quarta-feira, 27 de julho de 2016

(Crítica) Tecnicamente eficiente, 'Jason Bourne' é sugado por suas repetições


Com O Ultimato Bourne, a jornada de Jason Bourne nos cinemas não precisaria de uma continuidade. O terceiro filme da franquia consolidada por Paul Greengrass nesse longa e em A Supremacia Bourne, mas iniciada por Doug Liman em A Identidade Bourne, de 2002, encerrava o ciclo do personagem nas telonas com louvor. Acontece que Hollywood sobrevive financeiramente das suas garantias, ou seja, de esgotar ao máximo as possibilidades daquilo que foi bem aceito nas bilheterias, como foi o caso da franquia Bourne. E assim, subprodutos vieram, mas subprodutos que nunca conseguiram ter o mesmo resultado que os três primeiros filmes.

Em 2012, a Universal resolveu dar continuidade ao projeto com O Legado Bourne, com o roteirista da franquia original Tony Gilroy assumindo a direção. O filme ficou marcado por ser um exemplar que sentiu os efeitos da ausência do diretor Paul Greengrass e do próprio Matt Damon nos seus créditos.  O resultado foi um longa que até hoje não disse a que veio e nem mesmo serviu aos propósitos de dar uma guinada na carreira de Jeremy Renner, seu protagonista. Dando continuidade a tal lógica, Jason Bourne é a quinta passagem do personagem nos cinemas, porém agora traz a tão aguardada volta Damon e  Greengrass ao comando da franquia. Sobre o quinto filme, o que pode ser dito é que ainda que se justifique mais do que o seu fatídico antecessor e seja marcado pela precisão técnica que sempre esteve presente nos filmes de Greengrass, a trama é dominada por uma lógica de funcionamento da repetição do que já foi feito anteriormente com êxito. Portanto, não há sobressaltos na experiência de assisti-lo. 

Em Jason Bourne, a trajetória do personagem interpretado por Matt Damon ganha contornos mais pessoais (o próprio título do filme dá um indício disso). No longa, Bourne volta a ser perseguido por agentes do governo americano enquanto tenta descobrir verdades sobre o seu passado. Apesar da premissa cercada de mistérios pelo próprio estúdio, e que realmente não vale a pena antecipar ao leitor desse texto, Jason Bourne não tem muito o que surpreender a plateia a respeito do seu protagonista. Existe uma intenção dos realizadores de inserir elementos novos, como a forte associação com o caso Edward Snowden, que claramente influencia alguns caminhos desta história, mas nada que impressione em seu tratamento. O roteiro do longa também não é marcado pelo mesmo viço do primeiro e do segundo filme da franquia, por exemplo, que conseguiam surpreender o espectador a todo instante com suas decisões e diálogos precisos. Tudo aqui é terreno conhecido, talvez reflexo da ausência do roteirista Tony Gilroy, cuja credibilidade fora abalada quando assumiu os riscos de O Legado Bourne mas que fora creditado nos roteiros da franquia desde o começo com A Identidade Bourne. Aqui, Gilroy não tem participação alguma na concepção da trama.

 Ainda que Jason Bourne promova novas aberturas de caminhos e revele novas informações sobre o próprio Bourne, ampliando ainda mais os "tentáculos" da sua franquia, o filme acaba funcionando sob a mesma lógica de perseguições ao personagem que dominaram os títulos anteriores. Além disso, adições ao elenco como Tommy Lee Jones, Alicia Vikander e Vincent Cassel exercem na história as mesmas funções que outrora cabiam a Joan Allen, Julia Stiles (que retorna) e os vilões Karl Urban, Edgar Ramírez e Clive Owen, respectivamente. Portanto, o que predomina em Jason Bourne é a sensação de repetições e exaustões, de já termos visto aquele filme anteriormente de maneira mais intensa sob o impacto do ineditismo em A Identidade Bourne ou A Supremacia Bourne, estreia de Greengrass na franquia. O filme parece ser orientado pela vontade do recuo, de fincar raízes em solos conhecidos, de não se arriscar, curiosamente, algo que o seu diretor fez (e muito) sob o comando dessas fitas. Até mesmo quando a trama promete dar uma guinada nos rumos do protagonista, colocando-o em uma nova posição em sua relação com a CIA, o longa volta atrás e estaciona os rumos do seu personagem.

Assim, mesmo que venhamos a sair satisfeitos da sessão de Jason Bourne, não há como escapar ao fato de que ele é um "prato requentado" que Paul Greengrass oferece temperado com a excelência técnica que é de praxe nos seus longas. Nesse sentido, apesar da habitual "câmera na mão" permanecer como um recurso ocasionalmente aleatório, a montagem é o ponto forte do filme e é capaz de manter o espectador preso aos acontecimentos, camuflando muito bem a sensação de déjà vu. Como ocorria em A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne, o montador Christopher Rouse, também creditado como roteirista do longa, confere uma dinamicidade precisa às cenas de ação que não deixa o espectador confuso a respeito dos movimentos de cada um dos personagens envolvidos nela, o que é muito bom para o filme.

Menos marcante que a trilogia inicial, mas também longe de ser um filme tão esquecível quanto O Legado Bourne, Jason Bourne está na temperatura intermediária desse termômetro. Como parte dessas continuações providenciadas a toque de caixa, o quinto longa da franquia e terceiro sob o comando de Paul Greengrass não tem nada de muito significativo a acrescentar, ainda que pareça fazê-lo, mas também não faz vexame e mostra-se como um eficiente longa de espionagem. É uma reciclagem de episódios passados com a destreza técnica que é usual aos trabalhos dos seus envolvidos.


Jason Bourne, 2016. Dir.: Paul Greengrass. Roteiro: Paul Greengrass e Christopher Rouse. Elenco: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassel, Julia Stiles, Riz Ahmed, Ato Essandoh, Scott Shepherd, Bill Camp. Universal, 123 min.

Clique aqui e leia nossa retrospectiva sobre a trilogia Bourne, protagonizada por Matt Damon.
Clique aqui e leia nossa crítica de O Legado Bourne, filme da franquia com Jeremy Renner.

Assista ao trailer do filme:

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