segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Listão 2015 - Atrizes




#01. Regina Casé
Que horas ela volta?

Não é exagero algum dizer que sem Regina Casé, Que horas ela volta? não teria o mesmo resultado que teve. Como Val, Casé nos fez lembrar novamente da grande atriz que é, capaz de conduzir e atrair a própria obra para a sua própria órbita. No filme de Anna Muylaert, a atriz interpreta uma empregada doméstica nordestina que trabalha por anos para uma família de classe média alta paulistana. Com a chegada de Jéssica a casa dos patrões, uma filha que sempre criou a distância, Val se confronta com uma série de certezas que antes tinha e com o lugar que pensava ocupar na vida daqueles para quem trabalhava. Arrancando do espectador o riso e a lágrima nas situações mais simples, com esse desempenho, Casé conquistou os que torcem o nariz para o seu Esquenta na Rede Globo e nos relembra da atriz que já conhecíamos em filmes como Eu Tu Eles. Ela reina absoluta em Que horas ela volta? e em 2015. 


#02. Marion Cotillard
Dois Dias, Uma Noite

A brasileira reina absoluta, mas tem algumas companhias importantes na ala feminina das interpretações do ano. A começar pela vencedora do Oscar por Piaf - Um Hino ao Amor que em Dois Dias, Uma Noite nos dá mais uma vez a dimensão do calibre do seu talento. Marion Cotillard pode ter entrado de última hora na lista de indicados ao Oscar por sua performance no filme dos Dardenne, ocupando uma vaga que poderia ter sido de Jennifer Aniston em Cake - Uma Razão para Viver, mas aqui ela entra com folga entre os melhores desempenhos femininos do ano. Cotillard vive  Sandra em Dois Dias, Uma Noite uma operária que é afastada do trabalho após uma crise de depressão e tem que ir atrás de vários dos seus colegas para pedir que em assembleia eles votem pela sua permanência no emprego. A atriz mais uma vez tem em sua sensibilidade a arma para construir de maneira emocionante a trajetória de Sandra, oscilando entre as diversas emoções sentidas por sua personagem ao longo de um filme que acompanha o seu olhar fragilizado para a situação. 


#03. Gugu Mbatha-Raw
Belle

É uma pena que Gugu Mbatha-Raw tenha sido um nome pouco comentado no Brasil em 2015. Na temporada de premiações 2014-2015, a inglesa chegou a ser apontada como uma possibilidade para o Oscar, afinal somente naquele ano duas de suas interpretações havia chamado a atenção dos críticos, uma em Nos Bastidores da Fama e outra no romance de época Belle. Como não foi mencionada nas principais premiações, os filmes de Mbatha-Raw ficaram no limbo por aqui, sendo lançados diretamente para o mercado doméstico em Blu-ray e DVD ( o que praticamente significa a morte de uma obra, já que, a exceção de colecionadores que compram essas mídias, hoje praticamente ninguém loca filmes). Mbatha-Raw está excelente em Nos Bastidores da Fama, mas é em Belle que a atriz brilha e mostra todo o seu talento. No longa, baseado em eventos e personagens reais, a atriz vive uma Dido Elizabeth Belle, uma negra que na Inglaterra do século XVIII é criada pela família branca e aristocrática do seu pai. Mbatha-Raw traz para a sua Dido todo o conflito de pertencer a um grupo social, mas, ao mesmo tempo, ser colocada à margem dele. 


#04. Hilary Swank
Dívida de Honra

Tommy Lee Jones trouxe para a filmografia de Hilary Swank um dos desempenhos mais fortes da sua carreira e que figura tranquilamente ao lado de Meninos não Choram e bem acima de Menina de Ouro como uma das interpretações mais acertadas da atriz. Em seu segundo longa-metragem para o cinema, Tommy Lee Jones, traz Hilary Swank na pele de Mary Bee Cudy uma solitária mulher que nos EUA de 1854 leva três mulheres com problemas mentais até Iowa para que possam ter uma vida decente. Swank encontra um interessante equilíbrio entre a determinação de Cudy e sua fragilidade emocional que culmina em uma das cenas mais cruciais e delicadas da obra. Não apenas a atriz merecia mais reconhecimento por esse trabalho, como o próprio filme merece ser descoberto por quem ainda não assistiu. 


#05. Charlize Theron
Mad Max - Estrada da Fúria

Alçada a símbolo da causa feminista dentro e fora das telas, a Imperatriz Furiosa de Charlize Theron em Mad Max - Estrada da Fúria foi uma das personagens mais celebradas de 2015. Não é exagero dizer que o filme de George Miller é dela e não do próprio Max Rockatansky, vivido agora por Tom Hardy. Theron merece reconhecimento não apenas por viver uma personagem que é símbolo de uma discussão tão séria e sempre pertinente em nossa sociedade, mas também por dar vida e alma a uma heroína de ação como há muito não víamos nas telonas, resgatando lindamente uma tradição oitentista de atrizes como Sigourney Weaver (franquia Alien) e Linda Hamilton (franquia O Exterminador do Futuro). Com uma performance marcada por poucos diálogos, Theron traz para a sua Furiosa a expressividade do olhar de quem guarda muitos traumas, mas também de quem possui muita nobreza da alma. Inesquecível. 


Coadjuvantes


#01. Julianne Moore
Mapas para as Estrelas

Julianne Moore é a peça central da nossa lista de coadjuvantes, ainda que em 2015 ela tenha ganhado o Oscar de melhor atriz por Para Sempre Alice, que convenhamos não é o filme ou o desempenho mais memorável da carreira daquela que já viveu personagens marcantes em filmes de diretores como Paul Thomas Anderson, Robert Altman, Joel e Ethan Coen, Stephen Daldry, Todd Haynes e por ai vai. Em Mapas para as Estrelas de David Cronenberg, Moore ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes como Havana Segrand, uma atriz decadente de Hollywood tentando resgatar a glória em sua carreira ao interpretar um personagem que anteriormente foi vivido por sua mãe. Em um filme que obviamente tem Mia Wasikowska como o centro da sua narrativa, Julianne Moore rouba a cena alucinadamente na pele de uma mulher sem o menor senso de realidade e incorpora todas as neuroses de uma sociedade centrada no ego. Moore dá contornos e emoções profundas a uma personagem que poderia ficar somente na caricatura e na superfície. 


#02. Camila Márdila
Que horas ela volta?

É certo que Regina Casé brilha em Que horas ela volta?, mas o filme apresenta ao grande público uma atriz cuja personagem é fundamental para a transformação da própria Val na história de Anna Muylaert: Jéssica, interpretada lindamente por Camila Márdila. Questionadora e ciente do seu lugar no mundo, Jéssica chega na casa dos patrões de Val como um verdadeiro furacão. Habilmente, Márdila evita transformar Jéssica em uma "revoltadinha", vivendo-a como uma representante da sua própria geração, que enxerga com olhos de estranhamento determinadas hipocrisias nas relações entre patrões e empregados legadas na sociedade brasileira. Com Jéssica, Camila Márdila conseguiu ampliar discussões sobre as questões sociais do país através de uma composição de personagem delicada e muito aplicada desenvolvida com muito cuidado e esmero por ela em suas dinâmicas com sua principal colega de cena, Regina Casé, e com a diretora Anna Muylaert. 


#03. Kristen Stewart
Acima das Nuvens

Ao contracenar de igual para igual com o ícone do cinema mundial Juliette Binoche em Acima das Nuvens de Olivier Assayas, Kristen Stewart silenciou quem a esnobou por sua participação na franquia adolescente Crepúsculo ao se tornar a primeira atriz norte-americana a vencer um prêmio César, maior premiação do cinema francês. Stewart foi escolhida como a melhor atriz coadjuvante do ano ao viver Valentine, assistente de uma estrela internacional do teatro e do cinema em crise, Maria Enders, papel de Binoche. Em cenas e diálogos complicados que expõem as inseguranças e os conflitos da sua personagem, Stewart se impõe em cena e coloca sua Valentine como o centro das principais questões abordadas em Acima das Nuvens. Acima das Nuvens representa para a carreira da atriz o mesmo que filmes como The Rover - A Caçada representaram para seu colega de cena Robert Pattinson. Ao sairem de um "abacaxi" como Crepúsculo, ambos evitaram os rótulos hollywoodianos e optaram por diretores e projetos que os testassem como intérpretes e fizessem diferença em suas carreiras. Estão muito bem encaminhados. 


#04. Jessica Chastain
O Ano mais Violento

Desde que conhecemos Jessica Chastain em A Árvore da Vida, temos nos apaixonado pela atriz e por seus inúmeros desempenhos formidáveis nas telonas. Da doçura de sua platinada Celia Foote de Histórias Cruzadas a sua kick-ass de A Hora mais Escura, Chastain teve a sua assinatura em interpretações tão memoráveis em poucos anos de carreira que nem dá para imaginar o que o seu repertório e o seu talento nos reserva pelos próximos anos. Em O Ano mais Violento a atriz demonstra mais uma vez a sua força dramática na pele da matriarca da família Morales, Anna, ao lado de Oscar Isaac. No longa de J. C. Chandor, Chastain interpreta uma mulher com moral e escrúpulos próprios que não mede esforços para manter a situação financeiramente confortável da sua família. Diferente de tudo o que Chastain já fez até aqui, Anna Morales é uma prova das facetas que a atriz ainda pode e conseguirá explorar em sua carreira.


#05. Katherine Waterston
Vício Inerente

No cenário pirado das paranoias e good vibes dos anos de 1970 criado pelo autor Thomas Pynchon e reinventado pelo cineasta Paul Thomas Anderson  para Vício Inerente, uma personagem paira constantemente pela trama apesar de ter pouquíssimas cenas, a musa do detetive "Doc" Sportello de Joaquin Phoenix, Shasta Fay. Interpretada pela pouco conhecida Katherine Waterson, Shasta Fay torna-se uma autêntica femme fatale nesse ambiente incomum e alucinógeno do filme de Paul Thomas Anderson em cenas nas quais simplesmente não conseguimos tirar os olhos dela. Não por uma beleza física desconcertante ou pelo fato da atriz estar completamente nua em uma das sequências - afinal, se levarmos em consideração os padrões hollywoodianos, Waterston é uma mulher absolutamente comum -, mas porque Katherine saboreia cada palavra do roteiro de Anderson como se fosse sua. É uma pena que o filme não tenha tido a repercussão que Waterston merecia para o seu trabalho. A sua Shasta Fay protagoniza momentos que certamente estão entre os preferidos dos fãs do cineasta.  

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