segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

(Drops) 'La La Land: Cantando Estações' vence 7 categorias no Globo de Ouro


Vencedor de 7 categorias no Globo de Ouro, um feito raro em uma premiação que costuma distribuir suas estatuetas de maneira "democrática" entre os títulos indicados, o musical La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazzelle foi o grande destaque da noite de ontem. O filme levou os prêmios de melhor filme comédia/musical, direção, roteiro, atriz comédia/musical (Emma Stone), ator comédia/musical (Ryan Gosling), trilha sonora original e canção, para "City of Stars".

Na categoria drama, o vencedor do prêmio de melhor filme, Moonlight: Sob a Luz do Luar não teve o êxito que muitos esperavam. Esperava-se que o drama de Barry Jenkins, assim como Manchester à Beira-Mar, vencedor apenas na categoria melhor ator drama (Casey Affleck), pudesse ficar com algumas estatuetas importantes como roteiro e direção, mas boa parte dos louros de ontem a noite ficou com Damien Chazelle e cia.

A grande surpresa da noite ficou por conta do azarão Aaron Taylor-Johnson que venceu como melhor ator coadjuvante por seu trabalho em Animais Noturnos. Quer dizer, surpresa em partes, para um filme que recebeu as críticas mistas e conseguiu 3 indicações importantes (direção, roteiro e ator coadjuvante) como o longa de Tom Ford podemos dizer que foi uma surpresa calculada. Taylor-Johnson bateu o favorito Mahershala Ali de Moonlight: Sob a Luz do Luar. Não sei se esse resultado se repetirá no Oscar. Aliás, difícil saber até mesmo se Taylor-Johnson será lembrado em outra premiação além do Globo de Ouro. 

Os demais premiados nas categorias de cinema foram Zootopia como melhor longa de animação e Elle, que levou melhor filme em língua estrangeira e (para a torcida de muitos) melhor atriz drama, o que fez com que a francesa Isabelle Huppert batesse favoritas como Natalie Portman (Jackie) e Amy Adams (A Chegada), e Cercas, que rendeu a Viola Davis o prêmio de melhor atriz coadjuvante. 

Numa noite de surpresas mais moderadas que o padrão para o Globo de Ouro, uma apresentação sem graça do host Jimmy Fallon (por favor, tragam Tina Fey e Amy Poehler de volta!) e discursos comedidos, o destaque mesmo ficou por conta de Meryl Streep que recebeu o prêmio Cecil B.DeMille pela sua carreira e foi responsável por uma das falas mais emocionantes e politicamente engajadas da noite. Um discurso direto para a era Trump. Leia na íntegra abaixo (via Mulheres no Cinema): 

“Muito obrigada. Por favor, sentem-se. Obrigada. Amo todos vocês. Vocês terão de me desculpar, pois perdi minha voz gritando e me lamentando nesta semana. E perdi minha cabeça em algum momento deste ano, então preciso ler [o discurso]. Obrigada, Associação de Jornalistas Estrangeiros de Hollywood [grupo responsável pelo Globo de Ouro]. Pegando a deixa do que disse o Hugh Laurie: vocês, e todos nós neste auditório, realmente pertencem ao segmento mais demonizado da sociedade americana hoje. Pensem bem: Hollywood, estrangeiros e a imprensa.
Mas quem somos nós? O que é Hollywood, afinal de contas? É apenas um monte de gente de lugares diferentes. Nasci, fui criada e educada nas escolas públicas de Nova Jersey. Viola [Davis] nasceu em uma fazenda na Carolina do Sul e cresceu em Central Falls, Rhode Island. Sarah Paulson nasceu na Flórida e foi criada por uma mãe solteira no Brooklyn. Sarah Jessica Parker é de uma família de sete ou oito crianças de Ohio. Amy Adams nasceu em Vicenza, na Itália, e Natalie Portman nasceu em Jerusalém – cadê a certidão de nascimento delas? A linda Ruth Negga nasceu em Addis Abeba, na Etiópia, e foi criada na Irlanda, acredito, e está aqui, indicada por interpretar uma garota de uma pequena cidade da Virgínia. Ryan Gosling, como todas as pessoas mais legais, é canadense. E Dev Patel nasceu no Quênia, foi criado em Londres, e está aqui por interpretar um indiano criado na Tasmânia.
Então Hollywood está cheia de outsiders e estrangeiros, e se você expulsar todos eles [dos Estados Unidos] não terá nada para assistir além de futebol e artes marciais, que não são as artes.
Me deram três segundos [para concluir o discurso], então…O único trabalho do ator é entrar na vida de pessoas diferentes de nós e fazer você sentir como é. Houve muitas, muitas, muitas atuações poderosas este ano que fizeram exatamente isso – trabalhos de tirar o fôlego, cheios de compaixão. Mas houve uma atuação este ano que me chocou, que cravou um gancho no meu coração. Não porque foi boa. Não foi nada boa. Mas foi eficaz e conseguiu o que queria, fez o público-alvo rir e mostrar os dentes. Foi aquele momento em que a pessoa que estava pedindo para sentar na cadeira mais respeitada do nosso país imitou um repórter com deficiência – alguém em relação a quem ele tinha mais privilégio, mais poder e mais capacidade de enfrentar. [Esta cena] meio que partiu meu coração, e ainda não a consegui tirar da minha cabeça, porque não foi em um filme, foi na vida real.
E esse instinto de humilhar, quando é exibido por alguém em uma plataforma pública, por alguém poderoso, é filtrado na vida de todo mundo, porque meio que dá permissão para outras pessoas fazerem o mesmo. O desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita violência. Quando os poderosos usam sua posição para fazer bullying, todos nós perdemos.
Ok, isso me leva à imprensa. Precisamos de uma imprensa com princípios para fiscalizar o poder, para cobrar cada absurdo. É por isso que os fundadores [da democracia americana] colocaram a imprensa e suas liberdades na Constituição. Então apenas peço que a próspera Associação de Jornalistas Estrangeiros de Hollywood e todos da nossa comunidade se juntem a mim no apoio ao Comitê de Proteção aos Jornalistas, porque vamos precisar deles para seguir adiante, e eles vão precisar de nós para proteger a verdade.
Mais uma coisa. Uma vez eu estava no set reclamando de alguma coisa – íamos filmar na hora do jantar, muitas horas de trabalho ou qualquer coisa do tipo – e Tommy Lee Jones me disse: ‘não é um enorme privilégio ser ator, Meryl?’. Sim, é. E temos de lembrar uns aos outros do privilégio e da responsabilidade do ato de empatia. Todos devemos ter muito orgulho do trabalho que Hollywood está homenageando aqui esta noite.
Como a minha amiga que partiu, a querida Princesa Leia, me disse uma vez: ‘pegue seu coração partido, transforme em arte’. Obrigada."

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