quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Regresso


A história de Leonardo DiCaprio com o Oscar é antiga, porém é menos marcada por injustiças e "esnobadas" do que se possa imaginar ou pelo menos do que é apregoado por ai. Existem outros atores com muito mais estrada que DiCaprio no cinema, que sempre estiveram mais próximos de fato de vencer uma estatueta da Academia e o prêmio sempre lhes fora negado. Como entender, por exemplo, o caso de atrizes como Annette Bening e Glenn Close? Ambas tão ou mais talentosas que DiCaprio e igualmente "esnobadas" pela Academia. Talvez o burburinho em torno da tão almejada e merecida estatueta do Leonardo DiCaprio ocorra pelo fato de que o ator é um dos mais populares de sua geração, com uma carreira igualmente bem-sucedida entre o público médio e plateias mais sofisticadas, mas ele está longe de ser um dos mais injustiçados pelo prêmio. 

Após quatro indicações (Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador, O Aviador, Diamante de Sangue e O Lobo de Wall Street), o ator finalmente deve receber o seu prêmio por O Regresso. No seu caso porém, ao contrário de muitas outras vitórias de atores no Oscar, não será um prêmio de consolação por uma forte interpretação em um filme medíocre, mas por um excelente desempenho em um filme que está à altura do esforço e do talento do seu protagonista. Apesar de ser um grande veículo para Leonardo DiCaprio, O Regresso não é o tipo de filme que existe na função de fazer do seu astro hollywoodiano um vencedor do Oscar (como infelizmente ocorreu na terceira vitória de Meryl Streep em A Dama de Ferro, por exemplo). Como obra cinematográfica, o filme de Alejandro G. Iñárritu é uma obra consistente, narrativa e visualmente impactante, tendo muito mais a oferecer para a plateia do que uma grande performance do seu protagonista.  

Em O Regresso, Leonardo DiCaprio vive Hugh Glass, um caçador de peles que parte a trabalho com um grupo para o oeste dos EUA em 1822. Durante o serviço, Glass é atacado por um urso, ficando gravemente ferido no confronto com o animal. Abandonado por alguns de seus colegas à própria sorte, Glass inicia uma jornada de sobrevivência para retornar e vingar-se daqueles que o fizeram tanto mal. 

Praticamente ambientado em externas, captadas com beleza e mórbida tensão por um dos grandes nomes da fotografia cinematográfica atual, Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar por Gravidade e Birdman), O Regresso é uma longa narrativa de quase três horas que se impõe como uma história épica de sobrevivência, trazendo temas que volta e meia surgem na narrativa clássica hollywoodiana, como a busca por justiça ou vingança no confronto entre dois homens que representam polos opostos, no caso, o herói Hugh Glass de DiCaprio e o vilão John Fitzgerald de Tom Hardy. Iñárritu filma O Regresso com muito vigor e pleno uso da linguagem cinematográfica, sustentando toda a sua narrativa em um roteiro calcado basicamente em ações e imagens e com pouquíssimos diálogos. Assim, o que se destaca na história é sua câmera e o olhar  que Iñárritu possui para cada sequência e movimento dos seus atores principais. 

À frente da sua jornada épica, Iñárritu conta com uma forte interpretação de Leonardo DiCaprio, em uma performance marcada pela entrega física ao seu personagem, muito mais do que uma composição psicológica propriamente dita. Esse detalhe parece curioso pois se DiCaprio oferece ao público uma performance repleta de demandas físicas, Tom Hardy, igualmente soberbo em cena, traz para a plateia uma composição rica em detalhes psicológicos, fazendo do vilão John Fitzgerald uma das figuras mais interessantes de todo o filme. Tratam-se de duas performances muito bem executadas pelos atores, cada um adotando um método e uma linha de trabalho peculiares, mas que se complementam ao final do longa quando Hugh Glass e John Fitzgerald têm o tão aguardado confronto. 

Independente da má fama que Alejandro G. Iñárritu tenha ganhado nos últimos anos (muitos consideram o diretor uma fraude, um realizador cujos filmes apresentam muitos conceitos estéticos e narrativos vazios), o que não se pode negar é que o mexicano é um dos cineastas que mais tem ousado e tensionado a narrativa cinematográfica em Hollywood nos últimos anos. Assim, a despeito de qualquer incomodo com as "firulas" visuais e narrativas de Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) e O Regresso, ninguém pode negar que Iñárritu e seus filmes têm tirado um pouco da pasmaceira que ronda a indústria nos últimos anos. O Regresso é um filme tão audacioso, barulhento (no bom sentido), impactante quanto Birdman e tudo isso é muito bom para o próprio cinema norte-americano. Muito mais do que um veículo para Leonardo DiCaprio, O Regresso é um filme de grandes proporções e impacto, como pouquíssimos exemplares dos grandes estúdios hoje em dia. 


The Revenant, 2015. Dir.: Alejandro G. Iñárritu. Roteiro: Alejandro G. Iñárritu e Mark L. Smith. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Joshua Burge, Christopher Rosamond. Fox, 156 min. 

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