segunda-feira, 6 de junho de 2016

(Crítica) The Beach Boys - Uma História de Sucesso


Por motivos comerciais, provavelmente, Love and Mercy, um dos longas norte-americanos do circuito indie mais comentados no ano passado, ganhou no Brasil o título de The Beach Boys - Uma História de Sucesso. Quem dá de cara pela primeira vez com o filme pode pensar que se trata de um longa sobre a trajetória de uma das bandas mais influentes da cultura estadunidense, os Beach Boys. Cabe sublinhar, todavia, que esse filme de Bill Pohland tem como principal interesse apenas um dos elementos do grupo, Brian Wilson. Alternando sua história entre o passado do músico, encarnado por um excelente Paul Dano, e uma fase mais madura, na qual ele ganha a interpretação de John Cusack (tão bom em cena quanto sua versão mais jovem), The Beach Boys - Uma História de Sucesso explora a personalidade do seu protagonista virando-a do avesso.

Nas passagens do filme sobre o jovem Brian Wilson vemos o músico apresentar os sinais do que mais tarde viria a ser diagnosticado como um quadro peculiar de esquizofrenia durante a concepção de Pet Sounds, álbum que é considerado por muitos como a obra-prima dos Beach Boys. Nessa fase também percebemos o perfeccionismo de Wilson e como o mesmo guiou toda a concepção do disco, um marco responsável por oferecer novas perspectivas para a banda que ganhou popularidade com o surf rock. Quando acompanhamos a versão mais velha de Wilson, vemos o quadro clínico do músico se agravar, sobretudo em função das estranhas interferências do seu médico particular Dr. Eugene Landy, vivido aqui por Paul Giamatti. Wilson, então,  acaba encontrando refúgio em sua relação amorosa com uma simpática vendedora de carros chamada Melinda Ledbetter interpretada por Elizabeth Banks.

O mergulho que The Beach Boys - Uma História de Sucesso faz na vida do seu protagonista é eficiente por dispensar qualquer rede de segurança e também por conseguir ser terno com o seu biografado. Pohland consegue ser fiel, retratando Wilson de forma humana, sem deixar de expor sua admiração por aquela figura, algo que em momento algum é revertido em uma abordagem omissa ou covarde a respeito de tudo que acontecera na vida do integrante dos Beach Boys. Entre a fidelidade aos fatos e o afeto por seu protagonista, The Beach Boys - Uma História de Sucesso encontra um interessante equilíbrio sustentado sobretudo pelas performances do seu elenco exemplar. Pohland é certeiro desde a escolha dos atores que dão vida às duas versões de Wilson retratadas no filme, Paul Dano e John Cusack, até à presença solar de Elizabeth Banks, que mesmo dando vida a já clássica figura da esposa ou namorada dedicada do artista em completa instabilidade psicológica consegue oferecer elementos que enriquecem a sua personagem e aproximam o público do drama vivido pelo protagonista do filme. Do grupo, talvez, Paul Giamatti destoe um pouco ao transformar Eugene Landy em um vilão histriônico, mas nada que não possamos dar um desconto.

Dosando muito bem a maneira como se aproxima do processo criativo de Pet Sounds e do drama pessoal de Brian Wilson, The Beach Boys - Uma História de Sucesso é uma cinebiografia marcada pelo bom senso dos seus realizadores. É um filme que reverencia o seu protagonista e tem um genuíno afeto por ele, mas não adota uma postura subserviente na maneira como lida com esse sentimento, sabendo explorar os demônios pessoais do seu biografado e também cativar o público com a costura de relações, situações e personagens capazes de produzir identificação e empatia com o espectador. O longa não chega a promover grandes revoluções na proposta, mas possui propósitos muito sinceros e consegue executá-los em uma narrativa comedida e regular em suas duas horas de duração.


Love and Mercy, 2015. Dir.: Bill Pohland. Roteiro: Oren Moverman e Michael A. Lerner. Elenco: Paul Dano, John Cusack, Elizabeth Banks, Paul Giamatti, Jake Abel, Kenny Wormald, Brett Davern, Graham Rogers, Erin Darke, Joanna Going. Sony, 121 min.

Assista ao trailer:

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