domingo, 11 de setembro de 2016

(Especial CS 10 anos) Filhos da Esperança




Desde que começou a fazer uma carreira internacional, o maior acerto do mexicano Alfonso Cuarón (de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban Gravidade) foi esta ficção distópica baseada no romance de P.D. James. Filhos da Esperança  é ambientado em uma Inglaterra do final dos anos de 2020, mas que, a cada ano, está mais próxima da nossa realidade, guardado, claro, o devido pessimismo e particularidade do cenário. No filme, a partir de uma pandemia de gripe, o mundo enfrenta uma crise de infertilidade, agravada pela presença incisiva de um governo autoritário e marcada pelas ações de um grupo de ativistas chamado Peixes que defende os estrangeiros da truculência dos militares europeus. Nesse cenário somos apresentados a Theo (Clive Owen), um jornalista assombrado por um passado traumático e resgatado do seu cotidiano pela ex-esposa Jules (Julianne Moore) para ajudar uma jovem refugiada chamada Kee (Clare-Hope Ashitey).

O tempo parece não passar para Filhos da Esperança, filme que elegemos como o melhor longa exibido nos cinemas brasileiros em 2006. A obra segue atual ao tratar de temas como a xenofobia e seu potencial de criar conflitos cada vez mais complexos e graves que contaminam até mesmo os próprios núcleos de apoio às vítimas, como ocorre com o Peixes inicialmente liderado pela personagem de Julianne Moore. No entanto, Filhos da Esperança aborda esse complexo caldeirão de atritos globais com preocupações humanistas culminando em um desfecho, ao mesmo tempo, melancólico e esperançoso, um tom equilibrado e coerente com a própria atmosfera criada pelo realizador para o seu futuro. O longa é incisivo em seu discurso, mas deixa brechas para a esperança das resoluções dos problemas visados. Assim, revela um cineasta disposto a não baixar a guarda das suas preocupações, mas que também nutre perspectivas de resolução para as angústias introduzidas no filme.

Tecnicamente, Filhos da Esperança é um colosso. Cuarón usa e abusa de planos-sequência que conferem gravidade, tensão e ampliam a percepção de que os eventos narrados no longa são palpáveis, de que eles acontecem com pessoas reais, situações que nos remetem, por exemplo, às cenas de atentados terroristas captadas in loco por cinegrafistas ou documentaristas sem tratamentos ou cortes, como a cena no café que abre o filme, ou mesmo em conflitos armados, como é o caso de todo aquele momento do resgate de Kee empreendido por Theo no último ato do longa.

Em Filhos da Esperança, Cuarón acerta ao evitar as afetações típicas de diretores que pretendem contar histórias ambientadas no futuro, com todos aqueles cenários dotados de assepsia e repleto de tecnologias inimagináveis. A proposta aqui é outra. Beneficiado pela fotografia de Emmanuel Lubezki, que realça o espaço urbano e suas construções devastadas, além do caos da zona de conflito armado, Filhos da Esperança é maduro na construção de futuro que pretende oferecer ao seu público.  A Inglaterra retratada no filme é suja em todos os sentidos.

O mundo e a Europa, em particular, está em frangalhos física e moralmente, assim como o seu protagonista, interpretado com muita sobriedade por Clive Owen, que mantém ao longo de todo o filme uma ótima parceria com a revelação Clare-Hope Ashitey, que vive a sua protegida. Theo é um homem que já lutou contra as ações predatórias do seu governo, já esteve no front, mas também que já perdeu muitas batalhas, entre elas, àquela que empreendeu pela vida do filho Dylan. O jornalista vivido por Clive Owen é um pessimista que simplesmente assiste a tudo ao seu redor com apatia e desinteresse, esse é o olhar  captado por Cuarón e por seu ator principal, algo que, gradualmente, vai dando guarida a uma outra percepção sobre o mundo, uma centelha de otimismo que culmina com a cena em que militares e rebeldes interrompem o fogo cruzado para deixarem Kee seguir o seu caminho em paz.

Quando escrevemos sobre o filme em 2006, mencionamos como era triste constatar que a realidade mostrada em Filhos da Esperança estava próxima de nós. Em 2016, tal constatação continua presente, o que não deixa de ser melancólico. Tal qual ocorre no filme, as atenções para as ações arbitrárias das altas esferas de poder podem ser dispersadas pelas agendas midiáticas e sua incessante busca por narrativas e personagens paralelos (no filme, "Baby Diego", a última "criança" nascida na Terra) ou mesmo pela egolatria das elites, que não conseguem enxergar algo além do próprio umbigo, ainda que, à distância e por relações de camaradagem, possam oferecer algum tipo de ajuda (o caso do colecionador de artes interpretado por Danny Huston).

Todavia, mesmo com pessimismo que toma o filme desde o princípio, não deixa de ser acalentador a perspectiva de futuro lançada por Cuarón ao final de Filhos da Esperança e, nesse sentido, o longa vai no ponto central da questão. Quando o público, Theo e Kee, esgotados emocionalmente e completamente à deriva em suas expectativas de sucesso diante de tanta violência (física e psicológica), são surpreendidos pelo barco "Amanhã", que resgatará ao menos um deles daquele estado de completa desesperança, Cuarón atinge o cerne da questão lançada pelo longa. Talvez seja isso que nos faça seguir em nossas lutas macros e micros contra o pessimismo: a esperança de que o "amanhã" nos resgate e nos conforte com perspectivas melhores sobre a vida.

Children of Men, 2006. Dir.: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus e Hawk Ostby. Elenco: Clive Owen, Clare-Hope Ashitey, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Oana Pellea, Danny Huston, Philippa Urquhart, Charlie Hunnam, Ed Westwick. Universal, 109 min.

Assista ao trailer do filme:

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