quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

(Crítica) 'Manchester à Beira-Mar' não poupa o público com sua história profundamente humana


Muitas vezes a trajetória natural de certos personagens nas telas nos direciona para suas transformações ou superações dos seus traumas. Manchester à Beira-Mar é um drama que vai na contramão desses esforços. O que a história familiar contada pelo diretor e roteirista Kenneth Lonergan deseja é nos falar que muitas vezes nossas tragédias pessoais não apresentam cicatrizações e que na maioria dos casos temos que conviver com nossos remorsos, dores e consequências dos nossos atos por toda uma vida. É uma maneira dura e melancólica de encarar a vida, mas não menos verdadeira. Traçando paralelos com os longas da atual temporada de prêmios do cinema, enquanto La La Land: Cantando Estações nos oferece a utopia e o consolo, Manchester à Beira-Mar nos coloca face a face com a vida, que pode ser desconfortante e implacável, mas também profundamente terna e humana. 

No longa, Casey Affleck (de O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford e Medo da Verdade) interpreta um homem que retorna a cidade da sua família após ter notícias do falecimento do irmão. Esse protagonista, marcado por um trágico acontecimento no seu próprio núcleo familiar, se reconecta com eventos do passado a partir da convivência intensa que começa a ter com seu sobrinho, que, por sua vez, passa pela adolescência tentando recompor os cacos deixados pela súbita ausência do seu pai. 

Lonergan é um realizador pouco conhecido do grande público. Sua ficha técnica é formada por filmes que tiveram problemas de circulação (Margaret) ou ficaram restritos a nichos específicos de público (Conte Comigo, não o cultuado filme adolescente dos anos de 1980, mas o drama de 2000 com Laura Linney, Mark Ruffalo e Matthew Broderick). Manchester à Beira-Mar é o primeiro dos seus longas que não passa por "problemas de acesso" e o resultado disso é sua ampla aceitação entre críticos e um compartilhado protagonismo na recente temporada de premiações com os badalados La La Land e Moonlight: Sob a Luz do Luar. Um reconhecimento merecido, por sinal. Em Manchester, Lonergan foge em absoluto dos esquemas hollywoodianos ou indies de se contar uma história, apostando na humanidade visceral dos seus personagens, que protagonizam uma trama cinematograficamente interessante por ter seu modus operandi em profunda conexão com o cotidiano, traço característico do diretor em sua breve mas exitosa carreira. Os personagens de Manchester á Beira-Mar não precisam berrar suas emoções nem anunciá-las claramente para que o seu espectador as entenda, sinta empatia por eles e se emocionem com seus dramas. 

Ao se debruçar sobre temas como laços familiares, tragédias pessoais e culpas, Lonergan tem um olhar interessante para seus personagens: não se escusa em apontá-los como figuras falhas, não sendo cúmplice dos seus atos equivocados, tampouco deixa de ser afetuoso com todos eles, admirando-os pelo seu estado bruto de ser humano. Do protagonista, em momento algum tratado como herói (uma decisão acertada tendo em vista seu passado), a coadjuvantes relevantes para o andamento da trama, como sua ex-esposa, uma breve mas emocionalmente dilacerada interpretação de Michelle Williams, todos possuem seus "calcanhares de Áquiles" e estão constantemente aprendendo a viver e conviver um com o outro. 

Lonergan também é exemplar na maneira como narra essa história familiar. Econômico em revelar os meandros da sua trama central, o realizador intercala passado e presente de maneira fluida e dialógica. Assim, acompanhamos, por exemplo, Lee (Affleck) tendo ciência de que após o falecimento do irmão é tutor legal do sobrinho enquanto rememora o que ocorrera anos atrás dentro do seu próprio lar com sua esposa e filhos. Lonergan também opta por uma abordagem pouco intrusiva para as coisas, evitando excessos e arroubos de emoção, o que aproxima sua história ainda mais da gente, tornando-a passível de uma potente empatia com o espectador. Cada silêncio em Manchester à Beira-Mar é precioso porque nos remete aos receios que aqueles personagens possuem em tocar nas suas próprias feridas, preferindo relevá-las (caso da personagem de Williams) ou fingir que não existem (caso do protagonista da história). 

Marcado pela forte parceria entre Casey Affleck e a revelação Lucas Hedges (o sobrinho de Lee), Manchester à Beira-Mar é um filme capaz de grandezas com o mínimo que entrega ao espectador. Apostando em uma abordagem que evita excessos, exibicionismos e pirotecnias, o filme é uma joia rara que expõe conflitos familiares de maneira humana e honesta. É um daqueles longas que consegue dar conta da vida de forma brutal e terna. Lonergan conseguiu encontrar um equilíbrio nesse tom que é raro e difícil, mas que funciona de forma bastante potente na sua lente. 

Manchester by the Sea, 2016. Dir.: Kenneth Lonergan. Roteiro: Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Gretchen Mol, Matthew Broderick, C.J. Wilson, Ben O'Brien, Mary Mallen. Sony, 137 min. 

Assista ao trailer do filme:

2 comentários:

Enoe Lopes Pontes disse...

Concordo bastante com o que você disse na crítica, Wanderley! Inclusive, dos 39 longas do Oscar que eu já vi, Manchester continua sendo o meu preferido! :D

Wanderley Teixeira disse...

É um filme bem especial mesmo.