sexta-feira, 29 de abril de 2016

(Crítica) Capitão América - Guerra Civil


Em um momento crucial de Capitão América - Guerra Civil, sendo mais específico, o duelo final entre os dois personagens centrais desse filme (o Capitão América e o Homem de Ferro) parte da essência da clássica e cultuada série de HQs Guerra Civil da Marvel é transposta em um filme que não faz questão alguma de prestar obediência (e nem deveria ou teria a obrigação de fazer isso) aos quadrinhos. Existem dois modelos de condutas bem claros que são postos em conflito e, nesse ponto do texto, inevitavelmente, recorrerei a SPOILERS, portanto, SE NÃO ASSISTIU AO FILME, NÃO CHEGUE AO FINAL DESSE PARÁGRAFO INTRODUTÓRIO. O Homem de Ferro questiona o status de herói do Capitão América, atribuindo a sua fama a uma simbólica indumentária e ao seu poderoso escudo, que, por sinal, fora feito com o dinheiro e a tecnologia do seu pai, afirma Stark. Imediatamente, Steve Rogers abandona o seu escudo e posteriormente, em uma carta, os próprios Vingadores (mesmo que momentaneamente, é verdade), deixando claro que o que o torna um herói não é o escudo, a roupa ou mesmo o reconhecimento público conferido pela simbologia em torno do Capitão América ou do status legal de líder dos Vingadores, mas sim a sua conduta ética. Esse talvez seja o ponto máximo em que Capitão América - Guerra Civil consegue levar a Marvel Studios a um patamar um pouco acima do perfil burocrático que os seus filmes seguiram até então, permitindo discussões tão interessantes quanto aquelas que foram provocadas por Guerra Civil nas HQs. 

O FILME SEM SPOILERS AGORA. E Capitão América - Guerra Civil segue esse tom. O filme está longe de seguir a urgência das HQs Guerra Civil, que trazia discussões sobre a conduta dos EUA pós-11 de setembro em sua atuação contra o terrorismo numa oposição entre segurança (defendida pelo Homem de Ferro) e liberdade (Capitão América) - e desculpem as comparações, mas é inevitável, o próprio filme se submete a esse risco quando se intitula Guerra Civil. Essa corajosa discussão política, contudo, é diluída no longa, que não toma decisões tão enérgicas assim sobre o futuro dos seus personagens quanto seu vínculo prometera. No filme dos irmãos Russo, existe um conflito ideológico em "carne viva", mas as motivações são muito mais de ordem pessoal, sobretudo pelo ponto de vista do Tony Stark. 

E antes que alguns comecem a virar o nariz para o que escrevo sobre o filme, problematizar esse aspecto da obra, que, na verdade, acaba externando um "calcanhar de Aquiles" de toda a produção da Marvel Studios nesse projeto Vingadores desde o longa Homem de Ferro em 2008, não implica que este que vos escreve não reconhece as qualidades desse longa em especial e de tudo a Marvel e seus produtores fizeram até aqui. Acontece que, o resultado de Capitão América - Guerra Civil, ainda que consiga ser mais corajoso, maduro e com personalidade do que outros trabalhos da Marvel Studios, é obstacularizado pelo receio que os envolvidos sempre têm de produzir uma obra que desagrade um nicho do público. Os filmes são homogêneos e não tem muita coragem para tomar decisões extremas que, de fato, possam elevar o tom de urgência de seus temas e modificar drasticamente o curso dos seus personagens, levando-os a mudanças mais radicais. Mesmo em Capitão América - Guerra Civil, talvez o longa que assuma as decisões mais enérgicas do estúdio com relação às dinâmicas dos seus personagens, qualquer movimento além do esperado para um filme Marvel Studios é inibido por alguma piada ou mesmo um happy end.

 Manter esse tom é errado? Não necessariamente, e talvez essa reflexão particular que faço em formato de crítica seja uma questão de "paladar" cinematográfico do autor desse texto. Acontece que quando temos uma linha ascendente de longas que demonstraram desejar ir além do "feijão com arroz" da Marvel Studios (um "feijão com arroz" bom, mas que não deixa de ser um "feijão com arroz") como Capitão América 2 - Soldado Invernal e, até mesmo, Guardiões da Galáxia, Homem-Formiga e Capitão América - O Primeiro Vingador, longas que permitiram, em diferentes tons, aos seus diretores irem além do manual Marvel de fazer filmes e imprimiram uma certa personalidade aos projetos, cria-se uma expectativa grande para um longa com a dimensão prometida em Capitão América - Guerra Civil, que não deixa de esgarçar as possibilidades dramáticas do universo, mas que também é muito tímido em determinados momentos nos quais visivelmente poderia colocar a produção do estúdio em outro patamar. Acredito que essa problematização/ reflexão seja importante para que a gente possa sair dessa polarização pobre que costuma dominar a discussão sobre o cinema nos últimos tempos, simplificando as coisas entre o "gosto" ou "não gosto", entre aqueles que odeiam e amam sem concessões os filmes. Esse tipo de exercício reflexivo, acredito, é interessante e bem-vindo, enriquece o debate e nossa percepção não apenas sobre a obra em si, mas sobre o que ela representa e traz do seu próprio modelo de produção. 

Sobre o filme em si, Capitão América - Guerra Civil é uma experiência bem divertida e é interessante notar como os irmãos Joe e Anthony Russo conseguem costurar a trama do longa e desenvolver as demandas requeridas pelo seu grupo numeroso de personagens sem deixar a desejar no tratamento de nenhum deles, mesmo aqueles que estão no filme como alívio cômico somente, como é o caso do Homem-Formiga de Paul Rudd. Claro que há um realce no tratamento que os realizadores dão ao Capitão América e ao Homem de Ferro (sobre esse último, talvez a contribuição seja muito benéfica, tendo em vista o estado automático que o personagem andava de uns tempos para cá), mas há um tratamento interessante para a Viúva Negra, o Soldado Invernal, o Falcão e até para os novatos Pantera Negra e Homem-Aranha, introduzido nesse quadro de personagens de maneira resumidamente brilhante. Os diretores, assim como fizeram em Soldado Invernal, também conduzem muito bem as sequências de ação do filme, fazendo o espectador compreender o movimento dos seus personagens em cenas dinâmicas e marcadas por uma forte interação entre eles, além de usarem com eficiência os recursos tecnológicos à disposição de um filme desse porte. 

Em suma, Capitão América - Guerra Civil é um filme que valeu a pena esperar. É certo que chega aos cinemas coberto de expectativas e com um boca-a-boca exagerado que o anuncia como "o melhor filme de super-heróis já feito", "o melhor filme da Marvel Studios", "o melhor filme do ano" etc. Particularmente, e em um primeiro contato (nenhuma palavra sobre obra alguma pode ser definitiva e está sempre sujeita a revisões), não vejo o filme se enquadrar em nenhum desses títulos. É um longa marcado pelos momentos mais dramáticos e pelas decisões mais extremas do estúdio com relação aos seus personagens, muito eficiente técnica e narrativamente, mas que também sofre por ser uma história que tem o potencial de ir além do que realmente foi e que não avança mais em prol de todo um manual de produção cinematográfica que é muito cômodo aos envolvidos. Tem infinitas qualidades, mas também é um filme cujos falhas são reflexo de uma política diplomática da Marvel Studios de atender a várias demandas ao mesmo tempo (às do público nerd, dos cinéfilos, do espectador esporádico de cinema etc.) que, curiosamente, é responsável pelos seus méritos. Entrega uma narrativa "basicona" que vai um pouco além do que a gente está acostumado a ver eles realizarem, mas que também não é marcada por tanta coragem assim quanto se esperava, sobretudo depois de um filme tão interessante quanto Capitão América 2 - O Soldado Invernal. 



Captain America - Civil War, 2016. Dir.: Joe e Anthony Russo. Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Daniel Brühl, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Jeremy Renner, Paul Rudd, Emily VanCamp, Tom Holland, Frank Grillo. Buena Vista, 147 min. 

domingo, 24 de abril de 2016

Drops: Amor por Direito


Amor por Direito é o tipo de drama que tem toda a embalagem "Supercine", a já tradicional faixa de horário na programação de sábado à noite da Rede Globo para a exibição de filmes. O longa é baseado em uma história real sobre uma batalha pública pela igualdade de direitos que envolve uma personagem com câncer. O tom que o diretor Peter Sollett confere à trama flerta abertamente com os tradicionais dramas lacrimosos baseados em eventos reais e isso não há como contestar. Contudo, existe uma centelha de ativismo na obra que a transforma em um filme importante e emocionalmente sincero ainda que cometa seus deslizes formais. O longa conta a história de uma policial que trava uma batalha pública para que sua companheira possa receber pensão pós-morte após descobrir que é portadora de um câncer em estágio terminal. Amor por Direito é marcado por uma certa construção simplista da sua narrativa através da completa ausência de ambições no terreno da linguagem cinematográfica. O longa é linear, burocrático no percurso que segue ao tratar dos seus temas e até mesmo apela para determinados clichês do gênero e estereotipias na construção de seus personagens, o papel de Steve Carell no filme é um exemplo disso. Contudo, o trio central dessa história formado por Julianne Moore, Ellen Page e Michael Shannon constrói bases tão sólidas e verdadeiras para seus personagens ao longo do filme, que fica difícil não se comover com Amor por Direito e reconhecer que sua força como discurso sobre uma causa cuja luta é necessária está acima de qualquer incomodo com os recursos utilizados pelo realizador ao contar essa história. Existem certos relatos de vida que são tão poderosos estão acima do próprio cinema, Amor por Direito é um desses casos. 

Drops: A Juventude


O cineasta Paolo Sorrentino é "gosto adquirido". Com um cinema marcado por decisões estéticas e narrativas extremas, o diretor costuma deixar o público dividido nas impressões que seus filmes deixam como legado de sua marca cinematográfica. Com Aqui é o meu lugar, A Grande Beleza e todos aqueles que os antecederam foi assim. Não seria diferente com A Juventude. Centrado na história de um maestro aposentado que passa um tempo nos Alpes suíços ao lado do seu amigo, um cineasta prestes a finalizar a concepção do seu mais recente filme, A Juventude tem aquela característica de cinema que experimenta e testa a própria gramática cinematográfica, com momentos de grande poesia e exuberância visual. Em linhas gerais, a obra do diretor acaba se apresentando ao seu espectador como uma jornada existencial nos conflitos de dois artistas em estágios semelhantes de suas vidas, porém com concepções e formas distintas de se encarar o tempo, tema que surge como uma das grandes preocupações do realizador em seu filme. Sorrentino abraça sem concessões as ambições das suas construções visuais e capta composições de imagem de cair o queixo. Há sequências que revelam-se múltiplas em significados quando unidas a jornada dos seus dois personagens centrais, interpretados majestosamente por Michael Caine e Harvey Keitel. O mais interessante é que o realizador italiano não faz do requinte visual da sua obra um argumento para torná-la sisuda o suficiente a ponto do seu cinema soar pretensioso ou esnobe, Sorrentino sabe inserir humor em sua arte cinematográfica e é nisso que seu filme mostra-se mais exitoso do que o de alguns de seus colegas que possuem semelhantes ambições. 

Drops: O Caçador e a Rainha do Gelo


O Caçador e a Rainha do Gelo é, ao mesmo tempo, um prequel e uma continuação de Branca de Neve e o Caçador, longa protagonizado por Kristen Stewart em 2012, mas também pode ser conhecido como uma evidência do quão aleatórias e supérfluas podem ser as decisões dos grandes estúdios desde sempre. Não apenas porque não existe razão para aquele universo ser revisitado, tendo em vista o resultado duvidoso e, hoje, completamente esquecível daquele filme, mas também porque ele não traz aquela que seria a protagonista desse universo e que é a verdadeira força motriz de tudo que o cerca, a Branca de Neve, que, por sinal, está presente em toda  a continuação sem nunca estar em cena, o que é um grande incômodo para qualquer espectador. Caso optasse por ser somente um  prequel, talvez, O Caçador e a Rainha do Gelo funcionasse melhor, mas ao resolver trazer de volta (e olha a ironia da coisa) a melhor personagem do longa de 2012, a rainha má Ravenna, interpretada com segurança por uma Charlize Theron, que se esbalda novamente na perversidade da sua vilã, a história acaba invalidando e enfraquecendo o que fora realizado no passado e tornando tudo ainda mais confuso, incipiente e descartável. No filme, acompanhamos a ascensão da rainha Freya (Emily Blunt), irmã de Ravenna, que após um evento traumático resolve instaurar um reinado marcado pela ausência de amor (sério!) ao capturar crianças e transformá-las em guerreiros. As pretensões de Freya são ameaçadas por dois dos seus mais eficientes pupilos, Eric (Chris Hemsworth retornando ao papel do caçador), e Sara (Jessica Chastain), que acabam se apaixonando. Com essa trama oca, O Caçador e a Rainha do Gelo não só põe por água abaixo todo o propósito (ainda que mal executado) de Branca de Neve e o Caçador de ir na contramão dos contos de fadas em uma versão dark dos seus eventos, ao apelar para a "muleta" argumentativa do "amor acima de tudo", que serve como desculpa para seus roteiristas solucionarem preguiçosamente determinados entraves do roteiro, como também não consegue tirar proveito de todo um excelente aparato posto à disposição da sua história. Como acontecia em Branca de Neve e o Caçador, mas ainda pior, tudo em O Caçador e a Rainha do Gelo parece estar no lugar certo, pronto para ser explorado por seu diretor, o supervisor de efeitos visuais da primeira história Cedric Nicolas-Troyan, e render uma trama interessante. Cenários bem construídos, figurinos belíssimos da experiente Colleen Atwood, efeitos especiais eficientes e um elenco (sobretudo o feminino) dos sonhos para qualquer realizador, ou seja, ferramentas que evidenciam o potencial da produção de transportar o espectador para o universo do fantástico. Contudo, mais uma vez, tudo naufraga pela ausência de uma trama com o mínimo de consistência. Tudo em O Caçador e a Rainha do Gelo é confuso, vago, simplista e genérico: o propósito e as motivações das suas personagens (sobretudo as adições interpretadas por Jessica Chastain e Emily Blunt), as viradas da sua trama etc. O filme é um belo ornamento na temporada de blockbuster e ser apenas isso não basta. 

sábado, 16 de abril de 2016

Drops: Mogli, o Menino Lobo


A Disney tem sido bem-sucedida com essas versões em live action de alguns dos seus principais clássicos animados. Malévola, apesar das suas inúmeras derrapadas, tem os seus defensores e Cinderela soube captar como poucos as marcas do conto de fadas consolidadas pelo estúdio. Mogli, o Menino Lobo é mais um êxito nesse sentido. Ainda que não seja um dos maiores entusiastas da animação clássica, é preciso reconhecer que essa versão da história é um filme repleto de acertos de ponta a ponta. O diretor Jon Favreau livra-se daquela aborrecida série de filmes Homem de Ferro (que me perdoem os fãs, mas é o que penso dos três longas e do personagem em si), na qual foi realizador dos dois primeiros capítulos, e assume um material genuinamente divertido e com grande apelo emocional (no bom sentido da definição).

Para quem desconhece a história de Mogli, ela conta a jornada de um garoto criado na floresta em busca de um grupo de animais que possa protegê-lo da ameaça representada pelo tigre Shere Khan, que está obstinado em dar fim à vida do menino. Favreau cria um universo e uma trama capazes de fazer o espectador imergir na história do seu protagonista, com momentos visualmente inspiradíssimos. O garoto Neel Sethi segura as pontas como o Mogli, mas é preciso destacar os personagens que transitam em sua órbita. O trabalho da equipe de Favreau na concepção dos animais do longa aliado ao excelente resultado da dublagem feita por um elenco afiado, que inclui a pontual leitura de Idris Elba para o vilão Shere Khan (realmente ameaçador do início ao fim do filme), Bill Murray como o urso Baloo, Ben Kingsley como a pantera Bagheera e Christopher Walken como o macaco Rei Louie, é o que de melhor há em todo o filme.

Assista ao trailer:


terça-feira, 12 de abril de 2016

Ave, César!



O cinema dos irmãos Joel e Ethan Coen é daquele tipo que possui características tão constantes que até mesmo o público eventual consegue reconhecer as marcas dos títulos do diretor se ao menos teve contato com um de seus filmes. Do irônico, discreto e corrosivo humor com que os cineastas constroem os seus personagens e as situações nas quais eles são inseridos, até às suas incisivas críticas a valores e ciclos da sociedade norte-americana, filmes como Fargo, O Grande Lebowski, Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum e até empreitadas mais "sérias" dos realizadores como o vencedor do Oscar Onde os fracos não têm vez são títulos unificados e singularizados na recente filmografia norte-americana por apresentarem propostas estilísticas e narrativas bem peculiares dos diretores. Ave, César!, mais recente longa da dupla, claro, segue o mesmo caminho. Portanto, não decepciona em nada os fãs dos cineastas. 

No filme, os Coen nos insere nos bastidores do cotidiano dos estúdios de cinema Capitol Pictures na Hollywood dos anos de 1950. Em meio às filmagens de produções grandiosas da época de ouro do cinema norte-americano e o temperamento instável de estrelas e diretores de cinema, acompanhamos a rotina de Edward Mannix (vivido por Josh Brolin), "cabeça" do estúdio que, entre suas várias funções, afasta as principais atrações da casa de escândalos midiáticos que possam arruinar suas carreiras e manchar a imagem da Capitol Pictures. Acontece que Mannix não terá um dia de trabalho nada fácil quando descobre que o famoso astro da produção épica "Ave, César!", cujas filmagens estão em andamento, desapareceu misteriosamente após uma ação bem sucedida de uma organização secreta chamada "Futuro". 

Funcionando muito bem em duas frentes específicas, a comédia e o suspense policial (ambos adaptados às perspectivas que os cineastas possuem dos dois gêneros, claro), Ave, César! é uma verdadeira ode ao cinema do período que pretende retratar. Além dos gêneros com os quais sua trama central dialoga, Ave, César! oferece ao espectador uma compilação de homenagens interessantes a produções populares do período, como os westerns, os musicais com sapateado, os épicos históricos/religiosos, os melodramas, os filmes com acrobacias e coreografias aquáticas etc. Tudo está em Ave, César! na medida em que acompanhamos a rotina da Capitol Pictures em sequências produzidas com disciplina pelos Coen (cujo estudo de elementos como a fotografia, o tipo de performance dos atores etc. é visível na execução dessas cenas), que contam com o suporte do competente diretor de fotografia Roger Deakins, da equipe de direção de arte e dos figurinos de Mary Zophres. 

Acontece que tudo isso é adorno - um belíssimo e interessante adorno, é preciso reconhecer - diante do que parece ser a força motriz de Ave, César!. Através da sua trama policial, os Coen, com a inteligência e perspicácia que lhes são peculiares, nos insere em uma rede de conspirações a respeito dos "braços" comunistas que se "infiltraram" nos estúdios naquela época, os roteiristas. Nesse mesmo ano, o tema foi tratado no filme que rendeu uma indicação ao Oscar para Bryan Cranston, Trumbo, de uma maneira bem burocrática, é verdade, mas em Ave, César! ganha um tratamento mais interessante e inusitado. A fusão entre a homenagem à era de ouro de Hollywood e o deboche dos realizadores com a paranoia comunista que tomou conta dos EUA naquele período faz de Ave, César! um interessante mosaico sobre a produção cinematográfica do período, mas também da sociedade norte-americana da época e o do modus operandi dos estúdios de cinema. 

Com um elenco muito bem em cena, composto por antigos colaboradores dos diretores, como George Clooney (funcionando sempre na medida para os tipos que os realizadores costumam escalá-lo), Josh Brolin, Scarlett Johansson (cada vez mais saindo da moldura na qual foi colocada nos primeiros anos da sua carreira), Frances McDormand e Tilda Swinton, como também novas adições em seus currículos, é o caso de Ralph Fiennes e Channing Tatum (excelente em sua breve mas importante participação), o destaque ficou para o novato do grupo, o jovem ator de nome praticamente impronunciável, Alden Ehrenreich, conhecido por sua participação em Tetro, filme de Francis Ford Coppola de 2009. Ehrenreich interpreta uma jovem estrela de westerns, marcada por sua inocência e pela sua dificuldade de interpretar, mas que passa a ser a "galinha dos ovos de ouro" da Capitol Pictures dirigida pelo personagem de Josh Brolin. Alden Ehrenreich faz um tipo interessante que não só funciona bem no universo dos Coen, atuando na mesma voltagem dos restante dos personagens do filme, como também consegue conferir uma dimensão humana ao criar uma forte empatia com o público desde a sua primeira sequência. 

Entre a reverência à antiga Hollywood e a crítica à paranoia comunista, Ave, César! consegue ser mais um acerto de Joel e Ethan Coen. Nada fora da curva, mas nem precisava ser. O filme é coerente com tudo o que os realizadores têm feito até aqui com seus comentários irônicos sobre a sociedade americana e com suas apropriações bem particulares da gramática cinematográfica. É preciso ter muito fôlego, coragem e repertório para chegar tão longe e com tanta maturidade na constância produtiva que os Coen vêm apresentando desde que surgiram no cinema e Ave, César! é outro momento muito bom dos realizadores. 


Hail, Caesar!, 2016. Dir.: Joel e Ethan Coen. Roteiro: Joel e Ethan Coen. Elenco: Josh Brolin, George Clooney, Channing Tatum, Alden Ehrenreich, Tilda Swinton, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Jonah Hill, Frances McDormand, Alison Pill Veronica Osorio, . Universal, 106 min. 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

De onde eu te vejo


O diretor Luiz Villaça é conhecido por trazer para o público histórias marcadas por protagonistas de carne-e-osso, ou seja, pessoas com problemas e dilemas reais. De onde eu te vejo não fugiria a uma regra que trouxe para o espectador o filme Cristina quer Casar e a série exibida no Fantástico Retrato Falado, ambos protagonizados por Denise Fraga, esposa do realizador. Assim, ainda que De onde eu te vejo se apresente muito bem ao público como uma agradável comédia romântica, utilizando com segurança as marcas do gênero cinematográfico, o filme de Villaça tem muito mais a dizer do que as fronteiras desse nicho de produção acabam apresentando aos olhos do espectador. 

No longa, Villaça nos apresenta a Ana Lúcia e Fábio, papéis de Denise Fraga e Domingos Montagner, um casal que decide se separar após anos de relacionamento mas que opta por viver muito próximo um do outro, já que o apartamento de um tem como vista o apartamento do outro. Através desse arranjo, Ana Lúcia passa a acompanhar a rotina de Fábio em sua nova vida e vice-versa. Ao longo do filme, os personagens passam a refletir sobre o término do relacionamento, mas também sobre a forma como conduzem as suas próprias vidas. 

Ambientado em São Paulo, a grande metrópole brasileira é praticamente um personagem do filme, repleta de memórias e simbologias em cada esquina para Ana Lúcia e Fábio. O longa de Villaça se apropria muito bem desse recurso para narrar uma crônica do cotidiano de pessoas comuns através de reflexões marcadas pela simplicidade e pelo humor sobre a maneira como encaramos o encerramento de alguns ciclos de nossas vidas (e sobretudo o apego que temos com o conforto que determinadas situações nos trazem), mas também como nos reinventamos para dar início a outros. De onde eu te vejo é recheado de insights pontuais a respeito dos relacionamentos humanos (não apenas amorosos), que a despeito de soarem clichês ou superficiais, estão mais para simples (e não simplórias) ponderações sobre a vida. E como negar que, muitas vezes, a sabedoria e a resposta para nossas principais angústias estão nas conversas mais banais com amigos, mães, pais, filhos, colegas de trabalho, que, por vezes, através das analogias mais esdrúxulas ou clichês são capazes de fornecer a verdadeira solução para os nossos momentos mais dolorosos?

É através desse motor que De onde eu te vejo funciona, oferecendo ao público ainda a longeva e bem-sucedida parceria entre Denise Fraga e Luiz Villaça, que se entendem como ninguém no set, ao lado de um ótimo Domingos Montagner e um elenco que dispensa elogios, todos em ótima forma. Agradável, leve e carinhoso com o seu público por jamais subestimar a força e a profundidade que os momentos mais simples da nossas vidas possuem, De onde eu te vejo é um filme repleto de virtudes e acertos. 


De onde eu te vejo, 2016. Dir.: Luiz Villaça. Roteiro: Luiz Villaça, Rafael Gomes e Leonardo Moreira. Elenco: Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Marcello Airoldi, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Fulvio Stefanini. Warner. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Decisão de Risco



O thriller político Decisão de Risco pertence à boa safra de filmes sobre os conflitos entre o ocidente e o oriente após os eventos do 11 de setembro. Conduzido com muito ritmo pelo sul-africano Gavin Hood, que cometeu longas como X-Men Origens - Wolverine e Ender's Game - O Jogo do Exterminador, mas ainda detém um certo prestígio por seu trabalho em Infância Roubada, o filme oferece ao seu público um suspense equilibrado com um olhar interessante para as medidas anti-terroristas tomadas pelo governo norte-americano e suas reverberações, sem parecer sisudo ou partidário em seu ponto de vista, ponderando prós e contras sobre as ações dos seus protagonistas. 

Em Decisão de Risco, o público acompanha um grupo de militares que, localizados em lugares distintos no globo, orquestram uma ação preventiva contra um potencial atentado terrorista planejado em Nairobi. Ao longo da empreitada, o grupo, composto por oficiais veteranos e novatos, vai percebendo que não será tão fácil tomar as decisões que acabam tendo que tomar, levantando questionamentos de ordem jurídica, geopolítica e ética. 

No longa, Hood conta com um elenco repleto de grandes atores. Dos medalhões ingleses Helen Mirren e Alan Rickman ao premiado Aaron Paul, astro da série Breaking Bad, e o indicado ao Oscar por Capitão Phillips, o somale Barkhad Abdi, o diretor tem a seu favor um grupo de artistas que dá toda credibilidade às ações e sentimentos externados pelos seus personagens. Contudo, Decisão de Risco não é um "filme de atores", o mérito pelo êxito da obra deve recair nos ombros de Gavin Hood, que mesmo tendo em mãos uma trama repleta de sequências in doors, ou seja, a maior parte das ações ocorrem basicamente em ambientes fechados, consegue construir um filme extremamente ágil. 

Além disso, Hood conta com o ótimo roteiro de Guy Hibbert que consegue ser perspicaz em discussões tão complexas e espinhosas a respeito da política anti-terror sem parecer enfadonho ou didático demais. Hibbert e Hood conseguem ainda trazer para a história um tratamento humano para que em momento algum soa manipulatório ou piegas. Tudo é construído com muita fluidez, precisão e sensibilidade pelos realizadores, fazendo com que o público tenha uma dimensão emocional sobre os reflexos das atitudes tomadas pelo ponto de vista dos militares e dos quenianos do filme de maneira igualmente respeitosa e coerente. 

Enredado pelas armadilhas que os grandes estúdios podem representar para diretores estrangeiros, Gavin Hood finalmente se redime em Decisão de Risco, um thriller político que consegue entreter sua audiência de maneira inteligente e sensível e que apresenta uma trama ágil sobre questões que já são batidas no cinema contemporâneo, mas que talvez sejam tratadas com pouca responsabilidade e equilíbrio, algo que existe em abundância nesse filme. Os méritos são do seu diretor e do seu roteiristas que tiveram uma precisão cirúrgica na costura da sua trama e no olhar que reservaram para os personagens que a protagonizam. 


Eye in the Sky, 2016. Dir.: Gavin Hood. Roteiro: Guy Hibbert. Elenco: Helen Mirren, Aaron Paul, Alan Rickman, Barkhad Abdi, Phoebe Fox, Jeremy Northam, Monica Dolan, Iain Glen, Jessica Jones. Paris Filmes, 102 min. 

Rua Cloverfield, 10


Em 2007, J.J. Abrams, ainda colhendo os frutos da série de TV Lost, gerou muita expectativa para os fãs de filmes de monstros com a viralização de materiais a respeito do longa Cloverfield - Monstro, sua empreitada como produtor nos cinemas. Tratava-se de um filme calcado em recursos estéticos e narrativos do found footage, tipo de cinema que simula a captura de imagens por câmera amadora para contar uma história de ficção que passou a ser usado à exaustão por realizadores do gênero terror. O filme estreou em 2008 e apesar de ser muito eficiente em sua linguagem, com uma narrativa tensa que acompanhava um grupo de jovens tentando sobreviver a um ataque alienígena em Nova York, sofria do mal que parte das produções que se apoiam no recurso sofrem, não conseguindo tornar a filmagem "amadora" orgânica a sua própria história. Eis que em 2016, J.J. Abrams, através das mesmas estratégias de viralização pela internet e ofertando o mínimo que pôde sobre a sua trama, traz para o público Rua Cloverfield, 10, um derivado do cultuado filme de 2008 que não é uma continuação dos eventos narrados ali. 

Rua Cloverfield, 10 inicia sua história com um acidente de carro na estrada sofrido por Michelle, personagem de Mary Elizabeth Winstead. A moça é socorrida por Howard, papel de John Goodman, que cuida dos seus ferimentos, mas a leva para um bunker construído por ele mesmo em sua propriedade rural. Alegando proteger Michelle de um ataque químico que tornou impossível a vida de qualquer ser vivo na Terra, Howard diz para a moça que ela deve viver com ele e com um outro rapaz que também procurou abrigo na sua propriedade pelo período de dois anos até que o planeta volte a ser habitável. Acontece que Michelle começa a duvidar das boas intenções de Howard, o que a faz supor que toda essa teoria apocalíptica criada pelo seu "protetor" seja fruto da sua cabeça paranóica. 

O público que assistir Rua Cloverfield, 10 em busca de conexões da trama com Cloverfield - Monstro pode sair frustrado. Aparentemente, até o presente momento, não há conexão, nem mesmo cronológica entre os eventos dos dois filmes. A única ligação possível entre os longas é que ambos possuem como evento catalisador invasões alienígenas. Lá pelo final do filme, o longa estabelece uma possível vinculação entre os eventos, mas isso não é o carro-chefe ou a grande preocupação da obra. Nem mesmo o found footage de Cloverfield - Monstro é usado aqui. Os diretores também são diferentes. Enquanto o filme de 2008 era conduzido por Matt Reeves, que atualmente comanda a nova franquia Planeta dos Macacos, Rua Cloverfield, 10 é dirigido pelo estreante Dan Trachtenberg que surpreende por apresentar o mesmo pulso e ritmo na condução de uma trama de tensão ascendente, produzindo um efeito semelhante na fita àquele que Reeves apresentava em Cloverfield - Monstro. Assim, o espectador tem garantida durante toda a projeção da obra, uma trama ágil e de deixar os nervos de qualquer um à flor da pele. 

Adotando uma estética mais "convencional" que Cloverfield - Monstro, Rua Cloverfield, 10 se beneficia pela ausência do found footage, que, como já antecipado, ao mesmo tempo que conferia uma linguagem interessante e que estava à serviço da construção de uma atmosfera apavorante no filme de 2008, não conseguiu ganhar a organicidade necessária na própria história. Liberto desse recurso, o diretor Dan Trachtenberg realiza um filme sem eventuais estranhamentos visuais que prende o espectador no mesmo clima de paranoia vivenciado por sua protagonista, encurralada pela dúvida acerca dos riscos que estão fora e dentro do bunker do personagem de John Goodman. Trachtenberg confere um ritmo tão frenético e angustiante para a sua história como aquele que Reeves conseguir compor em Cloverfield - Monstro, com o adendo de que a trama de Rua Cloverfield, 10 está muito mais aberta a momentos de respiro e introspecção dos seus personagens do que o longa de 2008.

Beneficiado pelas performances comprometidas de Mary Elizabeth Winstead, impecável como a grande heroína da história, e John Goodman, muito interessante na composição de um tipo que inspira sentimentos dúbios não apenas na sua protagonista mas também na plateia, Rua Cloverfield, 10 é um filme inquietante de execução precisa, mexendo com os nervos do público desde as suas primeiras sequências. Como estreia e sob o apadrinhamento de J.J. Abrams, o diretor novato Dan Trachtenberg soube aproveitar muito bem a oportunidade que lhe foi dada, realizando um filme psicologicamente tenso que serve muito bem aos propósitos dos gêneros, formatos e temas com os quais procura flertar como suspense, a paranoia pós-apocalíptica, os filmes de invasão alienígena etc. 


10 Cloverfield Lane, 2016. Dir.: Dan Trachtenberg. Elenco: Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr., Douglas M. Griffin, Suzanne Cryer, Frank Mottek. Paramount, 103 min.