domingo, 14 de maio de 2017

(Crítica) Cineasta estreante combina terror e crítica social no imperdível 'Corra!'


Quando o terror surge em qualquer mídia ele costuma estar inserido em mitologias da ordem do fantástico ou mesmo em histórias que têm como pano de fundo realidades que muitas vezes supomos estarem longe do nosso alcance, ainda que venhamos a sentir um medo muito palpável em todas essas circunstâncias. Corra! é um filme do gênero que consegue fazer com que as marcas do mesmo perpassem por uma questão social séria e próxima do nosso dia-a-dia. Em linhas gerais, está claro desde o primeiro instante que o filme quer abordar o racismo - e o faz de maneira exemplar e pontual em suas considerações - e ao atrelar tal questão a tal gênero cinematográfico lança frente em diversos e entrecruzados caminhos (e cruzados) de leitura e experiência espectatoriais, entretendo como terror, nos faz refletir sobre questões que afetam nossa sociedade, ou melhor, nos fazendo olhar e dimensionar para as mesmas porque o faz através dos recursos narrativos do seu gênero.  

Em Corra!, o jovem Daniel Kaluuya (de Black Mirror) interpreta Chris, um rapaz negro que namora Rose (Allison Williams, de Girls), uma moça de família branca. Quando Rose resolve levar Chris para conhecer seus pais, o rapaz fica cheio de receios pois não sabe como a família dela irá encarar um genro negro, mas ainda assim resolve enfrentar a situação. Ao chegar no local, Chris começa a perceber que existe algo muito estranho naquela família e passa a questionar a hospitalidade dos sogros. 

Corra! é dirigido e roteirizado exemplarmente por Jordan Peele em seu primeiro filme atrás das câmeras, apesar da razoável experiência como roteirista (a comédia Keanu: Cadê Meu Gato? é dele). Podemos definir como um trabalho exemplar sem exageros pois diante da simplicidade dos recursos à sua disposição (e por causa dela mesma), Peele conseguiu criar um roteiro enxuto, com personagens cujas dinâmicas são bem amarradas, envolvendo marcas reconhecidas do gênero na construção de uma crescente atmosfera de tensão, para tratar de temas espinhosos. 

Através de metáforas que se relacionam com transes de hipnoses e cirurgias de trocas de cérebro, por exemplo, Peele fala do processo de embranquecimento ideológico dos negros em grupos sociais predominantemente caucasianos, com direito a uma cutucada na negação do racismo sob a suposta acolhida de um negro na família branca de classe média. Também é curioso como Peele aborda a ideia lombrosiana de que os negros apresentam características físicas singulares para fomentar a paranoia que é responsável por incutir o horror. E é por transitar com fluidez nessa via dupla e dialógica da análise social e do "filme de gênero" que as qualidades de Corra! saltam à tela e fazem dele um filme importante pois no lugar de afastar o espectador com digressões academicistas ou hermetismos cinematográficos busca sua adesão através de uma forma de comunicação popular.  

O filme de Peele também é impecável nos caminhos de condução escolhidos pelo seu realizador, com composições de planos que ao mesmo tempo que não se impõem como um capricho artístico do diretor se revelam extremamente ricas simbolicamente e geram interessantes efeitos na sua narrativa, como é o caso dos momentos em que Chris é hipnotizado por uma personagem do longa e o realizador traduz visualmente todo o processo de transe do protagonista. Corra! ainda conta com o excelente desempenho do seu elenco, que a exceção da veterana Catherine Keener (indicada ao Oscar por Quero ser John Malkovich e Capote) é formado majoritariamente por rostos pouco conhecidos, com destaque para o protagonista Daniel Kaluuya (um desempenho notável), Betty Gabriel (dominando uma cena como a estranha Georgina) e LilRel Howery, melhor amigo do personagem principal

O título brasileiro poderia incitar piadinhas infames do tipo "Corra desse filme!", mas por ser uma das obras mais potentes de 2017, o mínimo que nossa cota de humor infame nos permite fazer nesse texto é dizer a todos: "Corra para assistir esse filme o mais rápido que puder!". É uma obra necessária por falar de coisas importantes, inteligente pois nada do que é dito é infundado e superficial, mas extremamente envolvente e comunicativa, como os filmes que procuram transitar entre o entretenimento e o engajamento político deveriam ser.

Get Out, 2017. Dir.: Jordan Peele. Roteiro: Jordan Peele. Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, LilRel Howery, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root. Universal, 104 min.

Assista ao trailer do filme:

Nenhum comentário: