domingo, 6 de novembro de 2016

(Drops) Filmes na Netflix - Parte 1


Filth

Baseado no livro de Irvine Welsh, o mesmo de Trainspotting, Filth traz James McAvoy como um detetive separado da esposa e da filha, viciado em drogas e sexo e com desvio de personalidade. Em meio a toda essa turbulência pessoal, ele almeja uma promoção. O longa é de 2013, mas só chega ao Brasil agora através da Netflix. Com direção do escocês Jon S. Baird, do também pouco conhecido Cass, o filme adota o modus operandi alucinógeno da própria realidade interna do seu protagonista, apresentando um ritmo frenético e passagens de completo non sense que fazem jus a proposta de Welsh, mas que certamente podem desnortear o espectador em momentos isolados, tamanha a sua dispersão narrativa.

Na tentativa do longa de fazer o seu estudo de personagem existe uma trama em paralelo que envolve um crime investigado pelo protagonista, mas que acaba sendo secundária perto da própria trajetória do policial e sua tentativa desesperada de ser promovido e lidar com seus demônios internos. Em alguns momentos, os delírios do personagem de McAvoy representam um entrave na própria recepção da obra, que só começa a estabelecer uma relação menos atravessada com o espectador quando determinados enigmas são revelados e a acidez do seu humor cede espaço para a abordagem de temáticas mais sérias. De êxito completo mesmo é o desempenho de James McAvoy (X-Men: Apocalipse), que vai ao limite e entrega uma das interpretações mais interessantes e difíceis da sua carreira.


Filth, 2013. Dir.: Jon S. Baird. Roteiro: Jon S. Baird. Elenco: James McAvoy, Jamie Bell, Eddie Marsan, Jim Broadbent, Joanne Froggatt, Imogen Poots, Kate Dickie, Shirley Henderson, Brian McCardie, Emun Elliott. 97 min.



7 Anos

Produção original da Netflix na Espanha, 7 Anos é um filme que precisa de muito pouco para contar sua história. Basicamente, seus atores e o texto afiado e verborrágico, beirando o esquema teatral, de Julia Fontana (da série de TV Lucifer). No longa, quatro amigos e sócios contam com a ajuda de um mediador para decidir qual deles passará 7 anos na cadeia após um esquema fraudulento ser descoberto no caixa da empresa. A reunião acaba virando um jogo intrincado no qual cada um deles deve defender sua liberdade e elencar as razões pelas quais considera que o outro seja o eleito para fazer esse sacrifício em nome de todos.

O diretor Roger Gual economiza pirotecnias visuais e prioriza o texto e a dinâmica entre os seus atores, tornando o filme um exercício interessante de encenação. Além disso, as leituras que 7 Anos faz do cruel universo corporativo e sua sinuosa e conflitante relação com a ética e a lealdade entre os seus integrantes é o grande mérito da obra, que consegue prender sua atenção pelo exercício lógico que seu jogo de defesas e acusações promove. Entre analogias interessantes como a da laranja e a do jogo de xadrez, 7 Anos leva seus personagens a um esgotamento tamanho que nos faz perguntar até que ponto, entre eles, determinados caminhos  valeram a pena.


7 Años, 2016. Dir.: Roger Gual. Roteiro: Julia Fontana. Elenco: Juana Acosta, Alex Brendemühl, Paco León, Manuel Morón, Juan Pablo Raba, Marta Torné. 80 min.



James White

James White é a estreia em longas do diretor e roteirista Josh Mond. O longa teve uma boa repercussão em 2015 no circuito indie norte-americano e rendeu algumas indicações a prêmios como o Independent Spirit Awards, principal premiação do cinema independente. O longa é da "escola" de filmes como Martha Marcy May Marlene, que revelou Elizabeth Olsen (a Feiticeira Escarlate de Os Vingadores) ao mundo, o protagonista de James White, Christopher Abbot, inclusive, está nesse longa que teve Mond como seu produtor. Assim, antes de mais nada, é preciso deixar bem claro: não espere humor ou uma história que te deixe para cima em James White. O filme aborda a jornada de um rapaz nova-iorquino que tem que lidar com a morte do pai seguida do agravamento do estado de saúde da mãe. É um tema duro, melancólico, que não abre brechas para alívios ou respiros emocionais, demandas nervos fortes de personagens e do público. Nessa aspereza, no entanto, James White dialoga de forma humana.

O longa trata do percurso natural da vida que temos que lidar: a morte dos nossos pais. Com o filme, Josh Mond acompanha o seu protagonista e sua dificuldade de lidar com a questão, sobretudo quando percebe a alternância de posições que o obriga a cuidar da mãe e não mais o contrário. Essa percepção da finitude da sua progenitora leva o jovem James White a ficar em frangalhos ao final da sua via crucis. O filme aborda isso de maneira muito realista e direta, mas tocante justamente por adotar esse olhar menos intrusivo para a história das suas personagens. Mond conta com uma excelente parceria entre Christopher Abbot e Cynthia Nixon, que garantem os objetivos do diretor com performances entregues e despidas de vaidade. É um longa que merece ser descoberto.



James White, 2015. Dir.: Josh Mond. Roteiro: Josh Mond. Elenco: Christopher Abbot, Cynthia Nixon, Scott Mescudi, Ron Livingston, Makenzie Leigh, David Call, David Cale, Benjamin Bass, Rachel Brosnahan. 85 min.


Suíte Francesa

Adaptação cinematográfica do romance homônimo da polonesa Irene Némirovsky, morta em um campo de concentração em 1942, Suite Francesa só chegou ao público nos anos 2000, tornando-se um best-seller quando publicado. Ambientado num período em que a Alemanha nazista ocupou a França, o longa conta a história de Lucille Angellier (Michelle Williams, de Sete Dias com Marilyn), uma jovem que mora em uma bucólica cidade do interior junto com a sua sogra enquanto aguarda o retorno do seu marido da guerra. Os moradores da cidade são surpreendidos pela requisição de suas casas para a hospedagem de soldados alemães e um deles vai parar na casa dos Angellier. Acontece que Lucille se apaixona perdidamente pelo rapaz e tem que lidar com o conflito de se afeiçoar pelo inimigo de guerra.

A direção do projeto ficou a cargo de Saul Dibb (de A Duquesa), que tem um estranho distanciamento com a sua história e seus personagens. Dibb não consegue tornar o romance do casal central formado por Lucille e pelo oficial Bruno von Falk (de Matthias Schoenaerts, de Ferrugem e Osso), minimamente envolvente, fazendo com que o interesse na sua história se restrinja ao acontecimento histórico. O problema é que, evidententemente, o filme evoca um enlace amoroso nunca sentido em cena. Assim, entre a presença imponente de coadjuvantes de luxo como Kristin Scott Thomas (Só Deus Perdoa) e Margot Robbie (Esquadrão Suicida) que pouco fazem em cena e a de dois protagonistas que não são capazes de gerar a mínima torcida, o público fica diante de uma obra fria que tem uma carga emocional latente, mas não explorada.




Suite Française, 2014. Dir. Saul Dibb. Roteiro: Saul Dibb e Matt Charman. Elenco: Michelle Williams, Matthias Schoenaerts, Kristin Scott Thomas, Margot Robbie, Sam Riley, Ruth Wilson, Alexandra Maria Lara, Lambert Wilson, Deborah Findlay. Paramount, 107 min.

Assista aos trailers dos filmes:




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