segunda-feira, 5 de junho de 2017

(Crítica) Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia unem forças no sombrio 'Neve Negra'


Neve Negra possui todos os predicados que costumam ser atribuídos às produções argentinas aqui no Brasil: o filme é marcado por uma narrativa envolvente conduzida por um roteiro que dá atenção a reviravoltas surpreendentes, mas também a construções amadurecidas dos seus personagens e, claro, é protagonizado por Ricardo Darín. Porém, definir Neve Negra e o cinema argentino através desses atributos é  simplificador. Além de amarrar uma sedutora trama de suspense, o longa de Martin Hodara (de O Sinal) nos conta uma tragédia familiar, uma história de personagens guiados pelo rancor e atormentados pela culpa, mas também por um forte e impiedoso instinto de sobrevivência. É no drama humano e na predestinação de uma família a cumprir uma espécie de maldição que o longa impressiona quem está do outro lado da tela.  

O filme acompanha o retorno de Marcos, personagem de Leonardo Sbaraglia (atualmente, um nome tão forte quanto o de Darín - ele esteve em O Silêncio do Céu, do brasileiro Marco Dutra), a sua cidade para convencer o irmão Salvador (Darín) a vender um terreno herdado por ambos. O reencontro de Marcos e Salvador traz à tona uma série de feridas não cicatrizadas na relação entre os dois. Desde que fora acusado de matar o irmão mais novo durante uma caçada com seu pai, Salvador vive isolado do mundo no chalé de propriedade da família e cabe a Marcos remexer em algumas coisas mal resolvidas do passado. 

O longa de Hodara é fluido, centrado em uma narrativa que guarda seus mistérios e pouco a pouco os revela ao espectador. É certo que a maneira que ele encontra de desvendar algumas passagens mal resolvidas na vida dos irmãos recorre a recursos ingênuos, como a situação em que uma personagem do filme descobre um segredo muito importante da trama ao acaso, escondido em um cômodo danificado do chalé, mas ainda assim o que é descoberto nesse ato torna Neve Negra um suspense com ares shakespearianos e até mesmo esse acaso é orgânico à proposta do realizador.

Um dos grandes achados da obra é o seu trio central. Ricardo Darín está interessante como o amargurado Salvador e Leonardo Sbaraglia é sutil nas nuances do titubeante Marcos. Contudo, é Laia Costa quem entrega a performance mais instigante do suspense, sobretudo quando sua personagem cresce no terceiro ato. O êxito está no fato de que o trio consegue trazer mais substância a figuras que já parecem multifacetadas nos vestígios lançados pelo roteiro. 

Contando uma história sombria de indivíduos desajustados e inquietos com a própria pele, Neve Negra deixa o público bem satisfeito. Dentro do seu gênero, o longa faz o espectador ficar atento a cada passo dos seus personagens, curioso pelo desenrolar da sua trama, e íntimo de uma realidade com a qual a gente só deseja espiar mesmo. Suspense dos bons, de encher a boca para elogiar.

Nieve Negra, 2017. Dir.: Martin Hodara. Roteiro: Martin Hodara e Leonel D'Agostino. Elenco: Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa, Dolores Fonzi, Andrés Herrera, Mikel Iglesias, Federico Luppi, Biel Montoro, Liah O'Prey, Iván Luengo. Paris Filmes, 90 min.

Assista ao trailer do filme:

2 comentários:

João Paulo Barreto (Salvador-BA) disse...

O que mais acho instigante aqui é o modo orgânico como os flashbacks são inseridos na trama. Seja através do som oriundo do barulho de uma surra, ou nos passos na neve, a direção acerta em cheio no artificio de não inserir cortes para voltar no tempo. Muito fluída. Eficiente demais a montagem.

Wanderley Teixeira disse...

Bem pensado, João. E flashback é um negócio tão difícil de ser bem trabalhado na tela ou que pelo menos requer muita habilidade. Gosto bastante daquele terceiro ato.