segunda-feira, 14 de novembro de 2016

(Drops) Fatos históricos e temas são desperdiçados em 'Um Estado de Liberdade'



Em Um Estado de Liberdade, Gary Ross, que fora tão habilidoso em filmes como Pleasantville e Jogos Vorazes, quer narrar em tom de Odisseia a jornada do fazendeiro Newton Knight, personagem de Matthew McConaughey (Interestelar), na formação do seu próprio estado livre durante a Guerra Civil Americana, reunindo fazendeiros pobres e escravos em uma luta contra a opressão das altas esferas de poder da sua época. Parece claro desde o princípio que esse é o objetivo do realizador: narrar a épica jornada de um homem contra um grupo que sufoca os direitos de uma minoria. É uma pena que Ross, também roteirista do projeto, perca o fio da meada e se enrede nos meandros confusos e sem rumo de um roteiro que, na dúvida sobre o que deve priorizar, atira para todos os lados em suas referências históricas. 

A primeira hora do longa (enfadonha ao limite) acompanha a formação desse grupo de oprimidos na órbita de Newton Knight, que lidera uma verdadeira rebelião no intuito de garantir o território onde formará sua comunidade interracial no sul do país. A segunda hora do filme é mais interessante, melhor, demonstra ter mais material para produzir uma trama com conflitos minimamente importantes ao espectador: a convivência entre as duas esposas do protagonista, com destaque para a sensível interpretação de Gugu Mbatha-Raw (do segmento San Junipero de Black Mirror) como a ex-escrava Rachel Knight, que com duas cenas garante um pouco de vida à apática história de Ross (àquela em que se alfabetiza às escondidas e outra em que desaba no choro após a abolição); a ascensão do Ku Klux Klan; o direito ao voto dos negros etc. Todos são temas palpitantes e interessantes para serem explorados, mas infelizmente são jogados de qualquer jeito na última hora que resta à fita. 

Com um personagem unidimensional, cuja única informação sobre sua personalidade que temos acesso é sua predestinação a ajudar os outros, como dito pela personagem de Keri Russell (da série The Americans), primeira esposa do protagonista, Matthew McConaughey tem muito pouco a oferecer em cena. O texano vive um herói sem maiores motivações para agir como tal (ao menos na forma como é costurado no filme). Em tempos que até mesmo os longas sobre super-heróis de HQs estão buscando a complexidade na construção desse tipo de personagem, isso é um problema palpitante na obra. Assim, com um protagonista que não consegue gerar o mínimo de empatia na plateia, questões históricas pinceladas com displicência e potenciais temáticos desperdiçados (incluindo aqui um salto temporal que envolve sequências de um caso judicial mal explicado), Um Estado de Liberdade acaba tendo como saldo a falta de serviço que presta às questões que parecem preocupá-lo desde o princípio. 


The Free State of Jones, 2016. Dir.: Gary Ross. Roteiro: Gary Ross. Elenco: Matthew McConaughey, Gugu Mbatha-Raw, Keri Russell, Mahershala Ali, Christopher Berry, Sean Bridgers, Jacob Lofland, Thomas Francis Murphy. Paris Filmes, 139 min. 

Assista ao trailer do filme: 

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