terça-feira, 28 de junho de 2016

(Drops) Estreia de Ryan Gosling como diretor, Rio Perdido é inacessível e caótico


Primeiro longa dirigido e roteirizado pelo ator Ryan Gosling, Rio Perdido não teve uma carreira das mais fáceis. A começar pelas expectativas que o filme gerou afinal todo mundo aguardava com muita ansiedade o que Gosling, que sempre fora um ator de escolhas interessantes e parcerias criativas muito ativas com seus diretores, poderia fazer em Rio Perdido. No final das contas, o longa revelou-se como um dos filmes mais rejeitados pela crítica quando foi exibido no Festival de Cannes de 2014. Até comentários em tom de deboche o longa recebeu após as suas primeiras sessões. Quando foi a vez de chegar ao grande público, a Warner, que havia comprado os direitos de distribuição do filme antes mesmo dele ficar pronto, voltou atrás, reduziu o número de cópias e salas que receberiam o longa e ainda o disponibilizou em serviços on demand um mês após sua estreia. Apesar da recepção pós-Cannes também ter sido marcada por comentários positivos de críticos americanos que viram algum interesse no resultado do trabalho de Gosling, a recepção majoritariamente catastrófica do festival de cinema francês se repetiu e ninguém mais falou do filme. Chegando no Brasil através do Netflix, o que podemos dizer é que as críticas de Cannes foram justas, o longa é muito problemático, caótico, confuso e até pretensioso.

Rio Perdido parece se inspirar no universo do não real, algo próximo do que David Lynch costuma fazer em seus filmes. Contudo, no caso do longa de Gosling, o cineasta estreante parece picotar uma série de ideias e metáforas visuais que juntas não dão liga e surgem como peças de uma grande engrenagem de sonhos que jamais faz sentido na cabeça de qualquer espectador. No longa, Gosling conta a história de uma mulher, mãe de dois filhos, que se vê encurralada quando não consegue pagar a hipoteca da sua casa e resolve trabalhar na casa de shows de um criminoso. O centro das atenções de Gosling estão nas ações dessa personagem, vivida por Christina Hendricks, com quem ele havia trabalhado no elenco de Drive, e seu filho mais velho, o jovem Iain De Caestecker, mais conhecido por sua participação na série Agentes da S.H.I.E.LD., mas o projeto traz participações dos atores Saoirse Ronan, Ben Mendelsohn, Barbara Steele, Matt Smith e até da esposa do cineasta, a atriz Eva Mendes. Na sua narrativa confusa e sonolenta, Gosling compila uma série de situações que parecem tiradas de um grande pesadelo, mas que possuem um lastro de conexão com situações do real, como é o caso mais óbvio, a casa de shows onde a personagem de Hendricks passa a trabalhar: sua porta é a boca de uma espécie de demônio e as moças da casa ao invés de tirarem as roupas para seus clientes, protagonizam espetáculos grotescos de carnificina. Não há dúvidas que, para uma estreia, Gosling mostra-se como um realizador audacioso, mas a impressão que ele passa a cada frame do seu filme é que ele quer se fazer incompreensível e isso, intencionalmente ou não, cai no terreno do pretensioso, o que faz algumas das boas intenções do seu trabalho cair por terra.


Lost River, 2015. Dir.: Ryan Gosling. Roteiro: Ryan Gosling. Elenco: Christina Hendricks, Iain De Caestecker, Saoirse Ronan, Ben Mendelsohn, Barbara Steele, Eva Mendes, Matt Smith, Reda Kateb, Rob Zabrecky, Landyn Stewart. Netflix, 95 min.

Assista ao trailer:


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