - Terra de Ninguém é praticamente uma extensão do trabalho que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante em 2001, Traffic - aliás, muitos acusam o próprio filme disso. Existem algumas semelhanças, mas não deixa de ser interessante a maneira como Del Toro compõe o seu Alejandro de Sicario, um personagem completamente sinuoso em gestos e olhares, mas profundamente marcado pela raiva provocada por tragédias pessoais. É sempre interessante perceber os caminhos que Del Toro percorre no "desenho" dos seus personagens. Com esse aqui, não é diferente.