quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Deuses do Egito


Desde que os primeiros trailers de Deuses do Egito foram lançados na rede, o mais recente longa do diretor Alex Proyas, o mesmo de O Corvo, Eu Robô e Presságio, todos passatempos bem "bacaninhas", as primeiras impressões do público não foram nada positivas. O longa parecia ser uma tentativa desastrada de fazer da mitologia egípcia um universo fértil para a realização de um épico de aventura feito praticamente em CGI, ou seja, mais um entre tantos da leva que sucedeu 300, de Zack Snyder. Como julgar um filme pelo trailer é um pecado que qualquer apaixonado por cinema não pode cometer, teríamos que chegar aos cinemas com pelo menos um pouquinho de esperança de que o longa não fosse de todo ruim e que todos os efeitos especiais mal feitos e exagerados exibidos na peça publicitária da obra fossem superados por algum elemento extra-técnico. Infelizmente, não é isso que vivenciamos em Deuses do Egito, provavelmente um sério candidato a filme mais desastroso a ser batido em 2016. 

No longa, Nikolaj Coster-Waldau (da série Game of Thrones) vive o deus Horus, cujo trono é usurpado pelo poderoso deus Set, papel de Gerard Butler (precisando de um novo agente para ontem, tamanha a quantidade de filmes ruins que anda fazendo), que transforma toda a sociedade egípcia em um verdadeiro caos. Nesse cenário, Bek, um jovem comum, junta suas forças com Horus para formar um grupo de resistência contra os mandos e desmandos de Set, pondo fim a essa era de escuridão no Egito. 

Deuses do Egito é um filme que esquece qualquer tipo de sutileza, ou seja, tudo no longa é marcado pelo exagero, pela opulência e, por isso mesmo, pela cafonice. Do figurino aos sets construídos praticamente por recursos digitais, passando pela trilha sonora composta em tom de grandiloquência por um Marco Beltrami irreconhecível (como pode o compositor responsável recentemente pelas trilhas irretocáveis de Dívida de Honra e Expresso do Amanhã cometer um trabalho tão ruim?), tudo em Deuses do Egito privilegia a megalomania. O longa de Proyas parece gritar no ouvido e nos olhos do espectador a todo momento a sua ambição de grande produção. Todo o exagero dos elementos que envolvem Deuses do Egito poderia se justificar caso o filme fizesse piada da sua própria existência, mas não é isso que vemos em cena, pelo menos, não na maioria das vezes. Em inúmeros momentos, Alex Proyas parece realmente acreditar estar conduzindo uma produção no naipe das melhores do seu gênero. 

Operando os aspectos visuais e narrativos do seu espalhafatoso longa-metragem de ação com a discrição de um elefante, Alex Proyas faz seu filme assemelhar-se a um desfile de escolas de samba ruim, com direito a um enredo infeliz, alegorias e fantasias que gritam suas respectivas breguices e um samba que não faz sentido do início ao fim da sua passagem pela Sapucaí. O roteiro do longa escrito por Matt Sazama e Burk Sharpless, os mesmos do igualmente ruim Drácula - A História Nunca Contada, não tem estrutura ou coerência alguma e ainda carrega o quanto pode a trama de frases de efeito e momentos que beiram o risível. 

Transformando suas figuras mitológicas em criaturas de armadura cromada que são apenas um dos sinais de mau gosto da sua trama, Deuses do Egito é um filme que confunde os seus excessos em todos os departamentos criativos com a oferta de um espetáculo cinematográfico empolgante para a sua plateia. No final das contas, o que o espectador tem é um filme que em todos os níveis não faz o menor sentido, sobretudo como entretenimento.  


Gods of Egypt, 2016. Dir.: Alex Proyas. Roteiro: Matt Sazama e Burk Sharpless. Elenco: Gerard Butler, Nikolaj Coster-Waldau, Brenton Thwaites, Geoffrey Rush, Elodie Yung, Rufus Sewell, Chadwick Boseman, Courtney Eaton, Abbey Lee. Paris Filmes, 127 min. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Boa Noite, Mamãe!


Aclamado por parte da crítica desde a sua passagem por alguns festivais de cinema, o austríaco Boa Noite, Mamãe! é um exemplar raro vinculado ao gênero terror, mas que não necessariamente enquadra-se somente nessa definição. O filme destaca-se pois, antes de qualquer coisa, preza pela consciência dos seus realizadores por uma narrativa audiovisual eficiente e muito bem conduzida. É nisso que reside a "fórmula" do seu sucesso. Sem apelar para truques de cartilha que são mais do que conhecidos do nicho de filmes ao qual inevitavelmente acaba se filiando, Boa Noite, Mamãe! costura uma história tensa e macabra repleta de tensões e revelações orquestradas não apenas pela construção de ações e reviravoltas de um roteiro ou pelas sequências de tortura que acaba trazendo, mas também pela exposição de um excelente trabalho de composição e atmosfera visual apresentado pelos seus diretores Veronika Franz e Severin Fiala. 

Ancorado inicialmente na percepção que os seus dois protagonistas têm das suas próprias histórias, os gêmeos Lukas e Elias Schwarz, ótimos em cena ao darem vida a personagens que levam os seus próprios nomes, o filme de Franz e Fiala explora de maneira peculiar a psiquê infantil, um tema recorrente ao gênero terror e que sempre rendeu excelentes obras. No longa, os gêmeos vivem com sua mãe em uma casa isolada do mundo. O público não é completamente inteirado sobre o que aconteceu com a família, mas algumas pistas são dadas: aparentemente, a mulher se separou do marido e acaba de sair de uma cirurgia realizada no próprio rosto, que encontra-se coberto por ataduras. As crianças não reconhecem mais a sua mãe que, na perspectiva deles, começa a apresentar um comportamento esquisito ou pelo menos bem diferente do que costumava ter antes dos eventos. 

Prendendo o espectador do início ao fim da sua história na expectativa do desenlace de sua trama central sem construir armadilhas para si próprio, como eventuais "barrigas" na trama, Boa Noite, Mamãe! é um longa que não decepciona quando chega ao seu terceiro ato, oferecendo uma solução satisfatória que nos remete a alguns dos melhores desfechos do gênero. Franz e Fiala conseguem construir, ao lado dos desempenhos dos gêmeos Schwarz, uma atmosfera dúbia, na qual o espectador assume posições diferentes sobre a história a cada momento em que ela avança, sentindo em dada situação ora empatia pelas crianças, ora por sua mãe. O longa ainda apresenta excelentes composições visuais através de um trabalho refinado de fotografia que marca ao integra-se aos propósitos da sua narrativa e não apresenta-se como um recurso aleatório de hermetismo visual. 

Visual e narrativamente sedutor, Boa Noite, Mamãe! é um longa bastante eficiente, que, acima de tudo, cumpre muito bem as suas funções e propósitos. Sustentando sua narrativa na modelagem de uma trama sombria que penetra no universo infantil e nos aspectos mais sombrios dos seus personagens, o longa é uma eficiente realização do seu gênero, mas ganha ao entender que acima de tudo deve oferecer ao seu público uma trama que extrapole as expectativas de sua cartilha. Diferente de alguns exemplares da "espécime" norte-americanos que se reproduzem  cotidianamente nas salas de cinema, o filme dos austríacos Veronika Franz e Severin Fiala produz uma história com seus próprios termos e em seu próprio ritmo, usando com precisão e economia os recursos do terror em uma história que revela-se múltipla em suas pretensões e produções de efeitos. Sem sombra de dúvidas, vem dessa postura de trabalho todo o êxito do longa.



Ich Seh Ich Seh, 2015. Dir.: Veronika Franz e Severin Fiala. Roteiro: Veronika Franz e Severin Fiala. Elenco: Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest, Hans Escher, Elfried Schatz, Karl Purker, Georg Deliovsky, Christian Schatz, Christian Steindl. Playarte, 99 min. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Orgulho e Preconceito e Zumbis



Certas ideias são tão estapafúrdias que a gente chega a acreditar que nas mãos das pessoas certas, quem sabe, elas podem dar certo. É o caso de Orgulho e Preconceito e Zumbis, livre adaptação do romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen que transporta a história de amor com pitadas de discussões sociais entre Elizabeth Bennet e o aristocrata esnobe sr. Darcy para o universo dos zumbis. A história do longa, por sua vez, é a adaptação de um livro de Seth Grahame-Smith, o mesmo de Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros,  que faz exatamente isso com a história de Jane Austen e circula há anos por Hollywood, tendo caído inicialmente nas mãos da atriz Natalie Portman, que viveria a Elizabeth Bennet dessa versão, mas que agora está nos créditos apenas como produtora do filme. Agora, Orgulho e Preconceito e Zumbis chega finalmente aos cinemas com Lily James, de Cinderela, como a protagonista Lizzie Bennet e Sam Riley como o icônico Sr. Darcy em versões exterminadoras de zumbis. 

Orgulho e Preconceito e Zumbis traz a história das irmãs Bennet que todos conhecem de Orgulho e Preconceito em meio a uma Inglaterra tomada por uma praga zumbi. As Bennet são garotas treinadas para enfrentar qualquer morto-vivo que viole as divisões impostas pelo país ao mundo dos mortos e dos comedores de cérebros humanos. Em meio a todo esse estado de tensão, Elizabeth Bennet acaba se apaixonando por um homem que passa a desprezar pelo seu comportamento arrogante, Sr. Darcy, um aristocrata que também está muito bem preparado para enfrentar qualquer praga zumbi. 

Um dos maiores problemas de Orgulho e Preconceito e Zumbis é não tornar orgânica toda a mitologia das histórias de zumbis no contexto do clássico romance de Jane Austen, o que torna o principal defeito da obra ainda mais grave, afinal tudo nela gira em torno desse casamento inusitado entre a clássica obra literária e o universo dos mortos-vivos. No início do longa, até que existem algumas adaptações interessantes envolvendo personagens e passagens marcantes do livro de Jane Austen e o novo contexto proposto pelo autor Seth Grahame-Smith e o diretor e roteirista Burr Steers, cujo título mais interessante da filmografia é o "estranho" e pouco conhecido A Estranha Família de Igby (vale a pena resgatar, se tiver interesse). O realizador não consegue justificar a razão para o inusitado casamento entre dois universos tão díspares e os zumbis acabam tornando-se elementos e recursos completamente aleatórios na história. O resultado é um filme esquisito que perde o seu impacto sobretudo nos momentos finais, quando a narrativa empalidece. 

Esvaziado em seu propósito e não servindo nem mesmo como uma fita de entretenimento nerd, o que já seria de bom tamanho, Orgulho e Preconceito e Zumbis carece de decisões e adaptações mais enérgicas que transformassem sua inusitada incursão em uma das histórias mais celebradas de Jane Austen num filme que justificasse a sua existência. Do jeito que ficou, até que é um longa divertido, com momentos isoladamente interessantes, mas completamente sem viço.  


Pride and Prejudice and Zombies, 2016. Dir.: Burr Steers. Roteiro: Burr Steers. Elenco: Lily James, Sam Riley, Jack Huston, Bella Heathcote, Douglas Booth, Matt Smith, Lena Headey, Charles Dance, Sally Phillips, Suki Waterhouse, Ellie Bamber, Millie Brady, Emma Greenwell. Sony, 107 min. 

Presságios de um Crime


Presságios de um Crime é o típico caso da estreia de um diretor brasileiro em projetos internacionais que resulta em um verdadeiro fiasco porque simplesmente não é dado a este realizador controle algum sobre a sua obra. Dirigido por Afonso Poyart do bem afamado e "moderninho" 2 Coelhos, Presságios de um Crime apresenta-se ao público como um thriller genérico, repleto de chavões deste gênero cinematográfico, conduzido por personagens rasos e resoluções frouxas, ou seja, um filme completamente descartável no circuito. 

O longa tem início quando dois policiais do FBI estão investigando um serial killer que mata as suas vítimas perfurando-as na nuca sem deixar maiores vestígios na cena do crime. Como fica cada vez mais difícil desvendar o caso, um desses policiais entra em contato com um velho amigo que possui poderes mediúnicos e com quem havia trabalhado anos atrás. Esse novo integrante da equipe policial começa a descobrir fatos sobre o autor dos assassinatos  que trarão contornos não apenas à trama policial, mas aos dramas pessoais dos principais personagens da história. 

Roteirizado por Sean Bailey, que tem uma carreira construída basicamente como produtor, e Ted Griffin, cuja assinatura está presente nos roteiros de Onze homens e um segredo e Os Vigaristas, Presságios de um Crime é um longa conduzido por diversos conflitos dramáticos cujas soluções jamais são satisfatórias. O filme tem que resolver situações complicadas envolvendo não apenas o vidente interpretado por Anthony Hopkins, que apesar de ser o único com um desfecho levemente satisfatório, sai de cena de maneira improvisada com uma atuação do tipo "ligada no automático", mas também a policial vivida pela talentosa Abbie Cornish (mais uma vez desperdiçada em cena), Jeffrey Dean Morgan e Colin Farrell, que sabe-se lá por qual motivo, foi escalado e aceitou fazer parte de um filme que lhe dá um personagem completamente inócuo, responsável por trazê-lo em uma das interpretações mais sofríveis da sua carreira.  O roteiro sugere uma série de conflitos e dilemas pessoais para cada um desses personagens, mas todos eles são resolvidos com desleixo pelos seus roteiristas, o que torna a presença e o destaque conferido a maioria deles na própria história completamente injustificada. 

O roteiro de Bailey e Griffin também é ruim na construção da sua trama policial, que em momento algum gera tensão ou prende o espectador. Como consequência disto, Afonso Poyart não tem muito o que fazer, praticamente "tira leite de pedra". Não reconhecemos o ocasionalmente promissor Poyart de 2 Coelhos em Presságios de um Crime e isto fica claro desde os primeiros trinta minutos do filme. A condução do diretor é "lugar comum", seguindo a cartilha de qualquer thriller americano que se vê por ai. Supomos que por orientações dos seus produtores.  

Monótono e confuso do início ao fim, Presságios de um Crime é mais um exemplar que evidencia como Hollywood pode descaracterizar diretores com potencial inventivo em prol daquilo que se acredita ser um cinema que atrairá um nicho de espectadores. O filme não faz jus aos melhores longas do seu gênero, tampouco à promissora carreira do seu diretor brasileiro. Fica para a próxima, Poyart. De preferência, por aqui mesmo. 


Solace, 2015. Dir.: Afonso Poyart. Roteiro: Ted Griffin e Sean Bailey. Elenco: Anthony Hopkins, Colin Farrell, Abbie Cornish, Jeffrey Dean Morgan, Marley Shelton, Kenny Johnson, Janine Turner, Xander Berkeley, Sharon Lawrence. 101 min. 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Drops: Horas Decisivas



O longa conta a história real de um grupo de guardas costeiros responsável pelo resgate heroico de mais de oitenta tripulantes de uma plataforma de petróleo que racha após uma intensa nevasca nos EUA de 1952. Em meio a uma trama amorosa absolutamente insossa e um tom "quadradão", o interessante Craig Gillespie, do pouco conhecido A Garota Ideal (talvez a melhor interpretação de Ryan Gosling) dirige um filme que permanece morno durante boa parte da sua projeção. Com um roteiro de estrutura capenga e marcado pela total ausência de alavancas para a sua própria trama baseado no livro que narra eventos reais escrito por Casey Sherman, Horas Decisivas não aproveita nem mesmo o seu elenco talentoso formado por Casey Affleck, Ben Foster e Eric Bana. Sobra para Chris Pine os melhores, e poucos, momentos da trama em sua relação insossa com a personagem de Holliday Grainger. O filme não funciona como "pipocão", tampouco em sua pretensão de flertar com o clássico, ficando em um meio termo esquecível. Tecnicamente, o longa merece sua "estrelinha de mérito", mas não é só de efeitos especiais que vive um filme. Horas Decisivas é aborrecido e sofre com uma trama que demora a arrancar quando é dado o seu sinal de largada. No final das contas, o espectador fica literalmente a ver navios. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O Quarto de Jack


Jack tem 5 anos e desde que nasceu havia passado toda a sua vida dentro de um quarto junto com sua mãe. Chamada por Jack de Ma, Joy foi levada de casa quando ainda era adolescente por um vizinho dos seus pais chamado de Velho Nick e desde então foi mantida por sete anos em cativeiro, tendo relações sexuais com o seu sequestrador, o pai do garoto. Assim, tudo o que Jack conhecia do mundo se restringia a sua naturalmente fértil imaginação infantil, alimentada por tudo que o garoto via na TV, e pelas poucas coisas presentes nesse cúbiculo com uma vista minúscula para o ambiente externo. A situação de mãe e filho muda quando Joy concebe um plano para tirá-los do local e levá-los de volta ao mundo. A adaptação do menino não será fácil, ainda que plena de descobertas, e Joy ainda terá que lidar com a presença diária do trauma da sua terrível experiência no que quer que ela faça. 

Lidando com um tema delicado e que tem relação com o que existe de pior na natureza humana, O Quarto de Jack é um filme que segue um caminho oposto ao da escuridão, o filme de Lenny Abrahamson, do igualmente interessante Frank, prefere acompanhar a beleza presente na comovente descoberta do mundo pela ótica de Jack, o seu pequeno protagonista defendido impecavelmente pelo talento precoce chamado Jacob Tremblay. Abrahamson acerta ao transformar O Quarto de Jack em um filme repleto de ternura e que segue a perspectiva doce e ingênua de uma criança sobre toda uma situação de violência e abuso físico e psicologico sem deixar de lado o peso que um drama com tal gravidade convoca. Nada é sufocado pela ternura infantil, mas suturado por ela. 

Lenny Abrahamson e o delicado roteiro de Emma Donoghue, baseado em um livro da sua própria autoria, se beneficiam por contar com uma dupla de protagonistas que praticamente toma o filme para si. Por ter o longa completamente voltado para a sua perspectiva dos fatos, desde a vivência no cativeiro até os primeiros dias de liberdade fora do quarto, Jacob Tremblay é o coração de O Quarto de Jack. O garoto consegue dimensionar para o público toda a natureza peculiar da infância de Jack, suas dificuldades de adaptação e o encantamento com as descobertas do mundo fora do quarto. Já Brie Larson passa o ponto de vista da vítima adulta de um cativeiro, lidando com todo o fantasma deixado pela situação violenta que viveu, o tempo que obviamente deixou para trás e todos os medos inerentes do pós-trauma. Há ainda pontuais e igualmente estupendas performances de Joan Allen e William H. Macy, maravilhosos como os avós de Jack. 

Por trazer um tema tão forte narrado pela perspectiva de uma criança, O Quarto de Jack poderia facilmente cair em armadilhas apelativas da emoção fácil. Ao invés disso, o filme de Lenny Abrahamson consegue captar o olhar naturalmente ingênuo do seu protagonista para narrar uma história de superação e descoberta do mundo. O longa acerta ao conseguir encontrar uma sensibilidade sem afetações, um mérito, em parte conseguido graças aos esforços não apenas do seu realizador, mas da sua dupla de atores principais, o garoto Jacob Tremblay e a favorita ao Oscar de melhor atriz Brie Larson,  e a costura suave que a roteirista Emma Donoghue consegue dar a sua  comovente e afetuosa história. 


Room, 2015. Dir.: Lenny Abrahamson. Roteiro: Emma Donoghue. Elenco: Jacob Tremblay, Brie Larson, Joan Allen, William H. Macy, Sean Bridgers, Matt Gordon, Amanda Brugel, Joe Pingue, Wendy Crewson, Cas Anvar. Universal, 118 min. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa


A identidade de gênero é um tema que está na ordem do dia e talvez por isso mesmo somente agora a história de Lili Elbe, primeira transsexual a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, finalmente tenha conseguido sair das páginas do livro de David Ebershoff e ganhar a tela grande nessa adaptação cinematográfica dirigida por Tom Hopper (O Discurso do Rei e Os Miseráveis) intitulada A Garota Dinamarquesa. Para quem não está por dentro da trajetória desse filme, ele foi durante anos um dos projetos mais desejados de Nicole Kidman, que queria não apenas estrelar o longa como Einar Wegener/Lili Elbe como produzir a obra, tendo Charlize Theron como sua colega de cena na pele de Gerda Wegener e o diretor Tomas Alfredson (Deixe Ela Entrar e O Espião que sabia Demais) na condução. A tentativa de financiamento do filme não deu certo e Kidman cedeu  a oportunidade para Tom Hooper e companhia subirem a bordo da delicada história por trás da transformação de Einar Wegener em Lili Elbe. O resultado não é dos mais satisfatórios, pois além de Hooper entregar um filme repleto de artificialidades e maneirismos, ainda não consegue lidar com um tema tão delicado quanto a identidade de gênero. 

Para quem não está familiarizado com a trama do filme, A Garota Dinamarquesa conta a história real do pintor dinamarquês Einar Wegener que descobre sua identidade feminina quando começa a se vestir como mulher para que sua esposa Gerda Wegener pintasse os seus primeiros quadros. Ao transformar-se em Lili Elbe, Wegener torna-se a primeira transsexual a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo em uma época na qual o procedimento era extremamente arriscado e a transsexualidade começava a ser entendida pela medicina e pela psiquiatria em meio aos inerentes preconceitos sociais da sociedade da época, que, por sinal, não eram muito diferentes dos de hoje, apenas eram mais escancarados. 

A Garota Dinamarquesa é o tipo de filme que beneficia-se pela história dos personagens reais que biografa. Assim, ainda que a falta de traquejo de Tom Hooper com a câmera que era visível em O Discurso do Rei e Os Miseráveis (ângulos e movimentos aleatórios, por exemplo) persista em A Garota Dinamarquesa (em menor grau, é verdade), a admirável relação do casal Wegener e o pioneirismo de Lili Elbe em sua luta para simplesmente ser o que é se sobrepõem à própria obra cinematográfica. Assim, por mais que A Garota Dinamarquesa possua inúmeras falhas como peça cinematográfica, existe um personagem cuja história de vida está acima de qualquer filme e isso acaba engrandecendo de certa maneira o longa de Tom Hooper. Dessa forma, ainda que o diretor continue com uma direção de pouco pulso marcada por decisões nada inspiradas, apelando para um certo conservadorismo na maneira como aborda a história, e o roteiro explore muito menos do que deveria os meandros do conflito de identidade de gênero vivido por Einar/Lili, existe uma trama em pauta no momento e que pulsa sua urgência em ser conhecida que acaba colocando os equívocos estéticos e narrativos do filme no segundo plano. 

Nesse sentido, é preciso reconhecer que o desempenho de Eddie Redmayne como Einar/Lili é fundamental para suprir as lacunas deixadas pelo roteiro e pela direção do longa. É a partir da interpretação de Redmayne que o público consegue ter uma dimensão do sofrimento de Lili Elbe por não encontrar uma resposta convincente a respeito do conflito de identidade que vive. Ao lado dele está Alicia Vikander que expõe para o público o outro lado da história, o da esposa de Einar/Lili, Gerda Wegener, que também vive o seu próprio conflito. Vikander interpreta com muita delicadeza uma mulher que vê gradualmente o homem que pensava conhecer desaparecer da sua vida para dar lugar a outra pessoa. Ainda assim, entre Lili e Gerda sobrevive o respeito e o amor que nutrem uma pela outra e Redmayne e Vikander conseguem conduzir tudo isso com muita delicadeza. 

Com todas as suas falhas e sua abordagem "quadradona" para um tema que merecia um pouco mais de profundidade e ousadia, A Garota Dinamarquesa tem sua "tábua de salvação" na rica e interessante relação dos seus personagens biografados. Ainda que mostre-se muito mais comedido em seus deslizes visuais do que em O Discurso do Rei e Os Miseráveis, Tom Hooper, ao lado da roteirista Lucinda Coxon, faz um filme que não faz jus por completo à história que o inspirou, restando aos atores Eddie Redmayne e Alicia Vikander suprirem as suas próprias faltas com a trama. Lili Elbe e Gerda Wegener mereciam um filme melhor, é verdade, mas A Garota Dinamarquesa expõe questões e vidas que são muito mais importantes do que o próprio cinema. E como é bom que histórias como as do casal Wegener sejam conhecidas cada vez mais pela sociedade. Ao menos esse serviço o filme faz. 



The Danish Girl, 2015. Dir.: Tom Hooper. Roteiro: Lucinda Coxon. Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts, Adrian Schiller, Emmerald Fennell, Henry Pettigrew, Pip Torrens, Jake Graf, Nicholas Woodeson, Philip Arditti. Universal, 119 min. 

Brooklin


Indicado em três categorias do Oscar 2016 (melhor filme, roteiro adaptado e atriz), Brooklin talvez seja um dos candidatos mais modestos e simples da temporada, mas não menos interessante. Ainda mais silencioso que Spotlight - Segredos Revelados (que conta com um pouquinho de polêmica em torno de toda a discussão sobre o jornalismo e a pedofilia na igreja católica), Brooklin pode não se impor como uma obra cinematográfica de grandes proporções e ambições como concorrentes a estatueta da Academia do naipe de Mad Max - Estrada da Fúria, O Regresso e Perdido em Marte, mas mostra-se ao público como um romance competente e simpático. Fora do contexto das premiações monopolizada por filmes tão ruidosos (em todos os sentidos) quanto seus concorrentes ao Oscar de melhor filme, Brooklin certamente não seria desdenhado com tanta facilidade pela crítica brasileira como anda sendo. Analisado dentro dos seus próprios termos, o filme de John Crowley é um agradável e agridoce longa sobre o amadurecimento e a descoberta do amor e da própria individualidade. 

Em Brooklin, Saoirse Ronan vive Ellis Lacey, uma jovem irlandesa que sai da sua terra natal e vai para os EUA morar no Brooklin. Empenhada em concretizar o seu sonho americano, Ellis acaba se deparando com uma realidade completamente diferente daquela que idealizara. Em seus primeiros dias no novo país, a jovem enfrenta as dificuldades de adaptação ao novo lugar, trabalho e pessoas. Tudo muda quando Ellis conhece Tony, um imigrante italiano por quem ela acaba se apaixonando. A partir dessa relação, Ellis consegue superar as dificuldades de adaptação e começa a se sentir confortável no novo país. Uma notícia da Irlanda, porém, coloca as certezas da moça em cheque e ela passa a se questionar onde de fato está a sua felicidade. 

Roteirizado por Nick Hornby, que como autor de livros escreveu as obras que deram origem a Um Grande Garoto e Alta Fidelidade e como roteirista foi responsável por filmes como Educação e Livre, Brooklin é uma produção de pequeno porte apesar de falar sobre temas de alcance universal. Contando com uma condução eficiente do diretor John Crowley, os personagens de Hornby, todos extraídos das páginas do livro homônimo de Colm Toibin, transbordam afeto em relações e dilemas de imensa empatia com a plateia. No fim das contas, com muita simplicidade e precisão, Brooklin aborda de maneira eficiente os dilemas de um estrangeiro em um novo país, o sentimento de inadequação e toda a jornada de amadurecimento pessoal que a situação acaba impulsionando. Trata-se de um romance que pode ser encarado por duas perspectivas plenamente satisfatórias: por uma via temos uma história de amor sem as costumeiras afetações hollywoodianas e por outro lado nos deparamos com um sensível conto sobre o amadurecimento de uma mulher. 

O longa beneficia-se pela ótima interpretação de Saoirse Ronan, que consegue trafegar de forma suave por todas as fases vivenciadas por sua personagem. A atriz também tem um ótimo parceiro de cena, Emory Cohen, que dá vida ao par romântico da protagonista, o italiano Tony. Ao longo da projeção, também somos acarinhados pela presença de atores do calibre de Julie Walters (maravilhosa como a dona da casa que Ellis passa a morar quando vai para os EUA), Jim Broadbent e o jovem do momento, Domhnall Gleeson. 

Discreto e eficiente, Brooklin é um filme bastante satisfatório ao que se propõe. Com uma narrativa que cumpre o seu papel na perspectiva macro (a questão da formação dos EUA e dos imigrantes) e micro (a jornada de amadurecimento de uma jovem mulher), Brooklin é um longa cheia de virtudes. A maioria dessas qualidades, contudo, não saltam aos olhos em um primeiro momento, mas são absorvidas e vivenciadas ao longo de toda a projeção. Em meio a uma temporada com tantas produções de alto orçamento, psicologicamente densas e com pretensões estéticas e narrativas ambiciosas, o filme acaba funcionando como um agradável e necessário "respiro". 


Brooklyn, 2015. Dir.: John Crowley. Roteiro: Nick Hornby. Elenco: Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Julie Walters, Jim Broadbent, Brid Brennan, Maeve McGrath, Emma Lowe, Barbara Drennan, Fiona Glascott, Jane Brennan. Paris Filmes, 111 min. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Drops: Aprendendo com a Vovó


Não subestime essa dramédia pelo título que ela conseguiu no Brasil. Aprendendo com a Vovó, que no original chama-se Grandma, é um filme muito mais maduro, inteligente e sensível do que o seu título de batismo brazuca sugere. Dirigido e roteirizado por Paul Weitz, de Um Grande Garoto, Aprendendo com a Vovó é uma excelente história sobre reconciliações e tolerância com o passado pontuada pela ótima interpretação da veterana Lily Tomlin, que há anos merecia um destaque como esse que o longa confere ao seu talento artístico. Tomlin vive uma acadêmica que acaba de romper um namoro com uma mulher bem mais jovem e parte em uma jornada para ajudar a neta adolescente a interromper uma gravidez indesejada. Na medida que a protagonista vai em busca de pessoas do seu passado que possam ajudá-la a resolver a questão, a personagem começa a fazer um balanço da sua própria vida, que entre erros e acertos mostra-se riquíssima para a sua jovem neta Sage e para o próprio público. Dividido em capítulos, Aprendendo com a Vovó traz Paul Weitz fazendo o que sabe fazer melhor, expor para o público personagens humanos com um tom leve que torna a obra uma história extremamente agradável e emocionante de ser acompanhada do início ao fim. 

Drops: Tangerine


Sucesso no circuito independente norte-americano, Tangerine traz a história de duas garotas de programa trans que na véspera do Natal circulam pela ensolarada Los Angeles resolvendo algumas pendências particulares. Recém saída da prisão, Sin-Dee vai em busca do namorado para acertar suas contas com ele e com a garota com quem passou a sair no período em que ela estava encarcerada. Já Alexandra está às voltas com os preparativos do seu show, que acontecerá na noite do Natal. O diretor e co-roteirista Sean Baker faz de Tangerine uma surpreendente e humana comédia sobre a amizade protagonizada por personagens que estão à margem da sociedade e passam por uma série de constrangimentos e humilhações no dia-a-dia, é o caso das protagonistas Sin-Dee e Alexandra, ou mesmo por aqueles que mascaram seus verdadeiros desejos em rotinas infelizes, como o taxista imigrante Razmik. Captando a atmosfera das ruas de Los Angeles não apenas por um ótimo trabalho de fotografia, mas também na escolha das suas locações e na preparação dos atores, que incorporam toda a linguagem dos habitantes das ruas daquele local, Tangerine ainda beneficia-se com duas performances certeiras de Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, que como Sin-Dee e Alexandra, respectivamente, são capazes de trafegar entre o humor e o drama das suas personagens, evitando a caricatura e acentuando o caráter humano do roteiro.  

Drops: Boi Neon


Vencedor do prêmio de uma mostra especial no Festival de Veneza do ano passado, Boi Neon é o mais recente filme de Gabriel Mascaro, o mesmo de Ventos de Agosto e do documentário Doméstica. O longa traz o ator Juliano Cazarré como um vaqueiro que nutre o sonho de tornar-se costureiro. Sem muita panfletagem, o filme de Gabriel Mascaro acaba rompendo naturalmente com tabus ao apresentar personagens que fogem dos papeis e dos estereótipos sociais que costumam ser associados, sobretudo o protagonista Iremar, vivido com suavidade por um inspirado Juliano Cazarré, e a menina Cacá, de Alyne Santana, uma garota apaixonada por cavalos. Mascaro mostra-se inventivo na condução do seu filme e completamente avesso a cartilhas narrativas, ainda que o longa opte por um certo naturalismo, o que não deixa de ser uma cartilha. Diferente do que fora alardeado desde o seu lançamento, não sei se Boi Neon é a obra-prima que a crítica anda levantando, mas certamente é um dos filmes mais interessantes da recente safra nacional. Vale o desempenho do seu elenco, auxiliado pela sempre competente preparadora Fátima Toledo, e pela constante disposição que o diretor Gabriel Mascaro tem de surpreender o público com o seu olhar sobre o universo retratado pelo filme e sobre os seus personagens. 

Drops: Anomalisa


Longa de animação adulto, Anomalisa é, acima de tudo, um filme maduro sobre a presença do amor e sua importância em uma sociedade cada vez mais marcada pelas relações frias mantidas por comodidade ou sobrevivência. Dirigido e roteirizado por Charlie Kaufman (mesmo roteirista de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Adaptação e Quero ser John Malkovich), sendo que aqui ele assume a primeira função ao lado de Duke Johnson, Anomalisa tem a mesma natureza "estranha" de sonho transformado em bucólica "realidade" dos trabalhos anteriores do realizador. Tudo assume o tom, a textura e a ambiência de uma realidade banal e monótona, mas tem o seu grau de estranheza, de "fantástico" pontualmente revelado para a plateia. Na trama, acompanhamos um palestrante motivacional na voz de David Thewlis, que durante sua entediante estadia em um hotel do Connecticut acaba conhecendo uma moça chamada Lisa Hesselman, dublada por Jennifer Jason Leigh, por quem se apaixona. O longa é delicado e trata com muita humanidade e honestidade as relações humanas em um contexto crível sendo essencialmente uma história de amor muito "pé no chão", sem muito floreios ou fantasias a respeito da concretização amorosa frente o cotidiano e os pactos sociais apresentados como os grandes obstáculos para a realização amorosa. Bucólico, mas extremamente sensível, Anomalisa é um filme singelo que não cumpre categorizações cinematográficas, justifica-se no encontro entre o seu formato (a animação stop motion) e o propósito de sua história e impõe-se como um conto comovente sobre o amor frente ao cotidiano. 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Deadpool



Antes de ganhar o seu primeiro filme-solo, Deadpool havia aparecido em X-Men Origens - Wolverine  como parte de um dos capítulos mais infelizes da trajetória do mutante interpretado por Hugh Jackman nos cinemas. Wade Wilson, um dos personagens mais politicamente incorretos da Marvel, conhecido por suas tiradas irônicas e repletas de senso de humor, fora silenciado pelos realizadores do primeiro filme-solo de Wolverine, tendo sua boca completamente lacrada após um experimento científico. A equivocada personificação do "herói" nas telas em X-Men Origens - Wolverine , no entanto, não impediu que o projeto de um filme protagonizado pelo Deadpool fosse iniciado nos bastidores da Fox e, oito anos após o desastre o longa, Deadpool chega aos cinemas fazendo jus ao espírito irreverente do personagem das HQs. O longa que chega aos cinemas em 2016 é tudo o que prometera desde que o primeiro trailer do filme saira na Comic-Con do ano passado: nunca se leva a sério e firma-se como um dos filmes de super-heróis mais "retardados" do ano (e isso é um elogio).

Em Deadpool acompanhamos a transformação do ex-militar e mercenário Wade Wilson, interpretado por Ryan Reynolds, em um mutante com poderes de regeneração após ter o seu corpo transfigurado em uma falsa tentativa de cura de um câncer em estágio terminal. Ao descobrir que havia sido enganado por aqueles que lhe prometeram a cura da doença, Wade Wilson assume a identidade de Deadpool e parte em busca de vingança contra aqueles que destruíram a sua vida.

Seguindo a linha das adaptações de HQs que não se levam a sério, como Guardiões da Galáxia e Homem - Formiga, porém em um nível de sarcasmo ainda mais acentuado, Deadpool é um longa marcado pela anarquia. Deadpool é um filme que não poupa nenhum dos estratagemas narrativos dos filmes de super-heróis  e de humor tão corrosivo  que tira sarro do seu próprio astro, o ator Ryan Reynolds, caçoado pelo diretor Tim Miller e companhia por suas desastradas aparições em outros longas do filão cinematográfico como Lanterna Verde e o próprio X-Men Origens - Wolverine e sua fama de ator canastrão. Essa habilidade de encontrar o absurdo e apontar o dedo para os "calcanhares de Aquiles" do seu próprio nicho fazem de Deadpool um longa que não tem medo de romper quartas paredes e que sempre pega o espectador de surpresa com insights corajosos sobre o próprio "gênero" no qual está inserido.

Essa "coragem" de Tim Miller e de todos os envolvidos em Deadpool faz jus ao próprio personagem e enchem de viço o circuito cinematográfico, fadado a um certa repetição na abordagem das narrativas mitológicas dos super-heróis, grupo que, aliás, Wade Wilson faz questão de dizer que não faz parte. Nesse sentido, os méritos dessa empreitada bem-sucedida precisam ser creditador ao seu diretor, seus roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick e ao seu protagonista Ryan Reynolds, que assume sem pudores e limites os extremos de um personagem tão politicamente incorreto quanto Deadpool.

Todavia, é preciso destacar que o mesmo tom sarcástico que faz de Deadpool um projeto único em meio a tantas adaptações de HQs de super-heróis que proliferam no circuito comercial é também a sua grande fragilidade. Diferente de longas como Guardiões da Galáxia ou Homem-Formiga nos quais o humor é um elemento orgânico dentro de uma trama que tem uma consistência dramática e narrativa, Deadpool é um "carro em alta velocidade desgovernado". O longa de Tim Miller funciona mais como uma irreverente paródia de filmes de super-heróis que não poupa nem mesmo os momentos de maior introspecção, dramaticidade ou tensão do personagem, como no momento em que o protagonista descobre seu câncer ou toma ciência de que fora enganado pelos vilões do filme e suas promessas de cura para a doença através de um arriscado experimento científico. Assim, tudo vira motivo de piada, e, preciso confessar, muitas delas soam sem graça já que são vomitadas incessantemente pelo longa.

Há que se notar o seguinte: o Deadpool, de Tim Miller é um filme de humor tão ácido, corrosivo e auto-referente que em dados momentos chega a ser excessivo. Apesar do longa ter o mais elevado compromisso com o divertimento desde o início da sua projeção, quando vemos os hilários créditos de abertura, até a cena pós-créditos finais, executando sua promessa com o público muito bem, tem momentos que o filme de Tim Miller perde o fio da meada e determinadas piadas soam cansativas. Tudo bem que Deadpool, o filme e o personagem, não se leva a sério, mas qualquer trama de humor anárquico precisa de momentos de respiro e "seriedade" nos quais a comédia torna-se orgânica à trama, fazendo com que as piadas tenham o seu grande momento com a plateia. Existem determinados momentos em Deadpool que estamos tão cansados da sua avalanche de gags por segundo que passamos a não nos importar e nem achar graça. Não é desejar que Deadpool seja um filme sério - ele não deve ser -, mas falta ao longa a sabedoria de compreender que um pouquinho de moderação no seu anseio de desejar a todo custo ser cool ao quebrar todos os protocolos e convenções de um gênero não lhe faria mal. Assim, como diagnóstico, talvez Deadpool só não seja um filme melhor do que é - e ele é um filme bem divertido - pelas suas doses cavalares de anarquia, curiosamente, algo que lhe confere singularidade na indústria.




Deadpool, 2016. Dir.: Tim Miller. Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick. Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, T.J. Miller, Karan Soni, Brianna Hildebrand, Gina Carano, Stefan Kapicic, Michael Benyaer, Kyle Cassie. Fox, 108 min. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Boneco do Mal


Fazer um bom filme de terror, daqueles de gelar a espinha, é uma tarefa árdua. Pode parecer um gênero fácil de se orquestrar dado o senso comum sobre as suas características gramaticais: casas assombradas por eventos sobrenaturais, a produção de sustos, a estética sombria, a redenção de um protagonista de passado comprometedor ou traumático através de uma experiência assustadora... Acontece que por trás de tudo isso existe uma coesão narrativa que faz com que todos esses elementos surtam um efeito de terror preciso nas plateias, ou seja, não basta inseri-los na tela para achar que tem-se concebido um filme do gênero eficiente, é preciso muito mais trabalho para fazer com que esses elementos de fato funcionem e a história se desenvolva com fluidez. Esse não é o caso de Boneco do Mal, um filme que se apropria dos recursos do gênero que acabamos de mencionar, mas que não consegue produzir essa coesão narrativa que confere todo sentido a esses elementos do terror. 

No longa, Lauren Cohan, da série The Walking Dead, vive Greta uma norte-americana que se candidata a babá na casa de uma família em um vilarejo da Inglaterra. Lá mora um casal e seu filho de oito anos de idade chamado Brahms. Quando chega ao local, a personagem dá de cara com uma revelação inesperada, a criança que o casal tem como filho é na verdade um boneco de porcelana que os dois passam a cuidar como uma forma de superar um trágico evento envolvendo a morte do verdadeiro Brahms vinte anos atrás. Acontece que existe muito mais coisa por trás desse estranho núcleo familiar e Greta começa a presenciar uma série de eventos sobrenaturais aparentemente vinculados a presença do boneco na casa. 

Para começar, o grande tropeço de Boneco do Mal como filme de terror é que ele nunca consegue gerar qualquer tipo de efeito sensorial na plateia, pelo menos as mais experientes no gênero - e acredito que as menos experientes também, para ser bem sincero. Toda a trama em torno do boneco Brahms e a tentativa do diretor William Brent Bell de torná-lo uma presença incomoda e macabra no filme vai por água abaixo. Bell tenta evocar uma certa atmosfera apavorante em torno do boneco, peça fundamental na sua história, que nunca se concretiza. Até mesmo visualmente o boneco Brahms não causa nenhum calafrio, é uma presença indiferente na tela, ainda que o diretor saliente a natureza macabra dele com planos que o ponham em evidência e que os personagens, sobretudo a protagonista Greta, se dirijam a ele com um certo temor e respeito. Assim, existe toda uma atmosfera que tenta construir Brahms como uma presença assustadora no filme, mas nada disso surte efeito, o boneco parece para a plateia como uma figura inofensiva e apática no filme, permanecendo assim até o último ato da história.

Em alguns momentos chega a ser risível a forma como a protagonista da trama acredita que o boneco Brahms tenha vida própria e esteja maquinando determinadas travessuras com ela. E é nesse clima de terror ineficaz que está apenas na cabeça do seu diretor e nos seus truques e repetições mecânicas de recursos do gênero que Boneco do Mal mostra a sua completa fragilidade do início ao fim. Mesmo quando ganha a oportunidade de dar a volta por cima em sua narrativa trôpega com as revelações do terceiro ato, o longa não consegue  seguir um caminho que o retire da sonolência e da completa banalidade ou indiferença. Nada nele é orgânico, espontâneo, tudo é fruto de uma cartilha que o próprio realizador parece não entender pois para que qualquer desses recursos fizesse o menor efeito no público era preciso que sua história fosse sustentada em bases sólidas e não artificiais como aquelas que orientam um filme que apenas simula uma certa coerência e norte narrativo. Da maneira que se apresenta ao público, Boneco do Mal é um longa repleto de artificialidades. 


The Boy, 2016. Dir.: William Brent Bell. Roteiro: Stacey Menear. Elenco: Lauren Cohan, Rupert Evans, James Russell, Jim Norton, Diana Hardcastle, Ben Robson, Jett Klyne, Lily Pater, Matthew Walker, Stephanie Lemelin. Diamond Filmes, 107 min. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Regresso


A história de Leonardo DiCaprio com o Oscar é antiga, porém é menos marcada por injustiças e "esnobadas" do que se possa imaginar ou pelo menos do que é apregoado por ai. Existem outros atores com muito mais estrada que DiCaprio no cinema, que sempre estiveram mais próximos de fato de vencer uma estatueta da Academia e o prêmio sempre lhes fora negado. Como entender, por exemplo, o caso de atrizes como Annette Bening e Glenn Close? Ambas tão ou mais talentosas que DiCaprio e igualmente "esnobadas" pela Academia. Talvez o burburinho em torno da tão almejada e merecida estatueta do Leonardo DiCaprio ocorra pelo fato de que o ator é um dos mais populares de sua geração, com uma carreira igualmente bem-sucedida entre o público médio e plateias mais sofisticadas, mas ele está longe de ser um dos mais injustiçados pelo prêmio. 

Após quatro indicações (Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador, O Aviador, Diamante de Sangue e O Lobo de Wall Street), o ator finalmente deve receber o seu prêmio por O Regresso. No seu caso porém, ao contrário de muitas outras vitórias de atores no Oscar, não será um prêmio de consolação por uma forte interpretação em um filme medíocre, mas por um excelente desempenho em um filme que está à altura do esforço e do talento do seu protagonista. Apesar de ser um grande veículo para Leonardo DiCaprio, O Regresso não é o tipo de filme que existe na função de fazer do seu astro hollywoodiano um vencedor do Oscar (como infelizmente ocorreu na terceira vitória de Meryl Streep em A Dama de Ferro, por exemplo). Como obra cinematográfica, o filme de Alejandro G. Iñárritu é uma obra consistente, narrativa e visualmente impactante, tendo muito mais a oferecer para a plateia do que uma grande performance do seu protagonista.  

Em O Regresso, Leonardo DiCaprio vive Hugh Glass, um caçador de peles que parte a trabalho com um grupo para o oeste dos EUA em 1822. Durante o serviço, Glass é atacado por um urso, ficando gravemente ferido no confronto com o animal. Abandonado por alguns de seus colegas à própria sorte, Glass inicia uma jornada de sobrevivência para retornar e vingar-se daqueles que o fizeram tanto mal. 

Praticamente ambientado em externas, captadas com beleza e mórbida tensão por um dos grandes nomes da fotografia cinematográfica atual, Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar por Gravidade e Birdman), O Regresso é uma longa narrativa de quase três horas que se impõe como uma história épica de sobrevivência, trazendo temas que volta e meia surgem na narrativa clássica hollywoodiana, como a busca por justiça ou vingança no confronto entre dois homens que representam polos opostos, no caso, o herói Hugh Glass de DiCaprio e o vilão John Fitzgerald de Tom Hardy. Iñárritu filma O Regresso com muito vigor e pleno uso da linguagem cinematográfica, sustentando toda a sua narrativa em um roteiro calcado basicamente em ações e imagens e com pouquíssimos diálogos. Assim, o que se destaca na história é sua câmera e o olhar  que Iñárritu possui para cada sequência e movimento dos seus atores principais. 

À frente da sua jornada épica, Iñárritu conta com uma forte interpretação de Leonardo DiCaprio, em uma performance marcada pela entrega física ao seu personagem, muito mais do que uma composição psicológica propriamente dita. Esse detalhe parece curioso pois se DiCaprio oferece ao público uma performance repleta de demandas físicas, Tom Hardy, igualmente soberbo em cena, traz para a plateia uma composição rica em detalhes psicológicos, fazendo do vilão John Fitzgerald uma das figuras mais interessantes de todo o filme. Tratam-se de duas performances muito bem executadas pelos atores, cada um adotando um método e uma linha de trabalho peculiares, mas que se complementam ao final do longa quando Hugh Glass e John Fitzgerald têm o tão aguardado confronto. 

Independente da má fama que Alejandro G. Iñárritu tenha ganhado nos últimos anos (muitos consideram o diretor uma fraude, um realizador cujos filmes apresentam muitos conceitos estéticos e narrativos vazios), o que não se pode negar é que o mexicano é um dos cineastas que mais tem ousado e tensionado a narrativa cinematográfica em Hollywood nos últimos anos. Assim, a despeito de qualquer incomodo com as "firulas" visuais e narrativas de Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) e O Regresso, ninguém pode negar que Iñárritu e seus filmes têm tirado um pouco da pasmaceira que ronda a indústria nos últimos anos. O Regresso é um filme tão audacioso, barulhento (no bom sentido), impactante quanto Birdman e tudo isso é muito bom para o próprio cinema norte-americano. Muito mais do que um veículo para Leonardo DiCaprio, O Regresso é um filme de grandes proporções e impacto, como pouquíssimos exemplares dos grandes estúdios hoje em dia. 


The Revenant, 2015. Dir.: Alejandro G. Iñárritu. Roteiro: Alejandro G. Iñárritu e Mark L. Smith. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Joshua Burge, Christopher Rosamond. Fox, 156 min.