terça-feira, 29 de março de 2016

Voando Alto




Voando Alto tem o potencial de transformar-se no filme feel good do ano. Aquele tipo de longa que faz você sair do cinema emocionado pela apresentação de uma história extremamente otimista contada de forma cativante, enfim, um conto que faz você se sentir simplesmente feliz ao final da sessão. O longa, em seu título original Eddie the Eagle, é uma produção do inglês Matthew Vaughn, de longas como Stardust, Kick-Ass, X-Men - Primeira Classe e Kingsman, e tem a direção de Dexter Fletcher, cuja carreira como ator é mais volumosa do que como realizador cinematográfico, sendo creditado no elenco de filmes como o próprio Kick-Ass do Vaughn e O Homem Elefante. Pela estrutura do seu roteiro, o filme não apresenta grande novidade e mostra-se ao público como uma tradicional trama motivacional ambientada no universo das competições esportivas, trata-se da história de Eddie Edward, um britânico que tornou-se recordista nos saltos de esqui durante os jogos olímpicos de inverno de 1988. Eddie chamava a atenção pela sua perseverança na modalidade, já que, contrariando as expectativas pessimistas sobre o seu futuro no esporte por suas limitações físicas, ele conseguiu um feito impensável e transformou-se em ídolo nacional. O grande mérito de Voando Alto não está na oferta de um plot ou propósito "original" da sua trama, como a própria sinopse denuncia, mas na execução certeira do seu diretor para um terreno que é mais do que conhecido do espectador, sobretudo na cartela de efeitos emotivos que esse tipo de filme costuma ofertar.

Dexter Fletcher transforma o seu drama motivacional em um típico filme dos anos de 1980, época na qual sua trama é ambientada, adequando não apenas a reconstituição de época em sua direção de arte, figurinos  e maquiagem ao período, mas também construindo toda uma atmosfera e uma logicidade narrativa que nos remetem aos longas daquela época, sobretudo quando temos uma trilha sonora que, a semelhança dos trabalhos anteriores do seu produtor como diretor, explorava isso muito bem (basta perceber como isso funcionava em X-Men - Primeira Classe ou Kingsman). Assim, Voando Alto conquista o público em uma primeira via pela execução acertada do seu realizador, que soube encontrar brilho em uma história convencional que poderia render um tratamento óbvio e, portanto, aborrecido nas mãos de um diretor que talvez não tivesse o mesmo brilho ou iniciativa criativa.

Voando Alto acerta no tom do discurso motivacional, que, com muita frequência, tende a ser motivo para a oferta de filmes que apelam para a manipulação emocional do espectador, ou seja, para o  chamado"choro fácil". Não que o filme não seja vítima desses momentos, mas eles são muito poucos e seu realizador é honesto desde o primeiro momento da sua fita com o seu público. Fica bem claro desde a primeira sequência de Voando Alto, quando somos apresentados a momentos da infância de Eddie Edwards que o filme tem como proposta apresentar uma trama sobre superações, transformando o seu protagonista em um personagem repleto de virtudes inspiradoras. Acontece que mesmo optando por conduzir a sua história por esse caminho, Voando Alto não subestima o espectador e apresenta o seu discurso motivacional da maneira mais empática e criativa que consegue.

Outro mérito do filme a ser pontuado é a escolha do jovem Taron Egerton para viver Eddie Edwards. Cria de Matthew Vaughn em Kingsman, Egerton compõe um tipo interessante que tem lá as suas excentricidades, seu jeito esquisitão, mas que mantém os pés firmes no chão graças ao trabalho do ator que não o transforma em uma caricatura, mas em um personagem palpável, humano. O carisma e a harmonia da composição de Taron Egerton com o tom conferido ao filme por Dexter Fletcher garantem a fidelidade do público com o filme do início ao fim, fazendo com que a plateia torça pelo sucesso do seu personagem nos caminhos tão tortuosos que ele opta seguir. Também está muito bem em cena o principal parceiro de Egerton nessa jornada, o australiano Hugh Jackman, que compõe um tipo cowboy bad boy beberrão que desenvolve uma amizade com o protagonista e resolve ser o seu treinador, revelando ainda um grande fantasma do passado, já que fora um dos mais promissores atletas no salto de esqui que colocou tudo a perder em função das divergências que tinha com seu terinador, personagem de Chritopher Walken.

Apostando na empatia da história do seu protagonista, interpretado pelo não menos carismático Taron Egerton, Voando Alto é um filme que flerta abertamente com um tipo de história que é bastante conhecida do público, mas consegue fazer isso de uma forma muito simpática e sincera. Não é o caso de um filme motivacional que apela para a emoção fácil por uma inabilidade do seu realizador na condução das emoções que o filme pode proporcionar. Fica evidente que o diretor Dexter Fletcher sente um profundo respeito e admiração por seu protagonista, e não há demérito algum nisso, mas ele consegue encontrar uma maneira fluida, orgânica, criativa e pop de externar seus sentimentos por esse personagem em uma trama cheia de boa energia. 



Eddie the Eagle, 2016. Dir.: Dexter Fletcher. Elenco: Taron Egerton, Hugh Jackman, Jo Hartley, Keith Allen, Iris Berben, Tom Costello Jr., Jack Costello, Mark Benton, Tim McInnerny, Edvin Endre, Marc Benjamin, Christopher Walken. Fox, 106 min. 

Zoom


Em linhas gerais, Zoom, novo filme do brasileiro Pedro Morelli, que ficou conhecido no circuito por Entre Nós, pode ser categorizado como uma comédia que trata das nossas obsessões com as aparências ou mesmo sobre a quantidade de esforços que mobilizamos para mostrar para os outros que não somos quem aparentamos ser ou pensamos que aparentamos ser. Ficou confuso? Não tem importância, o filme de Morelli segue a lógica dessas reflexões transversais e ainda assim consegue ser muito claro quanto aos seus objetivos. Portanto, o espectador não terá muita dificuldade para detectar o propósito por trás do mosaico de personagens e tramas criados pela mente fervilhante de ideias de Pedro Morelli e do seu co-roteirista Matt Hansen em um filme tão criativo e inteligente em suas soluções dramáticas que em determinados momentos sofre severas consequências do seu ímpeto inventivo e, porque não dizer, brilhantismo - nada que comprometa a experiência interessante de acompanhar Zoom do início ao fim, que fique bem claro. 

Em Zoom, Pedro Morelli centra a sua narrativa em três núcleos dramáticos formados por histórias paralelas protagonizadas pelos personagens dos atores Alison Pill, Gael García Bernal e Mariana Ximenes. Pill interpreta Emma, uma modeladora de bonecas infláveis que sonha em colocar uma prótese de silicone nos seios. Bernal vive Edward, um cineasta cheio de si que começa a apresentar conflitos pessoais quando enfrenta problemas recorrentes em suas aventuras sexuais nos bastidores e fora dos sets do seu mais novo filme. Já Ximenes interpreta Michelle, uma modelo brasileira de carreira internacional que tem a aspiração de tornar-se escritora e para isso abandona o seu casamento com um americano. 

Não é preciso nem dizer que as tramas dos três personagens centrais do filme se entrelaçam, mas esse encontro ocorre da maneira mais inesperada possível. Desde o início do longa, Morelli encontra soluções interessantes e surpreende o espectador com a maneira como conecta os seus três núcleos de personagens. A criatividade do diretor e do seu co-roteirista Matt Hansen é tamanha que em dados momentos fica perceptível que Zoom cria para si uma quantidade de demandas das quais possivelmente não dará conta em seu desfecho. É verdade que a solução encontrada pelos roteiristas satisfaz, mas acaba soando como simples demais diante de toda a energia e empenho que os mesmos depositaram na construção de seus três eixos dramáticos, todos igualmente interessantes. Contudo, a leve escorregada de Morelli e Hansen não compromete a experiência como um todo e Zoom demonstra um vigor e uma inventividade raras no cinema que é feito (ou que chega ao grande público) hoje em dia. 

Do curioso conflito vivido por Emma (Pill) após submeter-se a cirurgia de implante de silicone, passando pela tragicômica jornada de Edward (Bernal), enfrentando um problema sexual e driblando o direcionamento que produtores norte-americanos querem dar para o seu filme, até chegar a Michelle (Ximenes) e sua jornada de isolamento em busca da sua própria identidade, Zoom consegue cativar o espectador que se propõe embarcar na sua trama. Para os três núcleos, Morelli opta por tons e estéticas bem distintas que, curiosamente, não soam como dissonantes ou desarmônicas, pelo contrário, a diferença entre as tramas fica ainda mais interessante e soa como mais um artifício engendrado com inteligência pelo realizador. Assim, a abordagem de novela policial repleta de humor do núcleo de Emma, a animação em formato de HQ da trama de Edward e o verniz "publicitário" da história de Michelle não só condizem com a própria gênese dessas narrativas individualmente como estão à serviço dos próprios objetivos da obra e das revelações que ela reserva ao público no seu último ato, quando os três focos dramáticos do filme se encontram. 

Com uma história cheia de energia e extrema em suas decisões de direção e roteiro, mas sempre cativante, divertido e estimulante ao raciocínio do espectador, Zoom é um filme singular que chega no circuito comercial e que merece ser visto o quanto antes, afinal é difícil saber quanto tempo ficará em cartaz. Marcado por atuações seguras de um elenco formado não apenas por Alison Pill, Mariana Ximenes e Gael García Bernal, mas também por Claudia Ohana, Michael Eklund (ótimo como um dos clientes da personagem de Pill) e Jason Prietsley (sim, o Brandon do seriado Barrados no Baile está no filme e faz parte de algumas das melhores sacadas de Morelli), o longa tem a seu serviço um roteiro inteligente que rende boas surpresas  ao seu público e uma condução repleta de vigor por um cineasta que está apenas em seu segundo longa-metragem. 



Zoom, 2016. Dir.: Pedro Morelli. Roteiro: Pedro Morelli e Matt Hansen. Elenco: Alison Pill, Gael García Bernal, Mariana Ximenes, Jason Prietsley, Claudia Ohana, Tyler Labine, Jennifer Irwin, Don McKellar, Clé Bennett, Michael Eklund. Paris Filmes, 96 min. 

domingo, 27 de março de 2016

Drops: Conspiração e Poder


Lançado nos EUA no mesmo ano do vencedor do Oscar de melhor filme Spotlight - Segredos Revelados, o longa Conspiração e Poder acaba se tornando alvo de inevitáveis comparações com o título anterior e, infelizmente, traz em si uma das características que erroneamente o trabalho de Tom McCarthy foi acusado por muitos, uma ode ingênua ao jornalismo. Roteirizado e dirigido por James Vanderbilt, o homem por trás do roteiro de Zodíaco, filme de David Fincher de 2007, Conspiração e Poder é baseado no livro de Mary Mapes, vivida no filme por Cate Blanchett, uma ex-produtora do programa 60 Minutes da emissora de televisão norte-americana CBS que foi demitida do quadro de funcionários da empresa após ter sido acusada de produzir uma reportagem com informações inverídicas a respeito do então candidato a reeleição presidencial do país George W. Bush. Enquanto, o longa de Tom McCarthy opta por um olhar controlado sobre o tema do seu próprio filme e seus personagens, James Vanderbilt não economiza em floreios para enaltecer a profissão e seus protagonistas, sobretudo Mary Mapes e o âncora Dan Rather, papel de Robert Redford. Não há problema algum nisso, tanto que os momentos em que McCarthy deixa clara a sua admiração pelos profissionais são muito bem administrados em Spotlight, tudo porque o realizador soube conduzir tudo com muita elegância e uma certa discrição. Vanderbilt, por sua vez, põe uma lente de aumento, exagera na sua trilha sonora, produz diálogos piegas e por ai vai. Para completar, em seu discurso, Conspiração e Poder tem claramente uma bandeira democrata e se equivoca ao negar seu envolvimento com inclinações politicas, quando ganharia mais se as declarasse abertamente e quando fica mais do que evidente a ideologia e as intenções do cineasta (claro, esta questão está no cerne da discussão em torno da matéria produzida por Mapes, então, talvez, na cabeça dos envolvidos, seria desrespeitoso ir em direção a esse raciocínio). De um filme sedutor, porém vacilante como este de Vanderbilt, o que se impõe mesmo é a poderosa interpretação de Cate Blanchett, que encabeça um elenco bem interessante formado por Robert Redford, Dennis Quaid, Topher Grace e Elisabeth Moss. 

sábado, 26 de março de 2016

Casamento Grego 2


Quando fora lançado nos cinemas em 2002, a comédia romântica Casamento Grego foi um grande sucesso comercial que poucas pessoas esperavam. Sem grandes astros no seu elenco, sobretudo no papel da sua heroína Toula Portokalos, o filme contou apenas com o apadrinhamento de Tom Hanks e sua esposa Rita Wilson, que produziram a fita, e com o "boca-a-boca" que a sua estreia gerou entre o público. Escrita pela própria Nia Vardalos, que dava vida a personagem principal do longa e assim como Toula era descendente de gregos, Casamento Grego era uma peça de teatro que abordava o conflito cultural e de gerações instaurado na casa dos Portokalos quando uma filha de gregos anuncia para a sua família que pretende se casar com um professor norte-americano. Dos palcos para as telonas, também sob a escrita de Vardalos, a comédia era centrada no romance vivido por sua protagonista com o personagem de John Corbett, mas também tratava com humanidade o humor inerente ao conflito causado pela decisão de Toula em seu enorme núcleo familiar residente nos EUA. Além da bilheteria, o filme possibilitou que Vardalos se transformasse em um nome conhecido do grande público e abocanhasse uma indicação ao Oscar de melhor roteiro na cerimônia de 2003.

Quatorze anos depois do primeiro filme, a sua tão aguardada (e gestada) continuação enfim chega aos cinemas e se o resultado está longe de ser decepcionante, também não é dos mais memoráveis ao se afastar em definitivo de elementos que garantiram o sucesso do primeiro longa. Em Casamento Grego 2 somos apresentados a um conflito de ordem geracional semelhante àquele vivido por Toula no filme de 2002. O foco das discussões familiares, agora é a filha adolescente da personagem, Paris, fruto do seu casamento com Ian. Paris chega a uma idade na qual começa a demonstrar sinais de incomodo com a interferência da sua numerosa família em diversas situações da sua vida social no colégio. Ao mesmo tempo, um novo casamento envolvendo os membros da família Portokalos começa a ser pensado tornando-se motivo para mais uma barulhenta reunião familiar.

O grande problema de Casamento Grego 2 é que apesar de revisitar determinadas temáticas presentes no primeiro filme, o longa, que também ganha um roteiro escrito por Nia Vardalos, mas sua direção sai das mãos suaves de Joel Zwick para cair na batuta exagerada de Kirk Jones, do terrível O que Esperar quando você está Esperando, se perde por completo no seu tom. Assim, mesmo que os conflitos da jovem Paris com os seus familiares nos remeta às próprias inquietações de Toula no primeiro longa, esse segundo filme prefere privilegiar um elemento que era bastante presente no filme de 2002, mas tratado na época com sutileza em dosagens homeopáticas e respeitosas, os curiosos hábitos do clã Portokalos. Ao priorizar esse elemento, em detrimento de um olhar mais humano para os seus personagens e que encontrasse o humor nas suas situações cotidianas, conferindo uma organicidade a comédia, Casamento Grego 2 opta pelo tom histriônico ao tratar os seus personagens gregos como figuras simplificadas por suas características, tratadas como excentricidades e não respeitosamente como hábitos culturais, como acontecia de maneira tão responsável no primeiro longa.

Revelando-se completamente descartável e dissonante se o compararmos ao primeiro filme, Casamento Grego 2 é um longa que se equivoca ao não compreender que o que garantira a singularidade do filme de 2002 era o seu tom agridoce e a forma como conseguia imprimir com naturalidade suas situações engraçadas. A continuação da comédia prefere o caminho mais fácil e frágil, apelando para o exagero e para as caricaturas que vencem pelo berro e pelo humor simplificado. É certo que alguns lampejos de preservação do "espírito" do primeiro longa garantem que essa continuação renda algum interesse da sua plateia, sobretudo aquela que é apaixonada pelo trabalho de Vardalos e sua equipe em 2002, mas, no geral, tudo se perde em meio aos exageros de personagens conhecidos que se transformam em figuras histéricas, em alguns casos, irreconhecíveis.


My Big Fat Greek Wedding 2, 2016. Dir.: Kirk Jones. Roteiro: Nia Vardalos. Elenco: Nia Vardalos, John Corbett, Michael Constantine, Lainie Kazan, Andrea Martin, Elena Kampouris, Gia Carides, Joey Fantone, Alex Wolff, Louis Mandillor. Universal, 94 min.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Batman vs. Superman - A Origem da Justiça


*Atualizado após revisão do filme em 26 março de 2016

Não foi uma jornada fácil para a Warner concretizar o sonho de muitos fãs de ver nos cinemas um filme sobre a Liga da Justiça ou, pelo menos, o aguardado encontro entre Batman e Superman, dois dos mais icônicos personagens das HQs. É verdade que essas dificuldades, em parte, podem ser creditadas a problemas de gestão do projeto pela própria empresa, que está longe de ter a mesma organização e logística da sua rival alçada ao status de estúdio, a Marvel, na construção do seu universo em Os Vingadores.  Em outro ponto, sejamos sinceros, em razão da própria concorrência, desde a sua formação a partir de O Homem de Aço de 2013, essa empreitada da Warner/DC Comics sofre com a própria descrença do seu público com a construção desse universo de Liga da Justiça. Parte por uma idolatria exagerada em torno dos filmes da Marvel vinculados a Os Vingadores (me refiro assim porque fora os longas do Capitão América, de Homem de Ferro a Os Vingadores os filmes não são tudo isso que anunciam, deixo claro que é uma perspectiva particular da coisa). O outro elemento fundador dessa descrença está na "birra" (por vezes justificada) que parte do público tem no diretor escolhido para ser a mente por trás desse universo, o cineasta Zack Snyder de 300 e Watchmen, vendido pelo estúdio como um visionário, mas visto por muitos como uma verdadeira fraude pela direção trôpega que costuma dar a seus trabalhos. 

No final das contas, todo esse "agouro" não deve afetar financeiramente Batman vs. Superman - A Origem da Justiça filme que ao mesmo tempo que serve como continuação de O Homem de Aço de 2013, começa a construir o terreno para a formação de toda uma série de filmes de super-heróis que promete girar na órbita do aguardado longa sobre a Liga da Justiça. Contudo, entre os críticos especializados e para um grupo de fãs dos quadrinhos, Zack Snyder e companhia, enfrentará ainda mais resistência já que o longa não anda sendo muito bem recebido por esse grupo. Às vésperas da sua estreia mundial, Batman vs. Superman - A Origem da Justiça não anda recebendo críticas tão favoráveis e ainda que seja dito que isso não vai afetar o futuro da Warner/DC Comics nos cinemas, já que parte dos projetos estão encaminhados (como Mulher - Maravilha e Liga da Justiça, previstos para estrearem ano que vem), de alguma maneira isso afeta os envolvidos. Até quando o apelo desse universo com o público será suficiente diante da má impressão causada pelos filmes da Warner/DC Comics que só anda piorando?

Batman vs. Superman é o típico caso no qual o filme será abraçado pelo grande público, mas até quando o mesmo será condescendente com os deslizes do grupo? Ainda que defenda O Homem de Aço (não o considero tenebroso como alguns colegas, acho que é um filme eficiente que consegue lidar bem com os elementos da mitologia do Superman), o longa de Snyder sobre o filho de Krypton tinha seus tropeços, implacavelmente atacados por alguns. Declarado como o grande "engenheiro" por trás do universo DC Comics no cinema e diretor de Liga da Justiça, Snyder agora enfrenta um  "abacaxi" muito mais espinhoso já que o retorno das críticas a Batman vs. Superman tem sido bem mais ruidoso do que o caso O Homem de Aço.

Antes de mais nada, preciso deixar claro que Batman vs. Superman não é "a" obra-prima do seu nicho cinematográfico, porém mantém-se firme como um entretenimento bem orquestrado durante boa parte da projeção. É um filme que tem suas falta graves, mas consegue impor-se como uma experiência divertida durante parte da sua projeção, basta que o espectador consiga conviver com os seus equívocos e tropeços. Particularmente, uma das falhas mais severas do longa está fora da própria obra, me refiro a sua agressiva campanha de marketing que não fez questão alguma de "esconder" a maioria dos detalhes do longa, o que abordarei mais adiante, algo que pode parecer um detalhe, mas impõe-se como um grande problema considerando que os melhores momentos e diálogos da obra chegaram ao público com seu impacto sensivelmente reduzido. No mais, Snyder não economiza em seus excessos, há soluções simplistas, um amontoado de momentos que existem apenas para satisfazer os fãs e não estão em momento algum à serviço da sua história. Em contrapartida, percebe-se um esboço de ideias interessantes, há a introdução de personagens promissores e o filme funciona melhor como continuação de O Homem de Aço do que como prefácio de Liga da Justiça ou introdução do novo Batman, diga-se de passagem.  

Batman vs. Superman - A Origem da Justiça tem início com a perspectiva de Bruce Wayne sobre os eventos que levaram Metrópolis a uma destruição em massa ao final de O Homem de Aço, a batalha entre Superman e o vilão Zod. No longa, Superman começa a ser alvo de intensas discussões públicas a respeito da natureza dos seus atos na Terra: o Homem de Aço é de fato um herói, um Deus como muitos fazem questão de afirmar, ou não passa de uma grande ameaça para a humanidade já que suas ações sempre resultam em mortes e quebras de normas sociais? Nesse ambiente, não apenas Wayne começa a alimentar uma vontade de pôr fim às interferências do Superman como também uma grande ameaça a todos os cidadãos de Metrópolis começa a dar as suas primeiras cartadas contra o Homem de Aço, o inescrupuloso empresário Lex Luthor. 

Diferente de O Homem de Aço, em Batman vs. Superman - A Origem da Justiça, o diretor Zack Snyder não economiza em suas excessivas e por vezes aborrecidas e aleatórias marcas estilísticas. Assim, há inúmeros planos que evidenciam os apelos do diretor em transformar qualquer sequência em um grande momento de fotografia cinemagráfica, Snyder também usa a exaustão o slow motion, algo que foi muito mais contido no filme anterior com o Superman dirigido pelo realizador, mas que aqui é usado como "desculpa" mais uma vez pelo diretor, que insiste na ideia de emular a linguagem dos quadrinhos nas telonas. Se por um lado não deixa de ser louvável a coragem do diretor, por outro soa como uma insistência tola, já que, diferente de filmes como 300 e Watchmen, que funcionavam muito bem sob essa logística, todos esses recursos não prestam serviço algum à trama de Batman vs. Superman. O diretor ainda insiste na produção de sequências que nos remetem a sonhos, delírios ou pesadelos dos seus protagonistas como mecanismos de desenlaces para os nós da sua história, o que não funciona e só serve para tornar a experiência de assistir ao filme um pouco massante. Portanto, se em O Homem de Aço, Snyder mostrou-se controlado em seu "gênio-criativo", o que foi um ganho tremendo para o longa de 2013, aqui ele usa e abusa das ferramentas narrativas e estéticas pelas quais ficou conhecido. Assim,  caso tenham implicâncias por esses arroubos visuais do realizador, estejam preparados, Batman vs. Superman os apresenta em grande volume.

Zack Snyder à parte, o roteiro de Chris Terrio e Davis S. Goyer também não faz um grande serviço ao longa. Existe um esboço de ideias interessantes mal executadas não apenas pelo diretor, mas também pelos roteiristas. Há inúmeras concepções interessantes que são mal aproveitadas no filme. A ideia de ter um Batman mais experiente de um lado e um Superman inexperiente do outro tentando lidar com todas as demandas requeridas a um super-herói é muito interessante, mas nunca esgarçada pelos roteiristas, muito menos pelo diretor, que está mais preocupado com seus "arroubos" visuais. Operando em duas frentes, de um lado como continuação de O Homem de Aço, explorando com mais veemência relações que foram apenas introduzidas naquele longa, como é o caso da dinâmica entre Clark Kent e Lois Lane, mas também como um prefácio de Liga da Justiça, a verdade é que, na prática, o longa presta muito mais serviço a sua primeira função do que à segunda. Assim, Batman vs. Superman soa como um filme melhor quando pensado como uma continuação de O Homem de Aço do que como uma preparação para Liga da Justiça. O filme é mais eficiente ao lidar com as questões que envolvem o Superman (algumas bem interessantes, por sinal), do que quando prepara terreno para Liga da Justiça Quando o centro dramático de Batman vs. Superman - A Origem da Justiça volta-se para a história do Superman, o filme sempre parece fazer mais sentido.

 É verdade que, no conflito de percepções sobre modelos de heroísmo entre Batman e Superman, o longa tem em mãos uma munição que poderia render discussões muito mais profundas do que ele de fato promove. Em seu filme, Snyder opta por reflexões que são pertinentes e eficientes mas que ficam na superfície e abraça sem maiores problemas o puro e simples entretenimento, "jogando" sempre para o público, sobretudo os fãs mais ardorosos, com momentos e cenas que todos esperavam ver: o duelo dos protagonistas, a aparição da Mulher-Maravilha, a formação da Liga da Justiça (algo que a própria Marvel fez no primeiro Os Vingadores que, sejamos sinceros, não passa de um amontoado de sequências de lutas feitas para o único e exclusivo deleite dos fãs dos quadrinhos que aguardavam há anos o encontro entre os personagens icônicos da editora). Sinceramente, também não há problema algum nessa decisão de Snyder e da equipe de Batman vs. Superman. O filme tem a pretensão de privilegiar um nicho do público e segue coerente em todo o propósito traçado pelo realizador e pelo estúdio para os personagens da DC Comics, que possuem uma linha de ação e uma abordagem completamente diferente do tom da Marvel, diga-se de passagem.

Além de tudo isso, sejamos sinceros, no final das contas, entre os valores que filmes de super-heróis acabam adquirindo ao humanizar personagens que são mitos (a franquia Homem-Aranha de Sam Raimi), ao explorar o lado obscuro e violento deles (a versão de Christopher Nolan para o Batman desde Batman Begins), ao abordar discussões de importante cunho social (os filmes da série X-Men) ou fazer um exercício irônico de metalinguagem (Deadpool), o que importa mesmo é que estamos vendo um filme de super-heróis e o que a gente mais quer ver nesse caso específico é esse duelo de titãs, a primeira aparição da Mulher-Maravilha e por ai vai. Nesse sentido, e desde que você tenha consciência e consiga conviver com os problemas do longa, o primeiro encontro entre Batman e Superman cumpre os seus objetivos. 

P.S.: Algo que me aborreceu bastante durante a sessão de Batman vs. Superman - A Origem da Justiça, como já antecipei, foi a massiva campanha de marketing feita em torno do filme com um ano e meio de antecedência. Entre diversas versões de trailers disponibilizadas pela Warner, imagens, pôsters, gifs e informações da internet, praticamente todo o filme foi revelado ao público antes mesmo dele ser lançado. Em diversos momentos, pensei se minha reação a determinadas cenas ou diálogos não seriam mais entusiasmadas caso não tivesse acesso a essas informações (e olha que evitei ao máximo, mas nos dias de hoje é praticamente impossível não se deparar com a oferta desses conteúdos). Diversas cenas marcantes e diálogos importantes do filme já haviam sido revelados antes mesmo dele chegar aos cinemas e isso foi uma grande mancada da Warner no que diz respeito a Batman vs. Superman - A Origem da Justiça. Provavelmente, a maior delas.  



Batman v. Superman - Dawn of Justice, 2016. Dir.: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Holly Hunter, Diane Lane, Jeremy Irons, Laurence Fishburne, Scoot McNairy, Callan Mulvey, Tao Okamoto. Warner, 151 min. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Drops: Zootopia - Essa Cidade é o Bicho


Zootopia cumpre uma qualidade básica para que um longa de animação supere as expectativas dentro do seu próprio nicho cinematográfico: ele evita tornar-se um filme de nicho, o que na seara dos filmes de animação significa ser uma narrativa voltada exclusivamente para o público infantil. Agora sob a supervisão de John Lasseter, "chefão" da Pixar desde Toy Story e que assume a função de produtor executivo desse e de outros títulos como Frozen, Operação Big Hero e Detona Ralph, a Disney se reinventou  no território das animações, que sempre fora sua especialidade, com longas que ao mesmo tempo que não afastam os seus públicos "naturais", as crianças, não deixam de agraciar os adultos com universos ricos e repletos de discussões profundas e sensíveis. Em Zootopia, a equipe da Disney cria uma história que reflete sobre questões determinantes no mundo em que vivemos como as desigualdades nas estruturas sociais e a intolerância com a diversidade. Repleto de sacadas interessantes e muito bem engendradas pela equipe de roteiristas e diretores do filme, o longa tem início com a história da coelhinha Judy Hopps, que sonha em ser policial desde pequena e acaba parando no departamento de trânsito de Zootopia, já que seu supervisor não acredita que um animal da sua espécie possa lidar com casos mais "graves" como o recente desaparecimento de alguns predadores da cidade. Acontece que, com a ajuda da malandra raposa Nick Wilde, Judy começa a empreender a investigação para o caso e faz descobertas que acabam abalando toda a dinâmica de Zootopia. Cheio de referências e sacadas inteligentes, Zootopia acaba revelendo-se ao público como um longa surpreendente pela maneira madura com que conduz a sua cartela delicada de temáticas a serem tratadas, sem didatismos ou mesmo tornando sua narrativa inacessível aos pequenos. Tudo é tão natural e marcado pela sagacidade dos realizadores no desenlace da sua trama policial que ao fim da projeção a certeza que fica é aquela que estamos diante de um dos produtos mais sólidos do estúdio em anos. 

domingo, 20 de março de 2016

Drops: O Novíssimo Testamento


Curiosa do início ao fim, a comédia O Novíssimo Testamento é o recente trabalho do cineasta Jaco Van Dormael, de filmes como O Oitavo Dia e Um Homem com Duas Vidas, mas que se popularizou recentemente pelo longa Sr. Ninguém com Jared Leto, que, por sinal, sequer chegou a estrear no circuito brasileiro. Em seu novo longa, Dormael propõe recontar a criação do mundo a partir de uma missão empreendida pela filha de Deus, que, por sinal, é retratado no longa como um homem medíocre, mesquinho e vingativo. Desde o seu início, com sua proposta de reescrever a bíblia em seus próprios termos, O Novíssimo Testamento mostra-se como uma obra mordaz em sua  crítica a religião, ao seu uso pela sociedade e a construção da imagem de Deus e sua interferência entre os humanos. Dormael "joga na nossa cara" como ele realmente imagina que esse Deus seja e como de fato seria sua interferência na Terra através da interessante personificação dele feita pelo ator Benoit Polvoorde, obedecendo à lógica da onipresença desse ser que tanto é propagada. O resultado é dos mais interessantes e inventivos, ganhando o público com seu humor inteligente, mas bastante simples em suas associações, e suas observações pontuais sobre o cotidiano e a nossa existência na Terra. 

sábado, 12 de março de 2016

(Drops) Meu Amigo Hindu


Em Meu Amigo Hindu, Hector Babenco interrompe um hiato de quase dez anos desde o seu último longa, O Passado com Gael Garcia Bernal, para contar uma história bastante pessoal. No filme, o cineasta revive uma das fases mais conturbadas da sua vida, quando enfrentou a morte de perto ao passar por um tratamento contra um câncer. No longa, Babenco conta para o espectador toda a sua jornada numa espécie de 8 1/2 do realizador, fazendo um inventário da sua própria vida e refletindo sobre suas realizações profissionais e seu papel como colega de trabalho, amigo e marido. Babenco traz como balizador dessa jornada a amizade que o seu protagonista começa a estabelecer com um garoto hindu que conhece nas sessões de quimioterapia e que passava pelo mesmo problema de saúde que ele.

Fazendo as vezes de Babenco encontramos o ator norte-americano Willem Dafoe, muito interessante e entregue em cena. Há um desfile de rostos conhecidos no Brasil ao longo da projeção do filme, como Maitê Proença, Dan Stulbach, Dalton Vigh, Ary Fontoura etc. , mas talvez as presenças mais importantes e de maior destaque ao longo da fita sejam as de Maria Fernanda Cândido, que vive Lívia, a primeira esposa do diretor, Reynaldo Gianecchini, intérprete de um médico que vem a ser Dráuzio Varella fora das telas, Selton Mello como a morte, e Bárbara Paz, atual esposa do cineasta, vivendo ela mesma no longa. Há, por parte do Babenco, uma iniciativa sincera de revelar o que existe de mais nobre, questionável e até mesmo repulsivo em seus sentimentos, pensamentos e posicionamentos diante da vida e daqueles que estão ao seu redor.  O filme é um pouco hermético, mas tem seus bons momentos e, se o espectador realmente se dedicar a experiência de contemplá-lo entendendo-o como um delírio visual e filosófico sobre a existência, ou seja, como uma obra repleta de metáforas, pode render interessantes leituras pessoais e um saldo bastante positivo após a sessão.


My friend Hindu, 2016. Dir.: Hector Babenco. Roteiro: Hector Babenco. Elenco: Willem Dafoe, Maria Fernanda Cândido, Selton Mello, Reynaldo Gianecchini, Bárbara Paz, Guilherme Weber, Dan Stulbach, Tuna Dwek, Maitê Proença, Tania Khallil, Dalton Vigh, Ary Fontoura. Europa Filmes, 124 min.

Assista ao trailer:

quinta-feira, 10 de março de 2016

Drops: O Tigre e o Dragão - A Espada do Destino


Quando lançou O Tigre e o Dragão em 2000, Ang Lee fez um dos seus trabalhos mais bem-sucedidos ao reverenciar o cinema de artes marciais com um filme que se apresentava ao público como um imponente épico de ação, mas que também exibia um certo lirismo no tratamento que destinava às relações dos seus personagens e a toda a mitologia oriental que abordava. Desde aquela época falava-se em uma continuação para o longa que venceu quatro categorias do Oscar e esperava-se que esse segundo filme, ao menos, seguisse os elementos que garantiram o sucesso da primeira obra. A Espada do Destino (ou no título original Sword of Destiny), continuação direta da obra de Ang Lee, não segue o caminho do seu predecessor, pelo contrário, aposta em tudo aquilo que o realizador preferiu evitar em 2000 e resulta em um grande fiasco. O filme produzido pela Netflix e dirigido por Yuen Woo-Ping, cujo filme mais conhecido no Brasil é Batalha de Honra, protagonizado por Jet Li e Michelle Yeoh, troca a poesia das sequências de ação coreografadas e a sensibilidade no tratamento dos dramas das suas personagens, sobretudo as femininas, um ponto alto do filme de Lee, por um amontoado de cenas de luta viabilizadas por efeitos de computador que tornam A Espada do Destino um longa completamente banal. Na história, acompanhamos mais uma vez a cobiça pela lendária espada que pertenceu ao mestre Li Mu Bai, porém se no longa de 2000 existia uma impecável sinergia entre os núcleos compostos pelo casal interpretado por Chow Yun-Fat e Michelle Yeoh, a única do elenco original que retorna nessa continuação decepcionante, e a trama da personagem de Zhang Ziyi, aqui o roteirista John Fusco a substitui por um amontoado de personagens e conflitos completamente inócuos e entediantes de se acompanhar. É uma pena que tenhamos esperado dezesseis anos por um filme tão ruim quanto A Espada do Destino que se apropria do legado de uma obra como O Tigre e o Dragão para simplesmente "jogá-lo no esquecimento". 

P.S.: Nem mesmo o mandarin, idioma do filme de 2000, é preservado pela continuação, que é inteiramente falada em inglês. 

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Série Divergente - Convergente


Mesmo que alguns fãs da série de livros não gostem da comparação, é fato incontestável. Como obra cinematográfica, a franquia Divergente surgiu a rebote do sucesso financeiro de Jogos Vorazes quando o longa protagonizado por Jennifer Lawrence foi lançado nos cinemas em 2012. O filme era o primeiro a representar um filão que hoje já se instalou na indústria cinematográfica: a distopia adolescente. Em seu terceiro capítulo, intitulado A Série Divergente: Convergente, no entanto, a "saga" evidencia os sinais de seu desgaste e até mesmo da fragilidade de alguns conceitos apresentados sobre esse universo lá no primeiro filme. A sensação é que Divergente perdeu o fôlego da sua própria trama ou nunca teve o potencial para a longevidade que supostamente apresentava no primeiro capítulo da franquia. O que fica como herança em Convergente, um terreno que começara a ser pavimentado no segundo longa, é uma trama frouxa, que se estendeu ao máximo que sua capacidade permitia. 

A trama de Convergente basicamente acompanha a sua protagonista Tris, uma Shailene Woodley ainda batalhando por um material que faça jus ao seu potencial como atriz, em sua jornada fora das cercas que aprisionam todos em Chicago. Ela parte nessa descoberta com Quatro (o galã canastrão Theo James), seu irmão Caleb (Ansel Elgort), Peter (Miles Teller), Christina (Zöe Kravitz) e Tori (Maggie Q) e encontra um homem misterioso dedicado a entender o que existe por trás das divisões dos grupos apresentadas desde o primeiro filme da franquia. 

A sensação de que a trama de Divergente anda em círculos se concretiza nesse terceiro capítulo da série. Assim como acontecia em Insurgente, Convergente sofre do mal do grande orçamento. Com o sucesso financeiro do primeiro longa, o caixa disponibilizado para a equipe aumentou e isso foi convertido em uma produção megalomaníaca em seus efeitos especiais (todos ruins, diga-se de passagem) e cenários, tornando os filmes da série cada vez mais distantes do seu longa de origem, que se tinha lá os seus defeitos, ao menos conseguia reconhecer-se como uma produção de ambições moderadas, ciente das suas limitações etc. O que Jogos Vorazes conseguiu em economia de ação e aquisição de tensão dramática e política nas duas partes de A Esperança, a franquia Divergente conseguiu de barulho e pretensão em cima da sua própria história, narrativa e visualmente, tanto em Insurgente quanto nesse terceiro longa, Convergente

O que o longa acaba conseguindo é perder-se em suas próprias ambições como blockbuster, não conseguindo sustentar-se como uma peça de puro entretenimento, tampouco resgatar determinadas preocupações e discursos que estão no cerne da sua trama original. Desse mal, os fãs de Jogos Vorazes, por exemplo, não tem do que reclamar. Com uma trama que já não tem mais o que explorar e passa sempre a sensação de uma longa e desnecessária espera para o seu derradeiro capítulo no quarto filme da franquia, Convergente ainda desperdiça o seu ótimo elenco, que oscila entre as presenças completamente descartáveis de atores do calibre de Naomi Watts, Octavia Spencer e Jeff Daniels, todos tirando "leite de pedra" ao interpretarem personagens rasos, e o subaproveitamento de jovens talentos como Shailene Woodley, cuja heroína aborrecida já não apresenta mais conflitos tão interessantes quanto aqueles esboçados no primeiro longa, Ansel Elgort e Miles Teller, absurdamente over como o dúbio Peter. 

Dirigido por Robert Schwentke, que esteve por trás de filmes como Plano de Voo, RED - Aposentados e Perigosos e do próprio Insurgente, Convergente é um filme cansativo que só faz sublinhar o desgaste da sua franquia. Para quem acompanha e é fã da série cinematográfica desde o início, esse retorno sobre o filme pode não fazer muita diferença, mas para quem acompanhava a "saga" fora dessa esfera dos fandons e aguardava uma recuperação de fôlego após o irregular segundo filme, o que ficará é a decepção. 


The Divergent Series: Allegiant, 2016. Dir.: Robert Schwentke. Elenco: Shailene Woodley, Theo James, Miles Teller, Ansel Elgort, Naomi Watts, Jeff Daniels, Octavia Spencer, Zoë Kravitz, Maggie Q, Bill Skarsgard, Jonny Weston, Joseph David-Jones. Paris Filmes, 121 min. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Drops: Cinco Graças


Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Cinco Graças conta a história de cinco irmãs que vivem em um vilarejo turco e começam a gerar comentários entre os seus vizinhos quando são vistas na praia tomando banho de mar com alguns meninos. A partir de então, elas são presas dentro da própria casa e alguns arranjos matrimoniais começam a ser feitos envolvendo as irmãs mais velhas do grupo. De maneira simples e sensível, a diretora turca Deniz Gamze Ergüven discute questões importantes sobre o feminino inseridas no conflito entre a tradição cultural e as demandas sociais contemporâneas. Sem maiores panfletagens ou desnecessárias ênfases narrativas, Ergüven consegue construir com muita naturalidade e fluidez para o espectador um cenário palpável a respeito das suas personagens e das suas condições de vida trazendo para o público um filme contundente que não precisa valer-se de pontos de vista duros e autoritários sobre suas questões. Claro que ao tomar como perspectiva da sua história o olhar dessas cinco garotas, a diretora consegue tratar com suavidade temas tão sérios e dramáticos quanto os que sua trama escancara, mas a própria costura da história realizada pela cineasta é fundamental para tornar a experiência de assistir Cinco Graças bastante recompensadora, já que ela prima pela sensibilidade. 

Drops: Um Homem entre Gigantes


Em Um Homem entre Gigantes, Will Smith vive um médico forense que descortina reiterados casos de traumas cerebrais entre jogadores de futebol americano, levando às últimas consequências sua descoberta e enfrentando a poderosa NFL, liga do esporte nos EUA. Dirigido por Peter Landesman, de JFK - A História não Contada, o novo longa protagonizado por Smith é visivelmente apático do início ao fim. Enfatizando a natureza heróica do seu protagonista e de cada ato e decisão tomada por ele, Landesman oscila entre uma condução morna, que não aposta nem mesmo no talentoso elenco encabeçado por Smith (ainda fazem parte do filme atores interessantes como Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Albert Brooks e Luke Wilson), nem tenta encaminhar sua história para direções que não sejam as do óbvio maniqueísmo. O filme é daquelas histórias que só não se tornam mais descartáveis do que já são em função dos seus biografados e da força do caso real que a inspira. Como relato ou dramatização cinematográfica, Um Homem entre Gigantes é instável e não consegue produzir climax ou mesmo oferecer uma perspectiva complexa sobre os temas que sua trama enseja. O resultado é que extrai-se muito pouco do produto final, a não ser o que existe antes e independente dele, ou seja, a própria batalha empreendida pelo médico Bennet Omalu contra a NFL, mas daí a discussão toma um rumo que nada tem a ver com cinema. 

domingo, 6 de março de 2016

Ranking 2016 - Janeiro e Fevereiro

Meses dominados pelos lançamentos da temporada do Oscar, janeiro e fevereiro trouxeram dois dos melhores longas da temporada, curiosamente, ambos não foram indicados na categoria principal do prêmio: Carol, o belíssimo romance de Todd Haynes, protagonizado por Cate Blanchett e Rooney Mara, e Steve Jobs, biografia do co-fundador da Apple dirigida por Danny Boyle e roteirizada pelo brilhante Aaron Sorkin. Logo em seguida, temos a criativa e surpreendente comédia ambientada no universo da prostituição em Los Angeles Tangerine, filme de Sean Baker que brilha em parte graças aos talentos de Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor. Destacamos também o grande vencedor do Oscar desse ano, Spotlight - Segredos Revelados, um filme importante não apenas por tratar sobre a pedofilia na igreja católica, mas por propiciar reflexões sérias a respeito do jornalismo. Ainda teve espaço para o doce O Quarto de Jack, filme que rendeu o prêmio da Academia de Hollywood de melhor atriz a Brie Larson, mas que resume-se ao talento e carisma do pequeno Jacob Tremblay.  



Os melhores...

# 01. Carol

# 02. Steve Jobs

# 03. Spotlight - Segredos Revelados

# 04. Tangerine

# 05. O Quarto de Jack

Entre os piores longas desse início de ano, a disputa foi ferrenha entre o cafona Deuses do Egito, de Alex Proyas, e o risível filme de terror Boneco do Mal. Bem menos trágico que esses dois títulos, é preciso sublinhar, estão o thriller do brasileiro Afonso Poyart Presságios de um Crime, com Anthony Hopkins e Colin Farrell, o irregular Orgulho e Preconceito e Zumbis e o burocrático Horas Decisivas



Os piores...

# 01. Deuses do Egito

# 02. Boneco do Mal

# 03. Presságios de um Crime

# 04. Orgulho e Preconceito e Zumbis

# 05. Horas Decisivas

*Escolhas feitas a partir dos filmes ASSISTIDOS nos meses em questão.

Drops: Kung Fu Panda 3


Junto com Como treinar o seu Dragão  (isso se a gente não pensar em Shrek, que apesar de ter um decréscimo na qualidade dos seus filmes nos últimos capítulos da franquia, fez história com os seus dois primeiros longas), a série animada Kung Fu Panda é uma das empreitadas mais bem-sucedidas da DreamWorks Animation, atingindo o equilíbrio entre o êxito financeiro e a integridade cinematográfica que muitos estúdios de animação desejam. Bem longe de obter o mesmo resultado que a Pixar ou a Disney, a DreamWorks sofre em meio a animações irrelevantes e outras que simplesmente não "colam", entre elas Madagascar, Os Sem Florestas e Monstros vs. Alienígenas. Com Kung Fu Panda, o resultado é outro. Kung Fu Panda chega ao seu terceiro capítulo com Kung Fu Panda 3 de maneira mais digna que o famoso ogro verde do estúdio, por exemplo. Os realizadores da franquia não perderam o fio da meada e a coerência da sua narrativa e dos seus personagens, nem deixaram de tornar os longas da série cada vez mais divertidos. Nesse terceiro filme, existem duas tramas em paralelo, a primeira diz respeito ao perigoso touro Kai, que retorna do mundo dos mortos para instalar o caos entre os mestres do kung fu. Já a segunda é o encontro de Po com seu pai biológico e o conhecimento de uma aldeia secreta repleta de pandas. As duas tramas são desenvolvidas de maneira satisfatória por Jennifer Yuh e Alessandro Carloni. Além disso, tecnicamente, Kung Fu Panda 3 é irrepreensível e esteticamente recorrem a um visual  interessante que aposta no impacto e na beleza de interessantes composições de imagens e cores.  

quarta-feira, 2 de março de 2016

A Bruxa



Por muitos anos, os fãs do gênero terror se queixaram da produção de filmes ruins nesse nicho da indústria. Muitos remakes de filmes orientais, muitas fórmulas narrativas e muito artificialismo estético voltado para a produção de efeitos nas plateias em títulos que se multiplicavam pelo circuito de exibição, todos eles priorizando uma série de truques cinematográficos e esquecendo alguns dos principais elementos que fazem o gênero conceber histórias de gelar a espinha de qualquer ser humano com sangue correndo em suas veias: uma atmosfera de medo ascendente e uma construção narrativa envolvente com a composição de personagens marcados por densos conflitos psicológicos. Filmes como O Exorcista ou O Iluminado não são sucessos até hoje à toa. Acontece que nos últimos anos ficamos muito bem servidos, não temos do que reclamar. Desde Invocação do Mal de 2013, somos surpreendidos todo ano por longas que primam por essas características e deixam de lado qualquer truque malandro para assustar criancinhas. Títulos como Corrente do Mal, A Visita, o austríaco Boa Noite, Mamãe! e The Babadook (disponível no Brasil pelo Netflix) são ótimos exemplares dessa recente leva. A Bruxa segue o caminho de todos eles ao apoiar-se em lendas inglesas sobre bruxaria a partir de uma apavorante experiência vivenciada por uma família no interior da Inglaterra por volta de 1630. 

Em A Bruxa acompanhamos o casal William e Katherine e seus cinco filhos após serem expulsos do lugar onde moravam por terem crenças diferentes daquelas que os seus vizinhos possuíam. O casal e seus filhos então passam a viver isolados da sociedade em uma propriedade próxima de um bosque bastante sinistro. Quando o filho mais novo de William e Katherine desaparece misteriosamente uma série de eventos com todos os integrantes dessa família começam a acontecer e eles passam a travar uma disputa com forças sobrenaturais para descobrir o que de fato está por trás de todos os fenômenos que lhes são apresentados. 

Esteticamente requintado, soando em muitos momentos até mesmo como um longa pretensioso (mas não é), A Bruxa busca nas cores da sua sinistra sua fotografia e em recursos como jogos de luzes a construção de uma atmosfera sombria que contribui para a crescente tensão da sua trama central. O diretor Robert Eggers ao mesmo tempo que realiza um filme pequeno e de pouca pirotecnia digital ou violência gráfica, prioriza o uso sofisticado de uma linguagem cinematográfica para transportar o espectador para uma história sinistra que mantém o corpo gélido durante boa parte da projeção. O tom da "narração de uma lenda" está presente ao longo de todo o filme do realizador e isso além de transformar A Bruxa em um exercício do seu gênero muito peculiar, o qualifica como um filme extremamente eficiente em seus propósitos. 

Há uma consciência a respeito da importância que a economia dos recursos do gênero possuem para a própria eficiência do diálogo entre a obra e o seu público, fazendo com que A Bruxa, diferente de outros longas do nicho, não seja um filme orientado pelo terror explícito, mas um longa que permite que o sobrenatural seja revelado ao público na medida em que seus personagens mergulham nesse universo desconhecido. Ao priorizar a construção de uma história, dos seus personagens e o uso dos recursos audiovisuais em prol de um filme que não apenas consegue gerar uma cartela de efeitos de alta voltagem no espectador, mas que também serve à construção de uma obra cinematográfica esteticamente sofisticada, A Bruxa brinca com toda a cartela de elementos do gênero: magia negra, possessões e crianças e animais sinistros. 

Em certa medida, determinadas leituras sobre a paranoia coletiva e os mecanismos de controle social através do medo extraídos de filmes como A Vila do M. Night Shyamalan podem ser feitas, possibilitando paralelos interessantes entre as duas obras. O fato é que A Bruxa é um exemplar maduro de um gênero subestimado e temido por muitos, mas que quando consegue utilizar o seu programa de efeitos no espectador aliado a um poderoso jogo narrativo e estético gera filmes poderosos como esse que merecem ser vistos na tela de um cinema. 


The Witch, 2016. Dir.: Robert Eggers. Roteiro: Robert Eggers. Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Julian Richings, Wahab Chaudhry. Universal, 92 min. 

Zoolander 2


Quando Zoolander chegou aos cinemas em 2001, a criação do ator, diretor e roteirista Ben Stiller nessa sátira do universo da moda chamou a atenção não apenas pela maneira como mostrava o seu tema, mas também pela interessante figura que o ator havia entregue ao mundo, o super-modelo Derek Zoolander, um homem capaz de literalmente paralisar qualquer coisa com um único olhar, o "Blue Steel". Levou quase quinze anos para que Stiller retornasse ao universo de Zoolander na continuação Zoolander 2 e as coisas parecem ter saído diferente do que o ator havia vivenciado no filme original. O longa sofreu alguns problemas nas bilheterias norte-americanas em sua estreia, enfrentando a dura concorrência de Deadpool, um dos filmes de maior arrecadação desse primeiro semestre, e as críticas a comédia não foram nada elogiosas. Em parte, a diferença da repercussão entre Zoolander 2 e o primeiro longa protagonizado pelo personagem se justifica, a continuação é mesmo inferior a comédia de 2001, mas não chega a ser completamente ruim como andam alardeando.

Em Zoolander 2, Ben Stiller retorna ao personagem para contar como ele se encontra depois dos eventos do longa anterior. Aqui acompanhamos Zoolander e seu antigo rival das passarelas Hansel enfrentando as consequências do tempo no mundo da moda. Humilhados em um desfile e enfrentando sucessivos problemas pessoais, ambos somem dos holofotes e vivem bem longe da fama. Tudo muda quando um grupo de celebridades começa a ser assassinado por um misterioso serial killer e eles são recrutados por uma modelo de editoriais de roupas de praia para descobrir o que está por trás dos crimes.

A continuação ainda aposta na sátira ao mundo da moda em suas excentricidades e "calcanhares de Aquiles" e o trio Ben Stiller, Owen Wilson e Will Ferrell continuam valendo por suas interessantes criações para esse universo. Existe, porém, uma evidente perda de fôlego na construção dessa sátira, sobretudo quando temos como comparativo o uso que o primeiro filme fez sobre temas sérios que rondam o mundo dos super-modelos e das grifes de alta costura, como a utilização de mão de obra escrava pela indústria da moda em países com problemas políticos e sociais e a superficialidade das celebridades fashionistas. Dessa vez, tudo parece muito diluído em uma trama que mergulha sem concessões no absurdo, algo que o próprio longa faz questão de salientar quando o personagem de Will Ferrell, o vilão Mugatu, ironiza uma certa lenda antiga sobre o "modelo original" que mobiliza toda a trama do filme.

Além das participações especiais de estilistas, personalidades conhecidas das passarelas e alguns atores em evidência ou que andam fora de circulação na indústria (sim, Billy Zane está de volta como Billy Zane!), Zoolander 2 tem no seu elenco a adição de Penélope Cruz, como a modelo de biquinis e agente especial Valentina, e Kristen Wiig, irreconhecível através de uma interessante composição e um curioso trabalho de maquiagem na sua versão hilária de Donatella Versacce, a sinistra Alexania Atoz. É de Wiig alguns dos melhores momentos do filme, sem dúvida. 

Perdendo um pouco da sagacidade e inteligência que o primeiro filme apresentava como uma sátira ao mundo fashion, Zoolander 2 se redime pela consciência que tem dos absurdos da sua própria história. Evidente que é um filme menor que o longa de 2001, mas a continuação protagonizada, dirigida e co-roteirizada por Ben Stiller acerta ao entender isso e não ter vergonha de acolher e fazer humor com as suas próprias limitações. Retornos são sempre complicados, ainda mais depois de tantos anos passados desde que a primeira obra fora lançada nos cinemas, mas Zoolander 2 tem alguns ótimos momentos e mantém as características dos seus personagens centrais, porém com uma abordagem levemente diferenciada. Entendendo isso, é relaxar e se divertir com o desfile de tipos concebidos por Ben Stiller e seu grupo de talentosos atores.


Zoolander 2, 2016. Dir.: Ben Stiller. Roteiro: Ben Stiller, Justin Theroux, Nicholas Stoller e John Hamburg. Elenco: Ben Stiller, Owen Wilson, Penélope Cruz, Will Ferrell, Kristen Wiig, Billy Zane, Cyrus Arnold, Nathan Lee Graham, Christine Taylor, Kyle Mooney, Elettra Capuano. Paramount, 112 min.