quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

(Crítica) 'La La Land' é delicado e comedido na sua declaração de amor aos sonhadores


A sequência musical de abertura de La La Land: Cantando Estações dá conta daquilo que o filme de Damien Chazelle pretende ser no seu contexto de lançamento: um belo e singelo escapismo, sem o menor demérito na alcunha. Durante um engarrafamento na ensolarada Los Angeles, personagens saem dos seus carros e começam a cantar "Another Day of Sun", um dos números musicais mais emblemáticos do filme, junto com "City of Stars" e o belíssimo "Audition", um solo da estrela Emma Stone. O musical então segue à risca o propósito do seu gênero na sua gênese, ofertar um espetáculo que nos faz sair do nosso massacrante cotidiano e nos transporta para uma realidade outra, a das nossas fantasias românticas concretizadas outrora pela era de ouro de Hollywood.

É por uma espécie de metalinguagem e revisão cinéfila nostálgica que Chazelle lança seu olhar para sonhadores como Mia e Sebastian. Protagonistas do filme e representantes de muitos de nós na tela, os jovens artistas conseguem digerir o amargor da vida  através de fiapos de esperança que lhes parecem inalcançáveis e descobrem um no outro a motivação para seguir em frente nos seus desacreditados projetos de vida adulta. Sem lamentos ou cinismos em suas conclusões - muito pelo contrário - , o filme sublinha como nos apegamos à fantasia, afinal a vida tem sempre a sua contrapartida quando nos realiza de alguma forma. É batido, clichê, mas não deixa de ser um olhar confortante e carinhoso sobre a vida. No âmbito da realidade, nenhuma felicidade é plena e que bom que tenhamos esta outra dimensão para nos realizar.

Formalmente, La La Land toma caminhos coerentes. Trata-se de um filme ambientado em Hollywood e centrado no romance entre uma aspirante a atriz e um pianista de jazz entrelaçando o contemporâneo com a nostalgia. Toda esta proposição é coerente, inclusive, sob o ponto de vista da construção dos personagens, que parecem viver em outra época, em outra estação, em estado de suspensão se comparado àqueles que estão à sua volta. Mia e Sebastian vão na contramão da realidade que os cerca, poderiam ser burocratas, mas o mundo já está repleto de engravatados, diz ele em determinado momento. Ambos parecem saudosos daquilo que nunca viveram, sujeitos de uma outra época para qual, como em uma projeção fantasiosa na qual incorporam os passos de Fred Astaire e Ginger Rogers, estão sempre recorrendo como muleta. 

Do início ao fim, La La Land é marcado por decisões notáveis. Plasticamente, enche os olhos com a composição de planos sofisticados que primam por um cuidadoso trabalho de fotografia, sobretudo pela maneira como se apropria da cidade de Los Angeles e de cada um dos seus cantos para contar uma história tipicamente hollywoodiana. Narrativamente, Chazelle costura uma simpática reverência ao musical, pontuando suas referências sem mostrar-se arrogante na oferta delas, sabendo ainda inserir suas canções como partes funcionais da sua história. É pela simplicidade que o musical do jovem diretor cativa as plateias. 

Há, contudo, que se problematizar um aspecto. Por um lado, é  louvável que o filme consiga ser terno e realista ao mesmo tempo, sem nunca ceder ao pessimismo. La La Land é equilibrado, comedido até demais para um musical, especialmente, para um romance (sim, este não é o mote da fita, mas está lá e deveria causar uma cartela de efeitos mais intensas no espectador). As emoções são levemente controladas, Chazelle não se deixa levar para os extremos, uma opção que tem os seus prós e contras. Evitando emoções mais enérgicas, o diretor realiza um filme que beira a excessiva discrição, o que pode não agradar alguns admiradores dos gêneros com os quais flerta. Não há arrebate no romance entre Mia e Sebastian, casal defendido com competência por Ryan Gosling e Emma Stone. A emoção está ali, mas ela é levemente controlada, tímida. Isso pode frustrar. 

Pensando La La Land como parte da pequena trajetória de Chazelle até aqui, o diretor substitui a incisividade e agressividade de Whiplash, seu longa anterior, por um um tom mais ameno para expor praticamente uma situação semelhante, artistas que vão na contramão do pragmatismo do mundo e, para bancar seus sonhos, arcam com uma série de recusas e obstáculos. Porém, no caso de La La Land, Mia e Sebastian sempre terão o Seb's, parafraseando Humphrey Bogart em Casablanca, pensando no bar de jazz como uma dimensão do real ou da fantasia que o próprio bar resgata nos dois, como nos indica o número musical que encerra a obra. Já em Whiplash, sobra muito pouco de Andrew, personagem de Miles Teller, reduzido a migalhas após se submeter aos testes desumanos do professor Fletcher, papel de J.K. Simmons, e estar sob a constante pressão da expectativa familiar sobre sua trajetória profissional.

Olhando para o filme sob o prisma da sua receptividade pelo público até então (o longa ganhou 7 Globos de Ouro e promete fazer a festa no Oscar), não deixa de ser interessante observar esse movimento que o longa faz de se apropriar das bases dos musicais hollywoodianos para falar sobre temas que eram recorrentes nessas histórias e que fazem parte da própria "função social" do gênero: proporcionar ao espectador um necessário escapismo, oferecer um mundo de sonhos. Tudo, porém, em um contexto atual. Dessa forma, o público que deseja uma história feel good nesse início de 2017, possivelmente encontrará em La La Land um adorável e interessante refúgio.

O mérito maior do musical de Damien Chazelle, e que faz com que ele seja tão badalado em Hollywood e entre cinéfilos, está no diálogo direto que tem com a comunidade, algo que extrapola qualquer jogo enciclopédico de referência captado pelo mais sabichão dos cinéfilos. La La Land é uma carta apaixonada e melancólica a Los Angeles, uma cidade que vive sob a mítica do sonho hollywoodiano como um fantasma, algo que ficou para trás, mas que está presente em cada canto daquele lugar e em cada uma daquelas pessoas que há habitam ou vão para lá se aventurar.

É compreensível que um filme sobre artistas, as dificuldades da carreira, que dialoga com os musicais da era de ouro do cinema e que seja ambientado na ensolarada Los Angeles - que, não importa a estação do ano, terá sempre o mesmo sol -, afete tanto pessoas do ramo cinematográfico. O musical fala sobre coisas que esse grupo quer ver na tela e da maneira como deseja ver. Existe um senso de identidade carimbado na obra desde o seu princípio, e, claro, o nome de Chazelle, ainda que seja um cineasta relativamente novo, ajuda, sobretudo com um histórico breve mas positivo como Whiplash. O fato de La La Land ser aplicado em sua execução só contribui ainda mais para seu cenário de aceitação. Um hit com todos os méritos.

La La Land, 2016. Dir.: Damien Chazelle. Roteiro: Damien Chazelle. Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, J.K. Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt, Callie Hernandez, Jessica Rothe, Sonoya Mizuno, Jason Fuchs, Trevor Lissauer. Paris Filmes, 128 min.

Assista ao trailer do filme:

3 comentários:

Letícia Moreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Letícia Moreira disse...

Ansiosa pra ver, porque eu tenho um carinho enorme pelo gênero (ainda que esteja em débito com alguns clássicos pendentes), e foi pelos musicais que eu me apaixonei pelo cinema. Pelo seu texto, parece que o filme tem a cara "Ryan Gosling", tipo OK rsrssrsrsrsrs brinks.

Wanderley Teixeira disse...

O filme tem muitos méritos para estar onde está. Não sei bem se "ok" seria justo com ele. Acho somente que ele controla demais suas emoções e estamos falando de um musical. Gosling é maravilhoso como ator, possivelmente um dos melhores da sua geração, ele está excepcional em filmes como "Lars and the Real Girl" (aka A Garota Ideal) e "Drive". Deixa disso. rsrsrsrs