terça-feira, 29 de março de 2016

Voando Alto




Voando Alto tem o potencial de transformar-se no filme feel good do ano. Aquele tipo de longa que faz você sair do cinema emocionado pela apresentação de uma história extremamente otimista contada de forma cativante, enfim, um conto que faz você se sentir simplesmente feliz ao final da sessão. O longa, em seu título original Eddie the Eagle, é uma produção do inglês Matthew Vaughn, de longas como Stardust, Kick-Ass, X-Men - Primeira Classe e Kingsman, e tem a direção de Dexter Fletcher, cuja carreira como ator é mais volumosa do que como realizador cinematográfico, sendo creditado no elenco de filmes como o próprio Kick-Ass do Vaughn e O Homem Elefante. Pela estrutura do seu roteiro, o filme não apresenta grande novidade e mostra-se ao público como uma tradicional trama motivacional ambientada no universo das competições esportivas, trata-se da história de Eddie Edward, um britânico que tornou-se recordista nos saltos de esqui durante os jogos olímpicos de inverno de 1988. Eddie chamava a atenção pela sua perseverança na modalidade, já que, contrariando as expectativas pessimistas sobre o seu futuro no esporte por suas limitações físicas, ele conseguiu um feito impensável e transformou-se em ídolo nacional. O grande mérito de Voando Alto não está na oferta de um plot ou propósito "original" da sua trama, como a própria sinopse denuncia, mas na execução certeira do seu diretor para um terreno que é mais do que conhecido do espectador, sobretudo na cartela de efeitos emotivos que esse tipo de filme costuma ofertar.

Dexter Fletcher transforma o seu drama motivacional em um típico filme dos anos de 1980, época na qual sua trama é ambientada, adequando não apenas a reconstituição de época em sua direção de arte, figurinos  e maquiagem ao período, mas também construindo toda uma atmosfera e uma logicidade narrativa que nos remetem aos longas daquela época, sobretudo quando temos uma trilha sonora que, a semelhança dos trabalhos anteriores do seu produtor como diretor, explorava isso muito bem (basta perceber como isso funcionava em X-Men - Primeira Classe ou Kingsman). Assim, Voando Alto conquista o público em uma primeira via pela execução acertada do seu realizador, que soube encontrar brilho em uma história convencional que poderia render um tratamento óbvio e, portanto, aborrecido nas mãos de um diretor que talvez não tivesse o mesmo brilho ou iniciativa criativa.

Voando Alto acerta no tom do discurso motivacional, que, com muita frequência, tende a ser motivo para a oferta de filmes que apelam para a manipulação emocional do espectador, ou seja, para o  chamado"choro fácil". Não que o filme não seja vítima desses momentos, mas eles são muito poucos e seu realizador é honesto desde o primeiro momento da sua fita com o seu público. Fica bem claro desde a primeira sequência de Voando Alto, quando somos apresentados a momentos da infância de Eddie Edwards que o filme tem como proposta apresentar uma trama sobre superações, transformando o seu protagonista em um personagem repleto de virtudes inspiradoras. Acontece que mesmo optando por conduzir a sua história por esse caminho, Voando Alto não subestima o espectador e apresenta o seu discurso motivacional da maneira mais empática e criativa que consegue.

Outro mérito do filme a ser pontuado é a escolha do jovem Taron Egerton para viver Eddie Edwards. Cria de Matthew Vaughn em Kingsman, Egerton compõe um tipo interessante que tem lá as suas excentricidades, seu jeito esquisitão, mas que mantém os pés firmes no chão graças ao trabalho do ator que não o transforma em uma caricatura, mas em um personagem palpável, humano. O carisma e a harmonia da composição de Taron Egerton com o tom conferido ao filme por Dexter Fletcher garantem a fidelidade do público com o filme do início ao fim, fazendo com que a plateia torça pelo sucesso do seu personagem nos caminhos tão tortuosos que ele opta seguir. Também está muito bem em cena o principal parceiro de Egerton nessa jornada, o australiano Hugh Jackman, que compõe um tipo cowboy bad boy beberrão que desenvolve uma amizade com o protagonista e resolve ser o seu treinador, revelando ainda um grande fantasma do passado, já que fora um dos mais promissores atletas no salto de esqui que colocou tudo a perder em função das divergências que tinha com seu terinador, personagem de Chritopher Walken.

Apostando na empatia da história do seu protagonista, interpretado pelo não menos carismático Taron Egerton, Voando Alto é um filme que flerta abertamente com um tipo de história que é bastante conhecida do público, mas consegue fazer isso de uma forma muito simpática e sincera. Não é o caso de um filme motivacional que apela para a emoção fácil por uma inabilidade do seu realizador na condução das emoções que o filme pode proporcionar. Fica evidente que o diretor Dexter Fletcher sente um profundo respeito e admiração por seu protagonista, e não há demérito algum nisso, mas ele consegue encontrar uma maneira fluida, orgânica, criativa e pop de externar seus sentimentos por esse personagem em uma trama cheia de boa energia. 



Eddie the Eagle, 2016. Dir.: Dexter Fletcher. Elenco: Taron Egerton, Hugh Jackman, Jo Hartley, Keith Allen, Iris Berben, Tom Costello Jr., Jack Costello, Mark Benton, Tim McInnerny, Edvin Endre, Marc Benjamin, Christopher Walken. Fox, 106 min. 

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