quinta-feira, 27 de julho de 2017

(Cinco Atos) A carreira de Jennifer Connelly


Por trás dos cabelos negros e do par de olhos claros da novaiorquina Jennifer Connelly existe uma atriz de muita sensibilidade que, a despeito dos prêmios já conquistados ao longo de sua carreira, merecia mais reconhecimento (e melhores papéis) do que de fato tem. Como Jen é uma das nossas atrizes preferidas, fizemos um retrospecto com alguns dos seus trabalhos mais destacáveis:

Ato um: Jennifer Corvino, Phenomena (1985)

Pouca gente sabe, mas um dos primeiros trabalhos de Connelly nos cinemas foi pelas mãos do mestre do giallo Dario Argento. Phenomena é uma mistura de fábula com história de serial killer que tem a personagem da atriz na centralidade dos seus acontecimentos. Connelly interpreta Jennifer (!!!), a jovem filha de um famoso ator de cinema que passa um tempo em um internato para garotas na Europa e testemunha uma série de assassinatos com meninas da sua idade. A conexão da protagonista com insetos, a princípio tratada como loucura por suas colegas e pela diretora do internato, passa a ser peça fundamental na resolução dos estranhos desaparecimentos da história.

Fazendo as vezes de Carrie, a estranha, Connelly trafega pelo mundo de bizarrices de Argento com uma personagem que transita entre o fascínio inicial das suas colegas pelo seu pai e a hostilidade imediata diante do que de fato a jovem guarda como segredo. Ao longo de todo o filme, Connelly invoca enxames de insetos voadores que imediatamente atendem ao seu chamado e surgem para socorrê-la nos momentos mais necessários.


No último ato do filme, Argento testa a jovem atriz como horror queen fazendo-a driblar as investidas do serial killer e de um ser disforme que surge no longa. Com toda a sua estética particular, Phenomena talvez tenha sido o trabalho que mais tenha exigido fisicamente da jovem Connelly. Em uma das cenas mais nojentas do filme, Connelly mergulha numa piscina repleta de cadáveres carcomidos por larvas e toda sorte de insetos (Atenção! A cena contém SPOILERS do longa):



Ato dois: Sarah, Labirinto: A Magia do Tempo (1986)

Apesar do destaque de Phenomena, nenhum trabalho do início da carreira de Connelly carrega os traços do ídolo que ela se tornou para uma geração como Labirinto: A Magia do Tempo (1986), fantasia conduzida por Jim Henson, criador dos Muppets. 



No longa, Connelly interpretava Sarah, uma adolescente que cuida do irmão mais novo enquanto seus pais resolvem sair por uma noite. Da boca para fora, Sarah deseja que o menino seja levado por duendes para uma terra bem distante dali. O desejo da menina se torna realidade e a partir de então a jovem tem que lutar contra o tempo em uma terra misteriosa para resgatar o irmãozinho dos domínios do rei dos duendes Jareth, interpretado por David Bowie. 

No longa, a interpretação de Connelly é ingenua e espontânea, ou seja, pouco "montada" - como se espera de uma intérprete da sua idade. O interessante é perceber como diante de tantos atrativos como a presença de David Bowie e a exuberância da concepção visual do universo de Henson, Connelly consegue sustentar sua heroína.Ela até protagoniza um número musical com os fantoches de Henson.



Ato três: Marion Silver, Réquiem para um Sonho (2000)

 Jen tem um desabrochar artístico no início dos anos 2000, quando inicia uma sólida parceria com o diretor Darren Aronofsky em seu drama sobre o vício Requiem para um sonho. No longa, Connelly interpreta a  junkie Marion Silver que junto com os demais personagens da trama, interpretados pelos igualmente espetaculares Ellen Burstyn, Jared Leto e Marlon Wayans, chega a extremos para manter seu vício.



Em Réquiem para um Sonho, Connelly demonstra fúria em sua performance com um resultado que talvez só vejamos mais adiante em sua carreira com o drama igualmente recomendável Casa de Areia e Névoa (2003) no qual interpreta uma viúva em disputa pela propriedade de um imóvel com um chefe de família muçulmano. Porém, em Réquiem para um Sonho o que assistimos é simbólico. Assim como a própria Marion, Connelly se afastava de um estereótipo construído em sua carreira para nos oferecer uma interpretação cheia de entrega.



Ato quatro: Alicia Nash, Uma Mente Brilhante (2001)

Ao falarmos da carreira de Connelly é impossível não tratarmos de Uma Mente Brilhante, biografia do matemático John Nash, protagonizada por Russell Crowe e dirigida por Ron Howard, que rendeu a atriz inúmeros prêmios de melhor atriz coadjuvante na temporada de premiações de 2002, incluindo o Oscar.  Uma Mente Brilhante não é emblemático na carreira de Connelly apenas por ter rendido o seu Oscar, mas também por nos trazer um tipo de personagem que, infelizmente, seria reiterado repetidamente pelos próximos anos na carreira da atriz, a coadjuvante que apoia a interpretação do protagonista masculino, ocasionalmente sua esposa ou amante. Foi assim brevemente em Pollock (2000), mas sobretudo em títulos como Hulk (2003), Traídos pelo Destino (2007) e Noé (2014), no qual sua personagem tem que lidar com uma patologia do seu marido bem próxima daquela de Alicia. Em todos esses desempenhos claro que a beleza de Connelly é explorada sem cerimônia alguma, mas vale observar alguns aspectos curiosos e singulares de Uma Mente Brilhante.


Apesar de ser atravessado pelo rótulo que costuma ser conferido a desempenhos vencedores do Oscar em biografias convencionais e mesmo que, vá lá, possa não ter sido o melhor desempenho da sua categoria (enfrentou a concorrência de Kate Winslet em Íris, Marisa Tomei em Entre Quatro Paredes e Helen Mirren e Maggie Smith por Assassinato em Gosford Park), a Alicia Nash de Connelly tem componentes interessantes conferidos graças ao desempenho da atriz. Alicia é aquilo que muitos definem com justa ironia como a "grande mulher por trás do grande homem". No entanto, Connelly dá humanidade a esta mulher, não apenas quando se dá conta do estado de saúde do marido, mas, muitas vezes, o confrontando, sendo responsável por fazer a trama avançar, como ocorre na transição do segundo para o terceiro ato no qual o filme se transforma em alguns momentos breves numa história dela.



Ato cinco: Kathy Adamson, Pecados Íntimos (2006)

Como esperado após um Oscar, Connelly foi escalada para uma dúzia de títulos comerciais, como o já citado Hulk conduzido pelo diretor Ang Lee, além do suspense Água Negra (2005) de Walter Salles e o sci-fi O Dia em que a Terra Parou (2008). Em 2006, no entanto, um dado curioso foi adicionado na carreira da atriz, Jennifer esteve em duas produções "oscarizadas", Diamante de Sangue de Edward Zwick, estrelada por Leonardo DiCaprio, e o drama Pecados Íntimos, de Todd Field. Ambos títulos marcantes em seus anos e que renderam prêmios e elogios aos colegas de elenco de Jennifer (Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou, Kate Winslet e Jackie Earle Haley), mas pouquíssimas menções ao trabalho da atriz. Jennifer estava lá, mas parecia não estar.

 Como em outros títulos com a atriz em seu elenco, Pecados Íntimos sublinha a beleza de Connelly introduzindo sua personagem como em um anúncio de shampoo. No decorrer da trama, nos é revelada uma personagem que tem tudo o que aparentemente a faria feliz (um filho recém-nascido, um marido bonito e compreensivo que cuida do bebê enquanto ela retoma sua carreira como editora em uma produtora de vídeos), mas descobrimos aos poucos uma realidade bem diferente sobre sua vida familiar.


Pecados Íntimos traz traços de uma característica dos desempenhos de Connelly que podemos sublinhar: suas performances quietas, muitas vezes camufladas pela dos seus colegas de elenco, mas que demonstram muita força em cenas pontuais que exigem uma reação precisa e mínima da atriz, como requer o cinema. Em Pecados Íntimos, Jen, com a ajuda do diretor Todd Field, Connelly toma para si uma cena na qual sua personagem consegue captar algo de estranho na relação entre os personagens de Patrick Wilson, seu marido, e Kate Winslet. E basta um olhar de Connelly para a atriz ter um grande momento no filme. Infelizmente não achamos a cena em questão, mas vale o trailer do longa que traz uma prévia desse momento:




Próximos atos: 
Ao longo dos últimos anos, Jennifer pode não ter encabeçado o elenco de nenhuma produção de grande destaque. Ela teve uma repercussão relativamente positiva dos seus desempenhos na comédia romântica Ele não está tão a fim de você (2009), Noé (2014), no qual foi dirigida mais uma vez por Aronofsky, Viver sem Endereço (2014), drama dirigido e roteirizado pelo marido Paul Bettany, e no recente Pastoral Americana (2016), estreia na direção de Ewan McGregor.

Recentemente, a atriz esteve em Homem-Aranha: De Volta ao Lar , mas não pôde ser vista pois dava vida ao sistema operacional Karen, que dava instruções a Peter Parker enquanto o herói utilizava o traje das indústrias Stark. O próximo grande passo na carreira da atriz é a série Snowpiercer, baseada na HQ homônima e no filme Expresso do Amanhã, além do sci-fi de Robert Rodrigues Alita: Battle Angel, ambos previstos para estrear em 2018. 

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